Por Alexandre Matos | 03/02/2019 03:54

Antes de mais nada, glorificada seja a ESPN alterando os horários dos eventos do UFC e permitindo que eu ligue o computador à 1:40h para escrever a Resenha MMA Brasil: UFC Fortaleza. Duas semanas atrás, neste horário, estava começando a segunda luta do card principal, com mais três horas de evento pela frente.

Isto posto, a capital cearense faz bem ao UFC. Terceiro evento na cidade, terceira noite divertida. Vimos um candidato a desafiante se firmar ainda mais com a maior atuação da carreira. Também teve um velho ídolo em estilo vintage, dando uma freada na passagem de bastão, que estava desembestada (perdão). Outro velho ídolo fazendo o que mais sabe. Candidatos a estrelas do futuro, recordista, zebra, possíveis demitidos. Teve de muito no Centro de Formação Olímpica do Nordeste, até Amanda Nunes dizendo que quer jogar futebol.

Vamos em frente, porque tem muito o que se falar do UFC Fortaleza. Depois, clica nesse link e deixa aberto em outra aba para vocês verem que belo trabalho a nossa equipe fez no Ceará.

Marlon Moraes é monstro, mas será o próximo a tomar balão no peso galo

A derrota na estreia ficou entalada em Marlon Moraes. Muitos, inclusive eu, deram vitória para ele. Neste sábado, a luta era pertinho do estado natal de Raphael Assunção. Os parentes do pernambucano estavam em peso. Sabe-se lá o que a juizada poderia fazer para o rei das decisões divididas controversas. Pois o carequinha não deu sopa pro azar.

Marlon Moraes finalizou Raphael Assunção no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Marlon Moraes finalizou Raphael Assunção no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

As formas física e técnica de Marlon estão exuberantes. Velocidade, potência e muita consciência do que deve ser feito. Ele nem jogava uma quantidade de golpes para fazer com que Assunção deixasse sua posição de contragolpeador, na qual se sente muito à vontade. Num erro de avaliação, Raphael se aproximou demais e, pior, ficou ali no pocket. Levou um cachação e foi à lona. O pernambucano até tentou bloquear o rival por baixo, achando que Moraes talvez voltasse em pé. Não rolou. O ground and pound virou uma guilhotina. Assunção tentou se virar, mas afundou no estrangulamento e foi obrigado a batucar.

Quarta vitória seguida, a terceira consecutiva no primeiro assalto. Bateu os top 5 Jimmie Rivera e Raphael Assunção. Está na hora de colocá-lo diante do campeão TJ Dillashaw, certo? Certo. Isso vai acontecer. Acho que não, pelo menos não agora. Marlon seguirá com a série de balões e provavelmente verá Henry Cejudo passar.

Nova entidade: José Aldo sem cinturão, melhor José Aldo

Ser campeão do UFC dá trabalho. Ser campeão dominante dá trabalho e estressa. Veja quantos campeões fizeram merda dentro ou fora do octógono quando chegaram a uma situação limite. José Aldo não chegou a fazer, só ameaçou (se aposentar com lenha pra queimar). Então ele perdeu o cinturão duas vezes, numa circunstância que o deixou um pouco longe de mais uma chance. Pelo visto, a tristeza despertou o vintage Aldo.

José Aldo nocauteou Renato Moicano no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

José Aldo nocauteou Renato Moicano no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

O duelo contra Renato Moicano era encardido. O brasiliense é um lutador cerebral e muito bem preparado, ainda mais depois que juntou seu camp à American Top Team. E o que Moicano fez na metade final do primeiro round foi lindo. Arrisco dizer que nunca tinha visto ninguém fazer aquilo contra o Aldo. Moicano emulou o próprio Aldo contra o Aldo. Ele retaliou todos os movimentos em falso do ex-campeão, fazendo Junior entrar num ciclo de errar, ser golpeado, errar mais e ser mais golpeado. Genial.

Aí a gente entra naquela situação em que o responsável pela evolução também pode colocar tudo a perder. Se o primeiro round mostrou um belo trabalho de Gabriel de Oliveira, treinador que fez Valdemir Sertão campeão mundial de boxe, o intervalo matou a luta de seu pupilo. Não lembro se foi ele ou Conan Silveira que falou para Moicano apertar o ritmo que Aldo não aguentaria. Baita erro.

