Por Alexandre Matos | 17/03/2019 02:23

Já vou pedindo perdão para meus queridos leitores, mas a Resenha MMA Brasil: UFC Londres acabou saindo um pouquinho diferente do que vocês estão acostumados. Como assisti ao evento já terminado, sem interagir com ninguém, as análises acabaram ficando mais técnicas, sem o costumeiro bom humor que vem caracterizando a coluna. Semana que vem prometo voltar ao padrão.

O evento, que não foi dos mais animados, terminou com um nocaute sensacional e uma demonstração de leitura de luta em pleno voo que fazem o esporte ser tão legal. Antes, mostrou um duelo decidido em detalhes, um prospecto passando raspando em seu teste mais forte, outro prospecto vencendo com solidez e dois brasileiros em situações distintas.

Vamos em frente com o que eu percebi do UFC Londres. A caixa de comentários está à disposição para continuarmos o debate.

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Jorge Masvidal mostra como a defesa é importante no MMA

Sabe aquela frase clássica “proteja-se o tempo inteiro”? Podemos criar uma variante “proteja-se direito o tempo todo” depois deste sábado. Darren Till não respeitou essa máxima alterada e levou um nocautaço de Jorge Masvidal diante de seus compatriotas.

O sistema defensivo de Till se baseia centralmente na pujança física. Como normalmente será maior e mais forte contra a grande maioria do peso meio-médio, o inglês finca a base de pernas para lhe dar equilíbrio e usa os braços para impedir os avanços dos oponentes, seja empurrando-os para trás, ou usando o hand fighting enquanto lança golpes que mantêm os rivais em postura defensiva.

Tyron Woodley, forte como um cavalo, passou por cima da defesa do “Gorila”. Masvidal não tem a força do ex-campeão e acabou tendo problemas no primeiro assalto. Porém, ele foi percebendo a mecânica desse sistema defensivo e conseguiu capitalizar produzindo um dos nocautes mais espetaculares do ano.

Ah, não tem como não falar do começo do combate. Mal o árbitro Marc Goddard autorizou o início das ações, Masvidal saiu correndo de seu córner e voou num chute direto na região genital de Till. Nunca tinha visto um golpe baixo em tão pouco tempo de luta. E como Darren respondeu? Depois de se recuperar, o britânico pressionou o oponente e conseguiu abrir espaço para manter Masvidal na alça de mira de seu direto de esquerda. A bomba pegou em cheio e mandou o americano a knockdown com 15 segundos de luta.

Till faz isso muito bem: ele usa o pé da frente para “tourear” o adversário que se move lateralmente. Assim, o ex-desafiante consegue deixar seu alvo para “dentro” de seu pé direito, ou seja, com o corpo à frente do punho esquerdo, que vem em riste. Essa estratégia foi usada muitas vezes no primeiro round, garantindo uma margem confortável para Till e forçando Masvidal a tentar mudar os rumos e levar o duelo para o chão.

Quando Masvidal voltou ao córner no primeiro intervalo, deve ter pensado que estava difícil levar um cara maior para o chão e que também não daria certo a estratégia de bater na parede na troca de golpes. A solução que ele arrumou foi linda. De início, diminuiu a movimentação lateral e fez Till sair da posição de controlador e contragolpeador para atacar primeiro. Jorge passou a acertar mais o rosto de Darren e equilibrou as ações. Ao se mexer menos para os lados, Masvidal não ficou mais encurralado dentro da área de pés de Till. A partir daí, Masvidal foi diminuindo a distância que lançava os golpes, sempre depois de forçar o primeiro movimento do oponente. Neste ponto, ele já tinha entendido a mecânica das idas e vindas do braço da frente do inglês. Num desses intervalos, o americano deu um passo à frente e largou o aço: um cruzado de esquerda explodiu no queixo de Till. Com o inglês na mão do palhaço, veio outro cacete que o deixou estatelado na lona. Sensacional.

Leon Edwards vence Gunnar Nelson em combate decidido em detalhes

Numa luta de pouca movimentação e de identidades claras, Leon Edwards mostrou maior evolução no ponto forte do rival para vencer Gunnar Nelson em detalhes.

Desde o começo não restou dúvidas de qual seria a estratégia a ser adotada por cada um. Nelson, grappler muito superior, tentaria levar o duelo ao chão. Edwards, striker mais potente, deveria manter o confronto em pé. Porém, o caratê de base não ortodoxa de Nelson, desenvolvida junto a Conor McGregor, equilibrou as ações na troca de golpes. E uma inesperada queda do jamaicano, que nasceu de uma reversão na grade, deu a ele vantagem mínima no assalto inicial depois do maior tempo de controle posicional.

Não sei se ainda não ficou chato, mas custa muito Nelson cortar peso para baixar ao peso leve? Ele perdeu o primeiro assalto e teve dificuldade de impor seu jiu-jítsu por ser simplesmente mais fraco que Edwards. Em alguns momentos, Leon reverteu posições no clinch parecendo que manipulava uma criança. Nelson não teve forças para sair do controle posicional do primeiro assalto e não conseguiu derrubar no segundo.

