Resenha MMA Brasil: UFC Fight Night 125

Reencontro de um ídolo com as vitórias em seu quintal, bons momentos de ação, poucas lutas monótonas, placares caseiros e barbeiragem de árbitro central foram os principais temas da estreia do UFC na Região Norte do Brasil.

Muita gente perdeu o UFC Fight Night 125, que aconteceu na noite de ontem, em Belém, porque a própria imprensa especializada estava detonando a qualidade do card, que não tinha muitos nomes de peso. Ainda bem que existem veículos como o MMA Brasil para avisar que, além de Fight Night ser assim mesmo, o UFC Belém tinha muitas lutas bem casadas e com potencial de entreter. E o evento entregou o que prometia.

Ontem nós vimos um velho ídolo tentando se recuperar, uma forte candidata a cinturão em ação, um brasileiro se especializando em matar Top 10 do Futuro, barbeiragem de árbitro central, barbeiragem de juiz lateral com decisões caseiras. Enfim, aconteceu bastante na Arena Guilherme Paraense, ginásio que viu os lutadores brasileiros descontarem a surra de janeiro com um 9-2 ontem.

Vamos em frente com as minhas reflexões do UFC Belém e ao debate.

Vitória do vintage Lyoto Machida, mas ainda com problemas graves

Lyoto Machida voltou a vencer uma luta desde 2014. Diante de seu público, na cidade que o acolheu ainda criança, ele botou pra jogo a movimentação do caratê que confundia os adversários. Eryk Anders mostrou respeito demasiado pelo ex-campeão dos meios-pesados e acabou dando brecha para mais uma decisão caseira da CABMMA.

Ontem percebemos que nunca faltou gás para o Dragão, que ele ainda consegue girar por 25 minutos. Vimos também que ele ainda é capaz de mudar a trajetória, de inverter base, que a defesa de quedas ainda é de alto nível. Mas também ficou claro que a explosão, característica fundamental no jogo dele, não existe mais. A movimentação intensa serviu para deixar Anders preocupado com a possibilidade de ser alvejado por um contragolpe perfeito, que em momento algum deixou de ser uma ameaça. O americano atacou menos do que se acostumou a fazer e, embora não tenha sofrido maiores danos durante o combate, não foi tão incisivo para levar a vitória na casa do adversário, sob a supervisão de uma das comissões atléticas mais parciais do MMA mundial.

Ainda assim, Anders fez um trabalho mínimo que lhe garantisse a vitória. O primeiro assalto foi o único claro para Machida, que conseguiu mandar o adversário à lona com um chute no joelho e depois ficou pontuando chutando as pernas de Anders, que ficou em posição de guarda no solo. O segundo, que foi motivo de discórdia, nem foi difícil de pontuar, inclusive os poucos momentos de ação deixam claro que Anders conseguiu os golpes mais contundentes – Machida praticamente só tocou o adversário, enquanto o americano teve três ou quatro momentos de explosão em golpes um pouco mais significativos.

Os rounds três e quatro foram claros a favor de Anders – no terceiro, ele abriu uma fenda na testa de Machida depois de uma joelhada no clinch. No quinto, novamente de pouca ação, Lyoto foi inteligente ao se manter um bom tempo com base ortodoxa, o que confundiu Anders em qualquer tentativa de iniciar um movimento ofensivo. O americano ainda aplicou uma queda no fim, mas o brasileiro foi inteligente ao escapar e conseguiu o 10-9 graças às joelhadas no tronco e a alguns chutes e socos em linha reta.

No fim das contas, o brasileiro Guilherme Bravo anotou um complicado 48-47 para Machida, pois realmente foi difícil ver um terceiro assalto a favor de Lyoto. Marcos Rosales marcou 48-47 na direção de Anders, mesmo placar que eu e 15 analistas no MMA Decisions vimos. Quando o announcer Joe Martinez leu que a terceira papeleta indicava 49-46, pensei na hora que Anders tinha vencido – este foi o placar que Gabriel Carvalho anotou lá no ginásio. Para minha surpresa, o sempre barbeiro Tony Weeks cometeu o placar a favor de Lyoto. Barangão nele.

Foi bom ver que Machida ainda tem gás para suportar uma luta inteira, embora uma luta não muito desgastante, o que, aliás, foi mérito dele ao desacelerar as ações. O problema é que a velocidade e principalmente a explosão fazem parte do passado. Não sei nem se funcionaria contra o mesmo Anders se o americano o respeitasse menos e tivesse menos receio. Contra competição acima do americano, tende a dar problema. Lyoto pediu por Michael Bisping após a luta. Sei lá, acho melhor não…

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Valentina Shevchenko e os matchmakings irresponsáveis

Está virando uma triste rotina malhar os matchmakers do UFC por escalarem confrontos desequilibrados. Mas ontem Sean Shelby exagerou. O atual VP de Talentos, que teve a dura missão de substituir o genial Joe Silva, que se aposentou, confrontou Valentina Shevchenko, talvez a melhor peso mosca do mundo, contra Priscila Cachoeira, que está numa fase tão inicial da carreira que é viável questionar se ela já tem nível para lutar no UFC. Ao menos não faltou coração à simpaticíssima brasileira, a primeira representante de Bangu no UFC. Porque, olha, o que ela apanhou não tá no gibi.

