Por Alexandre Matos | 22/09/2019 01:34

Duas semanas depois de fazer atletas lutarem sob calor sufocante, o UFC escalou gente para trocar soco a 2.250m de altitude. Afinal de contas, por que não? Para completar, o card principal, que vinha sendo bem legal, terminou de modo bizarro em vários aspectos. A Resenha MMA Brasil: UFC Cidade do México vai tentar contar a história de modo, digamos, menos estressado.

Além da luta que não teve, o UFC Cidade do México teve duelos animados, placares absurdos, tomadas de decisão idem e dois nocautes sensacionais. Das três últimas lutas, duas terminaram sem vencedor – mas com perdedores.

Eu devia ter dormido e escrito essa resenha depois de acordar mais relaxado, mas não.

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O que eles estão esperando para mudar a regra?

No contest em 15 segundos de uma luta promissora é mais broxante que… deixa pra lá.

Pior ainda é quando se trata da falta com a regra mais absurda de todas. Geral esperando muito de Yair Rodríguez contra Jeremy Stephens quando vai lá e pêi!, dedo no olho.

Yair-Rodriguez-Jeremy-Stephens-UFC-Mexico

Por que caralhos o “Pantera” deu aquela mãozada com os dedos todos abertos? O que ele queria com aquilo? O movimento foi tão desnecessário que, se alguém julgar que foi intencional, eu não estarei contra.

Por que caralhos algum indivíduo da ABC Boxing não trata de deixar essa falta menos subjetiva? É simples de resolver, nós falamos disso há anos aqui no MMA Brasil. Meteu o dedo no olho do adversário? Deduz um ponto. Meteu pela segunda vez? Desclassifica. Foda-se. Nem precisa entrar no mérito da intenção. Não tem motivo algum pra lutador medir distância com os dedos esticados. Eu caso cinquentinha se essa definição não reduzisse drasticamente a quantidade de infrações. E nego gastando dinheiro com pesquisa de luva curva, para deixar os dedos virados pra baixo.

Eu devo ser maluco, só pode.

Você aí que não viu o evento e veio aqui ler nossa resenha tá pensando que foi só isso? Que nada. Pior que o no contest de 15 segundos foi a reação dos mexicanos, impulsionados pelo principal deles. Talvez achando que Stephens estava dando migué (maluco levou uns três dedos nos dois olhos e passou mais de cinco minutos sem conseguir abrir o esquerdo), Rodríguez ficou incitando a torcida contra o americano. Resultado: quando Herb Dean decretou o fim do confronto, uma chuva de garrafas e baldes de pipoca inundou o octógono e os arredores. Stephens saiu sob escolta. Sobrou até pro Michael Bisping, que foi tentar entrevistar o mexicano e acabou xingado pelo lutador. Só me veio à cabeça o Colby Covington subindo na grade e berrando “You filthy animals!” Que papelão do Pantera e de seus fãs.

Quando a evolução técnica não encontra a intelectual

A altitude deve ter afetado a capacidade de Alexa Grasso tomar decisões. Só isso justifica o que ela fez no terceiro assalto, depois de dez minutos de equilíbrio – e outras tomadas de decisão equivocadas – contra a ex-campeã Carla Esparza.

Ah, mas Grasso é mexicana e se preparou para a luta na altitude.

Carla Esparza venceu Alexa Grasso no UFC Cidade do México

Alexa é uma striker com problemas na defesa de quedas. Carla é uma wrestler com um boxe menos desenvolvido. Luta de contornos táticos bem claros, que ficou óbvio no seu desenrolar.

O que uma boxeadora com defesa de quedas ruim deve fazer contra uma wrestler? Se movimentar bastante, imprimindo forte volume de golpes, para evitar ser derrubada. O que Grasso fez? Se preparou para tentar reverter as quedas. É estranho que um treinador profissional opte por esta abordagem.

Esparza abriu uma distância do tamanho da Dutra (nem vou fazer a piada de que Grasso é o Rio) e rapidamente corria para encurtar a distância e encontrar o clinch para a queda. Ela fez isso pelo menos umas três vezes. Grasso foi pega em todas. Por cima, a americana trabalhou o controle posicional com algumas cotoveladas, enquanto a mexicana tentava alguma manobra não para escapar, mas para aplicar um bote ou uma raspagem.