A segunda etapa também foi decidida no detalhe. O round se encaminhava para o fim, difícil de dizer quem estava na frente, até Edwards quebrar um clinch e sair dali com uma cotovelada que mandou Nelson à lona com um ovo na maçã do rosto. Esses 15 segundos finais, que contaram ainda com bons golpes no ground and pound, salvaram a vida dos juízes, deixando claro quem venceu.

No terceiro round, finalmente Gunni trabalhou a luta agarrada, aplicando uma linda montada, mas encontrou dificuldade para chegar a uma posição de finalização. Venceu o assalto, mas não foi suficiente para virar o combate.

Dominick Reyes passa por mais um teste, mas agora foi apertado

Um dos acertos mais legais do Top 10 do Futuro é Dominick Reyes. Inclusive a vitória sobre Volkan Oezdemir neste sábado deve fazer dele um top 5 na próxima semana. Porém, o quinto triunfo no UFC foi de raspão.

O que causou equilíbrio nas pontuações foi o primeiro assalto. Disputado praticamente todo na troca de golpes, a parcial foi parelha nas ações, mas viu Reyes com ligeira vantagem no aproveitamento, graças a ter conseguido controlar o ritmo, sem permitir que Oezdemir descambasse para a pancadaria. O suíço teve a postura de agressor, enquanto o americano circulava e mantinha a distância.

Oezdemir conseguiu derrubar Reyes graças aos avanços constantes, mas o “Detonador” mostrou excelente capacidade de ficar de pé. Depois do primeiro round, o americano negou todas as demais tentativas de queda do europeu. No segundo assalto, mais equilíbrio nos golpes acertados, porém a vantagem ficou com Oezdemir, que forçou um bom sistema defensivo de Reyes para bloquear vários golpes. Porém, como defesa não conta na pontuação e essa pressão fazia com que Oezdemir fosse o agressor, o que controlava o espaço de luta e deixava Reyes apoiado no pé de trás, em posição defensiva, o suíço empatou o combate.

O terceiro foi o round mais fácil de pontuar graças à conhecida queda de rendimento que Oezdemir apresenta. Reyes se mostrou mais inteiro e claramente conectou os melhores golpes em maior quantidade, tentando mostrar algum senso de urgência de alguém que não queria sofrer na leitura de papeletas parelhas. No fim das contas, dois juízes confirmaram o 29-28 para Reyes, mesmo placar que eu anotei, contra um que marcou a favor de Oezdemir.

Resenha MMA Brasil: UFC Londres – outros destaques

– Tome de polêmica envolvendo arbitragem. Claudio Hannibal mostrou enorme vantagem no jiu-jítsu e presença de espírito para levar Danny Roberts ao chão sempre que o britânico o atordoou em pé – e isso aconteceu em todos os assaltos. No primeiro, Claudio derrubou logo e passeou no chão, mas viu Roberts defender bem seus botes a ponto de inclusive raspá-lo numa tentativa de katagatame. O brasileiro voltou cansado para o segundo e deu a sambadinha do Rubinho quando levou um petardo, mas, mesmo bêbado, grampeou as pernas do rival e botou para baixo. No terceiro, outro susto, mas agora Danny conseguiu completar o serviço no ground and pound. Enquanto apanhava, Hannibal tentava botes. Num deles, estourou a pegada de Roberts e tentou uma chave de braço. O árbitro Keven Sataki achou que Danny gritou de dor e decretou a submissão verbal. Ficou claro que Roberts não bateu e, na minha opinião, também não estava gritando de dor no momento da interrupção. Erro grave do árbitro.

– É uma pena que Arnold Allen lute tão pouco – desde que estreou no UFC, em 2015, fez apenas uma luta a cada ano. Isso acaba atrasando o lado do inglês rumo ao top 10. Neste sábado, ele deu uma aula de movimentação, jogo de pernas e versatilidade nas combinações para dominar Jordan Rinaldi. Não foi a luta mais movimentada do mundo, mas foi mais uma demonstração de técnica superior de Allen. Vamos torcer pela segunda luta em 2019 para que ele possa desenvolver a carreira.

– A história de vida de Priscila Pedrita é muito bonita e ela merece tudo de bom na vida. Mas vamos falar a verdade aqui? A simpática banguense não tem nível de UFC. Suas combinações em pé são rudimentares, o jogo de pernas é robótico e o chão é uma enorme dificuldade. Sobram coragem e dureza no queixo. Neste sábado, parecia até que Molly McCann não era tão fraca como mostrou em outras oportunidades – mas, sim, a inglesa é bem ruinzinha. Enfim, vitória fácil de McCann, a primeira inglesa a vencer no octógono, SALVO ENGANO (qué dizê, devo estar enganado).