Resenha MMA Brasil: UFC Fight Night 121

O momento iluminado do UFC, com bons eventos consecutivos no segundo semestre de 2017, teve sequência na noite deste sábado, manhã/tarde de domingo na Austrália. O UFC Fight Night 121 não foi tão sensacional quanto os eventos anteriores, mas, dada a pobreza da escalação do card, entregou mais animação do que era esperado, ainda que tenha sido longo demais.

Tivemos luta de pesados de bom nível e outra que seria triste, mas que terminou no tempo correto (25 segundos). Vários combates muito equilibrados, um nocaute plástico, um quebra-pau divertido. Prospecto se fortalecendo e outro estacionando.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC Sydney e vamos ao debate.

Fabricio Werdum fecha semana conturbada com importante vitória

Esta não foi uma semana tranquila para Fabricio Werdum. Aliás, os últimos 60 dias do gaúcho foram agitados. Depois de se meter em briga com Colby Covington no hotel em Sydney e saber que será convocado a depor na polícia local, o “Vai Cavalo” tinha uma luta a fazer. Marcin Tybura mostrou evolução, mas não foi páreo para o ex-campeão dos pesados.

Antes de mais nada, é preciso dar os créditos para o polonês. O tempo gasto na Jackson-Wink MMA surtiu efeito e Tybura se mostrou um lutador melhor do que vinha se apresentando – guarde este trecho na memória, pois vou retornar a ele mais à frente. Tybura estava bem treinado para evitar o perigoso thai clinch de Werdum e também soube se defender sem se desesperar quando foi derrubado e ficou por baixo do ex-campeão mundial de jiu-jítsu. Aos 32 anos, “Tybur” dá sinais que pode crescer numa divisão envelhecida e muito difícil de se renovar.

Feito o aparte em relação à melhora de Tybura, o polonês esteve um passo atrás por quase todo o tempo de luta. Tybura melhorou, mas Werdum é simplesmente melhor. O brasileiro usou o muay thai para controlar a distância e acertou vários golpes pesados, que Tybura encaixou com a maior dignidade. Werdum usou socos, chutes, joelhadas, pressão no clinch e quedas. Variou bem os ataques entre a cabeça e o corpo de Tybura. Na teoria, uma atuação magistral. Na prática, nem tanto. Fabricio poderia ter combinado mais golpes, como no final do segundo round. Poderia também ficar mais atento com as eternas falhas defensivas no striking – isso pode acabar custando caro contra um oponente mais qualificado, como aconteceu contra Stipe Miocic.

Aos 40 anos, foi muito bom ver a consciência tática de Werdum para controlar as ações quando percebeu que seria difícil nocautear ou finalizar o polonês. Como ele havia lutado há apenas 42 dias, a preparação para o combate de ontem foi longe do ideal. Werdum cansou, como era esperado, mas não deixou que isso tirasse o controle da luta de suas mãos.

Jessica Rose Clark vence Bec Rawlings, mas precisará de outra chance para seguir no peso mosca

O segundo duelo mais importante da noite, pelo menos na ordem dos combates, envolveu provavelmente a pior combinação de carteis da história do UFC pós-Regras Unificadas. A australiana Bec Rawlings, que entrou no evento ostentando 7-6 no cartel profissional, enfrentou a compatriota Jessica Rose Clark, que tinha 7-4 e aceitou a luta apenas 11 dias antes do evento.

No começo do combate, Rawlings teve êxito ao aplicar pressão e levar o confronto para o chão, onde tentou alguns botes para finalizar. Porém, isso durou até Clark entender o ritmo da adversária e passar a acertá-la com contragolpes precisos. Cada avanço desmiolado da veterana era respondido por combinações curtas de jab-direto e alguns chutes baixos. O terceiro assalto foi bem disputado, com troca de momentos de domínio, mas terminou com a novata melhor.

Jessica Rose Clark pode vir a ser uma boa adição ao peso galo. Acho difícil que ela consiga se manter na divisão de baixo. Mesmo se considerarmos que ela teve pouco tempo para cortar peso, seu último compromisso na categoria também já tivera falha na balança.

Belal Muhammad contém agressividade de Tim Means

Um dos combates que mais prometia entregou ação, diversão e técnica. Melhor para Belal Muhammad, que soube lidar com a desvantagem de alcance para superar o hiper agressivo Tim Means.

