Por Alexandre Matos | 22/04/2018 04:29

Mais um belo evento foi para a conta neste empolgante mês de abril para a maior organização do MMA mundial. O UFC Fight Night 128 teve diversos ingredientes que fazem deste esporte um dos mais apaixonantes: guerras, nocautes, demonstrações de coragem, de técnica. Teve até resultado esquisito, vejam vocês.

Acompanhem aí embaixo os meus pensamentos sobre o UFC Atlantic City e vamos ao debate.

Kevin Lee passa por cima dos conhecidos defeitos de Edson Barboza

Edson Barboza apresenta certos defeitos, ofensivos e defensivos, desde sempre. Como sua taxa de evolução é bem lenta para a posição que ocupa na divisão mais ferrenha do MMA, seu jogo passa a ser mapeável. Em alguns casos, ele fica restrito praticamente à chance do nocauteador. Foi o que aconteceu neste sábado contra Kevin Lee.

No fim do ano passado, Barboza teve uma péssima experiência contra Khabib Nurmagomedov. Muitos acreditaram que aquilo só aconteceu porque o atual campeão é um monstro. Bom, o UFC Fight Night 128 mostrou que não é bem assim. Lee usou os mesmos expedientes, explorou as mesmas dificuldades do brasileiro e venceu com uma superioridade ainda maior do que a surra aplicada por Nurmagomedov, no UFC 219.

Como nós sempre estamos comentando por aqui, defesa de quedas não pode se restringir apenas a sprawls. O sistema começa na movimentação lateral sem manter um padrão fixo. Este é o defeito mais grave de Edson defensivamente, embora não o maior. Por ter dificuldade de defender quedas contra wrestlers de maior gabarito, o friburguense acaba expondo um problema ainda mais sério, que é a inaptidão lutando com as costas no chão. Sem conseguir evitar quedas e sem conseguir se safar por baixo, está escrita a receita para o desastre.

Por cerca de 13 minutos, Lee passou o trator. Ele não demorou um minuto em cada um dos dois primeiros rounds para ter Barboza chapado no tablado. Dali iniciou-se um trabalho intenso de desgaste físico que logo virou espancamento. Ground and pound duro, passagens de guarda, montadas, tentativas de finalização. A superioridade foi tamanha que Lee passou até a se arriscar em pé. E foi aí que quase a vaca dele foi para o brejo.

A chance do nocauteador deve ser considerada quando falamos de Barboza, ainda que dentro de um limite. Mesmo num cenário de filme de terror, ele encontrou forças para largar um chute alto rodado que fez Lee parecer um bonecão de posto. Aqui entram aplausos para os dois: se Edson mostrou coração para achar o golpe mesmo estando arrasado, Kevin também o fez ao driblar a vala e emendar uma entrada de queda providencial. Novamente no chão, ele conseguiu fazer o cérebro parar de chacoalhar na caixa craniana e recobrou os sentidos. Exausto, Barboza não tinha mais forças para tentar outro daqueles.

Mais atento e respeitando mais o poder de definição de Edson, Lee voltou ao serviço e deu mais dois passeios no quarto e quinto rounds até que o duelo foi interrompido aos 2:18 da última etapa, quando o médico recomendou ao árbitro que Barboza não precisava mais ser submetido àquela situação.

Aos 32 anos, Barboza precisa cuidar da saúde, pois duas surras em menos de quatro meses não faz bem pra ninguém. E quando puder voltar, que pense em adicionar alguns pontos em seu jogo, especialmente uma movimentação mais intensa, tanto ofensiva quanto defensivamente, para começar a minimizar seus defeitos.

Por outro lado, Lee mostra muita solidez aos 25 anos. Como seu ritmo evolutivo é bem mais acelerado, dá para imaginar um belo cenário quando ele alcançar o auge, lá pelos 28.

