Resenha MMA Brasil: UFC Fight Night 123

Candidatos a melhor nocaute e submissão do ano saíram do card principal do UFC Fight Night 123, na cidade californiana de Fresno.

Provavelmente não se arrependeu quem resolveu passar a noite/madrugada de sábado para domingo ligado no UFC Fight Night 123. Muito menos o público que foi ao Save Mart Center, em Fresno, cidade californiana que recebeu o octógono mais famoso do mundo pela primeira vez – apesar de ser liderado por um duelo entre nativos da Califórnia, o ginásio recebeu apenas metade de sua capacidade.

Em que pese o público não mais do que regular, o UFC Fresno mostrou fortes candidatos a nocaute e submissão do ano, uma pancadaria sensacional, ex-desafiante e ex-presidiário como árbitros, aumentou a pressão da nova geração no peso pena, firmou um nome de elite no peso galo. Dos quatro brasileiros em ação, apenas um teve o braço levantado ao final do combate.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC Fresno e vamos ao debate.

Definitivamente temos que respeitar Brian Ortega

Confesso que senti um misto de surpresa com orgulho quando vi que Brian Ortega tinha recebido 100% dos votos na nossa competição de palpites no MMA Brasil. Eu não esperava favoritismo de Cub Swanson, mas imaginei que alguns dos meus camaradas de site pudessem apostar no veterano. Fiquei feliz de ver que estamos alinhados na questão da passagem de bastão no peso pena.

Esse rapaz Ortega chega a ser engraçado. A gente vai lá e escreve uma prévia dizendo que ele vai tomar muito soco na cara antes de catar o pescoço do rival. Escrevo a prévia rindo, pensando: “Isso não vai funcionar sempre”. Pois bem.

Swanson deixou todos que apostaram nele confiantes. O boxe do veterano ainda é bem legal de se ver. Jab-direto-cruzado, jab-direto-gancho-pêndulo, jabjab-direto-jab-direto avançando, jab no corpo, gancho no corpo. Ortega tenta responder, a luta fica nervosa, mas Cub dá a impressão que tem a situação sob controle. Brian ainda tem uma postura muito ereta e o queixo alto, mas está aprendendo a subir o bloqueio e a se defender melhor. Talvez Swanson não nocauteie, mas pode levar o duelo como fez contra Artem Lobov. Mas Ortega não é Lobov.

Meio minuto para o fim do primeiro assalto e Kevin Luke joga uma combinação recuando, fecha com um golpe na linha de cintura de Brian e chega ao clinch no centro do octógono. Este é o primeiro momento que Ortega mostra que não é Lobov. O que ele faz é maravilhoso: calmamente laça o pescoço de Swanson no triângulo de mão e dá um passa-pé com o estrangulamento encaixado. No chão, Ortega gira e aperta ainda mais o pescoço do rival. A câmera foca a expressão de desespero de Swanson, mas ele consegue resistir girando no sentido oposto às pernas do adversário até a buzina salvá-lo.

Foi só um susto, muitos pensaram. Ortega é perigoso na luta agarrada, mas Swanson é macaco velho e não vai se expor assim de novo. Cub volta ao boxe, agora com bem mais cuidado com a manutenção da distância. Uppercut, gancho, direto, cruzado. Apesar de receber golpes potentes, Ortega avança rumo ao clinch. Swanson não vai dar mole de novo. Risos.

Justiça seja feita, nem foi mole. Swanson fez o certo: pressionado contra a grade, esgrimou os braços para dentro, desfez a pressão e esperou o momento para girar e sair. Acontece que Ortega é uma ratazana e precisa de pouco para dar seus botes. Quando Cub baixou a cabeça para sair, Brian laçou seu pescoço na guilhotina e jogou as pernas acima do quadril do oponente para fazer a pressão no arco da coluna cervical. Quando parecia que perderia a posição, Ortega foi simplesmente genial. Ainda pendurado no oponente, usou a grade para dar apoio com os pés, tirou um dos braços do estrangulamento e o ajustou. No ar. Sem encostar no chão, Ortega aperta novamente. Swanson batucou de pé.