Shevchenko sequer precisou mostrar que é uma das melhores strikers do MMA feminino. A quirguiz naturalizada peruana usou o jogo de quedas e um ground and pound repleto de cotoveladas para infligir um castigo monumental à estreante brasileira. O castigo, que chegou a ser agonizante, mereceu um 10-7 no primeiro assalto sob o olhar complacente do árbitro Mario Yamasaki, que teve algumas oportunidades de interromper a luta ali mesmo, mas às vezes ele parece esperar pelo encerramento dos batimentos cardíacos para tomar uma decisão.

Você acha que o bravo Mario melhorou no segundo round? Risos. Logo no começo, Valentina derrubou, caiu por cima no crucifixo e largou couro pesado. Diante da passividade do árbitro, a própria Schevchenko pareceu segurar o ritmo, numa demonstração de empatia que faltou ao homem de preto. A peruana então decidiu praticar jiu-jítsu: montou com facilidade, pegou as costas com mais facilidade ainda e encaixou o mata-leão. Só assim para o Yamasaki interromper a luta – e ainda foi preciso Priscila bater duas vezes, porque o árbitro não viu a primeira. Michael Chiesa deve ter ficado revoltado.

Voltando ao assunto matchmaking, espero que Shelby pare com esses casamentos estapafúrdios antes que algo de mais grave aconteça. E não me venham com a desculpa que era importante colocar a peruana num card próximo à sua casa e que mais ninguém aceitou. Se ninguém aceitou, não case uma luta absurda como essa. Mal começamos fevereiro e dificilmente algum confronto será mais absurdo que este ao longo do ano. Ou seja, praticamente já temos o primeiro finalista do Barangão.

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Michel Trator: quando descumprir as regras compensa

Lutando em casa, com toda a estrutura conhecida por perto, Michel Trator voltou a não bater o peso limite da categoria dos leves. Pior: ele teve o privilégio de aparecer no ginásio no sábado com não mais de 78,4 quilos, para evitar que a luta caísse. Desmond Green aceitou mesmo com o brasileiro falhando também na segunda pesagem, chegando acima de 80 no sábado.

O peso excedente acabou tento papel preponderante no desenrolar da luta. No primeiro round, ainda inteiro, Green aplicou boas quedas e teve o controle do clinch. No entanto, a casa começou a cair no segundo, quando Trator conseguiu derrubar e deixar seu corpanzil por cima do americano. O paraense montou, tentou um katagatame, uma guilhotina e um estrangulamento norte-sul, quase sempre pesando por cima e desgastando o rival.

Green cansou e sofreu outra queda e montada no terceiro assalto. Faltou forças para o antigo peso-pena se manter em atividade em pé para impedir a aproximação do corpulento adversário. Como a CABMMA permitiu que Trator falhasse em duas pesagens e Green aceitou o combate assim mesmo, sinto muito.

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Timothy Johnson vence Marcelo Golm daquele jeito

Luta entre pesos pesados fora da elite é assim: ou acontece um nocautão no primeiro round ou você vai sofrer. No encontro entre Tim Johnson e Marcelo Golm, deu o segundo cenário.

Fora alguns chutes baixos que marcaram o interior das coxas de Johnson, Golm não teve ferramentas para evitar o clinch sufocante do americano. Os únicos momentos de esperança de algo movimentado na luta eram quando Tim mostrava que não era dos mais inteligentes ao trocar pau na curta distância sem jogo de pernas algum. Por sorte – ou incompetência de Marcelo -, o cosplay de Charles Bronson (não o falecido ator, mas o presidiário britânico Charles Salvador) acabou levando vantagem também nessas situações.

Bom, a luta serviu para mostrar que alguns analistas estavam empolgados demais com Marcelo Golm e que Christian Colombo é horroroso mesmo.

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Douglas D’Silva mostra que às vezes a melhor defesa é o ataque

Muitas vezes durante o combate, Douglas D’Silva me deixou nervoso com a defesa de striking absolutamente escancarada. Porém, ele minimizou os problemas contra Marlon Vera com um belo fluxo ofensivo.

