Por Alexandre Matos | 04/08/2019 01:40

O MMA ainda não goza de muito prestígio com a ESPN. Neste sábado, um card disputado no estado de New Jersey foi relegado ao horário do almoço e à tarde para que o canal transmitisse a cerimônia de introdução do Hall da Fama da NFL. Até foi bom, porque o UFC Newark não foi exatamente digno do horário nobre da emissora.

A luta principal, sim, foi muito digna, consolidando o óbvio desafiante número um dos meios-médios. Antes, uma animada partida de showbol que poderia ter acontecido uma década atrás – e teria sido um lutão. Um prospecto com um carregador de balde especial venceu mais uma, num evento recheado de barbeiragens dos homens de preto – três lutadores apagaram sem que os árbitros percebessem. Deve ser um recorde nos tempos modernos do UFC.

Vamos lá porque, apesar de o evento ter sido meio sem-vergonha, tem assunto para a Resenha MMA Brasil: UFC Newark.

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Colby Covington é um mala, mas é um baita lutador

Estou ficando velho e não tenho mais saco pras palhaçadas de trash talking, ainda mais vindo de um mala como Colby Covington. Porém, sobra vontade de ver o cidadão em ação. Nesta tarde, ele passeou diante do ex-demoníaco Robbie Lawler.

Que mala esse Colby Covington, hein? (Foto: UFC via Getty Images)

Que mala esse Colby Covington, hein? (Foto: UFC via Getty Images)

Como disse, apesar de chatíssimo, o sujeito é muito bom. E está cada vez melhor. Covington nem parecia que estava há mais de um ano parado. Ele impôs um jogo de pressão sufocante, ora na luta agarrada, ora trocando socos, muitas vezes sem machucar, mas fazendo com que Lawler mal conseguisse respirar, imagine promover algum tipo de ação ofensiva. Teve espaço nem mesmo para um hail mary.

Nos dois primeiros assaltos, Covington parecia uma versão aprimorada do auge de Chael Sonnen. Ele avançava sem o menor pudor de ser alvejado e rapidamente chegava ao confronto corporal. Dali, só sossegava quando tinha Lawler no chão. Aliás, entenda-se por sossegar porra nenhuma. Covington não deu sossego, desgastando o ex-campeão linear com inúmeros botes tentando uma finalização, apertando o pescoço, pegando as costas com facilidade, deitando nas transições. Chega deu pena de Lawler, tamanho o passeio que ele levou nos dez minutos iniciais.

Colby Covington venceu Robbie Lawler no UFC Newark

Apesar de unilateral, a luta ganhou contornos interessantes a partir do terceiro round. Será que Covington teria saúde para manter aquele ritmo? Contra Lawler, basta uma brecha para ele promover o encontro do incauto com o satanás. Covington costumava deixar muitas brechas defensivas no striking, mas ele tem melhorado inclusive nisso. A partir da terceira parcial, a pressão mudou do wrestling para o boxe.

A quantidade de golpes disparados por Covington subiu vertiginosamente de 29 lançados no primeiro round para 117 no terceiro, 130 no quarto e 134 no quinto. A taxa de acerto foi relativamente baixa, assim como a potência e dano causado. Pensa que Covington estava preocupado com isso? Provavelmente era estratégia. O sujeito disparou 541 golpes em toda a luta, o que dá uma média absurda de 21,5 por minuto, cerca de um a cada três segundos. Lembra dos tapas do E. Honda, personagem do Street Fighter? Era tipo aquilo, mas sem parar. Ou seja, Lawler simplesmente não conseguia atacar porque tinha mão na cara dele o tempo todo. Se tentasse avançar, seria como meter os braços num ventilador ligado.

Com a vitória acachapante por todos os 25 minutos de disputa, não tem como vir de papo de Jorge Masvidal ou o escambau. O próximo desafiante de Kamaru Usman tem que ser Colby Covington, que voltou a ostentar o cinturão interino que o UFC lhe tomou no ano passado.

Por fim, Covington jamais poderia sair do octógono sem ser babaca. Disse que Lawler deveria ter aprendido com Matt Hughes e sair da frente quando um trem vem em sua direção, numa piada ridícula sobre o acidente que quase levou o Hall da Fama à morte.

Clay Guida não aprende nem depois de velho

Eu queria muito ter visto Jim Miller contra Clay Guida há uma década. Até 2012 teria sido uma luta épica. Hoje, com os dois quase disputando showbol, assisti só pela galhofa. E o “Capitão Caverna” colaborou.

