Por Alexandre Matos | 11/11/2018 14:06

Neste primeiro evento no horário de verão, cogitei seriamente a possibilidade de felipar(*) antes da luta coprincipal do UFC Denver. Ainda bem que tenho dignidade e me mantive acordado. Jamais me perdoaria se deixasse de assistir ao vivo a um dos nocautes mais sensacionais da história.

(*) felipar: verbo intransitivo; capacidade de uma pessoa dormir na parte mais importante de um evento, partida ou filme; ato popularizado pelo nosso colunista Felipe Freitas.

Além desse nocaute, histórico em varios aspectos, o UFC Fight Night 139, que comemorou os 25 anos do UFC na mesma Denver do primeiro evento, teve belas finalizações, demonstrações de vontade, prospectos surgindo, veteranos se recuperando.

Mas, caras, que nocaute sinistro.

Nem sei o que falar do nocaute de Yair Rodríguez

Se algum vizinho aqui de casa ler essa resenha, vai ficar bolado comigo (e com esse subtítulo acima), haja vista o sonoro CARAAAALHO que eu larguei às 04:20 da madruga. Se alguém reclamar, vou dizer que foi culpa do Yair Rodríguez. Para surpresa de ninguém, “El Pantera” e o “Zumbi Coreano” Chan Sung Jung fizeram uma luta legal demais. Para surpresa de qualquer ser vivo sobre a Terra, a luta acabou de um jeito que nem roteirista de filme mentiroso seria capaz de escrever. Mas daqui a pouco eu falo do fim.

O principal ponto de decisão do combate foi o trabalho de boxe de Rodríguez, para o bem (dele) e para o mal (dele). Deu para perceber algumas melhorias. A principal delas: o bloqueio defensivo que protegeu seu rosto dos golpes curvos do coreano. O sincronismo de quadril e cabeça também ajudou Yair a evitar alguns golpes. E o queixo resistente estava lá quando Jung conseguia quebrar a distância e golpear de dentro do raio de ação.

O mexicano foi também capaz de executar pêndulos e pivôs para evadir-se dos ataques asiáticos. Porém, ele falhou mais do que acertou neste aspecto – e tinha uma justificativa, que só viríamos a saber mais tarde. Para piorar, Yair recuou muito em linha reta. Resultado: se ele fez o sul-coreano desperdiçar socos curvos, os retos entraram à vontade. As lesões nos rostos dos lutadores mostraram essa questão: enquanto o nariz do Pantera sofreu com jabs e diretos, o olho do Zumbi inchou com os contragolpes dos socos curvos.

O outro ponto chave do desenrolar da luta foi uma lesão no joelho que Rodríguez disse ter sofrido ainda no primeiro round. Essa contusão atrapalha a movimentação, especialmente a lateral, o que explica o fato de Pantera ter saído tantas vezes recuando em linha reta, além de ter diversificado pouco o ataque. Ele teve que se resumir a socos esporádicos, chutes na perna e raramente saiu inventando moda, como costuma fazer – sim, teve uma cambalhota em busca do tornozelo de Jung que nunca serve pra nada, mas no dia que funcionar, o executor vai passar de besta a bestial.

E o nosso coreano do coração? Achei que ele deu mole. Faltou a ele também uma leitura da movimentação de Rodríguez para acelerar o ritmo e até conseguir um nocaute. Sempre que um golpe entrou mais justo, o Zumbi deu tempo para o oponente se recuperar.

E o fim? Rapaz, o fim. Esses caras são tão maravilhosos que eu nem consigo ficar puto quando param de lutar para orquestrar a torcida ou se cumprimentar fora de hora. É muito carisma transbordando de lado a lado. Numa dessas paradas, a dez segundos do fim, pensei: “Fim de luta. Zumbi malandro percebeu que venceu e agora vai dar aquela cozinhada depois de ouvir a madeira bater”. Que nada.