Moicano deveria ter mantido a compostura e a estratégia. Foi inventar de pressionar e acabou se expondo. O Aldo das antigas era um matador feroz. O atual pós-Holloway também é. Quando sentiu a oportunidade, o manauara largou o inferno de, sei lá, uns 20 golpes num intervalo muito curto. Foram socos e um joelhaço brutal até que o árbitro Jarin Valel decretasse o nocaute técnico com Moicano ainda de pé. Alguns reclamaram da interrupção, mas ela foi dentro da janela. Renato ainda parecia não estar rendido, mas não tive a impressão que algo mudaria nos dez segundos seguintes, então o árbitro fez bem em evitar mais castigo na cabeça de Moicano.

Brasileiro não pode ver um compatriota vencendo que já pede disputa de cinturão (mesmo que seja na segunda luta no UFC risos). Aldo parece que nem está interessado. Acho ótimo para ele. Esse par de vitórias por nocaute podem realimentá-lo. De repente uma luta contra Brian Ortega, ou um triplete contra Frankie Edgar. Ou, sendo um pouco mais agressivo com o vintage Junior, Alexander Volkanovski. Em Curitiba. Já compraria minha passagem no dia do anúncio.

O Mochila Humana colocou mais um pescoço na conta

Aos 41 anos, Demian Maia não pensa mais em cinturão – ainda mais com a penca de wrestler na frente dele. Nesta altura dos acontecimentos, ele só quer se divertir e, quem sabe, se tornar recordista de vitórias e de submissões da história do UFC. Está a duas de igualar as vitórias de Donald Cerrone e a três pescoços de empatar com Charles do Bronx. Neste sábado, deram Lyman Good para o paulista se divertir.

Demian Maia finalizou Lyman Good no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Demian Maia finalizou Lyman Good no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Nas três derrotas consecutivas para Tyron Woodley, Colby Covington e Kamaru Usman, Maia não acertou uma única queda em dezenas de tentativas. Porém, não sofreu cinco socos nas três ou quatro vitórias mais recentes. Good estava deste lado da estatística. Com uma dificuldade histórica de defender queda, o novaiorquino não fez nada além de tentar se desvencilhar do Mochila Humana. Sem levar um soco, Demian botou pra baixo, pegou as costas e, mesmo quando Good tentou se levantar, mochilou categoricamente o oponente até apertar um mata-leão que fez o ex-campeão do Bellator batucar de pé.

É incrível a habilidade que Demian tem de fazer bons lutadores parecerem amadores, especialmente aqueles com dificuldade de defender quedas. O paulista ainda tem duas lutas no contrato. Tim Means, Alex Garcia, Josh Burkman (saporra ainda está no UFC?), Yushin Okami, uma baita revanche contra Dong Hyun Kim. Fecha os olhos e escolhe um desses para a próxima luta, ali por julho. Para a aposentadoria, Diego Sanchez em São Paulo. Nunca pedi nada.

Charles do Bronx na pegada Dr. Jekyll-Mr. Hyde

Parecia aquele livro de terror “O Médico e o Monstro”. Charles do Bronx nervoso tomou knockdown e ficou no perrengue. Charles do Bronx tranquilo aumentou o recorde de finalizações da história do UFC.

Charles do Bronx ampliou o recorde de finalizações do UFC contra David Teymur (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Charles do Bronx ampliou o recorde de finalizações do UFC contra David Teymur (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Eu achei que Do Bronx sofreria no sprawl and brawl nas mãos de David Teymur. Imaginei que a pressão desordenada do brasileiro parasse na defesa de quedas e nos contragolpes do sueco. Por um tempo, no primeiro assalto, isso aconteceu. Principalmente depois que Charles levou uma dedada no olho e ficou puto. Ele se desconcentrou e ficou chamando Teymur pro pau. Numa dessas, levou um direto e caiu sentado.

Nota: como foi bom ver um árbitro descontar um ponto de dedo no olho, logo na primeira ocorrência. Essa moda tem que pegar.

