Por Diego Tintin | 18/11/2018 23:04

Na primeira vez que o UFC montou seu octógono na Argentina, o Estadio Mary Terán de Weiss viu a coroação de um novo ídolo nacional para os hermanos, após uma atuação de alto nível. Outra atração foi a gestação de dois novos prospectos para categorias carentes, ambos lidando bem com veteranos. Falando em gente experiente, um antigo desafiante provou seu valor em duelo sangrento. Vamos lá ao que de melhor aconteceu na linda Buenos Aires.

Atuação de gala e ingresso na elite do “Argentino Xente Boa”

Santiago Ponzinibbio apareceu no TUF Brasil como um lutador agressivo, raçudo e nocauteador. Mas exibia problemas graves como preparo deficiente, falhas táticas e estratégicas. No duelo contra Neil Magny, Santi mostrou que o condicionamento hoje lhe permite atuar por no mínimo quatro rounds sem diminuir um ritmo intenso de pressão. Estrategicamente, o argentino está muito mais maduro, caçando o oponente e atacando o tempo todo, mas sem se expor de forma radical como acontecia.

O resultado foi um tremendo passeio, com o portenho ignorando a barreira de jabs sempre postada pelo americano, que se aproveita de seu alcance gigantesco. Ele foi perfeito na estratégia de engolir alguns desses jabs, mas responder com chumbo do grosso e moer as pernas do magrila estadunidense com senhoras lambadas nos caniços. Tudo coroado com um gancho de direita dos infernos que explodiu no queixo de Magny, o jogando diretamente com a testa no tablado, fazendo a festa dos sul-americanos presentes no ginásio. De quebra, o local ainda garantiu um dos bônus de desempenho do evento.

Agora, Ponzinibbio, consolidado como um top 10 deve ter um teste mais exigente, com alguém da elite desta encardida divisão. Já Magny deve – enquanto a carcaça aguenta – servir para o velho papel de porteiro. Função esta que cumpre com alguma competência há uns bons anos na organização.

Ricardo Lamas mostra que ainda tem valor no peso pena

Ricardo Lamas não chama tanta atenção entre muitos lutadores empolgantes e talentosos no peso pena. Mas o veterano só não tem mais interrupções na divisão que o atual campeão Max Holloway, o que é um número surpreendente. Em um duelo contra o também experiente Darren Elkins, Ricardo mostrou seu bom repertório de socos bem alinhados e quedas pontuais. Como Elkins não deixou barato e é um dos mais valentes lutadores da categoria, tivemos uma luta coprincipal bastante animada.

Lamas apertou o ritmo a partir do segundo assalto e passou a controlar a luta, que estava bem difícil até então. No meio da última parcial, o ex-desafiante pôs pimenta e manchou o tablado com o sangue do rival. Em um ground and pound violento e repleto de cotoveladas, Lamas causou um dano tão grande em Darren, que o árbitro Keith Peterson resolveu interromper o combate, mesmo com o derrotado ainda conseguindo se defender. Decisão acertada em nossa visão, uma vez que apanhar por mais um minuto não mudaria o cenário da luta e poderia ser uma diferença e tanto na saúde de Elkins.

Johnny Walker pode te apagar, assim como o xará mais famoso

Johnny Walker mostrou as características que o marcaram na passagem por eventos menores e pelo Contender Series Brasil do UFC: poder de nocaute e muita personalidade. Não se intimidou com o também violento Khalil Rountree e chegou a fazer graça de dois chutes do estadunidense. A luta estava naquela de encaradas e golpes tímidos até um bom chute alto do brasileiro acertar bem na moringa do coitado do Rountree. Johnny sentiu o cheiro de sangue e partiu para definir a parada. Agarrou o cangote de Khalil e o acertou duas vezes com o antebraço. Na segunda, o americano já caiu sonhando com a proteção e o quentinho do colo de sua tagarela mamãe.

Johnny, carismático e atlético, traz um sopro de esperança na renovação desta combalida divisão. Para completar a festa, Ele ainda beliscou o outro cheque de desempenho da noite.

Ian Heinisch abusa da força física para estrear com barulho no UFC

Ian Heinisch foi mais uma das boas surpresas da noite, com um bom desempenho ofensivo contra o veterano brasileiro Cézar Mutante. Ian parece um lutador com técnica dentro da média, mas que pode se destacar por um atleticismo impressionante. Forte como um cavalo, levantou-se com tranquilidade cada vez que Mutante conseguia com muito custo derrubá-lo. No fim do segundo round, Heinisch mandou o brasileiro a knockdown com uma patada assustadora e transformou o oponente em um mero morto-vivo até o fim do duelo.

Com pouco tempo de preparação, é de se destacar o desempenho físico do norte-americano. Já estou ansioso para ver suas próximas apresentações. Já para Mutante, é provável que temos aqui um parecer definitivo que este jamais alcançará o grupo que detém o controle das ações da categoria. Resta ao paulista seguir com a digna carreira, talvez ocupando uma portaria intermediária na divisão.

Cynthia Calvillo mostra que Poliana Botelho tem ainda um caminho longo

Cynthia Calvillo se recuperou da derrota para Carla Esparza com um grande triunfo sobre Poliana Botelho. A brasileira era perigosa na luta em pé, então a americana tratou de buscar a luta de solo, mas Botelho se levantou rápido na primeira tentativa. Quando já tinha equilibrado a trocação com sua velocidade, Cynthia acertou o tempo de catar o chute de Poliana e dessa vez não teve choro nem vela. Com desenvoltura, a estadunidense chegou ao mata-leão e fez a brasileira batucar pela primeira, pela segunda e pela terceira vez, quando finalmente Herb Dean percebeu o que acontecia e terminar a brincadeira.

Calvillo volta pra conversa enquanto a brava Polly dá um passo atrás para refazer seu caminho dentro da organização.

Outros destaques:

– Já passou da hora de Michel Trator ter um teste de verdade, após sua oitava vitória seguida, dessa vez sobre o polonês Bartosz Fabinski. Depois de levar apenas um minuto para acertar uma tijolada no queixo do europeu e sacramentar com uma guilhotina, o paraense usou o microfone para implorar os patrões para voltar ao peso leve, de onde foi enxotado por não conseguir bater o peso algumas vezes.

– No cenário de incerteza sobre os atletas do peso mosca, o ideal é se manter vencendo para garantir o emprego. Foi isso que Alexandre Pantoja fez contra o rodado japonês Ulka Sasaki, recorrente vítima dos faixas-pretas brasileiros. E fez com autoridade, dominando cada segundo do combate e o finalizando antes da metade do round inicial.

– Em uma fina ironia geopolítica, os primeiros atletas a disputarem uma luta do UFC em solo argentino foram um inglês e um brasileiro. Em uma luta que a maioria da plateia talvez torcesse por um nocaute duplo, Nad Narimani dominou as ações contra o valente, porém limitado, Anderson Berinja, que valorizou a vitória do europeu com muita garra.

– Na melhor luta da noite, o local Laureano Staropoli apresentou um interessante arsenal ofensivo e um estilo muito parecido com o agora ídolo nacional Ponzinibbio. O mexicano Hector Aldana foi outro que ofereceu resistência e valentia, mas não teve chance contra a maior técnica do promissor argentino.

Filósofo de botequim. Engraçadinho de sofá. Torcedor de radinho. Guerreiro de teclado. Cantor de chuveiro. Jogador de bermudão. E analista de meia-tigela.