Por Alexandre Matos | 24/11/2018 16:28

Dormir depois de 01:00h para acordar num sábado às 06:00h a fim de assistir a um monte de chinês lutando. Nem dá mais para reclamar. Não me arrependo de ter madrugado para assistir a várias lutas legais e, melhor, sentar no computador antes de meio-dia para escrever a Resenha MMA Brasil UFC Fight Night China.

Eventos como o de hoje mostram como é importante a expansão do UFC para desenvolver cenários locais e novas categorias. Nos primeiros UFCs na China, o nível dos lutadores locais era lastimável, então acordar cedo para acompanhar aquilo era um martírio. Com o tempo e a insistência, deixamos de ver ~ídolos como Zhang Tiequan ou Zhang Lipeng para ver que o país pode produzir candidatos a estrela como Yadong Song ou Zhang Weili.

Como eu sei que vocês dormiram, então vamos aos assuntos do UFC Beijing/Pequim/China. Eles são vários.

Francis Ngannou mete o dim mak em Curtis Blaydes e na divisão dos pesados

A cultura oriental das artes marciais aponta para o dim mak, o toque da morte. Diz-se da técnica que, se empregada corretamente, pode levar ao óbito.

Francis Ngannou tem o dim mak.

A vitória acachapante em 45 segundos do ex-desafiante dos pesados sobre Curtis Blaydes estabeleceu não só a freguesia do americano perante o camaronês, mas também a confiança no cavalo africano. Logo no começo foi possível perceber que Ngannou estava ligado na intenção de Blaydes explorar sua defesa de quedas. Com boa mobilidade e tempo de reação, Francis impediu a aproximação de Curtis e o manteve a uma distância confortável – confortável para Ngannou, obviamente.

Na alça de mira, poucos são capazes de sobreviver a uma mãozada de Ngannou. O cruzado de direita nem pegou em cheio, meio que resvalou na tampa do cocoruto de Blaydes, mas foi o suficiente para fazer o cérebro chacoalhar contra as paredes da caixa craniana. O americano caiu de cara no chão em duas etapas – caiu e acabou de cair com a cara no chão ao tentar se levantar rapidamente.

Uma vitória de Blaydes alinharia a parte de cima da divisão dos pesados, criando um claro candidato a desafiante e daria um ar de renovação mais do que necessário à categoria. Ngannou (e não só ele) espalhou as peças todas no tabuleiro e atrasou o lado da evolução.

Alistair Overeem renasce para também bagunçar os pesados

Com duas derrotas seguidas e três nas últimas cinco, Alistair Overeem parecia dar sinais de cansaço, haja vista a barriga de verme que andou ostentando nos combates anteriores. Nada como lutar na China, longe das garras da USADA, sob autorregulação do UFC. O holandês apareceu com uns brações enormes, trapézio batendo na orelha parecendo pad de futebol americano e serrátil riscado. O problema do malandro é achar que todo mundo é bobo. Estamos de olho.

Enfim, enquanto nada é provado, deixa Overeem aí. Ele tinha uma missão encardida de encarar o melhor prospecto da categoria fora do UFC. Sergei Pavlovich, 12 anos mais jovem, tinha a vitalidade e potência para alargar a draga de The Reem. O problema é que o russo não contava com a volta do “Demolition Man”.

Assim que Overeem percebeu que Pavlovich o pressionaria, conseguiu levar a luta ao solo com um quase empurrão, caindo por cima no controle posicional. Mão esquerda no pescoço, marretadas de direita na cara do russo, que quase apagou depois de umas cinco pancadas.

Pavlovich seria uma excelente adição ao ranking dos pesados em caso de vitória, mas talvez os octagon jitters tenham minado suas energias. Ele tem idade suficiente para aprender as lições da derrota e se recuperar. Já Overeem… bem, vejamos como vai aparecer para lutar nos Estados Unidos novamente.

LEIA MAIS Alistair Overeem frustra estreia de Sergei Pavlovich com nocaute no UFC Pequim

Futuro pode ser brilhante para Yadong Song

A principal expressão da evolução do MMA chinês é o garoto Yadong Song. Neste sábado, ele se tornou apenas o terceiro sub-21 a começar a carreira no UFC com 3-0 (os outros são Vitor Belfort e Robbie Lawler). Yadong parece mais consciente em ação do que Sage Northcutt, outro prodígio que venceu três com menos de 21 anos, embora não consecutivamente.

