Resenha MMA Brasil: UFC Fight Night 120

O UFC vive um momento especial no segundo semestre de 2017. Eventos gigantes entregando aquilo que prometiam, eventos menores empolgando os fãs. Ontem, véspera do 24º aniversário da organização, o UFC Fight Night 120 seguiu nesta batida.

A luta principal entra na disputa de melhor do ano. Um nocautaço também entraria, mas logo depois aconteceu um maior ainda. Defuntos sendo ressuscitados, prospectos surgindo (ou ressurgindo). Teve de muito em Norfolk, no estado americano da Virginia.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC Norfolk e vamos ao debate.

Dustin Poirier finalmente se credencia para o passo além

Nunca se duvidou do imenso talento de Dustin Poirier, justamente apelidado de “Diamante”. Porém, alguns detalhes o impediam de dar o passo além – ele sempre perdeu esse tipo de luta. Ontem ele teve mais uma chance. Diante do ex-campeão Anthony Pettis, Poirier teve a melhor atuação da carreira.

Foto: Peter Casey/USA TODAY Sports

No primeiro round, Dustin começou cauteloso, respeitando o poder de finalização de luta de Anthony. Quando percebeu que precisava aumentar o volume de golpes na curta distância, Poirier mudou o cenário das ações, chegando a aplicar uma mini surra nos momentos finais do assalto, quando enquadrou Pettis na grade.

Poirier também se destacou no jogo de solo, mas não o fez sozinho. O wrestling de Pettis segue deficitário – é incrível que esse fenômeno Anderson Silva continue acontecendo tantos anos depois – e Poirier explorou à vontade. Pettis confia muito em sua guarda – como Anderson fazia – e talvez nunca tenha se preocupado com o wrestling por causa disso. Num esporte que permite cotoveladas no solo, ignorar o wrestling e apostar na guarda beira a sandice.

Por cima, o “Diamante” largou uma selvagem bateria de cotoveladas que afogou o “Showtime” em seu próprio sangue. O short branco de Porier ficou em 50 tons de rosa. E aí tivemos um segundo round sensacional, com raspagens, ataques para finalização, transições, guardas ativas. Negócio lindo. Pettis quase teve a chance de matar a luta nos segundos finais, mas o excesso de sangue e suor ajudou Poirier a escorregar e escapar da pressão.

Abatido, Pettis capitulou no terceiro assalto. Poirier mais uma vez derrubou com facilidade, caiu por cima, pegou as costas e, quando estava prestes a montar, Pettis sentiu uma lesão na costela e desistiu. Um anticlímax para uma luta tão animada e tecnicamente muito bem disputada, bonificada como a melhor da noite.

No fim das contas, fica a felicidade de saber que o monstruoso top 10 do peso leve tem mais um animal faminto e muito talentoso. Fica também a tristeza de confirmar que, caso não se reinvente com urgência, Pettis se tornará um lutador comum. Genialidade sozinha não empurra ninguém para cima, especialmente num esporte tão dinâmico e difícil como o MMA.

Matt Brown se despede (será?) sacando sua principal arma

Ninguém na história do peso meio-médio do UFC aplicou tantos nocautes quanto Matt Brown. Em sua luta de despedida, contra Diego Sanchez, o “Imortal” estirou mais um corpo no chão usando seu cotovelo batizado pelo Belzebu em pessoa.

Foto: Peter Casey/USA TODAY Sports

Sanchez era dado como acabado quando, um ano atrás, deu esperança de recuperação ao retomar seu jiu-jítsu de alto nível contra Marcin Held. Era um modo de tentar esticar uma carreira sofrida sem prejudicar ainda mais a sua velhice. Ontem, contra um nocauteador nato, Diego não pestanejou para rapidamente arrastar a luta para o chão, situação em que teria ampla vantagem sobre Matt. Porém, o “Pesadelo” não tem mais a explosão de antigamente e o tempo passado com os Buckeyes da Universidade de Ohio State fez com que o “Imortal” mantivesse a luta em pé.

Antes do desfecho, quase que Brown foi pego mais uma vez por um velho problema. Um chute na linha de cintura o fez dobrar, mas o fez também se ligar. Na segunda tentativa de chute, Brown travou a perna de Sanchez, empurrou o adversário para a grade e… a transmissão da FOX Sports americana cortou para a montagem da sala de imprensa. Certamente cabeças rolarão na emissora. Aliás, quase que a de Diego rolou também. Quando a FOX recuperou as imagens perdidas, foi possível ver que Brown havia largado uma cotovelada que fez Sanchez cair como se fosse uma marionete que teve as cordinhas cortadas. Merecido bônus de desempenho para o “Imortal”.

