Por Alexandre Matos | 25/11/2017 14:23

Muita raça acordar às 06:30h de sábado, depois de ter ido dormir quase às 02:00h, para assistir ao UFC Fight Night 122, que rolou nesta madrugada, ops, manhã em Xangai, a maior metrópole do país mais populoso do mundo. Porém, devo confessar que, apesar de um card que parecia mais um ONE Championship Myanmar, não me arrependi. Graças ao ritmo da transmissão no UFC Fight Pass, o evento passou rápido e deu para divertir.

Vimos um lutador de elite se aproximar perigosamente do limbo, um ex-campeão que precisa cuidar da saúde, um chinesão da porra e o Top 10 do Futuro sendo monstro mais uma vez. Quatro nocautes (um em menos de meio minuto), quatro submissões e quatro decisões (uma delas com um placar absurdo) fizeram a festa dos mais de 15 mil que lotaram a Mercedes-Benz Arena.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC Xangai e vamos ao debate.

Kelvin Gastelum já pode voltar; Michael Bisping já pode parar

Já faz um tempo que eu digo que Michael Bisping não é mais o mesmo. Ele não tem mais a velocidade, o jogo de pernas ou o volume de golpes que o caracterizaram outrora. Deu certo contra Luke Rockhold num momento especial, mas quase deu muito errado contra Anderson Silva e Dan Henderson, ambos em fim de linha. Deu errado contra um meio-médio que estava parado há quatro anos. Qual a chance de dar certo contra um moleque que acabou de fazer 26 anos, cheio de vitalidade? Só se os astros repetissem a noite de 4 de junho de 2016.

Kelvin Gastelum nem fez força para cercar Bisping. O britânico até conseguiu acertar alguns golpes enquanto recebia chutes, mas nada que pudesse dar esperança a seus torcedores. Quando o cronômetro bateu na metade do primeiro assalto, Gastelum jogou um direto de esquerda apenas para fazer Bisping responder e abrir sua defesa. Pelo buraco escancarado entraram um gancho de direita e um cruzado de esquerda monstruoso, que mandou o ex-campeão para as profundezas da vala abraçado ao capeta.

Há exatos 21 dias, Bisping sofria uma concussão e apagava num mata-leão. Hoje ele se tornou o lutador que mais sofreu knockdowns na história do UFC. Aos 38 anos, já tendo conquistado seu maior sonho, é hora de parar de abusar da saúde. É hora de pedir uma luta de despedida em Londres, de preferência contra alguma carne assada em fim de linha pra não correr o risco de sofrer outra concussão.

E Gastelum? Apesar do nocaute monumental, foi triste mais uma vez vê-lo subir ao octógono meio roliço. Enquanto ele pegar veteranos como Bisping, Vitor Belfort ou Tim Kennedy, vai conseguir enganar. Mas uma hora terá que bater de frente com a elite do peso médio, que é cheia de cavalos. Lembra da última luta dele, contra Chris Weidman? Qual seria o fim de Kelvin contra sujeitos brutos e enormes como Luke Rockhold, Yoel Romero, uma revanche contra Weidman ou até mesmo Derek Brunson, que é bem menos talentoso que o descendente de mexicanos, mas é um trator? Não seria melhor Gastelum deixar um pouco o x-tudo de lado e voltar ao peso meio-médio?

Anderson escapou de boa, hein?

— Alexandre Matos (@Alexandre_MMA) 25 de novembro de 2017

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O maior chinês da história do MMA

Li Jingliang (ou Jingliang Li, nunca sei o que é nome ou sobrenome) é um baita sujeito. Feio pra dedéu, mas aquele feio simpaticão, ostentando apelido de “Leech” (sanguessuga), um estilo de luta empolgante e nocauteador. Já são quatro vitórias seguidas, três delas largando corpos estirados no solo.

Veja bem o que ele fez hoje: entrou no octógono sob a maior ovação da torcida de seu país; maltratou Zak Ottow com contragolpes precisos; disparou um gancho que explodiu no queixo do americano e o mandou à lona; passou a régua no ground and pound; comemorou pulando a grade para abraçar a esposa e a filha; e completou a festa regendo a torcida falando um monte de coisa que eu não tinha a menor ideia do que era, mas certamente era algo sensacional. Aliás, nosso correspondente no local, Lucas Dib, traduziu uma das frases quando Jingliang disse que doaria parte de sua bolsa à caridade. Que homem.

Próximo passo: Jingliang contra Tyron Woodley. Quem discordar é clubista safado.

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Wang Guan é Sho’nuff, o Shogun do Harlem

Se Alex Caceres é o “Bruce Leroy”, neste sábado Wang Guan foi o “Sho’nuff, o Shogun do Harlem”. Porém, diferentemente do clássico cult das artes marciais O Último Dragão, Leroy se deu mal.