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Frankie Edgar, é sempre um prazer revê-lo

Eu adoro a sensação de estar acompanhando a história sendo escrita, de ver os melhores em ação. Frankie Edgar é um dos maiores talentos da história do MMA. Neste sábado, deu mais uma prova com outra vitória inconteste sobre Cub Swanson, num cenário que poucos reagiriam bem.

Não tem um mês e meio que Edgar foi brutalmente nocauteado por Brian Ortega. Mesmo tendo sido o primeiro nocaute sofrido, o ex-campeão dos leves já tem acúmulo de danos suficiente para uma parada mais longa. Pois ele resolveu voltar logo. Contra um nocauteador. Na semana em que perdeu o padrasto. Muitos teriam sucumbido, mas Edgar é a resposta perdão.

Dentro de um cenário óbvio no qual a velocidade não é mais a de outrora, a movimentação não tem mais a mesma pressão, as transições não flui tão fácil e o queixo parece estar mais vulnerável, Edgar deu outra aula. Parecia que quem tinha sido nocauteado há 40 dias era Swanson, tamanha a sua timidez. Frankie aproveitou a situação e foi aquele motorzinho, entrando e saindo, carimbando o rosto dos oponentes, com direito até a baixar a guarda e avançar, no melhor estilo de Thomas Hearns.

Assim como Edson, Cub deu um susto no terceiro assalto. Frankie balançou, mas se recuperou logo, a tempo de sequer perder o round. Com um 30-27 claro, Edgar deixou na cabeça de muita gente a dúvida se a derrota para Ortega foi um desvio de percurso. A conferir nos próximos capítulos.

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Justin Willis venceu Chase Sherman

Misericórdia.

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David Branch defende o recorde de Anderson Silva

Acredite se quiser: Thiago Marreta está a um nocaute de passar Anderson Silva na história do peso médio do UFC. David Branch não deixou.

Na prévia, eu havia dito que Marreta tem mais ferramentas no campo do striking. No começo da luta, ele realmente mostrou superioridade, especialmente nos chutes. O problema é que sua defesa não é das mais confiáveis. Foi nisso que me baseei ao dizer que Branch poderia achar o caminho de encurtar para chegar ao clinch e à queda. Foi exatamente o que o americano fez para decidir a luta. E, como foi beneficiado por um erro técnico grave do carioca, o final foi antes do esperado.

David nem precisou botar para baixo. Ele até fez o movimento de jogar o soco para projetar a queda. Por sua vez, Marreta se expôs absolutamente ao abrir um mata-cobra. Na avenida aberta, o soco que faria o trabalho de antecipar a entrada nas pernas teve espaço e tempo suficiente para explodir contra o queixo de Thiago e dar contornos finais ao duelo na marca exata da metade do primeiro round.

 

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Aljamain Sterling tem sua melhor atuação no UFC

Desde antes de ser contratado pelo UFC, eu já vislumbrava um futuro brilhante para Aljamain Sterling. Não era só questão de vencer no circuito regional, mas o talento mostrado em diversas vertentes do jogo me fazia ter essa confiança. Porém, o caminho no octógono estava sendo irregular. Finalmente, neste sábado, ele teve uma atuação sólida o suficiente para recobrar as esperanças contra o talentoso Brett Johns.

Aljo se mostrou mais cuidadoso para não ser vitimado pela joelhada que fez Marlon Moraes nocauteá-lo, medindo as entradas. Esta postura fez com que o galês precisasse se expor e o americano aproveitou várias oportunidades para mudar de nível e levar a luta para o clinch ou para o solo. Mesmo quando errou uma queda e viu Johns acabar montado, Sterling mostrou talento para raspar rapidamente e retomar o controle.

Joelhadas no clinch e no chão, chutes no corpo e combinações de socos foram usados com inteligência pelo americano de origem jamaicana. Ainda que Johns seja um sujeito talentoso, que estava nas conversas iniciais do nosso projeto Top 10 do Futuro, Sterling ainda precisa mostrar sua capacidade contra oposição consolidada do peso galo. Hoje foi um bom começo, mas seguimos ressabiados.

