Por Thiago Kühl | 02/03/2020 01:10

Na noite deste sábado a Chartway Arena em Norfolk, Virginia, teve pouco mais de sete mil espectadores para assistir a mais um evento do UFC na plataforma online ESPN+. O evento principal da noite, que marcava a disputa pelo cinturão vago dos pesos mosca entre Deiveson Figueiredo e Joseph Benavidez, trouxe menos apelo midiático do que o normal, uma vez que o título somente valeria para o americano. O restante do card também não ajudava em termos de audiência, já que faltavam nomes de peso. Entretanto há muito do que se falar, entre belos nocautes, boas lutas e momentos dignos de barangão, o UFC Norfolk merece atenção e uma resenha para si.

Entretanto, neste domingo pós quarta-feira de cinzas em que o titular da Resenha, Alexandre Matos e seu imediato, Diego Tintin, encontram-se ocupados em compromissos dos mais variados acabei escalado para cumprir o árduo papel de substituí-los e elaborar algumas mal traçadas linhas sobre os melhores momentos da noite na Virgínia.

A categoria peso mosca segue respirando por aparelhos

Deiveson Figueiredo nocauteou Joseph Benavidez no segundo round (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

O histórico dos acontecimentos – dentro e fora do octógono – na categoria dos moscas parece até roteirizado para levá-la ao fim mais melancólico possível. Após o fim do fenomenal porém ignorado reinado de Demetrius Johnson, Henry Cejudo pouco se manteve no trono e, na primeira oportunidade que teve, subiu um degrau na balança e vai se estabelecendo nos galos. No final de semana que poderia coroar um novo campeão para dar vida nova à categoria, Deiveson Figueiredo deixa de bater o peso, mas vence Joseph Benavidez, deixando os moscas sem um rei por mais algum tempo.

A luta em si seguiu a toada da maioria dos combates no peso, ambos começaram em alta velocidade, com Deiveson chegando muito próximo de finalizar com um belo armlock, defendido nos últimos segundos por Joe Jitsu. Daí pra frente a primeira parcial foi toda do americano, atingindo boas combinações fez mais que o suficiente para virar o primeiro round e mostrar porque é considerado por muitos um dos melhores não-campeões da história do MMA.

O segundo round começou com ritmo semelhante. O brasileiro não parecia se preocupar muito em defender as investidas de Benavidez, engolindo golpes para partir para o contra-ataque. Por mais que o americano tivesse acertado muito mais, o queixo de Deiveson o manteve no combate e, após abrir um corte na testa de Joe com num contragolpe, o “Deus da Guerra” perseguiu seu adversário pelo octógono e conseguiu ótimo cruzado de direita, que derrubou “Joe-Jitsu” semi-nocauteado, poucos conferes foram necessários para que o árbitro central decretasse o final da luta.

Com a vitória, melhor de sua carreira, Deiveson se vê no ápice, mas pode ter deixado passar a única chance de ser campeão por uma falta de profissionalismo – perdeu o peso por mais de 1 kg. Já Benavidez segue sua via cruxis, entrando ao incômodo rol de desafiantes com 0-3 em disputas de cinturão.

A vitória do “Deus da Guerra” sem valer o título deixa muitas dúvidas em aberto para a categoria. É fato que se o UFC tivesse intenção de fechá-la, já poderia tê-lo feito, mas hoje o número de lutadores no plantel até 125 libras é muito pequeno, além disso, sem um campeão ou lutadores de apelo popular próximos ao título, o fim dos moscas parece estar mais próximo que nunca, uma pena.

“GP” das pesos pena tem bons nocautes e duas candidatas à desafiante

Megan Anderson nocauteou Norma Dumont no UFC Norfolk (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

Enquanto o UFC insiste na existência da categoria peso pena feminino, seria de bom tom que a campeã Amanda Nunes coloque seu título em disputa. Sem lutadoras para manter um ranking ativo e lutas constantes, acabou colocando duas contendas no card principal do evento, criando um “mini-GP”, como já fez em outros momentos. Megan Anderson e Felicia Spencer saíram vitoriosas com excelentes nocautes ainda no primeiro round de suas lutas contra a brasileira Norma Dumont e Zarah Fairn, respectivamente.