Em confronto válido pelo peso pena, o chinês esteve quase sempre um passo à frente do americano. Guan aproveitava o péssimo sistema defensivo e a agressividade de Caceres para puni-lo com contragolpes limpos. No fim do primeiro assalto, Guan mandou o rival a knockdown e quase encerrou a contenda no ground and pound. Alex foi salvo pelo gongo e voltou em péssima situação ao córner.

Na segunda parcial, o asiático seguiu dominando um adversário que parecia não ter se recuperado. Caceres só conseguiu voltar à luta no último round, mas ainda assim encontrava dificuldades de conectar seus golpes. Para piorar, sofreu outro knockdown.

Cabia marcar 30-27 ou 30-26 para Guan. No entanto, o juiz australiano Kon Papaioannou teve o despautério de marcar 29-28 a favor de Caceres – logo este juiz, único que deu corretamente a vitória a Bojan Velickovic na semana passada. Para sorte de Guan, Christopher Shen e Paul Sutherland reverteram o placar, garantindo a vitória do chinês por decisão dividida.

Com 1-3 nas últimas quatro lutas, 3-6 desde a metade de 2014 e 13-11 na carreira, já deu para Caceres no UFC. Como ele ainda é novo, pode faturar seu ordenado honesto no Bellator, no PFC ou no ONE.

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Alex Garcia usa a cabeça para vencer o duro russo Muslim Salikhov

O “Pesadelo Dominicano” se notabilizou pelo enorme poder de nocaute, pela agressividade e por nem sempre adotar a mais inteligente das estratégias. Neste sábado, Alex Garcia usou a cabeça para surpreender o favorito estreante Muslim Salikhov.

Striker tecnicamente bem superior ao dominicano, Salikhov mostrou suas credenciais no começo do combate. O “Rei do Kung Fu” abriu um belo repertório de chutes, carimbou o corpo do centroamericano e pontuou com golpes rodados. Quando percebeu que não arrumaria nada daquele jeito, Alex mudou o panorama do combate tirando proveito de dois defeitos conhecidos do russo: falta de velocidade e defesa de quedas.

No segundo assalto, Garcia não encontrou dificuldades para levar Salikhov ao chão e aplicou facilmente pressão quando caiu por cima. Excercendo bem o controle posicional, o dominicano anulou a guarda de Muslim e forçou o oponente a dar as costas. Aí foi só apertar o mata-leão para encerrar a contenda.

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Zabit Magomedsharipov faz Sheymon Moraes de gato e sapato

O projeto Top 10 do Futuro vai errar alguns prognósticos. Dificilmente Zabit Magomedsharipov será um deles. Em sua segunda participação no UFC, o daguestani não tomou conhecimento do estreante Sheymon Moraes.

Enquanto o confronto se deu na troca de golpes em pé, o talentoso striker brasileiro até teve alguns momentos, mas encontrou dificuldades para lidar com a noção de distância de Magomedsharipov, mais alto e com maior alcance, mesmo quando o russo encurtava. Porém, na luta agarrada, o passeio de Zabit foi quase constrangedor.

Magomedsharipov derrubou com facilidade, passou guarda, montou, bateu no ground and pound, buscou a finalização no mata-leão, no katagatame. Até mesmo quando Sheymon conseguiu ficar por cima depois de um scramble, foi facilmente raspado. O passeio seguiu no terceiro assalto com chutes nas pernas do brasileiro, soco rodado, mais queda, mais vareio no chão. Já com a vitória garantida por uns 30-25, Magomedsharipov montou e atacou o pescoço de Moraes faltando 30 segundos. O triângulo de mão foi ajustado e o russo aumentou a pressão girando como se fosse o reloginho. Sheymon só tinha duas alternativas: batucar ou dormir. Ele optou pela primeira.

Além do enorme talento em todas as áreas do jogo, Magomedsharipov mostra também mentalidade vencedora ao buscar a interrupção até o fim. Ele tem o pacote completo para se juntar à elite do peso pena em breve, se não acontecer uma catástrofe pelo caminho.

Já Sheymon nunca conseguiu exibir alguma evolução em seu jogo. Oriundo do muay thai, ele sempre foi forte nesta área desde o primeiro combate no MMA profissional, embora não tenha surtido efeito algum quando pegou os melhores adversários – Magomedsharipov e Marlon Moraes. Nos demais aspectos do esporte, Sheymon está num nível bem abaixo de seu muay thai. Será uma pena ver que um forte prospecto pode nunca desabrochar como era esperado.

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Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.