No intervalo, o paulista tomou esporro do córner, que pediu para ele se acalmar. Mais tranquilo, ele conseguiu igualar as ações na troca de golpes, inclusive fazendo Teymur pagar em contra-ataques. Charles acertou um belo chute, enquadrou Teymur na grade, largou uma sequência e trouxe o oponente para o solo. Ali o combate era desigual. Triângulo de mão encaixado e agora o recorde de submissões no UFC é de 13.

Keep walking

Brasileiro ama hypes. Se for um sujeito carismático, engraçadinho e nocauteador, logo já cravam que será campeão e já pedem disputa de título na segunda luta. Pobre Jon Jones. A bola da vez é Johnny Walker, que levou 15 segundos para parar no bloqueio com um chute alto rodado, mas emendar com um soco rodado e acabar com a raça de Justin Ledet no ground and pound de pé.

Johnny Walker nocauteou Justin Ledet no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Johnny Walker nocauteou Justin Ledet no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Foi rápido mesmo, nem tem muito o que falar, salvo uma maluquice do brasileiro, que se emocionou e quase meteu um tiro de meta no americano. Por sorte, o chute passou no vazio e evitou que uma bela vitória virasse derrota por desclassificação.

Walker nunca chegou a empolgar antes do UFC, inclusive fez umas lutas bem picaretas. Porém, não dá pra negar que o sujeito está iluminado no maior palco do MMA mundial. Só que, porra, já tem vagabundo dizendo que ele vai ganhar do Jon Jones na próxima. E a imprensa brasileira, desesperada por construir novos ídolos, ajuda a jogar uma pressão dessas no ombro do camarada. Aí o maluco perde, não chega aonde prometeram que ele chegaria e vão falar de luta vendida, vão esculhambar o rapaz. Não tem jeito, parece que vivemos em ciclos.

Johnny Walker comemora vitória no UFC Fortaleza (Foto: Jason Silva/MMA Brasil)

Risos

Resenha MMA Brasil: UFC Fortaleza – Outros destaques

– A pequena Livinha Souza e a enorme Sarah Frota, que não bateu o peso por vergonhosos três quilos, pareciam de categorias diferentes. A paulista disse que o excesso de peso da goiana atrapalhou seu rendimento. Pode ser, mas é bom Livinha ficar ligada, porque essa era uma luta para ela vencer com mais facilidade.

– Nem dá mais para defender Júnior Albini. O “Baby” pegou um estreante cego no chão e fez um bom trabalho no primeiro assalto contra Jairzinho Rozenstruik. Porém, resolveu esquecer a luta agarrada contra o kickboxer surinamês e foi nocauteado na segunda etapa. Com três derrotas seguidas e atuações nada empolgantes, é capaz de o RH chamar o paranaense.

Thiago Pitbull só fez uma luta em seu estado natal durante a carreira de 18 anos, exatamente a primeira. Neste sábado, o cearense voltou a Fortaleza e mostrou poder de recuperação, especialmente para um veterano que já passou por dez procedimentos cirúrgicos, inclusive um na cabeça que quase encerrou sua carreira. A vitória sobre Max Griffin teve um quê de juizada caseira (o gringo Michael Bell deu 29-28 Griffin, enquanto os brasileiros Guilherme Bravo e Hallison Pontes garantiram a vitória do Pitbull), mas a gente faz um esforço pra esquecer isso e ficar feliz com uma vitória de Thiago quase dez anos depois da disputa do cinturão, no distante UFC 100. Ele não tinha velocidade nem vitalidade para quebrar a vantagem na envergadura de Griffin, mas não desistiu e teve uma atuação melhor do que eu esperava.

Ricardo Carcacinha não deu nem para o cheiro contra Said Nurmagomedov, amigo-primo-foda-se do campeão dos leves Khabib. Que sobrenome pesado. Os Nurmagomedovs somam 12-0 no UFC.

– O estreante Rogério Bontorin era o maior azarão da noite, mas conseguiu uma expressiva vitória diante do ranqueado Magomed Bibulatov. O checheno teve um segundo assalto bem forte, dando a impressão que a luta estava no papo. Porém, uma queda de rendimento (talvez achando que estava fácil?) permitiu que o “Rogerinho da Roça” reequilibrasse as ações. Decisão bem apertada e, diferentemente da luta de Pitbull, não dá pra falar em garfo aqui.