Muhammad usou os ensinamentos básicos do boxe para quebrar o controle de distância de Means. Foi muito legal ver o baixinho acertar as combinações quando muitos lutadores se perdem nessa tentativa. Jogo de pernas, movimentação lateral, velocidade e uso de combinações são fundamentais nessa empreitada que tem Frankie Edgar como principal expoente. Belal ainda teve o mérito de conseguir contra um sujeito muito agressivo.

O “Pombo Sujo” teve seu melhor momento na segunda parcial, quando finalmente uniu agressividade e controle de distância, alongando os golpes num volume suficiente para incomodar as aproximações do rival. Porém, Muhammad executou uma interessante alteração tática para voltar a ter o controle das ações. Quando Means estava se acostumando com o jab do adversário, Muhammad passou a usar a mão da frente em ganchos, trocando o golpe reto pelo curvo e pegando a defesa de Means desguarnecida.

Depois de conseguir a mais importante vitória de sua carreira, Muhammad fez a alegria dos fãs brasileiros desafiando o novo inimigo número um do país, Colby Covington.

Jake Matthews ganha vitória de presente e vê sinal de alerta mais forte do que nunca

O jovem australiano Jake Matthews sempre mostrou um talento bem acima de sua estrutura de treinos. O moleque, que disputou um TUF com 19 anos, sabe trocar, derrubar e finalizar. Foi uma das nossas apostas para o Top 10 do Futuro, mas provavelmente a mais arriscadas delas. Esse risco ficou claro contra Bojan Velickovic.

Não foi só uma atuação ruim de Matthews. O “Garoto Celta” se mostrou incapaz de arrumar uma solução para uma estratégica que estava claramente equivocada e que não o levaria a lugar algum. Jake passou quase o primeiro round inteiro agarrado nas pernas do sérvio tentando derrubá-lo, em vão. O pior: enquanto gastava energia fazendo uma força inútil, Matthews ainda levava socos e cotoveladas curtas de um adversário que estava grudado na grade. Para sorte do australiano, os juízes não fazem a menor ideia de como julgar esse tipo de situação e beneficiaram alguém que botava uma pressão que não servia para nada, ignorando o fato de Velickovic estar batendo, ou seja, sendo minimamente mais efetivo.

Como não deu certo no primeiro round, então imaginamos que Matthews mudaria a abordagem no segundo, certo? Não. Ele seguiu com a mesma ideia de tentar derrubar que só fazia valorizar a defesa de quedas de Velickovic. E dessa vez foi ainda pior, porque o sérvio conseguiu pegar o pescoço do australiano numa guilhotina e acabou montado.

Matthews desistiu de tentar grudar nas pernas e finalmente entendeu que era preciso jogar combinações para fazer a transição para a queda. Foi assim que ele conseguiu um single leg e caiu por cima, no seu momento mais dominante da luta. Dali pra frente a luta ficou equilibrada: os lutadores trocaram quedas e controle das costas do adversário. Matthews tentou um mata-leão, perdeu a posição e aplicou uma raspagem.

O único assalto vencido por Matthews foi o terceiro. Porém, os três juízes deram o primeiro para o australiano, até mesmo o julgador que deu a vitória para Velickovic. É lamentável o nível da juizada em todo canto do mundo. É incrível como tem gente incapaz julgando luta de MMA no maior palco do mundo.

Lembra quando eu falei lá em cima sobre Tybura ter evoluído na academia de Greg Jackson e Mike Winkeljohn? Então, Matthews precisa tomar uma atitude semelhante com urgência. Ele não só não mostra evolução em seu jogo como está piorando. Se continuar treinando em casa, provavelmente vai ver uma carreira promissora ir pelo ralo.

Elias Theodorou vence Dan Kelly sob um mar de bizarrices

Desde que o UFC anunciou que o canadense Elias Theodorou enfrentaria o australiano Dan Kelly, eu fiquei com as barbas de molho. Afinal, Kelly tem o poder nefasto de fazer seus adversários parecerem piores do que são e Theodorou não precisa de ajuda para fazer uma luta esquisita.

Eu nem sei o que falar sobre este combate, apenas sentir. A movimentação de Theodorou não tem nada de ortodoxa, mas, no caso dele, isso não é um elogio. Golpes e ângulos esquisitos, praticamente nenhuma combinação e transições mal executadas (ou nem executadas) não servem para abrir espaço para pancadas contundentes nem para tentativas de queda. É um balé feio e de pouca utilidade.

A sorte do canadense é que o australiano quarentão é ainda pior que ele na troca de golpes. Kelly avança como um touro, mas seus golpes lançados me fazem ter vontade de chorar de desgosto. E a luta foi uma repetição de 15 minutos disso: Kelly avançando destrambelhado e Theodorou contragolpeando com uns negócios que eu nem sei descrever. Pelo menos foi um duelo movimentado, diferente do que era esperado quando se fala desses dois.

