Por Rodrigo Rojas | 17/05/2020 21:29

O UFC finalizou sua trinca de eventos na Flórida, em meio à pandemia do coronavírus, com um card com pouquíssimos nomes relevantes mas que entregou várias lutas divertidas durante o UFC Flórida.

Os grandes protagonistas da noite foram os juízes laterais, que causaram polêmica ao discordar da maioria dos analistas do esporte em três das cinco lutas principais. Evento desnecessário mas divertido para os fãs sedentos por esportes durante a quarentena.

Vamos analisar tudo que rolou nesse sábado?

Overeem volta do buraco para nocautear Walt Harris

Overeem consolando Harris após o nocaute sofrido na luta principal do UFC Flórida (Foto: UFC/Divulgação)

Contextualizando para minha namorada, a quem forcei a assistir o evento comigo no sábado a noite, expliquei que Alistair Overeem é um dos lutadores mais técnicos da divisão dos pesados, mas que nunca chegou lá por entregar a paçoca sempre que se vê encurralado e por ter um queixo dos mais desgastados. Só para me contrariar, “The Reem” fez tudo o contrário.

A análise pré-luta tinha um cenário bem claro: Overeem é muito mais técnico, mas será que o queixo dele aguenta as bombas do porradeiro Walt Harris? No primeiro round, Overeem seguiu o roteiro: caiu com o primeiro soco bem conectado do adversário e ainda sofreu um ground and pound violento. A maioria dos que assistiam achou que a luta deveria ser interrompida – o holandês, inclusive, pareceu apagar em alguns momentos.

Porém, para a minha surpresa, o “Demolition Man” conseguiu se recuperar. Inverteu a posição com uma tentativa de pegada de costas bizarra e acabou ficando por cima, batendo no ground and pound até o round acabar. Aí, o gigantesco americano abriu o bico – o gás fora embora durante a surra aplicada no adversário.

No segundo round, o holandês mostrou lembranças do Ubereem que venceu Peter Aerts, Gokhan Sakhi e Badr Hari no kickboxing: acertou um chute alto que balançou o americano, acertando, ainda, um cruzado e um upper que levaram o adversário ao chão. Alistair caiu por cima, pegou as costas e castigou Harris com 24 socos na cabeça, até que o árbitro central resolveu interromper.

Boa vitória para o agora quarentão, suficiente para manter-se no top 10 da rasa categoria. À Walt Harris, muito respeito por ter conseguido forças para voltar a lutar depois da tragédia familiar pela qual passou, com o assassinato de sua enteada. O grandão ainda pode ter algum futuro, já que a divisão até 120kg é terra arrasada.

Claudinha Gadelha sofre para “vencer” Angela Hill

Cláudia Gadelha sofreu para superar Angela Hill no UFC Flórida (Foto: UFC/Divulgação)

Cláudia Gadelha chegou no UFC como uma das principais lutadoras da recém introduzida categoria das pesos palha. Ela entregou duas lutas apertadas contra a então bicho-papão Joanna Champion, além de vencer Jessica Aguilar e Karolina Kowalkiewicz para consolidar seu posto entre as melhores do mundo. Porém, Claudinha foi espancada por Jessica Andrade e resolveu respirar novos ares, se mudando para os Estados Unidos. Lá, pulou de academia em academia, passando pela ATT, Jackson Wink, Mark Henry, e chegando até a treinar sozinha.

É impossível dizer se foi a saída da Nova União ou uma decadência natural de uma veterana, mas o fato é que Gadelha há muito deixou de ser a lutadora que deu knockdown em Joanna. Hoje, ela sofre inclusive nas vitórias sobre lutadoras limitadas, como foi o caso contra Carla Esparza e, novamente, na luta de sábado. A brasileira começou bem contra a mediana Angela Hill, vencendo o primeiro round. No segundo, porém, recebeu um knockdown e viu seu gás ir embora. No último assalto, a manauara quase não se movimentava, limitando-se a jogar combinações de golpes no ar. Foi o suficiente para que dois dos três juízes laterais vissem a vitória para ela. No site MMA Decisions, apenas quatro dos 17 portais de mídia viram o mesmo.

Para mim, Gadelha parece ter virado a chave: alguns anos atrás, ela teria jantado a limitadíssima Angela Hill, que chegou a ser demitida do UFC. É difícil dizer se a nova geração de talentos a ultrapassou ou se Cláudia decaiu, seja física ou tecnicamente, mas ela não parece ter muito mais a entregar contra a elite da divisão. Pena, já que ela tem apenas 31 anos de idade.