Como dizia o narrador Januário de Oliveira, sinistro, muito sinistro.

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Gabriel Benítez se apresenta ao UFC em sua sexta luta

Um dos participantes do primeiro TUF América Latina que ainda sobrevive no UFC, o mexicano Gabriel Benítez se apresentou a Dana White após a melhor atuação da carreira, na vitória sobre o ranqueado Jason Knight.

O americano assumiu postura agressiva para justificar seu favoritismo, mas jogou todo o esforço no lixo com uma atitude desmiolada. Depois de derrubar o mexicano e travá-lo na grade em busca do double leg, Knight MORDEU a mão de Benítez. Porra, morder é baixaria até em briga de rua, de baile funk ou de torcida organizada. E o mais engraçado é que o árbitro Mark Smith tirou um ponto de Knight. Ou seja, ele considerou que o golpe ilegal não foi intencional; ele achou que Knight mordeu sem querer. Realmente até é possível uma mordida ser involuntária, mas fala sério. Ficou barato.

A estupidez de Knight lhe custou a luta. Tendo que tirar o prejuízo do ponto deduzido, ele se desesperou e se perdeu. Conforme os minutos se passavam, Jason ficava menos disciplinado nas trocas de golpes, errou entradas de queda, caiu por baixo quando tinha o controle, telegrafou os movimentos e facilitou a vida de Benítez nos contragolpes, no controle da distância e no ground and pound.

Knight quase chegou ao hat-trick de golpes ilegais. Ele meteu um dedo no olho no segundo assalto e só faltou o chute baixo. O que não faltou foi mata-cobra no vento, distribuído aos borbotões pelo americano. Totalmente à vontade, exibindo boa movimentação lateral, Benítez matou o jogo do rival e navegou em águas calmas até o fim do tempo regulamentar.

Na entrevista no octógono, o mexicano mandou para o patrão: “Tenho algumas palavras a dizer: Dana White, agora você sabe meu nome. Eu sou Gabriel ‘Moggly’ Benítez”.

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Marlon Moraes finca bandeira na elite com nocaute assustador

Os octagon jitters, aqueles inimigos invisíveis que deixam as pessoas nervosas e travadas quando sobem ao maior palco do MMA mundial, foram definitivamente expulsos da mente de Marlon Moraes. Sobrou para Aljamain Sterling.

O duelo foi cercado de expectativas porque um é muito melhor que o outro em determinado aspecto. Moraes começou melhor porque a luta começa em pé. Apesar de Sterling ter tomado a iniciativa, era o brasileiro quem acertava mais. Até que Moraes mandou o americano ao chão com um uppercut, um cruzado e algumas marteladas. No solo, Sterling mostrou que a situação seria invertida ao dar botes incessantes em busca do triângulo ou da chave de braço.

Marlon se defendeu dos ataques e a luta voltou em pé. Então foi a vez de Sterling repetir um erro que ele já cometera em outras oportunidades, mas agora o preço pago foi dramático. O americano viu que o caminho era no chão e tentou um single leg sem nenhuma finta anterior. Resultado: quando abaixou o tronco (ele também não fez ataque de perna para chegar no single, outro erro técnico), deu de encontro com o joelho de Marlon, que tentava um chute no corpo. Sterling caiu fedendo, numa imagem tão forte que tirou até mesmo o brasileiro do prumo.

Moraes ficou tão preocupado com o estado de Sterling que quase chorou tanto nos momentos que antecederam o anúncio oficial do resultado quanto na entrevista para Paul Felder. Antes de falar qualquer coisa sobre a luta, o friburguense fez questão de dizer que estava preocupado e mandou boas energias para que Sterling se recuperasse logo. Aquela maca laranja que levou Aljo embora do octógono deixou todo mundo ainda mais apreendido. Felizmente o MMAjunkie logo postou fotos do americano lúcido na maca.

