Por Alexandre Matos | 15/01/2018 11:34

O ano começou meio devagar no MMA, mas o UFC Fight Night 124, que deu o pontapé inicial na temporada da maior organização do mundo, serviu para reaquecer os fãs que optaram por iniciar a semana cansados.

Apesar do horário egoísta para a audiência internacional, a estreia do UFC em St. Louis, no Missouri, teve um card principal com mais entusiasmo e vontade do que técnica. Até mesmo a luta principal, que prometia muito, chegou a flertar com este cenário, mas ao fim entregou bons minutos de ação para quem ficou acordado até o meio da madrugada.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC St. Louis e vamos ao debate.

Jeremy Stephens quase volta ao passado, mas se reinventa em pleno voo

A expectativa para o combate entre Jeremy Stephens e Doo Ho Choi era de um quebra-pau homérico. Não durou tanto – nem foi tão anárquico assim -, mas o primeiro evento de 2018 terminou muito bem.

Lembra daquele boxe técnico que Stephens mostrou na vitória sobre Gilbert Melendez? Pois bem, pelo menos nos cinco minutos iniciais, ele esqueceu. Apesar da maior agressividade, o americano maltratou o vento no primeiro assalto, jogou socos e chutes ao léu, se desgastou e foi vitimado por vários contragolpes de Choi, que tinha muito mais o controle da distância e precisão nos ataques lançados. Nem parecia que quem estava tanto tempo parado era o sul-coreano.

Stephens voltou ainda pior no segundo round, chegando até a cair depois de um chute atabalhoado, justificando com vontade o apelido de “Esquentadinho”. Porém, como num passe de mágica, ele se reinventou em pleno voo, provavelmente depois de um gancho de canhota do asiático ter explodido contra seu queixo. Jeremy ficou mais calmo e relembrou a atuação contra Melendez, passando a acertar Choi com consistência e potência. Um direto de direita violento quase destacou a cabeça do Superboy Coreano do pescoço e a sequência o mandou ao solo. Stephens apertou o ritmo e, praticamente sem desperdiçar golpes, conseguiu seu primeiro nocaute em dois anos e meio.

O resultado nos deixou numa situação interessante. Stephens parecia acabado há menos de um ano, com apenas duas vitórias em sete lutas. Agora, com dois bons triunfos consecutivos, exibindo evolução técnica, apesar do pequeno deslize neste domingo, ele mostra que, aos 31 anos, ainda tem lenha para queimar.

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Mais empolgação do que técnica na vitória de Jessica Rose-Clark sobre Paige VanZant

Provavelmente o UFC estava louco por uma vitória de Paige VanZant para colocá-la como a primeira desafiante de Nicco Montaño na recém-inaugurada divisão do peso mosca feminino. Porém, a americana mostrou que sua estrada ainda é longa diante da australiana Jessica Rose-Clark.

Num combate em que se esperava ação na troca de golpes em pé, a luta agarrada teve papel preponderante. O problema foi que a falta de uma técnica mais apurada sobressaiu. Um katagatame em pé relativamente encaixado por Clark fez VanZant ceder uma queda. Mesmo treinada por Fabiano Pega Leve, a americana não mostrou recursos técnicos para escapar por baixo.

O panorama (triste) se repetiu no segundo round. VanZant tomou a iniciativa da queda, mas foi raspada e novamente sofreu por baixo. Em seguida foi a vez de Clark errar. A australiana teve um triângulo bem posicionado que poderia ter virado um armlock, mas faltou habilidade para decidir a parada. Paige mostrou a conhecida resistência, mas repetiu a deficiência técnica para evitar a pressão.

VanZant voltou se movimentando mais para evitar ser derrubada. Porém, depois de dizer que sentia que o braço direito havia quebrado, ela não tinha muitas ferramentas para atacar com a eficiência de quem precisava de uma interrupção. Por outro lado, Clark tinha consciência que vencia por 20-18 e aceitou o cisca-cisca inútil. Paige tentou se salvar com chute ou joelhada voadora, mas matou suas próprias chances ao não inverter a base para criar oportunidades com o braço saudável. Resultado: não atacou tanto e ainda foi atingida por cima do bloqueio inexistente e da postura ereta demais.

