Por Idonaldo Filho | 14/05/2020 17:48

No segundo de três eventos do UFC a serem realizados em Jacksonville, o card do UFC Jacksonville não prometia tanto no papel, mas entregou muito mais do que se esperava.  A luta principal de suma importância para a categoria dos meios-pesados mostrou uma grande atuação de Glover Teixeira sobre Anthony Smith, que acabou sendo deixada de lado devido a uma atuação criminosa do árbitro central.

LEIA MAIS
UFC Jacksonville: Smith vs. Teixeira – Resultados
UFC Jacksonville: Smith vs. Teixeira – Prévia do Card Principal
Seja um colaborador do MMA Brasil

Também no evento realizado na quarta-feira vimos a ascensão de alguns lutadores na categoria dos leves, assim como dois pesos pesados veteranos mostrando que não vão largar o osso tão fácil assim.

Vamos ao que interessa?

JASON HERZOG PRECISA REPENSAR A PROFISSÃO

Glover Teixeira acerta belo uppercut em Anthony Smith (Foto: UFC/Divulgação)

Aos 40 anos, não era de se imaginar que Glover Teixeira estivesse nesse momento com quatro vitórias seguidas e muito perto de uma eliminatória para disputar o cinturão. O brasileiro teve sua única oportunidade há seis anos, sendo derrotado para o atual campeão Jon Jones – que continua sendo tratado especialmente pelo UFC mesmo se envolvendo em polêmicas.

Glover entrou como azarão na luta contra Smith, que vinha da maior vitória de sua carreira contra Alexander Gustaffsson. Na primeira parcial parecia até que Smith iria fazer jus ao favoritismo, mostrando um jogo de eficiente de controle de distância e uso de jabs. Teixeira mostrou evolução na movimentação e também pareceu mais rápido, mostrando boa preparação para o combate. No segundo assalto, o brasileiro mostrou algumas sequências poderosas de ganchos e uppercuts na grade que foram os golpes mais contundentes. O americano foi para o corner já demonstrando que não estava com muita energia sobrando.

A partir do terceiro round é que a coisa começou a ficar desnecessária. No primeiro minuto, Glover acertou um soco que quebrou o nariz de Smith. O americano sentiu na hora e recuou com a mão no rosto, de costas para a grade, e conseguiu se defender por alguns segundos, mas a mão esquerda do brasileiro entrou limpa na têmpora do “Lionheart”, que caiu já sem muitas condições de luta.

Para o árbitro central Jason Herzog, a luta seguiu. Smith foi montado, sofreu bastante por baixo do ground and pound de Glover e se defendia como podia, mas claramente sem condições de continuar no combate. Foram 43 golpes significativos de Teixeira contra um só de Smith. Era perfeitamente possível marcar um 10-7. A situação se prolongou durante todo o quarto assalto. O brasileiro fez o que quis, atingiu o americano com muita contundência, derrubou, bateu. O ex-peso médio virou refém da própria resiliência e da péssima atuação de Herzog. A luta só se encerrou já no quinto assalto, após Teixeira ter nocauteado Anthony Smith umas três vezes.

Não há qualquer cabimento na falta de atitude de Herzog por não encerrar o combate, coisa que deveria ter sido feita ainda no terceiro assalto. A responsabilidade também é dos técnicos que estavam no corner, que chegaram a ouvir do lutador que seus dentes estavam caindo – ele perdeu dois dentes permanentes. Situações como essa, que são extremamente graves por se tratarem da saúde de um atleta, ficam ainda mais agravadas devido a situação médica em todo o mundo com a pandemia do vírus.

Para Glover, a vitória é fundamental e deve levar o brasileiro ao top 5 da categoria novamente. Não há uma certeza sobre o próximo adversário de Jones, com Jan Blachowicz e Dominick Reyes em uma revanche como os favoritos. O campeão comentou sobre uma possibilidade de realizar um combate em peso casado de até 100kg, mas que dificilmente deve sair do papel.

Todos os juízes marcaram 10-8 nos últimos assaltos pontuados (Foto: Divulgação)

BEN ROTHWELL E ANDREI ARLOVSKI SEGUEM VENCENDO EM 2020 (!)

Os dois duelos eram parecidos. Dois veteranos longe de sua melhor forma, que enfrentavam adversários menores e que estavam estreando na categoria ou no próprio evento. Não foi bonito (longe disso), mas aparentemente ainda veremos os nomes de Andrei Arlovski e Ben Rothwell no ranking do UFC por algum tempo.

O americano, que é um personagem por si só, entrou com a música do Drácula para encarar Ovince St. Preux, meio-pesado veterano que decidiu aceitar este duelo na categoria dos pesados. O primeiro assalto foi lamentável, com destaque para a maravilhosa tentativa de Rothwell com seu clássico gogo choke, que vitimou Josh Barnett. Não deu muito certo.