O mexicano tentou um último ataque e o que Jung fez? Justificou o apelido e aceitou a pancadaria, atrás de um nocaute que ele não precisava. Quando o Zumbi avançou, totalmente desprotegido, lançando soco ao léu sem nenhuma base de equilíbrio, Pantera foi genial. O mexicano mandou um pêndulo e, na volta, subiu com o cotovelo em riste. Lembra do elbow uppercut do Anderson Silva no Cage Rage contra o Tony Fryklund? Então, pega aquilo e multiplica por três. Eu até cheguei a ver o pedaço de braço subindo no momento, ao vivo, mas achei que era mais um factoide do Pantera. Quando vi o Zumbi no chão estrebuchando, pensei “né possívi…” e soltei o “caralho!” que falei lá em cima. Alguma coisa tinha que ter acontecido. Sei lá, alguém deu um tiro da torcida ou tacou alguma coisa no Zumbi. Nada disso, foi uma cotovelada do além, que mal tinha posição para encaixar.

 

 

Ainda que estivesse a ponto de perder a luta e que tenha que rever alguns erros cometidos (e entender o quão a lesão no joelho colaborou com esses erros), Pantera é mais um da nova geração dos penas a bater um veterano da categoria que mais se reinventa.

Sobre bônus, agora não é hora de pensar se esse foi o nocaute do ano. Minha dúvida é se foi o nocaute mais sensacional da história do UFC. No último segundo da última luta comemorativa dos 25 anos do UFC. Tem coisa melhor?

Donald Cerrone entrou doido para perder e saiu cheio de recordes

Mais jovem e menos desgastado, Mike Perry tinha um caminho claro para vencer Donald Cerrone: manter a luta em pé o máximo de tempo possível e conseguir um nocaute na segunda metade da luta. O que ele fez? Merda.

Estava claro desde o começo que o “Cowboy” tinha interesse na luta agarrada. Sempre que possível, ele tentou travar a movimentação de Perry no clinch ou arriscou uma entrada de queda. E como eram movimentos mais lentos que os do rival, Cerrone corria sério risco de ser pego por um uppercut, uma joelhada ou uma cotovelada. Perry, no entanto, facilitou a tarefa do rival e não trabalhou combinações, ficando apenas à espreita do golpe derradeiro para arrancar a cabeça de Donald.

O ponto em que a diferença técnica é mais clara a favor de Cerrone é o chão. Pois foi Mike quem decidiu lutar lá, aplicando uma queda a partir do clinch. Ok, caiu por cima, de guarda passada. Tinha meios de punir o oponente e abrir caminho para a vitória mais para frente. Pois bem, Perry inventou de tomar uma invertida linda, mas que um jiu-jiteiro minimamente decente não permitiria. Depois, novamente por cima, resolveu escalar a guarda do Cowboy e foi capturado num triângulo que rapidamente virou uma chave de braço. Em vez de defender a posição, Perry tentou arrancar na marra. Ficou com o cotovelo preso e teve que batucar.

O resultado levou Cerrone à 21ª vitória no octógono. Ele deixou Michael Bisping e Georges St. Pierre para trás, firmando-se como quem mais venceu na história do UFC. De quebra, a finalização foi a 15ª na maior organização do MMA mundial. Cerrone superou Anderson e Vitor Belfort como quem mais conquistou interrupções na história do UFC.

Germaine de Randamie tem vitória quase protocolar sobre Raquel Pennington

A diferença técnica no striking entre a ex-campeã do peso pena Germaine de Randamie e a ex-desafiante do peso galo Raquel Pennington beira o constrangedor. Basicamente a única opção para a americana era levar a holandesa para o chão. Num deu ¯\_(ツ)_/¯

A missão era espinhosa não só porque grudar na “Dama de Ferro” implica em lidar com um thai clinch punitivo, mas também porque atualmente Germaine defende quedas muito bem contra alguém que não seja uma perita em derrubar. Como Pennington não é uma Ronda Rousey, Miesha Tate ou Sara McMann, a europeia ficou à vontade na luta.

Fora o começo mais forte de Rocky, De Randamie levou o combate na maciota, aplicando alguns golpes potentes todas as vezes que a rival tentava crescer. Com o controle da distância nas mãos, Germaine praticou tiro ao alvo com jabs e chutes baixos. Não apertou o ritmo em momento algum, mas também não passou nenhum sufoco ou ritmo. A luta acabou sendo monótona, mas De Randamie conseguiu seu intento de vencer categoricamente uma adversária difícil de ser nocauteada.

