Resenha MMA Brasil: UFC Fight Night 127

Por Alexandre Matos | 18/03/2018 00:25

Bastante curioso, este UFC Fight Night 127. O evento, que aconteceu na tarde deste sábado em Londres, mostrou uma muito necessária – e rara – passagem de bastão no peso pesado, mas não se ateve somente a isso.

O UFC Londres apresentou pela primeira vez na história duas lutas definidas literalmente no último segundo, uma delas com o maior favorito da noite caindo; Rocky e Drago vencendo no mesmo dia; alguns integrantes do Top 10 do Futuro em ação e 70% dos combates decididos por interrupção.

Confira as minhas impressões do UFC Londres e vamos ao debate.

Às vezes não é preciso correr tantos riscos, Werdum

Quando se há uma meta clara a alcançar, é necessário um planejamento sólido. Fabricio Werdum estava decidido a reconquistar o cinturão dos pesados do UFC. Porém, aos 40 anos, talvez fosse prudente assumir um ritmo de compromissos condizente com a idade. Na terceira luta disputada em cinco meses, o gaúcho acabou sofrendo o terceiro nocaute de sua carreira, agora pelas mãos de Alexander Volkov.

Quando Werdum esteve em nosso podcast, questionei sobre o risco de encavalar lutas com idade já avançada. O gaúcho disse que se sentia muito bem fisicamente e queria mostrar serviço. Realmente ele aparentava bom estado físico em seus combates mais recentes, mas o exagero uma hora cobraria o preço. Esta hora foi na tarde de hoje.

O ex-campeão começou bem, disposto a não entrar numa competição de macheza desnecessária e tratou logo de derrubar o russo. Ao invés de usar as transições em busca da oportunidade de finalização, Werdum maltratou Volkov no ground and pound, parecendo ter o objetivo de desgastá-lo para facilitar a tarefa no solo. O russo até assustou o brasileiro no primeiro assalto ao encaixar uma sequência de uppercuts e ganchos quando conseguiu se levantar. Werdum conseguiu outra queda e terminou o round por cima, mas já foi para o córner com o olho direito inchado.

No fim das contas, quem se desgastou – e muito – foi o brasileiro. A dificuldade que Volkov teve de defender as quedas de Werdum foi diminuindo à medida que o brasileiro cansava, perdia pujança e se tornava mais previsível. A falta de variação no arsenal de quedas de Fabricio fez com que a tarefa de cair por cima ficasse cada vez mais difícil. Por baixo, Werdum não conseguia arrumar muito graças à boa preparação defensiva que Alexander mostrou. E aí, apanhando por baixo, foi a vez de Werdum cansar. Ele ainda deu uma mostra de seu jiu-jítsu de elite ao girar para pegar as costas de Volkov no terceiro, mas pareceu o último suspiro de energia.

Muita gente disse que Werdum foi irresponsável ao tentar aquela pancadaria franca no começo do quarto round. Não vejo dessa forma. Para mim, ele acabou o assalto anterior tão cansado que sentiu que o gás tinha ido para o brejo. Como acontecera em 2010, contra Alistair Overeem, ainda no Strikeforce, naquela luta bizarra em que ele ficava implorando para Overeem mergulhar em sua guarda. Aconteceu isso contra Volkov, que também não se expôs. Quando Werdum se levantou e partiu para a pancadaria, para mim era um sinal de desespero. Como ele tinha perdido o terceiro assalto, o momento apontava para perder também os dois seguintes, talvez um deles por margem maior que 10-9. Então ele tentou, no desespero, decidir a parada. Decidiu, mas do modo contrário, quando acabou nocauteado por um uppercut e dois ganchos do “Drago”.

Agora não tem jeito, Werdum vai precisar descansar. E provavelmente não alcançará a sua meta. Com duas derrotas em oito meses, ele vê a categoria abrir não só para Daniel Cormier, mas também para Volkov, que está invicto em quatro lutas no UFC, e para Curtis Blaydes, que pode dar mais um passo na renovação da categoria caso vença “The Reem” no UFC 225. A divisão mais rasa do MMA mundial agradece.

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A revanche que ninguém se importava foi a melhor luta da noite

Quando o UFC anunciou a revanche entre Jimi Manuwa e Jan Blachowicz, muita gente fez cara de nojo. Afinal, o primeiro combate entre ambos, há três anos, foi nojento mesmo. Para piorar, a despeito da curta sequência de vitórias do polonês, ninguém espera nada de nenhum deles. Pois a revanche foi divertida.

Mesmo sem acelerar, Manuwa controlou as ações perante um Blachowicz que se limitava aos jabs e não mostrava nenhuma intenção de se aproximar. Quem encurtou foi o nigeriano-britânico, mas levou dois uppercuts dos infernos e foi a knockdown. Manuwa retornou em pé, mas trôpego. Jan não acelerou para definir a parada.

Jimi parecia ainda sentir a pancada na volta para o segundo assalto. Blachowicz teve mais uma vez a oportunidade de acabar com a luta, mas repetiu o receio em apertar o ritmo. Só que o preço que ele pagou foi mais caro. Manuwa se empolgou e largou a canela na cabeça do polonês. A luta então ficou totalmente aberta.