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Markus Maluko mostrou talento na estreia, mas não deu conta do caminhão Eryk Anders

Estreante de última hora, Markus Maluko justificou a expectativa que muitos tinham sobre sua chegada ao UFC. Porém, o gás o deixou na mão e ele acabou não sendo páreo para o americano Eryk Anders.

O brasileiro mostrou compostura defensiva no primeiro assalto para anular a pressão do grappling de Anders e ainda saiu numa boa tentativa de triângulo de mão após uma queda de grande amplitude. Porém, voltou bem menos móvel no segundo round e passou a ser enquadrado pelo americano. Maluko levou um knockdown com um direto de esquerda de encontro no segundo assalto, outro no terceiro e não mais achou seu ritmo. Exausto, Maluko apenas sobreviveu até o fim do combate.

Anders precisa melhorar o jogo de pernas, mas novamente mostrou ser um sujeito duro de lidar pela potência de seus golpes e a pujança física. Se aprender a combinar os golpes com calma e não tentar arrancar a cabeça do adversário o tempo todo, vai dar muito trabalho ao peso médio.

Já Maluko tem o pouco tempo de preparação para justificar o condicionamento cardiorrespiratório lamentável – ele até já lutou cinco rounds contra Paulo Thiago, no Thunder Fight, mas foi um combate de pouca ação. Ele é um bom lutador ofensivamente e com um estilo atrativo para os fãs.

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Meio round de anarquia entre Benito Lopez e Albert Morales

Todo evento tem que ter aquela disputa que dificilmente terá contornos na classificação dos lutadores, mas que acaba virando um quebra-pau. Este foi o caso da estreia de Benito Lopez, boa revelação pescada no Contender Series de Dana White, contra o alucinado Albert Morales.

Vagabundo trocou pau no primeiro round como se não houvesse amanhã. Com um minuto de luta, o placar apontava 2 a 1 Lopez nos knockdowns. Ele ainda tentou uma guilhotina de uma mão da montada, mas Morales sobreviveu para recobrar a anarquia no octógono até conseguir prender Benito na grade e descer a mamona pelas costas.

O ritmo nos dois rounds subsequentes não foi intenso como o primeiro, mas não quer dizer que a luta ficou chata. Lopez esteve quase sempre um passo à frente de Morales, embora Albert tivesse acertado alguns golpes mais claros que os de Benito. Com um bom trabalho de jabs e chutes no corpo, a velocidade das combinações de Lopez decidiram a parada a seu favor.

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  • Nicolas P S

    Ótima resenha ! Agora quero ver o Benito Lopez contra o Sean O’Malley. Sobre tudo o primeiro round insano…

    • Gabriel Carvalho

      Tem uns 500 casamentos ótimos pro Benito, O’Malley seria uma ótima, mas duvido que o UFC apostaria nisso.

      • Também duvidaria, mas o UFC tem casado uns prospectos cedo.

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Performance pífia do Jason Knight e grande performance do Benitez, senti falta de wrestling pro primeiro , ele é grappler mas a luta foi predominante em pé pois o Benitez se defendeu bem, circulou bem e golpeava frustrando o americano, pra um cara que faz lutas legais e mostrou futuro bem decepcionante.

    • Eu acho que o Knight se perdeu com o ponto deduzido e foi se perdendo cada vez mais conforme a movimentação do Benitez dava certo. Eu apostaria no Knight numa revanche.

  • James sousa

    Marlon Moraes realmente fincou a bandeira entre os tops da categoria e dar pra imaginar vários casamentos maneiros com ele nessa divisão. Acredito que o Sterling só deve voltar em 2019 foi bem preocupante a cena que bom que está tudo bem com ele .

  • Gui Castro

    esse Sterling é tão superestimado quanto o Sterling do City .

    • Malk Suruhito

      Eu entendi a referência…

    • Aljamain Sterling é muito talentoso.