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Jim Miller faz uma triste lista crescer

Semana passada foi Joe Lauzon. Hoje foi Jim Miller. Os caras que nos empolgavam há alguns anos estão vendo cada vez mais os danos de uma carreira longeva e cheia de guerras cobrar o preço. O ex-top 5 legítimo chegou ao quarto revés consecutivo, desta vez contra Dan Hooker, um lutador que, embora mereça mais crédito do que recebe, não venceria Miller em seu auge.

Sem condições físicas para impor sua movimentação de pressão característica e com o queixo em estado duvidoso, não tem mais como Miller seguir como sempre fez. Hooker tem um aguçado sentido de decisão e chegou à sexta vitória no UFC, todas por interrupção, com uma joelhada poderosa que fez Jim desabar junto à grade.

É sempre complicado dizer quando alguém deve parar, mas Miller está se aproximando daquela situação que começa a ficar perigosa à saúde. Talvez seu caso seja como o de Carlos Condit, de amar o que faz, mas sem ter mais as mesmas condições. No UFC 200, Miller se viu inserido num curioso “torneio” entre sujeitos próximos ao fim: ele, Joe Lauzon, Diego Sanchez e Takanori Gomi. Naquela época, eles já estavam sendo considerados em decadência, e aquilo tem dois anos. Como Miller venceu alguns oponentes em condições decrépitas, ficou com a impressão que ainda dava. Depois de hoje, não dá mais. Pelo menos não sem descanso, sem tentar recuperar a carcaça. Férias longas, sem treinos, para ver se a chama apaga ou se ainda resiste. Se resistir, volte no ano que vem, contra alguma carne assada – o que não é fácil de encontrar no top 50 do peso leve.

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O que aconteceu no final de Simon-Dvalishvili?

A melhor luta do UFC Fight Night 128 aconteceu no card preliminar entre o americano Ricky Simon e o georgiano Merab Dvalishvili. Mostrando um jogo evoluído na troca de golpes, com boas transições para a luta agarrada e muita agressividade, Dvalishvili caminhava para uma vitória por decisão quando um dos finais mais esquisitos da história do UFC se concretizou.

Nos segundos finais, Simon lançou uma hail mary na forma de guilhotina da montada com um braço, no melhor estilo Luke Rockhold contra Michael Bisping. Ricky apertou o estrangulamento com força, fazendo o rosto de Merab ficar roxo. Para muitos, o georgiano chegou a apagar. Porém, ele fazia sinal de positivo com uma mão enquanto tentava manter a circulação sanguínea correndo movimentando as pernas como se estivesse pedalando uma bicicleta. A situação agoniante se estendeu por uns bons 40 segundos até que a buzina salvasse a pele de Dvalishvili. O problema é que, segundo a Comissão Atlética do Estado de New Jersey, que desenhou as Regras Unificadas de Conduta do MMA, um lutador não pode ser salvo pelo gongo. E aí começou a confusão.

A buzina soou e todos ficaram aliviados – mais ainda o próprio Dvalishvili. Acontece que o árbitro achou que o mesmo estava apagado quando Simon saiu de cima dele. Por conta disso, mesmo após a buzina, o juizão decidiu que Dvalishvili estava fora de combate e decretou o nocaute técnico. Sim, TKO, não submissão, apesar de ter sido provocada por uma guilhotina. Como Dvalishvili não bateu, não desistiu verbalmente e não foi flagrado apagado durante o estrangulamento, o árbitro não poderia decretar a submissão. A decisão de o árbitro interromper a luta configura nocaute técnico. E, sim, mesmo após o soar da buzina, que serve para avisar ao mediador que o tempo acabou, mas quem termina oficialmente um round é o árbitro. E ele resolveu que Dvalishvili estava apagado. Controverso, mas dentro da lei.

 

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.