Edson Barboza estreia com “derrota” entre os pesos pena

Dan Ige venceu de forma controversa Edson Barboza no UFC Flórida (Foto: UFC/Divulgação)

A descida de Edson Barboza para a categoria até 66 kg foi cercada de dúvidas. O brasileiro, que era um peso leve bastante grande e seco, perdeu bastante massa muscular e parecia abatido na balança. Porém, vimos muito pouca diferença física quando ele chegou às vias de fato contra o havaiano Dan Ige.

Edson mostrou-se mais rápido e mais técnico que o adversário, acertando fortes chutes baixos e combinações de mãos. No primeiro round, conseguiu um knockdown e pareceu que ia liquidar a fatura, mas Ige recuperou-se. No segundo, “Dynamite Dan” adaptou seu plano de jogo enquanto Edson se cansava, e vencia o round até que foi a knockdown novamente, caindo por baixo sob o forte ground and pound do ex-peso leve. No terceiro, o velho problema de Edson veio à tona: a capacidade cardiorrespiratória. Ige tomou conta das ações contra um brasileiro já desgastado, suplantando-o com pressão e volume de golpes. Para mim, haviam poucas dúvidas de que Edson havia levado os dois primeiros assaltos e Ige, o terceiro. No segundo, que poderia suscitar algum questionamento, Barboza acertou o mesmo número de golpes que o adversário e conseguiu o knockdown. 29-28 fácil para o carioca, certo? Errado.

Novamente, os juízes laterais fizeram presepada, discordando de 15 dos 17 membros do MMA Decisions e vendo a vitória do havaiano. Garfinho a favor de Ige, que segue sua caminhada rumo ao topo dos penas. Edson parece não ter sofrido tanto com o corte de peso, mas não mostrou indícios de que iria longe na categoria: ele manteve os problemas que o afligiam entre os leves. Torço para que Barboza volte aos leves e mantenha seu posto de porteiro de elite da categoria, pois é o melhor que ele pode fazer neste ponto da carreira.

Song Yadong segue invicto entre os galos, pelo menos para os juízes

Song Yadong bateu Marlon Vera no UFC Flórida em mais uma decisão polêmica do evento (Foto: UFC/Divulgação)

A terceira presepada dos juízes da Flórida foi na luta de abertura do card principal. Dois dos bons prospectos da categoria peso galo se enfrentaram em uma luta disputada majoritariamente em pé. Song Yadong utilizou seu bom nível no boxe com potentes contragolpes, enquanto Marlon Vera usava a malandragem de veterano para acertar chutes na distância, encurtar para o clinch e até derrubar, buscando eliminar os pontos fortes do jovem chinês.

Vi vitória de Vera em pelo menos dois rounds, com margem até para 30-27. Mas os juízes discordaram. Os três deram 29-28 para Song, todos marcando o terceiro round para Chito Vera. Decisão apertada, seguida de muitos protestos de lutadores e membros da mídia nas redes sociais.

Não achei um roubo, mas é de se levar em consideração, principalmente com as outras decisões controversas que vieram em seguida. Song é um bom valor para a categoria, mas precisa de tempo de maturação (que ele dispõe de sobra, já que tem apenas 22 anos) para completar seu jogo para o MMA.

Outros destaques:

O “Imortal” Matt Brown está morto há bastante tempo. Brown resolveu voltar de uma justa aposentadoria e enfrentou dois veteranos tão decrépitos quanto ele, conquistando bons nocautes. Dessa vez, foi pareado com o jovem Miguel Baeza, lutador invicto de 27 anos. Brown chegou bastante perto de vencer, mas acabou vítima de um cruzado de esquerda no contragolpe e foi nocauteado. Fica o apelo para que o Imortal volte à sua aposentadoria.

Kevin Holland conseguiu um belo nocaute com uma joelhada no corpo de Anthony Hernandez, em menos de um minuto. O americano não deve ir muito longe, mas é um bom lutador de ação – mais um cria da divisão dos médios da LFA – para ocupar o meio de tabela da categoria até 84kg.

Courtney Casey subiu para os moscas e conquistou uma bela finalização sobre Mara Romero Borella, que deu mole na guarda da adversária e ainda defendeu a finalização de maneira totalmente errada. Sorte para ela nessa nova categoria, na qual ela parece se encaixar bastante bem.

Nate Landwehr e Darren Elkins entregaram o banho de sangue que se esperava deles. Landwehr, brawler nato, arrastou o ex-wrestler Elkins para seu jogo, e o dois trocaram sopapos como se não houvesse amanhã. Destaque para uma bela cotovelada de Nate no contragolpe, à la Calvin Kattar vs. Jeremy Stephens, que abriu um rombo na testa do adversário, suscitando uma torrente de sangue sobre ambos.

E você, caro leitor? O que achou desse evento despido de nomes famosos, mas que entregou lutas divertidas? Siga o debate aqui nos comentários!