Por Alexandre Matos | 24/03/2019 02:18

Vocês já cansaram de me ver agradecendo a ESPN pelos horários atuais dos eventos do UFC? São nem 0:30 e mais um evento foi para a conta, graças ao ritmo ágil da plataforma de streaming da emissora americana. Isso ajuda muito quando o evento traz lutas monótonas, como foi parte do UFC Nashville. Porém, o desfecho foi sensacional.

A excelente luta principal recuperou o brilho depois de três duelos que não animaram o público. Ainda assim, o peso mosca ganhou um desafiante claro, o pesado confirmou mais um representante do top 5, um prospecto se recuperou e o nosso Brasil-sil-sil saiu com 2 a 0 nós contra eles. Tudo nosso! Chupa, gringos!!!17!!

Voltando a falar sério, ou nem tanto, vamos às minhas impressões do UFC Nashville e depois vocês mandam as suas lá na caixa de comentários.

O meio-médio é o parque de diversões do peso leve

Qualquer pessoa minimamente sensata ou com algum conhecimento de MMA sabe que o peso leve é a categoria mais forte do esporte. Pela segunda semana seguida, um representante da divisão sobe para enfrentar um grandão e sai do octógono com um nocaute espetacular. Neste sábado foi a vez de Anthony Pettis, que mandou o ex-desafiante Stephen Thompson para a vala.

Estávamos lá na aprazível localidade da Tijuca, Rio de Janeiro, com menos vizinhos dormindo agora do que da outra vez (obg ESPN+), quando Pettis me sai com aquele superman punch seguido de uma exclamação que ecoou nas janelas adjacentes:

Como MMA é um esporte maravilhoso e excelente pra derrubar analista do cavalo. Eu tava lá todo me achando, enumerando os motivos que estavam levando o “Showtime” a levar um balaio do “Wonderboy”. Além da enorme discrepância física – viram a diferença no tamanho das coxas dos caras? – e da tradicional falta de volume ofensivo de Pettis, o que me chamava atenção era a guarda incrivelmente equivocada do ex-campeão dos leves. Pettis ergueu os punhos na lateral da cabeça, como se o único perigo que corria fossem chutes altos laterais. Essa postura deixou uma avenida na frente do rosto de Anthony e a linha de cintura totalmente desguarnecida. Resultado: entrou soco na fuça até o dia seguinte e, por sorte de Pettis, Thompson não tentou nenhuma canelada no figueiredo.

As consequências disso foram um provável nariz quebrado, sangue abundante e Pettis respirando pela boca, o que representaria queda de rendimento certo no passar da luta. Vai ver que foi isso que ligou o senso de urgência nele.

Thompson imprimiu uma forte movimentação em todas as direções. Ele sabia a hora de evadir-se lateralmente, de recuar e de avançar num ritmo muito bem orquestrado. Diante de um oponente que parecia destinado a tentar um highlight, Stephen teve o trabalho facilitado para acertar e não ser acertado. A luta foi tomando contornos dramáticos para o ex-campeão quando…

O general e filósofo chinês Sun Tzu disse que, quando formos encurralar o adversário, devemos sempre dar uma brecha para ele fugir, senão a única saída que ele terá será a de nos atacar. Quando o “Wonderboy” encurralou o rival na grade, o “Showtime” optou por não fugir. Com um totozinho na grade, ele retornou com um superman punch que pegou Thompson em pleno voo, com os dois pés fora do chão. O golpe foi no lugar exato, no momento exato, fazendo Stephen desabar como uma árvore abatida. Os dois conferes nem eram necessários, pois o árbitro Herb Dean já tinha tomado a decisão de interromper.

O passeio de Pettis no meio-médio foi tipo a Coreia do Sul na Copa da Rússia: só serviu pra atrapalhar a vida da Alemanha e já voltou pro seu cantinho. No microfone de Daniel Cormier, Pettis disse que está de olho no vencedor de Edson Barboza e Justin Gaethje, que se enfrentam no sábado que vem. Ou seja, subiu, nocauteou o número três e voltou pro peso leve. Mito.

Peso pesado é tão ruim que nem dá para se empolgar com prospecto

Curtis Blaydes quase me deixa empolgado. É muito jovem para a categoria, tem condicionamento físico acima da média, wrestling de muito bom nível e punhos pesados. É um páreo difícil demais para as barangudas da divisão e venceu nomes de respeito. Porém, mesmo sendo especialista no ponto fraco de Francis Ngannou, parou duas vezes no dim-mák do camaronês.

Apesar do físico de cachalote, Justin Willis nem era baranga. Calma, deixa eu refazer. Ele é baranga, sim, claro, mas bem menos que a raspa do tacho dos pesados. Ainda que a pança indique um veterano de bocha amador do que um lutador de MMA profissional – o cara tinha duas panças embaixo das escápulas. Nem Roy Nelson chegou a este ponto.

A luta beirou o constrangimento. O jubarte poderia ter tentado usar combinações – sim, ele sabe fazer isso – para deter Blaydes e chegar ao nocaute, mas optou por se portar como um tótem, facilitando demais a tarefa de Curtis derrubar e fazer a festa no chão. Em momento algum o beluga causou problema ao rival e não conseguiu escapar das garras do top 5 no solo. Só faltou alguém aparecer e gritar: “Libertem Willis”.

Jussier Formiga repaginado merece o posto de desafiante se o peso mosca continuar

Até hoje não se sabe o destino do peso mosca. Vários lutadores foram demitidos e o UFC parece disposto a escalar Henry Cejudo pelo cinturão dos galos. Porém, caso ainda seja necessário definir um desafiante para o campeão nos moscas, não vejo problemas em escalar Jussier Formiga.

Seria injusto dizer que Formiga explorou a péssima defesa de quedas e a guarda pouco eficiente de Deiveson Figueiredo para vencer. O potiguar fez isso com enorme autoridade, colocando o paraense para baixo em todos os rounds e trabalhando com facilidade nas transições, passagens de guarda e aplicando uma montada sensacional na primeira etapa, coisa de quem entende do riscado. Na verdade, a luta foi para o chão no terceiro assalto por conta de uma puxada infeliz de Deiveson para a guilhotina. Ia pegar nunca.

Formiga fez mais do que apenas a luta agarrada. O striking dele evoluiu a olhos vistos. Não é mais aquele negócio tosco, que mal servia para encurtar. Jussier hoje é capaz de combinar golpes e de bater de frente com um lutador muito mais agressivo. Figueiredo não teve tranquilidade nem em seu ponto forte.

A vitória categórica – mais uma – faz de Formiga um candidato sério ao posto de desafiante. Porém, há a sombra de Joseph Benavidez, que já o venceu e tem uma vitória suspeita sobre Cejudo. Hoje, Dana White disse que está propenso a colocar Cejudo contra Marlon Moraes pelo cinturão vago dos galos e Benavidez-Formiga 2 como eliminatória dos moscas. Não reclamo.

Resenha MMA Brasil: UFC Nashville – Outros destaques

Luis Peña é o mestre da violência, mas precisa melhorar com urgência o sistema defensivo e os lapsos ofensivos. Quando o “Bob Ross Violento” pisa no acelerador, é porrada de tudo que é jeito. Por outro lado, os momentos em que não ataca juntam-se com a defesa esburacada, fazendo com que ele tome sustos quando não deveria.

Ah, outra coisa: sem chance de continuar lutando como peso pena. O corte é brutal para um sujeito com 1,90m de altura. Isso certamente deve ter impacto nos lapsos que ele apresenta.

Marlon Vera é o maior equatoriano vivo do MMA.