Na terceira etapa, parecia que os dois veteranos poderiam ter um ataque cardíaco a qualquer momento, mas nem por isso desistiram da vitória. A chinela cantou ardida logo no começo do round, os dois ameaçaram tombar, mas Blachowicz logo voltou ao trabalho de jabs para controlar a distância e impedir um fim trágico.

A revanche que ninguém queria ver continua sem relevância para a parte de cima da classificação dos meios-pesados, mas agora, com a rivalidade igualada e depois de um combate animado, o UFC poderia casar o desempate. Aposto que a terceira luta será podre.

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Tom Duquesnoy mostrou evolução por um lado e problemas no outro

Integrante do nosso Top 10 do Futuro, o peso-galo Tom Duquesnoy teve uma atuação boa, embora ainda não suficiente para se confiar nas previsões. Diante da melhor atuação da carreira de Terrion Ware, o jovem francês teve que trabalhar para vencer.

Tom Duquesnoy venceu Terrion Ware no UFC Londres

No mesmo tipo de movimento, Duquesnoy mostrou evolução e dificuldade. Na hora de entrar, bater e sair, ele fez muito bem a segunda parte, de atacar, recuar e se reposicionar para iniciar outra ofensiva. Porém, muitas vezes ele errou no momento de se aproximar e acabou atingido mais vezes que o desejado. No fim das contas, a movimentação do francês acabou positiva por fazer Terrion jogar muitos golpes no vento.

Como tem um forte ímpeto ofensivo e ataca com mais potência, o francês acabou superando o maior volume do americano. Ware teve em seu favor uma movimentação muito bem executada para encarar alguém como o “Fire Kid”, tentando em todo momento estar à frente do europeu, imprimindo uma sensação de pressão que não deixava Duquesnoy trabalhar com a intensidade costumeira.

Duquesnoy usou os chutes baixos para tentar frear o adversário, mas Ware resistiu bem aos ataques e só foi baixar o ritmo mesmo no último round. O americano teve seu melhor momento no segundo assalto, quando teve efetividade maior, mas viu o europeu superá-lo nos outros dois e levar uma vitória por decisão unânime.

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Duas lutas decididas no último segundo, mas com contornos diferentes

Nunca em seus 25 anos o UFC viu duas lutas na mesma noite serem decididas no último segundo. Pois foi assim que Leon Edwards nocauteou Peter Sobotta e Paul Craig surpreendeu Magomed Ankalaev.

No combate que abriu o card principal do UFC Londres, Edwards aplicou um knockdown em menos de um minuto e controlou boa parte do tempo. Sobotta teve um bom momento no segundo assalto, quando tentou uma kimura e uma chave de braço. Porém, o teuto-polonês, que curiosamente resolveu defender a bandeira da Jamaica, cansou e sofreu com um ataque de cotoveladas de Edwards na montada pelas costas. O árbitro Rich Mitchell interrompeu na marca de 4:59 do terceiro e último round.

O outro buzzer-beater da noite foi a maior zebra do ano até o momento. Favorito na ordem de 7 para 1, o daguestani Magomed Ankalaev levava sua luta de estreia sem maiores percalços. Embora sem demonstrar a volúpia dos tempos de Akhmat, o maior prospecto do peso meio-pesado na atualidade controlou Paul Craig sem dificuldade por 14 minutos, 59 segundos e 63 centésimos, mesclando todo tipo de golpes traumáticos, um ground and pound doído e montada. Craig estava tão acabado que caiu ao tentar um soco rodado. Parecia que Ankalaev daria cabo do escocês em mais um ground and pound, mas foi surpreendido com um triângulo tirado sabe-se lá de onde. Com um terço de segundo para estourar a buzina que lhe garantiria um fácil 30-27, Ankalaev batucou em desistência. Passei uns bons dez minutos chocado com isso.

Outros destaques do card preliminar do UFC Londres

Hakeem Dawodu chegou no UFC com a banca de brutal nocauteador do WSOF. Em sua estreia, o canadense não faz a menor ideia do que lhe atropelou. Danny Henry não perdeu tempo, colou na cara de Dawodu e o mandou à lona. Quando tentou se levantar, no desespero, Hakeem acabou preso numa guilhotina e dormiu o sono dos justos em 39 segundos de luta.

Danny Roberts tinha duas derrotas por nocautes violentos em três lutas no UFC. Neste sábado, ele conseguiu sua forra. O inglês se manteve calmo diante dos chutes do carateca Oliver Enkamp e decidiu a parada com um gancho de esquerda que fez o sueco cair fedendo. Até deu a impressão que Enkamp acordou quando bateu no chão, mas a interrupção do árbitro Leon Roberts foi correta ao ver a cena bizarra de Enkamp caindo como se fosse uma marionete que teve as cordinhas cortadas.

– Outro integrante do Top 10 do Futuro em ação foi Dmitriy Sosnovskiy. O peso pesado ucraniano finalmente fez sua estreia depois de dois anos lutando contra contusões. Eu não vi a luta contra o “Deus da Cerveja” Mark Godbeer, pois estava na companhia de Bruno Sader e Thiago Kühl numa churrascaria de terceiro escalão. Comentem aí o que vocês acharam, pois eu já andei lendo que a luta foi um tanto peso pesado.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.