Por Alexandre Matos | 19/02/2018 03:30

Eu adoro horário de verão, mas tava sofrido acompanhar os eventos do UFC. Neste primeiro domingo no horário normal, o UFC Fight Night 126 nos encheu de nocautes para afastar o sono.

Pancadaria com abraços na luta principal, muita loucura entre os pesados, ex-astro brasileiro em decadência, ídolo brasileiro fazendo o possível, haterismo e juízes caseiros foram vistos no Frankin Erwin Center, em Austin, capital do Texas.

Confira comigo o que de melhor e pior aconteceu no UFC Fight Night Austin e vamos ao debate.

Muita intensidade e duas histórias em um round para Donald Cerrone e Yancy Medeiros

Na pesagem e até mesmo durante a luta, Donald Cerrone e Yancy Medeiros mostraram cordialidade. Porém, desde os segundos iniciais do combate, largaram punhos e pernas no outro sem piedade.

Medeiros não demorou a encontrar a distância e levar vantagem nas primeiras trocas, inclusive tentando alvejar Cerrone com chutes na linha de cintura, velha deficiência do “Cowboy”. Donald levou um tempo, mas conseguiu equilibrar as ações, tornando o round difícil de julgar. Porém, o ex-desafiante dos leves foi acelerando o ritmo no final da parcial até pegar o havaiano com uma direita violenta. O chão tremeu para Medeiros, que deu uma sambadinha do Rubinho Barrichello e foi à lona. Cerrone conseguiu a interrupção no ground and pound faltando dois segundos para a buzina encerrar o assalto.

Cerrone chegou à 20ª vitória no UFC, empatando com Georges St. Pierre e Michael Bisping como os atletas que mais venceram na história do octógono. É incrível quando lembramos que o “Cowboy” estreou em 2011, sete anos depois de GSP e cinco após o “Conde”.

Mão de Derrick Lewis entra em luta caótica

Como eu sempre digo, no nível da mais alta elite, se “entrar a mão” é a única alternativa, melhor o lutador nem sair de casa. Porém, Derrick Lewis nem Marcin Tybura estão neste nível de elite, então a patada da “Fera Negra” resolveu a contenda.

Lewis acertou um pedradão, mandou Tybura ao chão e mergulhou no ground and pound. Eu viro pro lado para catar um amendoim na iminência do fim das ações e, quando olho de volta para a TV, Tybura está montado. Quando eu tento entender o que aconteceu, o polonês não está mais montado, mas tampouco a reação que o americano engendrou deu certo. Quando dei por mim, estava ao lado do Cascão, do Cebolinha e do Floquinho andando em círculos. Não faço ideia de quem ganhou o primeiro round, mas isso não fez nenhuma diferença.

O segundo assalto foi bem mais fácil de avaliar até para alguém consumido pelo sono como eu. Depois de gastar tanta energia no primeiro assalto, obviamente o gás de Lewis saiu de Austin, no Texas, e pegou um trem rumo a Austin, em Nova Iguaçu. Tybura não teve dificuldade de derrubar, montar, pegar as costas e bater. A dificuldade apareceu quando esteve nas costas do gigante e se perdeu no corpanzil de Lewis, sem conseguir encaixar o mata-leão. Se o evento estivesse nas regras novas, seria um 10-8 claro para Tybura.

Parecia que Tybura tinha achado o mapa da mina, mas, como dito ali em cima, estamos falando da categoria mais fraca tecnicamente e de dois lutadores que até mostraram evolução, mas não fazem parte da elite. Marcin levava na maciota diante de um exausto oponente, que só fazia tentar escapar de mais uma queda, quando se aproximou demais da grade e levou um cachação na têmpora. Aí, amigos, não tem lero-lero-nem-vem-cá-que-eu-também-quero. Nono nocaute de Derrick Lewis, que empatou com Andrei Arlovski na vice-liderança entre os pesados, com um nocaute atrás do líder histórico, o também ex-campeão Cain Velasquez.

Francisco Massaranduba lutou até o fim, mas não conseguiu escalar a montanha James Vick

Mais jovem, (bem) mais alto, mais ágil, mais veloz e mais versátil na troca de golpes, James Vick era um desafio e tanto para Francisco Massaranduba no papel. Na prática, no entanto, o bravo piauiense fez o possível para cortar as desvantagens. Não deu para vencer, mas deu para arrebatar nossos corações mais uma vez.