Ovince não mostrou muito ofensivamente no combate e estava sendo acertado por Ben, mesmo com o peso pesado mostrando a velocidade nula de sempre. Nas disputas de clinch muita vantagem para Rothwell também. Os melhores momentos de St.Preux foram no segundo round quando atordoou Big Ben, mas não fez mais para ganhar a etapa, além de uma troca de sopapos de dar vergonha no fim da luta, onde quase vimos um nocaute depois da buzina. Na entrevista um pedido inusitado: Aleksei Oleinik. Quem não gostaria de ver essa luta?

Sobre Arlovski, não há muito de relevante o que se destacar do duelo. O brasileiro Philipe Lins já lutou de meio-pesado durante boa parte da carreira, mas vinha uma vitória no torneio da PFL em 2018 na nova categoria.  Mostrando boa absorção de golpes (!), Arlovski não era o mais rápido, porém, buscou mais a luta e ofereceu os golpes mais contundentes principalmente nos dois últimos rounds. Um juiz marcou 30-27 para o bielorrusso, resultado totalmente fora do rumo. Em entrevista pós luta, Arlovski afirmou ter sido muito difícil enfrentar Lins devido a parceria de ambos na ATT, academia onde treinam.

DREW DOBER SEGUE CURVA DE ASCENSÃO E ACUMULA TERCEIRO NOCAUTE EM SEQUÊNCIA

Drew Dober golpeando Alexander Hernandez no UFC Jacksonville (Foto: UFC/Divulgação)

A carreira de Drew Dober no UFC começou mal, e ele por muito tempo fez parte do meio de tabela da imensa categoria dos leves, sendo mais lembrado por se envolver na guilhotina menos encaixada que o UFC já viu contra Leandro Buscapé no UFC Rio em 2015. Agora, são seis vitórias nos últimos sete combates com quatro nocautes, esse último contra Alexander Hernandez.

O duelo começou bastante animado com Hernandez circulando bastante e tentando utilizar o wrestling. Dober se defendeu bem das tentativas de Alexander e prevaleceu na trocação, com bom jogo de mãos e aplicando mais contundência nos golpes que colocava, acertando mais e levando a primeira parcial. No final do primeiro e início do segundo round aconteceram dois dedos no olho, um para cada, mas que não afetaram o decorrer do combate.

Dober então ditava o ritmo do combate, conseguindo um forte golpe que fez Hernandez dobrar os joelhos e prontamente buscar a queda. Drew conseguiu sair da posição de desvantagem no solo e emendou sequências agressivas de socos, como Hernandez não se defendia, foi declarado o nocaute técnico com ele ainda em pé, mas sem condições de revidar.

Hernandez era o 15º da categoria, lugar que Dober pode ter pego com essa vitória. A evolução do americano é visível, com um boxe preciso e melhorias nítidas defensivamente. A tendência é que receba um adversário ranqueado ou em sequência de vitórias no próximo combate.

OUTROS DESTAQUES DO UFC JACKSONVILLE

Ray Borg não se dá bem no peso mosca já que não bate peso, mas também não consegue ter sucesso nos galos pois fica em desvantagem física. Grande parte do jogo do ex-desafiante de Demetrious Johnson é baseado no wrestling, e por geralmente ser o maior no cage, sempre conseguiu usar essa abordagem na categoria até 57kg. Nos galos, Ricky Simon, que também é bom de wrestling e é maior que Borg, conseguiu facilmente várias quedas e dominar a luta para um decisão dividida.

– Que Michael Johnson é leigo de chão todo mundo sabe, mas foi muito rápido. Após um primeiro round promissor contra o brasileiro Thiago Moisés, atuando bem na distância e conseguindo os melhores golpes, Johnson fez tudo errado ao tentar defender uma chave de pé do brasileiro no segundo assalto. Moisés partiu para queda, não conseguiu, puxou para a guarda e, com ajuda do americano, obteve rapidamente uma rara “botinha” para conquistar a maior vitória de sua carreira.

– O tal de Omar Morales é bom de chute, hein? O venezuelano contratado através do Contender Series ainda precisa de ajustes defensivos, mas mostra um kickboxing bem competente e que foi o suficiente para vencer Gabriel Benitez, que subiu de categoria. Treinando na Combat Club com Henri Hooft e vários atletas de alto nível no UFC, ele só tem a evoluir.

– O apelido de Brian Kelleher é “Boom” não por acaso. Algoz de Renan Barão, Kelleher aproveitou o desgaste e dispersão de Hunter Azure para conseguir um belíssimo nocaute com um forte cruzado no card preliminar do UFC Jacksonville. É a segunda vitória seguida de Brian sobre atletas oriundos do programa de Dana White, seguido de uma entrevista cômica pedindo o terceiro: Sean O’Malley.