Resenha MMA Brasil: UFC Fight Night 118

O UFC Gdansk mostrou a redenção dos ilustrados no projeto Top 10 do Futuro, recuperou dois strikers poloneses e mostrou outros dois ases da luta agarrada em boas vitórias.

O UFC Fight Night 118, que aconteceu na tarde deste sábado (21), dividiu opiniões. Teve quem quisesse colocar o evento na planilha do Barangão como um dos piores do ano, teve quem achasse divertido. Houve lutas bem legais e outras monótonas. Como foi um card de UFC Fight Pass, passou rápido. E como foi de tarde, não atrapalhou o sono de ninguém.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC Gdansk e vamos ao debate.

Darren Till explora uma das brechas mais documentadas do MMA mundial

Donald Cerrone é um lutador sensacional, como sempre faço questão de deixar claro nas prévias. Porém, ele tem uma das deficiências mais latentes em todo o MMA de alto nível. Há um caminho límpido para batê-lo que, se for bem executado, é praticamente tiro certo.

Darren Till tinha todas as ferramentas: striking técnico e potente, força física e tamanho. Precisava de apenas um ajuste, o de acelerar desde o começo, tomando a iniciativa e deixando a postura de contragolpeador um pouco de lado. Foi exatamente o que ele fez. Com as ferramentas corretas e a estratégia bem feita, o combate não foi equilibrado em momento algum.

O “Cowboy” tem muita dificuldade de lidar com quem o pressiona. E isso se torna ainda mais crítico porque ele costuma iniciar as lutas de modo lento. Foi assim que ele foi varrido por Rafael dos Anjos, por Jorge Masvidal, por Ben Henderson (no WEC). Foi assim que ele levou a virada de Nate Diaz. E foi assim que Till o obliterou.

O britânico não deu espaço para o americano respirar. Seja lá para onde Cerrone se movimentasse, Till estava na frente dele, como se fosse o reflexo num espelho. E Darren colocou um volume de golpes para não deixar a perseguição virar apenas brincadeira de pega-pega. Conforme Till conectava os golpes, sua confiança foi aumentando. Ele se posicionou de lado para que a esquerda se beneficiasse de giros rápidos do quadril. Eu não vi as estatísticas, mas chutaria que a canhota do inglês encontrou o alvo em pelo menos 90% das tentativas.

Levando soco de todo lado, sem conseguir levar o adversário para o chão – aqui contou a desvantagem física latente que ele sofreu – Cerrone foi ruindo até encontrar seu fim na marca de 4:20 de combate.

Top 10 do Futuro 1 x 0 Detratores.

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Karolina Kowalkiewicz reencontra seu jogo na vitória sobre Jodie Esquibel

Como fazer para enfrentar uma striker como Karolina Kowalkiewicz? A polonesa é uma contragolpeadora de elite, que usa muito bem a envergadura e atua com desenvoltura nas duas extremidades da distância, seja no trabalho da longa ou no thai clinch. Resta às oponentes acharem o alvo dentro do raio de ação de Karol. Para tanto, é preciso estar muito bem treinada para ser rápida nas entradas e saídas, a fim de não ser alvejada na ida ou na volta e também não ficar presa no clinch.

Esquibel teve algum sucesso no começo da luta. Com velocidade, ela entrava, batia e saía. Porém, Kowalkiewicz, experiente nesse tipo de luta, percebeu e mudou a abordagem. A polonesa deixou a postura de contragolpeadora e passou ao ataque. Primeiro ela surpreendeu Jodie com golpes de encontro que acertavam a americana na entrada. Em seguida, Karolina virou stalker e caçou Esquibel no octógono.

A luta ficou unilateral. Combinações limpas de socos e chutes foram minando a movimentação da americana. As joelhadas no clinch drenaram o gás de Esquibel. Karolina foi implacável até o fim do combate, com direito a um 10-8 no segundo round, e reforçou seu nome como integrante da elite do peso palha.

Karolina Kowalkiewicz domina Jodie Esquibel e vence por decisão unânime dos juízes

Nada como um QI de luta baixo para resgatar Jan Blachowicz

No segundo evento do UFC realizado na Polônia, Jan Blachowicz recebeu a chance de conquistar a primeira vitória diante de seus compatriotas depois de perder para Jimi Manuwa, em 2015. Porém, o cenário reservava uma possibilidade sombria. Blachowicz vinha de quatro derrotas nas últimas cinco lutas. Dois dos reveses aconteceram contra wrestlers (Corey Anderson e Patrick Cummins) e Manuwa jogou como um para compensar o joelho machucado. O oponente deste sábado fora campeão do circuito universitário da NJCAA de wrestling.