O pior ficou para o terceiro round. Com uma forte possibilidade de estar atrás no placar, Grasso finalmente foi mais agressiva. Ela abalou a oponente com um gancho de esquerda, seguido de diversos socos. Esparza estava grogue, a ponto de cair com um encostão. Era só largar a mamona, uma só, e fim de papo. Mas o que Alexa fez? Inventou de ganhar bonito e caiu feio de bunda depois de furar um chute alto.

Contudo, Esparza não tinha se recuperado totalmente. Grasso precisava apenas se levantar e atacar novamente. E o que ela fez? Só a primeira parte. A mexicana se levantou e não atacou. Pq fas iso?

Não acabou. Ainda meio zonza, Esparza tentou derrubar. Conseguiu (ah vá!) na terceira. Deveria ser fácil escapar, mas Grasso resolveu fazer guarda mesmo com todas as aberturas dadas pela rival.

Sério, não é possível.

Era, sim. Alexa até conseguiu uma posição dominante e travou o braço de Carla. A ex-campeã girou e resistiu com o braço envergando até escapar. A buzina soou e Grasso ouviu Joe Martinez cantar um empate em 28-28 e dois 29-28 para Esparza. Bem feito.

Peso mosca respira no empate na estreia de Askar Askarov

Uma das melhores lutas do evento aconteceu no retorno de Brandon Moreno ao UFC contra o estreante Askar Askarov, ex-campeão do ACB. O peso mosca não pode acabar.

Resenha MMA Brasil: UFC Cidade do México

Os lutadores foram muito bem, mas a juizada mostrou que critério não é o forte deles. Douglas Crosby e Rick Winter deram preferência à luta agarrada de Esparza em detrimento do kickboxing de Grasso. Já Bladimir Puga optou pelo striking de Moreno e cometeu o acinte de anotar um 30-27 para o dono da casa.

Nos dois primeiros assaltos, Askarov aplicou quedas de grande amplitude e pressionou no chão, por cima e por baixo, um oponente conhecido pelos botes certeiros. Cada pancada dura que Moreno mandava parecia não surtir efeito no duro daguestanês (perdão pelo pleonasmo), mas parece que surtiu em dois juízes. Talvez eu não entenda mais de MMA como já foi um dia, mas vi 20-18 para o russo.

Na última parcial, Moreno conseguiu uma queda para trabalhar por cima. Porém, errou quase tudo o que tentou e levou couro vindo de baixo. O round estava equilibrado quando o mexicano pegou as costas e aplicou diversas tentativas de estrangulamento. Askarov só tentou se defender – o que nas novas Regras Unificadas do MMA nada vale – enquanto Moreno não foi capaz de dar fim ao combate.

Na leitura das papeletas, além do dantesco 30-27 para Moreno, Sal D’Amato foi de 28-28 e Junichiro Kamijo marcou o mesmo 29-28 Askarov que eu vi. Lendo o MMA Decisions, chego à conclusão que devo estar maluco mesmo.

Resenha MMA Brasil: UFC Cidade do México – Outros destaques

– Quem não conseguiu assistir ao evento, corra para conferir dois nocautes sensacionais. Steven Peterson estava perdendo claramente de Martin Bravo quando os dois giraram ao mesmo tempo. O soco rodado do mexicano passou no vento, mas o do americano explodiu contra o queixo do rival, que caiu duro. O confere foi totalmente desnecessário.

– O outro nocautão nem chegou a ter corpo estirado no chão. O canadense Kyle Nelson deu tanto em Marco Polo Reyes em 96 segundos que o árbitro Jason Herzog nem esperou knockdown para decretar o nocaute com o mexicano ainda em pé, mas totalmente entregue nas mãos do palhaço.

– Os representantes do Esquadrão Brasileiro 🤪 eram azarões em todas as lutas. Somente Bethe Correia venceu (e eu não consegui assistir ainda). Marcos Dhalsin perdeu mais uma (também não vi), com direito a 30-25 de Claudio Puelles; Vinicius Mamute foi finalizado em pouco mais de meio round por Paul Craig; Ariane Sorriso foi nocauteada por Angela Hill e Vanessa Melo, que estreou em cima da hora, levou vareio de Irene Aldana.