Por Alexandre Matos | 28/10/2018 13:00

De vez em quando o UFC visita umas cidades cuja população provavelmente jamais esperaria receber o octógono mais famoso do mundo um dia. Neste sábado, a vez foi de Moncton, cidade de menos de 80 mil habitantes na costa leste do Canadá. A “Hub City” sediou o UFC Fight Night 138, evento que entregou o que prometia: muito pouco.

Foi difícil lutar contra o sono, mas deu para ver a divisão dos meios-pesados tentando se reinventar (seja lá a qual custo), uma tentativa de emular alguém que de tão mal feita chega a ser engraçada. Deu pra ver até luta legal, ora vejam vocês.

Vamos em frente filtrar o que o UFC Moncton nos trouxe de relevante.

Olha o bonde sem freio do Anthony Smith!

Não que eu ache o Anthony Smith um lutador pereba. Isso eu achava quando ele migrou do Strikeforce para o UFC no encerramento do primeiro. Hoje, ele é bem melhor do que na época em que foi finalizado em sequência para Roger Gracie e Antonio Braga Neto. Ainda assim, nunca achei que ele tivesse futuro seja no peso médio ou no meio-pesado. Parece que me enganei mais uma vez.

Livre das agruras do corte de peso, a absorção de golpes de Smith passou a ter um papel preponderante em sua escalada. Neste sábado, contra Volkan Oezdemir, eu diria que foi o principal fator da vitória do americano. Como esperado, o suíço imprimiu um forte ritmo no começo, que levou vários oponentes à vala em outros momentos. Smith resistiu a ponto de ver seu rival sucumbir fisicamente. A partir dali, a tarefa ficou facilitada.

No cenário de terra arrasada que se tornou a outrora melhor categoria do UFC, Smith tem duas características importantes para suportá-lo na escalada: poder de encaixe de golpes, dito acima, e de capitalizar as oportunidades. Ao bater o número dois da divisão, Smith olha para frente e vê Alexander Gustafsson, Jon Jones e Daniel Cormier. Por este ponto de vista, Smith chegou no seu limite. Não imagino que ele tenha chance contra o vencedor de Jones-Gustafsson 2, mas um processo de amadurecimento para quem ainda tem uns anos pela frente pode deixar a conversa bem interessante. Eu apostaria nele contra Jan Blachowicz, Ilir Latifi, Jimi Manuwa, Ovince St. Preux ou Glover Teixeira. Gostaria bastante de vê-lo contra Dominick Reyes. Com Cormier fora e Jones ainda como uma incógnita, quem sabe um dia?

E Oezdemir? Sempre terá emprego enquanto promover lutas animadas e enquanto for uma constante ameaça em terminar os combates a qualquer momento. Porém, é outro que também chegou no seu limite – ou até foi longe demais. Com um condicionamento cardiorrespiratório curto e grappling defensivo inexistente, Volkan só terá sucesso em combates escolhidos a dedo, contra oponentes que lhe permitam jogar. Conforme vai ficando cansado, vai se expondo ainda mais. Chegou uma hora que eu falei que ele acabaria na vala – e Volkan estava vencendo até aquele momento. Não deu outra. Ele se aproximou perigosamente do palhaço de braço esticado, doido para colocá-lo no colo. Não deu outra, Smith por finalização em mais uma virada.

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Michael Johnson bateu o clone falsificado de Conor McGregor

A gente já sabe que Artem Lobov só está no UFC porque é amigo do Conor McGregor e o irlandês manda prender e manda soltar na empresa presidida por Dana White. Então vamos deixar esse assunto de lado. Vamos falar da capacidade técnica do russo. Ou da falta dela.

De tanto treinar com McGregor, de ver McGregor em ação, era natural que Lobov acabasse tentando espelhar alguns movimentos do irlandês. É uma baita influência, já que o Notório é um dos melhores strikers do UFC. Porém, Artem é pereba. Aí, quando um pereba tenta emular um craque, fica parecendo o Renê tentando se basear no Junior Capacete ou o Pará espelhando o Leandro Peixe Frito. Óbvio que vai dar errado.

Tem horas que Lobov beira o constrangedor. Ele baixa a guarda e se posiciona na diagonal, como faz McGregor. As semelhanças acabam aí. Artem não consegue repetir a base falsa de Conor. Como tem a cintura dura e jogo de pernas travado, Lobov fica restrito a jogar os braços de qualquer jeito. Isso pode funcionar contra o baixo clero, mas não contra um boxeador como Michael Johnson. Os chutes rodados que ele cometeu chegaram ao ponto de constranger. Sua capacidade de entretenimento reside em oferecer a cara como manopla para treinos de tiro ao alvo enquanto ele tenta uma braçada que acerte absolutamente na sorte o botão liga-desliga de alguém. Como disse antes, vai funcionar contra o baixo clero. E somente às vezes.

