Por Alexandre Matos | 02/06/2018 03:12

Ainda bem que as duas lutas principais salvaram o UFC Fight Night 131, porque eu vou te contar. Na verdade, quando o evento é sonolento, a luta principal dura meio minuto, tipo Mike Tyson nos anos 80. Aliás, baita analogia.

Até dá para pescar alguns bons momentos em Utica. Nocaute relâmpago, vareio de super prospecto, passeio de outro e… e…

Bem, seguem as minhas reflexões do UFC Fight Night Titica e vamos ao debate.

Marlon Moraes é um vândalo

Esqueça toda a ladainha de possibilidade de luta tensa, de pancadaria. Marlon Moraes está em modo destruição no UFC. Nesta sexta, ele transformou o excelente Jimmie Rivera em sua mais nova vítima.

Lembra de quando a gente era guri e ficava escondido da mãe até tarde para assistir às lutas do Mike Tyson? Então, eu nem precisava me esconder porque minha mãe assistia comigo, mas hoje eu lembrei daquela época. Tremenda expectativa depois de um evento que se arrastou a noite toda para o friburguense largar a canela na cabeça de Rivera e tirar escalpo do americano. Jimmie caiu parecendo que estava ligado, mas Marlon não perdeu tempo e fechou o caixão com uma bateria de socos. Sorte que o árbitro Dan Miragliotta se assustou com a bicanca e já estava na boca da botija para interromper a luta. E você levou mais tempo para ler isso do que Marlon para vencer.

Como o peso galo é um covil de monstros, periga Marlon não ser convocado para disputar o cinturão contra o vencedor da revanche entre TJ Dillashaw e Cody Garbrandt. Talvez pese a derrota para Raphael Assunção. Tem a sombra de Dominick Cruz. Seja lá o que for, o futuro de Moraes é sensacional.

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Eu já falei que Gregor Gillespie é um animal, né?

A escalada de Gregor Gillespie rumo ao topo segue firme. A senda de destruição deixou mais um pelo caminho. Vinc Pichel pareceu uma baranga, coisa que ele não é.

O combate não teve equilíbrio em momento algum. A diferença de velocidade e de técnica a favor de Gillespie beirou o constrangedor. Ele derruba com facilidade e já cai com a pegada firme, postura sólida, sem dar um centímetro de espaço para o oponente se virar. Aliás, um centímetro para Gillespie é um latifúndio, pois ele usa o par terre para reaplicar uma queda e deixar o corpo do adversário numa posição mais favorável às suas transições.

Até mesmo nos detalhes, Gillespie brilhou: riding position com o quadril colado ao corpo de Pichel e pisando no pé do rival, transição para a posição de cem quilos metendo a cabeça na cara do oponente, front lock. Quando Vinc tentou verificar o que estava acontecendo, acabou preso num katagatame. Parecia tranquilo, pois Gillespie estava na meia guarda. Que nada, pegou assim mesmo.

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Depois reclamam que eu reclamo de peso pesado

Para surpresa de ninguém, Walt Harris e Daniel Spitz fizeram uma luta tosca. Mas nada foi mais tosco do que Spitz emulando o Dominick Cruz do upside-down, a terra em que o Cascão toma banho e eu gosto de programas em que populares disputam competição de cozinhar.

Harris até sabe jogar um jab – bem, pelo menos quando o referencial é o Spitz. O problema é que ele lança um golpe e o próximo sai uns cinco minutos depois. Para piorar, Daniel pareceu ter machucado a mão no primeiro round e a luta quase foi parar no terceiro. Por sorte, um dos socos bissextos de Harris derrubou Spitz e fez o árbitro acordar no octógono.

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Julio Arce ajudou a salvar a noite e a me manter acordado

Os leitores do MMA Brasil há um tempinho já sabem que devemos ficar de olho em Julio Arce. O novaiorquino venceu a segunda em duas lutas no UFC contra um oponente que colaborou bastante com seu jogo.

Arce é um boxeador muito técnico e rápido. Por ser canhoto e deter uma habilidade maior que a média de seus pares no MMA, ele transforma aquela “esgrima de braços” em situação favorável. Quando o oponente é um sujeito agressivo e afoito como Daniel Teymur, o cenário fica bem claro.

Depois de um começo mais lento, quando os chutes do sueco funcionaram, o boxe do descendente de colombianos passou a comandar as ações. Sem técnica para vencer a briga dos jabs, Teymur viu os diretos e chutes de Arce entrarem à vontade. Restou ao europeu a tentativa de parar a luta no clinch, mas ele sequer conseguiu cansar os braços de Julio.

Para fechar a boa atuação, Arce conduziu o oponente ao solo no terceiro assalto e foi hábil para pegar suas costas, travar o corpo de Teymur no triângulo com as pernas e fechar o mata-leão que finalizou a parada na marca de 2:55 da terceira etapa.

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Ben Saunders vence batalha de decrépitos contra Jake Ellenberger

Ben Saunders

Ben Saunders

“Agora o Ellenberger chegou no fundo do poço!”, bradou alguém num dos grupos do WhatsApp.

Agora? Na verdade, Jake Ellenberger abriu a porta de calabouço no fundo do poço e caiu no buraco negro. Ele foi nocauteado em menos de dois minutos por Ben Saunders, que eu jurava que estava mais acabado que o “Juggernaut”.

Pelo menos vontade não faltou aos dois. Ellenberger tentou ser mais agressivo, mas cometeu um erro de movimentação e acabou grampeado no thai clinch. Como Saunders é pura quina, largou duas joelhadas que enterraram Ellenberger.

Na comemoração, Saunders começou a berrar como se estivesse possuído por um encosto maldito e teve o despautério de dizer que tem o thai clinch mais mortal do MMA e que, em forma, nenhum meio-médio consegue vencê-lo. Até mudei de canal, vai que é contagioso mesmo via satélite.

Por que alguém ainda espera alguma coisa de Sam Alvey e Gian Villante?

Quando a luta entre Sam Alvey e Gian Villante estava para começar, lancei uma enquete marota no nosso grupo de colaboradores no WhatsApp:

Villante-Alvey será:

( ) pancadaria louca
( ) ó 👌🏻 uma bosta

Tratei eu mesmo de dar a primeira resposta, obviamente na segunda opção. Eis que, para meu espanto, havia gente torcendo pela primeira.

Como muito bem disse Gabriel Carvalho, o Alvey é tão gente boa que a gente até esquece que ele é ruim. E como também bem disse Diego Tintin, houve um tempo em que Villante era um prospecto interessante, com bons nocautes, atleticismo e uma base forte no wrestling. O problema é que descobriu-se que QI de luta não é sua maior especialidade.

Villante e Alvey fizeram uma luta lenta e de pouca ação, para surpresa de ninguém (pelo menos não de mim). Villante foi melhor menos pior em quase todo o duelo, mas fez tão pouco que o knockdown sofrido no fim do primeiro assalto virou a parcial a favor do Risonho.

Passei parte do terceiro assalto no banheiro tentando escutar o que acontecia na luta. Mal ouvi barulhos de pancadas, o que me dava a certeza de que a luta seguia na mesma toada, com nego zanzando pelo octógono e nada acontecendo. Numa situação dessa, nem dá para dizer que foi garfo, mas sim que Villante conseguiu uma baita proeza de perder para um sujeito mais lento que ele.

Foto de destaque: Gregory Fisher/USA TODAY Sports