Felicia Spencer precisou de poucos segundos para levar a francesa Zarah Fairn para o solo e passar o carro sem dó. A diferença técnica no chão era abissal. Sem dificuldade para derrubar, montar e fazer postura, a canadense mandou lenha em Fairn, que só fazia se debater, mal se defendendo, apanhou à vera. Ainda na primeira parcial teve seu destino selado pelo árbitro, que decretou vitória de Felicia com muita justiça.

Megan teve mais dificuldade, após um começo bom da brasileira Norma Dumont, que conseguiu controlar o clinch e manter a australiana de costas pra grade, sofreu um pouco para levar a luta para o centro do octógono, após breve troca de golpes encaixou um gancho de direita que deu cabo à luta. A brasileira chegou a reclamar da interrupção, mas nos parece que a decisão do árbitro foi acertada, a “janela” já estava aberta. Anderson foi premiada com uma das performances da noite pelo nocaute.

Dois nocautes com cerca de 3:30 de luta para os dois lados, porém contra adversárias de nível bem mais baixo que colocam Megan e Felicia em condições semelhantes na busca do posto de desafiante – provavelmente para enfrentar Amanda em maio, em São Paulo. A favor da australiana está a maior experiência e a fama, sendo mais conhecida, pode furar a fila, mas nos parece que o evento escolherá a canadense para disputar o título. Além de ter vencido com menos dificuldades seu combate, ela venceu a própria Megan em 2019. Aguardamos cenas dos próximos capítulos.

Temos um novo patrono no Barangão?

Kevin MacDonald protagonizou uma das interrupções mais absurdas da história do MMA no UFC Norfolk (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

Quem acompanha o MMA Brasil já está acostumado com o “Baranga Awards”, prêmio que coroa os piores momentos do ano no MMA. No nosso Barangão cada categoria tem um patrono, alguém que seja o expoente de ruindade em uma determinada área. Podemos dizer que Kevin MacDonald teve atuação que o coloca na discussão para o posto já em 2020.

Ion Cutelaba e Magomed Ankalaev já se atracaram antes mesmo do início do combate. Durante a apresentação dos lutadores, o moldavo foi direto ao encontro do russo e ambos trocaram sopapos durante os protocolos iniciais. A confusão foi rapidamente interrompida pelos membros da comissão atlética que estavam no octógono.

A luta iniciou e Ankalaev partiu para cima, soltando toda sorte de golpes e combinações. Cutelaba se defendia e retaliava, mas parecia ter sentido algumas bombas do russo, chegando a balançar, mas sem deixar de avançar. Em um desses momentos, após mais uma vez cambalear e partir para o ataque, o árbitro interrompeu a luta. Para indignação geral.

Cutelaba diz que ‘fingiu” ter sido acertado, mas o fez tantas vezes que convenceu não só seu adversário, mas também o árbitro. Ao rever a luta, fica claro que diversos golpes que pareciam ter acertado o moldavo, não passaram nem perto, corroborando sua tese. De toda forma, mesmo considerando que os golpes de Ankalaev tivessem acertado, o árbitro foi muito precoce na interrupção da luta, inclusive parecia muito afeito a fazê-lo, já que desde as primeiras combinações do russo fez menção de separar os lutadores.

Independente de qualquer ação de Cutelaba no intuito de ludibriar seu adversário, a atuação de Kevin MacDonald foi pífia, estragando uma luta que prometia render algum quebra-pau, de toda forma é provável que o UFC remarque o combate para os próximos meses.

Outros destaques

– Ainda no card principal, Darrick Minner mostrou como não usar guilhotinas em um combate. Após tentar o movimento diversas vezes, acabou por baixo de Grant Dawson, que fez uma transição para as costas e conseguiu um belo mata-leão.

– Kyler Philips e Gabriel Silva receberam prêmio de melhor luta da noite em combate muito movimentado. O americano foi melhor em boa parte dos três rounds e venceu com um triplo 30-27 em sua estreia no evento, se mostrando uma boa aquisição na categoria dos galos. O brasileiro, que amarga sua segunda derrota no evento, se mostrou digno de uma nova oportunidade, mas precisa cobrir as muitas brechas para poder se manter na organização.

– Jordan Griffin levou o outro prêmio de performance, graças a uma guilhotina que apagou TJ Brown de fora da guarda, uma maravilhosa grosseria. Ainda, Sean Brady, Spiker Carlyle e Brendan Allen entregaram boas atuações em suas vitórias e deixaram o card preliminar do UFC Norfolk bastante divertido para o público.