Jim Miller finalizou Clay Guida no UFC Newark

O duelo até que começou animado e Guida fez Miller balançar com um belo cruzado de esquerda. Porém, Jim recuperou-se rapidamente e devolveu fogo. E o que Guida fez? Mergulhou numa guilhotina totalmente safada. Pensei na hora: “Ele não vai fazer isso de novo”. Óbvio que fez. Guida entrou todo errado e dormiu o sono dos justos, pois Herb Dean, em péssima fase, não viu que ele batucou e apagou. Isso mesmo: Guida fez a mesma merda que custou as derrotas para Thiago Tavares e Charles do Bronx. Qual o problema de errar duas vezes se pode errar três contra faixas-pretas de jiu-jítsu? Quem nunca?

Nasrat Haqparast é a nova aposta da Tristar Gym no peso leve

O alemão descendente de afegãos Nasrat Haqparast, se bem trabalhado, pode ter um bom futuro no meio dos leões do peso leve. Ele é tão brabo que fez Georges St. Pierre de carregador de balde e sacodidor de toalha – mentira, GSP faz isso sempre que está no córner de alguém da Tristar. Neste sábado, o jovem de 23 anos se tornou o primeiro a nocautear ou finalizar Joaquim “Netto BJJ”.

Nasrat Haqparast nocauteou Netto BJJ no UFC Newark

Por envolver dois strikers agressivos — o apelido do brasileiro é dibre –, o primeiro assalto teve pouco contato e muito estudo. A impressão era que Haqparast estava mapeando os movimentos de Netto BJJ para entender em qual distância o brasileiro opera e, assim, definir os seus ataques. O goiano colaborou com o natural de Hamburgo ao passar muito tempo no mata-burro, sem avançar ou circular, dentro do raio de ação do oponente. Foi possível inclusive ouvir o técnico André Dida: “Ou sai daí ou vai pra cima dele”.

Com tudo mapeado, Haqparast voltou para decidir a parada. Ele levou meio minuto para tal. Um passo curto precedeu um cruzado de canhota. O tiro pegou em cheio o queixo de Netto BJJ, que caiu duro. O confere foi apenas protocolar até a chegada do árbitro Keith Peterson para interromper.

Resenha MMA Brasil: UFC Newark – outros destaques

Trevin Giles merece dividir com Guida o selo Burro do Shrek. Ele caiu no conto do vigário de Gerald Meerschaert. Mais capaz na luta de solo — ou menos incapaz, na verdade –, Meerschaert deu confiança por dois rounds para Giles encará-lo no chão. Por dez minutos, os dois brincaram de perder posições. Foi um festival de raspagens, scrambles, cara montado parar por baixo. Uma imensa perebice. Mas, como disse, Meerschaert é menos ruim na arte suave e botou Giles para dormir no terceiro round depois de perder os dois primeiros. Herb Dean cometeu o mesmo erro em duas lutas que ele arbitrou consecutivamente, com apenas uma no meio. Quem diria que Dean pararia no Barangão? Merece muito.

Scott Holtzman fez um movimentado duelo com o inconsequente Dong Hyun Kim falsificado – para não confundir com o verdadeiro, ele mudou para Dong Hyun Ma, aproveitando o apelido de Maestro risos. Na verdade, o segundo assalto foi pau fixe. O primeiro, nem tanto. O médico recomendou ao árbitro que não deixasse o sul-coreano voltar para o terceiro devido ao enorme inchaço debaixo do olho esquerdo.

– Quem vai para o Barangão também é o árbitro Gary Copeland, o popular mini-Brock Lesnar. O sujeito permitiu que Darko Stosic largasse três chutes no saco de Kennedy Nzechukwu sem desclassificar o sérvio – Copeland apenas tirou um ponto nas duas últimas infrações; a primeira passou em branco. No fim das contas, Stosic perdeu por decisão, mesmo vencendo dois de três rounds. Ainda reclamou do resultado, mostrando que, além das regras, ele também não manja de matemática básica.

Antonina Shevchenko teve trabalho diante de Lucie Pudilová, mas conseguiu a vitória no segundo assalto. Esta foi a primeira de três lutas que terminaram com um lutador apagado porque o árbitro não viu o atleta batucar. Dessa vez não foi culpa de Herb Dean, mas de Liam Kerrigan.