Se esta foi mesmo a última luta da carreira de Brown, muito bom sair de cena com o nome na planilha de candidatos a nocaute do ano. E se essa não foi a última luta de Sanchez, que que ele repense a decisão. Não dá para ficar brincando com a saúde como ele faz. Se eu puder dar um conselho de merda, largue o MMA e vá curtir o submission e o jiu-jítsu para continuar alimentando essa infindável fome por competição e adrenalina. Mas, por favor, pare de tomar soco na cara e ser nocauteado.]

Junior Albini ressuscita o defunto Andrei Arlovski

Não lembro de alguém na história do UFC sobreviver a cinco derrotas seguidas sem levar a bota do patrão. Andrei Arlovski sobreviveu. Ontem o ex-campeão dos pesados quebrou a sequência negativa contra Junior Albini, voltando a vencer pela primeira vez desde setembro de 2015.

O brasileiro tinha vários caminhos para vencer. Optou por um deles, mas não seguiu o plano corretamente. Albini nitidamente queria cansar os braços do veterano no clinch. Isso tornou a luta enfadonha, mas poderia ser um atalho para testar o queixo reprovável de Arlovski. Não aconteceu.

Talvez confiando muito no poder de suas combinações, Baby se movimentou pouco e atacou pouco. Perdeu muito tempo ajeitando o short, que mais parecia um fraldão. E permitiu que Arlovski fosse soltando combinações de três ou quatro golpes, mesmo sem mostrar a movimentação que marcou sua carreira. Arlovski não teve uma atuação de encher os olhos e ainda assim venceu um adversário 12 anos mais jovem.

Talvez esta tenha sido daquelas derrotas que ensinam. Baby e sua equipe precisam entender o que aconteceu para continuar desenvolvendo um talento com capacidade para chegar longe. E Arlovski dá mais uma esticada em sua carreira – quando ele estreou, nosso editor Gabriel Carvalho sequer havia nascido.

Cezar Mutante quase ressucita o defunto Nate Marquardt

Talento ofensivo nunca faltou a Cezar Mutante. Porém, ele não consegue resolver dois problemas graves: montar um sistema defensivo mais sólido para proteger o queixo vulnerável e seguir um planejamento estratégico que maximize seu potencial. Isso quase custou a vitória contra o praticamente acabado Nate Marquardt.

Os dois primeiros rounds foram mais perigosos do que deveriam para o paulista radicado em Minas Gerais. Mutante optou por manter o combate na longa distância mandando chutes no corpo e nas pernas em conjunto com algumas boas esquerdas. No entanto, muitas vezes ele girava para o lado errado, ficando à mercê da violenta mão direita do americano. Numa dessas, Marquardt avançou e mandou o brasileiro a knockdown. Numa dessas, Mutante pode acabar nocauteado e vendo sua carreira ir pelo ralo.

O vencedor do primeiro TUF Brasil se recuperou e adotou uma estratégia mais segura no último assalto. Com duas quedas e trabalho de pressão por cima, Mutante minou o gás de Marquardt e abriu caminho para a vitória apertada. Menção honrosa para um movimento de Cezar. Quando Marquardt tentou uma guilhotina em pé, o brasileiro escapou com uma queda de grande amplitude, seguida de uma passagem de guarda muito inteligente, virando para o lado que faria a pressão do estrangulamento arrefecer. Para completar, Mutante ainda saiu sobre o cem-quilos para garantir a vitória numa luta que poderia se complicar.

Raphael Assunção barra o avanço de Matt Lopez

Se já não tivesse 30 anos, Matt Lopez seria um prospecto interessante para o UFC trabalhar em sua crescente divisão dos galos. Como já tem 30 anos, o UFC tentou adiantar o processo e jogou o americano contra Raphael Assunção, integrante cativo de um dos top 5 mais fortes do MMA mundial.

O pernambucano teve uma atuação sólida na troca de golpes em pé, controlando bem o ritmo, fosse como agressor ou como contragolpeador. Aos 35 anos, Assunção não dá sinais de queda de rendimento, mesmo atuando numa categoria de idade de cachorro, na qual é comum decair com menos idade do que os mais pesados.

Pacientemente, usando belas combinações e um trabalho demoníaco de chutes baixos, Raphael foi minando a movimentação de Lopez, tornando o americano cada vez menos móvel. Com a parte interna das coxas quase pretas, Matt foi abatido de modo brutal. Assunção tentou uma joelhada voadora que parecia fora de propósito pela distância, mas que acabou servindo para deixá-lo em posição de extermínio. Um gancho de direita assombroso nocauteou o americano a frio.