No entanto, Devin Clark não soube usar sua principal ferramenta contra o calo do adversário. O americano foi atabalhoado em todas as tentativas de encurtar a distância além da primeira, em que ele emendou uma bela combinação de socos com uma entrada nas pernas. De resto, ataques abilolados e uma opção esdrúxula por trocar porrada na longa distância contra um contragolpeador competente.

A receita do desastre estava desenhada. Apesar de acertar um ou outro soco potente, Clark levou prejuízo na troca de golpes, tendo a linha de cintura carimbada com frequência pelos chutes do polonês. Porém, o desfecho foi épico para tantas decisões ruins do americano. Em uma das entradas atrapalhadas, Clark se abriu e mergulhou num raro, mas muito bem executado, mata-leão em pé. Blachowicz já laçou o pescoço do rival e apertou o estrangulamento sem precisar puxar para o chão.

Com finalização incomum, Jan Blachowicz volta a vencer no UFC Fight Night 118

Poloneses bons de jiu-jítsu em ação

A fronteira dos cards preliminar e principal trouxe dois poloneses especialistas na arte suave. Ambos botaram o jiu-jítsu pra jogo, mas só um venceu sem dificuldade.

O estreante Oskar Piechota teve atuação sensacional diante do americano Jonathan Wilson. O ex-campeão dos médios do Cage Warriors foi superior na troca de golpes em pé, embora com alguns momentos de equilíbrio. Porém, quando conseguiu encurtar, deu um verdadeiro passeio no parque.

No primeiro assalto, Piechota deu uma mochilada sensacional e tentou um mata-leão. Só saiu das costas quando a buzina soou. No segundo, aplicou um forte knockdown. No terceiro, fez Wilson de gato e sapato. O polonês pegou as costas com facilidade, fez a transição para a montada na categoria e atacou o americano com um triângulo e duas chaves de braço.

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Fechando o card preliminar, Marcin Held finalmente conseguiu sua primeira vitória no octógono, mas não foi sem dificuldade. O estreante alemão Nasrat Haqparast, substituto de última hora de Teemu Packalen, deu trabalho.

Haqparast mostrou potência nos punhos, especialmente no primeiro assalto. Held demorou a levar a luta para o chão e ainda teve que lidar com a boa defesa de submissões do oponente, que escapou até de leglock, especialidade do polonês. Na segunda metade do combate, Held conseguiu derrubar e operar por cima, deixando algumas cotoveladas. Marcin conseguiu a queda nos segundos iniciais do último assalto, que foi praticamente todo disputado no solo. Duas passagens de guarda, um bote para a finalização e controle posicional deram a vitória a Marcin Held.

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Top 10 do Futuro sai com 3 a 0 nós

Além da vitória de Darren Till na luta principal, outros dois integrantes do projeto Top 10 do Futuro venceram no UFC Fight Night 118, jogando para longe a agourada que nós demos no UFC 216.

A estreante Aspen Ladd foi a primeira. Ela até começou em desvantagem contra Lina Lansberg, mas o cenário mudou quando a jovem americana derrubou a veterana sueca com um double leg no centro do octógono. Ladd chegou à montada e liberou o inferno no ground and pound até a interrupção na marca de 2:33 da segunda etapa.

O outro foi o daguestani Ramazan Emeev, ex-campeão dos médios do M-1 Global, que ainda não teve sua coluna publicada. Emeev venceu Sam Alvey com autoridade, ora aplicando socos rápidos, ora sufocando o americano no clinch. Em momento algum o sorridente Alvey teve chance de produzir algo ofensivamente.

  • Lero

    Caralho, acho que chegou a hora do Cowboy ir para o Bellator. Faria lutas muito boas lá. Meu coração não suportaria outra derrota dele.

  • James sousa

    As várias lutas por ano que o Cerrone faz está começando a pagar a conta

  • William Oliveira

    Ótima justificativa pra ir de Clark nos palpites Matos, mas por mais que ele seja gabaritado no wrestling, Clark é o exemplo perfeito de um cara que até tem as ferramentas necessárias, mas simplesmente não consegue colocar tudo junto por conta de um baixo QI de luta. Bizarro mesmo. Não consigo ir de Clark contra ninguém legítimo em qualquer aspecto do MMA, no entanto fim mais inesperado que Jan B~ vencendo através de um mata-leão em pé não tinha mesmo.

    A luta do Cerrone-Till tinha essa “zebra” toda desenhada já, não sei como tantos foram pegos de surpresa. Creio eu que sejam as lutas anteriores do Till indo pra decisão (o que não significa absolutamente nada).