Aqui cabe mais uma ressalva aos péssimos juízes inventados pela Comissão Atlética de New South Wales. O australiano Charlie Keech aplicou um 10-8 no segundo round que só ele viu a possibilidade. E o mais engraçado é que foi contra o lutador local, o que mostra que ele não é parcial, é apenas ruim mesmo.

Alexander Volkanovski vence com freio de mão puxado

O australiano Alexander Volkanovski era outro integrante do Top 10 do Futuro em ação no UFC Sydney. Contra o estreante Shane Young, que entrou na luta de última hora, o prospecto foi dominante como deveria, mas não apertou o ritmo para conseguir uma interrupção.

Young foi apenas a quarta opção para a luta, depois que Jeremy Kennedy e Humberto Bandenay saíram por contusão e Drex Zamboanga não conseguiu visto. Com uma semana de antecipação, Young deu trabalho a Volkanovski enquanto teve gás. O temido ground and pound do australiano foi evitado por mais da metade da luta graças à muito boa defesa de quedas do neozelandês. Alex teve algumas chances de tentar um nocaute quando tinha o adversário enquadrado na grade, mas faltou aumentar a produção ofensiva ao invés de apenas tentar o one-punck KO. No último assalto, com Young cansado, finalmente o combo boxe-wrestling funcionou, o ground and pound entrou e dois juízes concederam 10-8 a Volkanovski.

No fim da luta, na entrevista no octógono, Volkanovski pediu um top 15 dizendo confiar em suas habilidades. Acho justo. Aos 29 anos, ele não tem tempo a perder.

  • James sousa

    Jake Matthews está jogando a carreira no ralo e lamentável isso garoto tem muito potencial

  • Idonaldo Gomes Assis Filho

    Eu geralmente defendo o cara subir se não se sente bem na categoria de baixo, mas lutando contra um cara que já lutou de médio a vantagem física que ele tinha de vantagem nos leves sumiu e nas tentativas falhas de queda no primeiro round eu vi isso, não gostei da atuação dele, acho que seria melhor ficar nos 70kg e tem que buscar intercâmbio urgente.

    Agora o Muhamad lutou bem, luta apertada e interessante, pode virar algo bom mesmo tendo em vista que ele perdeu pro Jouban em cima da hora e pro Luque que é muito bom em pé.

    • Você tava falando do Jake Matthews no primeiro comentário?

      • Idonaldo Gomes Assis Filho

        Sim, ele não deve nem cortar peso direito eu acho.

  • Beto Magnun

    Deusss como luta feio esse Theodorou. Sorte dele que o Dan Kelly luta tão feio quanto, e talvez essa soma de fatores tenha resultado numa luta mais movimentada que o esperado.

  • Renato Ribeiro

    “Tivemos luta de pesados de bom nível e outra que seria triste, mas que terminou no tempo correto (25 segundos).”

    Eu precisei logar só pra dizer que chega a ser vergonhosa a gargalhada com tamanha cornetada aos injustiçados e móveis pesados

    • 🤔😇

    • Malk Suruhito

      Eu tenho que acrescentar que sempre que vejo (a maioria das) lutas de HW, eu meio que xingo o Alexandre Matos mentalmente. De tanto ler e ouvir os comentários dele sobre a “técnica” dos membros desta categoria de peso, me sinto uma criança que contaram que Papai Noel não existe ou outra que descobriu como funcionam as mágicas pela mão do Mister M(atos).

  • William Oliveira

    Concordo com tds análises, principalmente quanto a questão dos juízes, meu deus do céu! Esse evento tivemos um monte de decisões divididas, até mesmo em lutas fáceis de julgar como a do Velickovic-Matthews e Jessy Jess-Rawlings. Eu fico impressionado com a incompetência dos caras, muda-se as regras mas a aplicação delas que é bom, nada. Card regional é foda, cada decisão absurda, e nem por questões parciais como você bem pontuou, é mais por não ter se atualizado pra fazer o seu trabalho. Nem a mãe do Theodorou viu 10-8 em favor dele.

    Achei a performance do Volkanovski ok, não quis se arriscar contra um cara bem grande e com nome nenhum, justo, o importante em lutas assim são os 3 pontos, na próxima com um camp full sem mudança de adversários é que ele precisa apresentar instintos de finalizador, pois potencial para tal ele tem.