Esta foi a décima vitória de Raphael Assunção como peso galo (pelo menos oficialmente), contra apenas uma derrota, para o atual campeão TJ Dillashaw. Assunção, aliás, está empatado no retrospecto contra TJ. Ainda que a vitória tenha sido controversa, a derrota foi vendida a preço elevado. Esperamos que o matchmaking não faça Assunção perder mais tempo.

Clay Guida segue em recuperação com nocaute violento

Depois da mal sucedida empreitada no peso pena, Clay Guida retornou à sua divisão de origem para um final de carreira mais digno. A luta contra Joe Lauzon não foi empolgante como esperado, mas apenas porque durou apenas um minuto. E esse minuto foi, sim, bem animado.

Guida não finalizava uma luta desde o primeiro dia de 2011 e não nocauteava ninguém há quase uma década. Ele encerrou os jejuns de modo avassalador. Um mata-cobra abalou J-Lau e um uppercut o mandou à lona. O “Carpinteiro” liberou o inferno no ground and pound até o árbitro Mike King interromper.

Rapidinhas das preliminares do UFC Norfolk

– No duelo da potência contra a velocidade, melhor para o poder de Marlon Moraes. Não que John Dodson não tenha potência também, mas o americano apostou em sua chocante rapidez de movimentos para tentar vencer. Dodson aplicou um knockdown no primeiro assalto, mas errou muitos golpes na sequência da luta. Moraes mais uma vez executou um bom serviço com chutes para tentar quebrar a movimentação do americano. Cada um venceu um round com clareza e o terceiro foi equilibrado, mas Marlon quase encerra a luta com uma guilhotina nos segundos finais – Dodson chegou a bater imediatamente após a buzina. Na marcação dos juízes, três bizarros 30-27, dois para o brasileiro e um para o americano.

Tatiana Suarez segue mostrando que será uma força no peso palha. Parecendo ser de duas categorias acima de Viviane Sucuri, a ex-medalhista em dois mundiais de wrestling derrubou, amassou e espancou Viviane no solo. Menção desonrosa para a péssima escolha estratégica da kickboxer brasileira, que resolveu trocar força contra alguém muito mais forte e muito superior no clinch e no controle posicional. E menção desonrosa também para o córner de Sucuri, que viu sua pupila ser engolida a poucos metros sem dar nenhuma instrução que pudesse ajudar Sucuri a sair daquele pesadelo.

– Um conjunto de decisões acertadas levou Sage Northcutt à vitória em Norfolk. O jovem tirou um longo tempo de inatividade para se aprimorar no Team Alpha Male. Foi jogado no meio do card preliminar de um pequeno Fight Night. Longe dos holofotes e de volta ao peso leve, “Super” Sage mostrou sinais claros de evolução, principalmente na maturidade de ler a luta contra Michel Quinones. Northcutt foi preciso nos contragolpes, trabalhou bem as combinações, aplicou alguns chutes plásticos, manteve o oponente em posição defensiva quase o tempo todo e completou a atuação com quedas providenciais. Que ele consiga seguir neste caminho e o futuro provavelmente se abrirá como prometido.

Court McGee não tem mais a consistência e o volume ofensivo que mostrava nos momentos seguintes à vitória no TUF 11, mas ainda mostra a tendência de perseguir os oponentes em linha reta. Desse modo ele foi jantado pelos jabs de Sean Strickland, que chegou à quarta vitória nas últimas cinco lutas.

Marcel Fortuna estreou no UFC nocauteando um peso pesado atuando como o mais leve lutador da história da categoria. O resultado, obtido contra uma baranga, tapou algumas muitas falhas do brasileiro, que foram expostas pelo promissor Jordan Johnson no combate seguinte. Jogado a alguém de seu nível técnico, o “Mãozinha” sofreu na troca de golpes contra Jake Collier e não conseguiu capitalizar em sua zona de conforto quando conseguiu a montada no segundo round. No UFC há quase três anos, Collier só venceu brasileiros (Fortuna, Alberto Uda e Ricardo Demente), apesar de ter sido derrotado na estreia por Vitor Miranda.

– O peso médio está precisando de renovação. Karl Roberson é um bom candidato. O kickboxer, que chamou atenção com um nocaute brutal no terceiro episódio do Dana White’s Tuesday Night Contender Series, mostrou que não tem apenas um vasto arsenal de socos e chutes. Contra Darren Stewart, o americano já havia machucado o britânico quando o arrastou ao solo, pegou as costas e finalizou no mata-leão, numa sequência que parecia de alguém com intimidade com a arte suave.

Todas as demais fotos são da Getty Images