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Kamaru Usman vence luta fácil que quase não foi tão fácil assim

Quando este combate foi anunciado, me bateu a curiosidade de saber o motivo que fez o matchmaker Mick Maynard achar que seria competitiva uma luta entre o vencedor do TUF 21 Kamaru Usman, que vinha de seis vitórias em igual número de lutas no UFC e é um real candidato ao top 5 dos meios-médios, contra Emil Meek, que não lutava há mais de um ano, só fez uma apresentação no octógono e que dificilmente um dia vai integrar o ranking de tão competitiva divisão. O desenrolar do combate respondeu a minha pergunta, pelo menos parcialmente.

Meek fez uma graça no começo, mostrando que estava esperando as quedas de Usman, emendando o double leg desleixado do nigeriano com uma guilhotina. Porém, Kamaru se defendeu corretamente e fez o que dele se esperava no restante da parcial: queda de grande amplitude, sufoco no clinch, ground and pound e até uma tentativa de esgana-galo.

No segundo assalto, Meek fez outra graça com um potente soco rodado e vendeu caro a queda para Usman, mas não conseguiu escapar da posição defensiva. Kamaru derrubou novamente, sufocou e teve que lidar com algumas cotoveladas de baixo para cima do europeu. Num evento com as regras antigas de julgamento, Usman abriu boa vantagem.

Já na terceira etapa, Meek jogou boas combinações para fazer Usman desistir de trocar pancadas. Pior para o norueguês. Emil ainda tentou as mesmas cotoveladas na grade que o levaram a nocautear Rousimar Toquinho, mas Kamarudeen aplicou outro quedão, abriu um rombo no rosto do oponente com cotoveladas e fez Emil de esfregão pra limpar o piso do octógono. A partir dali, domínio do africano até o fim, mas nada que o aproximasse de definir o combate.

Esta luta foi curiosa. Se não chegou a ser superior por mais de 30 segundos, Meek deu a impressão de ter incomodado um pouco a ponto de fazer Usman adotar uma postura mais conservadora para não ser surpreendido. Aos olhos do público em geral, o norueguês sai com a cabeça erguida por não ter tomado o vareio que era esperado – ainda que tenha virado um esfregão humano. Por outro lado, Usman tem a maior sequência de vitórias da categoria e é o primeiro meio-médio desde Jon Fitch a vencer as sete primeiras lutas no UFC.

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Nova categoria, velhos problemas para Michael Johnson

Bom teste para a estreia de Michael Johnson no peso pena. Darren Elkins é um lutador resiliente, resistente, corajoso e agressivo, o segundo em número de vitórias na história da categoria no UFC. Mais uma vez ele mostrou todos esses predicados.

O boxe em alto volume e alta potência, combinado com defesa de quedas, que misturou movimentos defensivos do wrestling com boa movimentação, foram as ferramentas escolhidas por Johnson. Depois de abalar várias vezes o rival, ele fez Elkins praticamente desistir das quedas e disputar uma luta na troca de golpes, o que facilitou a tarefa do ex-TUF.

Apesar da bela vantagem no primeiro assalto, nada estava garantido para Johnson. Afinal, ele lutava contra um sujeito que é quase inquebrável. Elkins novamente mostrou ser carne de pescoço quando botou para baixo rapidinho no segundo round. Aí, amigos, com Elkins por cima com pelo menos quatro minutos e meio para trabalhar, ele vai te desgastar. Bom trabalho fazendo peso em Johnson e martelando no ground and pound. Johnson nunca se defendeu bem no chão e mais uma vez mostrou essa falha. Darren pegou as costas sem muita dificuldade e encaixou o mata-leão pouco depois da metade do tempo transcorrido.

Apesar do revés, não dá ainda para enterrar a ideia de Johnson no peso pena. Ele já apresentava quedas de rendimento como leve, então nada mudou aqui. Além de ter que cuidar disso, tem que aprender logo a criar espaço para sair do chão – e ele teve oportunidade para sair de quadril e voltar em pé -, já que se defender ali também não é sua praia. Os problemas da categoria de cima permanecem, mas agora ele parece ter ficado mais forte.

Já Elkins pediu uma luta pelo título, dizendo que apenas o campeão Max Holloway tem mais vitórias que ele na divisão (14 contra 13). Darren ainda estabeleceu um recorde na luta: ele é quem mais venceu sendo azarão nas casas de apostas.

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Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.