É verdade que o “Monge do Kung Fu” precisa melhorar em vários aspectos (ah vá). Ele ainda se empolga e acaba se expondo, o que é normal para um moleque de 20 anos. Ele ainda precisa de mais consistência tática. Porém, tem muito marmanjo que não se movimenta como Yadong, por exemplo. Esta foi a chave para a vitória sobre o bom prospecto Vincent Morales.

Vários traços do kung fu são observados no jogo de Yadong. Ele tem a sabedoria de variar a velocidade das ações, ora explodindo, ora baixando o ritmo, mas sempre com um bom volume de golpes e maior contundência. A gama de chutes também vem da arte chinesa. Estas características ganham mais valor com a velocidade de Yadong, que fez o também rápido Morales parecer um lutador lento. Para coroar a atuação, Yadong trouxe as quedas à baila no terceiro assalto, trabalhando o ground and pound para evitar qualquer tentativa de recuperação do americano.

Não dá para negar que um futuro brilhante se abre diante de Yadong Song. Se eu fosse ele, continuaria evoluindo com o povo do Team Alpha Male, mas já pensaria numa mudança, nem que fosse para troca de experiências, na ATT ou na Tristar Gym, locais onde ele pode adquirir uma consciência tática mais diversificada.

LEIA MAIS Song Yadong prevalece sobre Vince Morales com base na velocidade no UFC Pequim

Mais uma vitória do melhor pior lutador do mundo para aquecer os corações

Tive dúvida na hora de mandar o palpite para o confronto entre Li Jingliang e David Zawada. O encontro entre dois psicopatas poderia muito bem acabar com um corpo estirado no chão. Foi assim mesmo. Sorte que ouvi meu coração e apostei no melhor pior lutador do mundo e o mais feio entre os lindos (olha só essa foto aí do lado, que negócio maravilhoso).

Provavelmente Li e Zawada vão chegar a lugar algum, mas vão sempre protagonizar momentos como o desta manhã. Os caras trocaram chumbo grosso desde o começo, com o alemão mandando o chinês a knockdown na primeira parcial. Com uma dieta sólida de chutes baixos, que assaram a coxa de David, Li quebrou a movimentação do europeu e o transformou num alvo mais estático.

Foi assim que o “Sanguessuga” deu contornos finais ao duelo. Com Zawada em dificuldades, tentando sem sucesso mudar o nível e levar o combate para o solo, Jingliang largou uma bica lateral na boca do estômago de David, que dobrou de dor. O asiático só precisou de alguns conferes para convencer o árbitro que era hora de encerrar a contenda.

Não sei se você reparou, mas Jingliang tem seis vitórias nas últimas sete lutas <3.

LEIA MAIS Li Jingliang derruba David Zawada com chute no corpo no UFC Pequim

Resenha MMA Brasil UFC Fight Night China: Outros destaques

– Yadong não foi o único prospecto chinês a brilhar na Cadillac Arena. Zhang Weili chegou à 18ª vitória consecutiva na carreira (ela só perdeu a primeira). Contra a ex-número um do mundo Jessica Aguilar, a chinesa se mostrou um motorzinho e passou o carro na veterana, espancando-a no ground and pound e conseguindo a vitória por armlock em pouco mais de três minutos.

– Falando em JAG, ela mostra como o UFC transforma o MMA. Antes de a organização abrir o peso palha, Aguilar reinou como a melhor do mundo na divisão. É verdade que a idade (36 anos) chegou e as lesões atrapalharam muito, mas Jessica não consegue mostrar no octógono o nível que fez dela campeã do WSOF e campeã moral do Bellator.

– Voltamos aos primórdios do UFC, quando o narrador anunciou “o homem de um só nome” Kimo (antes de o povo saber que havia um sobrenome Leopoldo). Neste UFC China, apareceu o “Águia Tibetana” Sumudaerji.

LEIA MAIS Todos os resultados do UFC China

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.