Do lado de Johnson, foi legal ver um lutador de alto nível voltar a render bem, ainda que o oponente tenha sido sob medida. A vitória sobre Fili não tinha sido nada animadora, então o futuro no peso pena estava em xeque. Se vencer Lobov vale quase nada, lutar 15 minutos num ritmo bom depois do corte de peso pode representar um sopro de esperança. Boxe alinhado, jogo de pernas, versatilidade nas combinações, ele nunca perdeu. Como confiança é chave num esporte profissional qualquer, Michael estava seriamente abalado. Vamos ver se esse presentão do Sean Shelby vai ajudá-lo. O peso pena agradece a presença de mais um lutador de alto nível.

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O que fizeram com o peso meio-pesado?

Como eu disse ali em cima, o meio-pesado já foi a melhor divisão do UFC. Tudo bem que isso tem uns oito anos. Mas aí a gente olha pro ranking e, cara, Patrick Cummins ainda está lá.

Nem o próprio achou que um dia chegaria ao UFC. Estava vendendo batata frita num fast food quando lembraram de seu passado com Cormier na seleção americana de wrestling para uma substituição de última hora. Cummins quase foi responsável por tirar Cormier dos Jogos Olímpicos de 2004, o qual DC acabou como semifinalista. Venderam para o público de MMA que Cummins tinha wrestling para vencer Cormier. E a reputação era merecida: vice-campeão da D1 da NCAA, integrante da seleção. Ele é bom mesmo. Porém, existe um negócio chamado adaptação da modalidade de origem para o MMA. E nisso o Cummins é bem limitado.

Eu apostei no Misha Cirkunov por ser mais versátil e ter melhor QI de luta. Porém, imaginava que o letão naturalizado canadense conduziria a luta em pé, com o cuidado que faltou na derrota para Oezdemir. Se Antonio Cara de Sapato levou prejuízo na luta agarrada contra Cummins, pensei que Cirkunov adotaria outra abordagem. Qual não foi a minha surpresa quando o jiu-jiteiro botou o wrestler de costas para o chão. Ainda que Cirkunov tenha sido um judoca de algum talento, foi muito vergonhoso para Patrick. Aí, no chão, com Misha por cima, o passeio era esperado.

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Cummins deve sair do ranking em breve. Quem estava lá até pouco tempo era Gian Villante. RIP meio-pesado.

Villante treina todos os dias com Chris Weidman e Stephen Thompson. Ou seja, ele tem como parceiros e amigos um grappler de elite e um striker de elite, ambos entre os melhores do mundo em qualquer categoria de peso. Incrivelmente, Gianpiero não consegue aprender. Ex-wrestler da Hofstra University, ele mal lembra o que é wrestling hoje em dia. E melhor que seja assim, pois quando lembrou ontem, quase infligiu uma autoqueda. Na troca de golpes, a situação não é muito melhor, com um péssimo controle de distância, que o faz lançar golpes desequilibrados e desprotegidos. Não à toa ele apanha que nem mala velha em todas as lutas.

Ah, Villante teve também uma grande carreira como middle linebacker no ensino médio e na faculdade, então vão falar que seu condicionamento atlético é bom. Risos. Talvez tenha sido um dia. Hoje, ele tem muito mais coragem do que juízo para defender soco com a cara quando começa a se arrastar pelo octógono.

A sorte de Villante é que esse estilo de bateu-levou empolga as arquibancadas, ainda que aconteça num espetáculo dantesco de técnica. Nada melhor para isso do que ter Ed Herman como adversário. Villante é ruim, só não perdeu porque Herman é pior. Quando a luta terminou, a transmissão recuperou os ~melhores momentos. Parecia esquete dos Trapalhões. Só faltou alguém entrar gritando “É caflito!”

Ed tem duas vitórias em cinco anos. Sabe-se lá como ainda está empregado. Se bem que isso deve mudar nesta segunda-feira. Se o RH não chamá-lo agora, o Fred vai aparecer no microfone da Globo dizendo que o setor tem que acabar.

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Outros destaques do UFC Moncton

– Houve um tempo em que Court McGee e Alex Garcia eram lutadores muito empolgantes. Então, quando o UFC escala um contra o outro, imagina-se um duelo candidato a melhor da noite. Passaram longe. Cheio de clinch, travado, o confronto não empolgou ninguém. Serviu para recuperar a estima de McGee, camarada com uma tremenda história de vida. Ok.

– O bônus de luta da noite saiu para o combate que mais prometia mesmo, a vitória de Nasrat Haqparast sobre Thibault Gouti. Logo atrás veio a vitória de Andre Soukhmanthath sobre Jonathan Martinez.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.