Não foram poucas as oportunidades em que Douglas mantinha o queixo alto e o quadril e cabeça em movimentos dissonantes das pernas. Se Vera tivesse mais calma (e mais talento), provavelmente teria capitalizado. Porém, D’Silva manteve um volume de jogo ofensivo elevado, deixando “Chito” em posição defensiva por quase todo o combate.

O gancho de esquerda foi uma arma poderosa para o brasileiro, que conseguiu abrir um corte que incomodou Vera pelo resto do combate. A mistura de chutes baixos com diretos no corpo também foram importantes para Douglas manter o equatoriano sobre sua perna traseira, sem conseguir equilíbrio para uma ação ofensiva que quebrasse a confiança do lutador local. Marlon ainda tentou desestabilizar o oponente mostrando os dedos médios, mas só serviu para D’Silva acertá-lo com outros golpes potentes.

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Thiago Marreta nocauteia mais um rumo ao recorde

Saudável no peso médio e capaz de imprimir sua agressividade, Thiago Marreta vai se tornando um pesadelo para integrantes das castas mais baixas da categoria. Como este é o caso de Anthony Smith, o paraquedista chegou à quarta vitória seguida, todas pela via rápida dolorosa.

O duelo teve alguns momentos anárquicos, para compensar a chatice de Johnson-Golm. Ainda no primeiro minuto de luta, Marreta desferiu um chute rodado, mas quem foi à lona foi ele próprio, vítima de um curto e violento gancho em contragolpe executado no exato momento que o pé de Marreta se aproximava. Já no minuto final, foi a vez de Smith avançar com uma cotovelada em pé e acabar indo à lona num golpe “fantasma” de Thiago. O carioca tentou uma blitz final, mas o americano sobreviveu. Sensacional.

No meio do primeiro round, Smith aproveitou uma oportunidade de cair por cima, já montado, mas levou uma raspagem ridícula – muito mérito da execução de Thiago, mas nunca que um lutador poderia ceder daquele jeito. Valeu para mostrar os resultados do trabalho defensivo que o técnico Marcos Parrumpinha tem feito na ATT com o brasileiro e o inteligente trabalho que Marreta exibiu quando ficou por cima, machucando o rival com um ground and pound doído nas costelas e rins enquanto pressionava o pescoço de Smith com o outro braço e fazia peso com o tronco e quadril baixo. Nenhum espaço para botes do americano.

E os chutes de Marreta? Rapaz, aquilo deve doer quando explode na linha de cintura. Foi assim que ele deu contornos finais ao combate. Numa aproximação sorrateira, Marreta largou uma canelada no figueiredo de Smith. O americano dobrou gritando de dor, mas tentou resistir à pressão. Inútil, pois Thiago foi implacável e o árbitro Marc Goddard não é Yamasaki.

Com o resultado, Marreta igualou o recorde de Anderson Silva de nocautes no peso médio do UFC, com oito.

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Principais destaques das preliminares do UFC Fight Night Belém

Deiveson Figueiredo está se especializando em afundar nosso projeto Top 10 do Futuro. Primeiro ele bateu Jared Brooks, em São Paulo. Ontem, o paraense manteve sua invencibilidade e tirou a de Joseph Morales com um jogo que misturou quedas com ground and pound e agressividade em pé. O brasileiro já tem três lutas no octógono, com dois nocautes, e já merece um ranqueado.

– O juiz Marcos Rosales esteve envolvido em duas decisões divididas em Belém tendo sido o placar dissonante em ambas. Curiosamente, ele estava certo nas duas. Além de apontar vitória de Eryk Anders na luta principal, Rosales ainda pontuou a favor de Tim Means contra Serginho Moraes. Porém, a agressividade cheia de socos no vento do brasileiro enganaram Tony Weeks (quem mais?) e Phillipe Iorio, que deram a vitória ao brasileiro com dois 29-28.

– Tremenda atuação de Polyana Viana em sua estreia no UFC contra Maia Stevenson. A brasileira levou vantagem na curta troca de golpes em pé, derrubou a esposa de Joe Stevenson com um lindo harai goshi e trabalhou insistentemente no chão em busca da finalização. Primeiro foi uma chave de braço, depois um triângulo de mão para finalmente montar, pegar as costas e encaixar o mata-leão. Vareio.

Alan Nuguette não empolgou ninguém, mas venceu Damir Hadzovic de modo dominante com quedas e controle posicional sufocante. O bósnio não ofereceu resistência em nenhum dos 15 minutos de combate, ao contrário das suas animadas atuações costumeiras.

Iuri Marajó dava sinais claros que a hora de parar tinha chegado. Numa entrevista, chegou a dizer que não tem mais ânimo para se preparar para um combate. Nada como realizar o sonho de lutar em casa no UFC. O marajoara mostrou uma disposição que há muito não exibia e nocauteou o favorito Joe Soto com apenas 66 segundos de luta.