Thiago Moisés errou tudo o que podia em sua estreia oficial no UFC

Revelado no primeiro episódio do Contender Series Brasil, Thiago Moisés estreou no UFC contra um adversário bem mais complicado que estreantes costumam encarar. O ex-top 10 Beneil Dariush já tinha dado mole em ocasião como esta e não repetiria a dose.

O brasileiro veio ao octógono como dono de vários movimentos plásticos, inclusive uma das finalizações mais bacanas da história, um armlock helicóptero. Porém, o UFC não é RFA e Dariush não é Dave Castillo. Thiago teve chances de perceber que o caminho adotado não o levaria a lugar algum, mas ele insistiu.

Primeiro, a guilhotina. No MMA, só se aplica esse estrangulamento por baixo se você não tiver outra alternativa. Em pé, tem que saber muito bem o que está fazendo. O paulista de Indaiatuba trouxe o iraniano para sua guarda em todos os assaltos por tentar puxá-lo numa guilhotina que dificilmente renderia frutos. Por cima, Benny foi sólido, não deu espaços para o faixa-preta trabalhar, não perdeu posição e ainda teve suas chances de finalizar o brasileiro. Assim foi por todo o combate.

O que Moisés poderia ter feito? Dinamismo em pé. Ele tem ferramentas para variar ataques constantes e se movimentar a fim de impedir a aproximação de Dariush. Não sei se bateu uma certa arrogância de se achar superior na arte suave, não tenho como analisar isso. Mas deu essa impressão. Seja como for, agora Thiago precisa voltar vários passos e refazer sua escalada contra oposição menos qualificada.

Outros destaques do UFC Denver

Maycee Barber e Hannah Cifers fizeram um duelo de muita intensidade, muita disposição e muitas falhas técnicas. Melhor para a primeira, que tem mais recursos e mais potência. Pior para o árbitro, que deixou Cifers apanhar mais que o necessário antes de decretar o nocaute técnico.

Davi Ramos conseguiu a terceira vitória seguida, todas por mata-leão. Natural para um campeão do ADCC da qualidade dele. Para melhorar, o adversário John Gunther não é o maior dos craques. Davi não tem nada com isso e fez o dele, finalizando em menos de dois minutos. Depois, na entrevista, desafiou Khabib Nurmagomedov (!) dizendo ser melhor que o campeão em vários pontos do jogo (!!!). Socorro.

– No combate que deveria ter acontecido na semifinal do TUF 27, o favorito Luis Peña perdeu e confirmou o título do torneio para Mike Trizano. O “Violento Bob Ross” foi lento, pouco diversificado e não conseguiu se desvencilhar dos ataques de Trizano, que tampouco foram dos mais volumosos.

– Polêmica, polêmica, polêmica. Na maior surpresa da noite, Bobby Moffett venceu Chas Skelly com um triângulo de mão. O primeiro ponto foi que Skelly em momento algum apagou, bateu ou gritou em desistência. Ele manteve suas pernas longe de Moffett para proteger a pressão do estrangulamento e rodou junto com o adversário no solo. Então, o árbitro errou? Bem, eu teria deixado seguir, mas não condeno o homem de preto, que chegou perto e mediu a resistência do braço de Skelly. Naquele momento, o braço esquerdo do lutador estava rendido entre as virilhas de Moffett e o direito não fazia menção de defesa. Dava para ter esperado mais um pouco, talvez o estrangulamento arrefecesse, mas eu não condeno o árbitro, que manteve a decisão após ver o replay.

Sobre a decisão ter sido nocaute técnico e não submissão, trata-se de uma interrupção do árbitro sem que Skelly tivesse desistido em suas várias possibilidades de desistência. O árbitro simplesmente decidiu interromper a luta. E quando isso acontece, o resultado oficial é nocaute técnico, não importa se foi dentro de um triângulo de mão.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.