Vick se movimentou bastante durante praticamente todo o combate, dificultando muito a tarefa de Massaranduba. O brasileiro não conseguiu aproveitar os 400m² de área do tronco do americano e os 30m de comprimento de pernas para alvejá-lo de modo a quebrar a movimentação do rival e fazê-lo parar diante do poder de punch de Trinaldo.

Ainda assim, Massaranduba conseguiu bons momentos, ainda que poucos, fosse lançando socos para o alto ou tentando uma posição de destaque no chão. O brasileiro teve muita dificuldade em lidar com a longa envergadura de Vick, que usou bem os socos em linha e os chutes no corpo. Francisco tentou uma abordagem cortando em ângulos, mas não teve a velocidade suficiente para eliminar a desvantagem. Na última parcial, a produção ofensiva de Vick despencou e o americano passou a evadir das ações agressivas, porém um tanto descoordenadas, de Massaranduba.

Curtis Millender nocauteia um rascunho de Thiago Pitbull

O ex-desafiante dos meios-médios Thiago Pitbull já foi um bicho hiper agressivo, com mentalidade ofensiva e capacidade de destruição. Isso ficou no passado. O Pitbull atual, bem mais manso, fez o mediano Curtis Millender parecer, a olhos desavisados, o próximo candidato a astro.

Choveram comparações de Millender com Jon Jones. Que deus perdoe essas pessoas ruins. Fora o corpo esguio e longos membros, há pouco em comum entre o estreante e o melhor de todos os tempos. Porém, o atual estágio físico e técnico de Pitbull fez o americano parecer bem melhor do que realmente é.

Foi uma aula de controle de distância e de precisão nos golpes. Porém, isso foi possível porque Thiago, muito mais baixo e mais lento, insistiu na aproximação em linha reta, sem cortar em ângulos, sem movimentar a cabeça e sem velocidade para entrar e sair. Resultado: levou golpes até segunda-feira.

O americano conseguiu um 10-8 na primeira etapa depois de mandar Pitbull duas vezes a knockdown. Se não tivesse parado para comemorar num deles, Millender teria encerrado a parada ali mesmo. Porém, o bravo cearense resistiu aos primeiros cinco minutos, mas não ao round seguinte. Lentão, Thiago mandou um cruzado de esquerda bem aberto. Apesar de manter o punho direito próximo ao queixo, o espaço dado era tão grande que Millender acertou uma joelhada em cheio no maxilar do oponente. Pitbull caiu mal e o árbitro Jacob Montalvo não teve outra alternativa senão decretar o nocaute técnico.

Sage Northcutt conta com benevolência dos juízes e de Thibault Gouti

Ainda com 21 anos, Sage Northcutt mostra diversas deficiências, natural em alguém tão novo. Porém, talvez a pressão imposta pelos haters possa atrapalhar sua escala evolutiva, tamanhas as críticas que ele recebe graças a ter chegado ao UFC ainda como um pós-adolescente e com mais moral que muito veterano tarimbado.

Uma das maiores deficiências do Super Sage, provavelmente a maior delas, é o sistema defensivo como um todo. Depois das duas derrotas e da chuva de críticas, ele tem se mostrado menos confiante e mais preocupado. Como a defesa é esburacada como um todo e o volume ofensivo não é grande o suficiente para protegê-lo, Northcutt acaba alvejado muito mais vezes do que o desejado. Thibault Gouti, que não é um primor de talento, percebeu essas brechas e não teve trabalho para encurtar e acertar o americano diversas vezes. Numa delas, Northcutt mostrou presença de espírito para, mesmo grogue, grudar nas pernas e derrubar o oponente. A diferença de volume de golpes foi relativamente grande a favor de Northcutt, mas as pancadas mais pesadas foram indiscutivelmente a favor do europeu. Isso tornou a pontuação do primeiro assalto bastante complicada.

Os outros dois assaltos não foram tão difíceis de pontuar. No segundo, Gouti trabalhou bem as quedas e se aproveitou da dificuldade que Northcutt tem em se livrar da pressão no chão para acertar alguns golpes. No terceiro, Gouti tentou a mesma estratégia, mas parou na defesa de quedas de Sage e ficou muito tempo travado, recebendo soquinhos e cotoveladinhas que pouco o machucavam, porém representavam ação ofensiva maior do que sua tentativa infrutífera de derrubar.

Se você deu mais peso à contundência de Gouti no primeiro assalto, marcou 29-28 para o francês. Caso tenha preferido o maior volume do americano, concordou com o triplo 29-28 que os juízes marcaram. Luta difícil de pontuar. Eu fiquei com a primeira opção, mas a segunda não me faz abrir a planilha de piores placares do Barangão.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.