Por Alexandre Matos | 16/08/2020 15:19

Não tinha como errar. Depois de amargar um monte de evento picareta, os fãs de MMA poderiam ficar tranquilos: por pior que fosse o UFC 252, a última impressão seria épica. Afinal, não é todo dia que vemos encerrar uma trilogia envolvendo os dois melhores de uma categoria.

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Para ficar ainda melhor, o UFC 252 foi divertido. Vimos lutas acirradas, favoritos caindo, bons valores crescendo. E vimos a luta principal, que é o que ficará registrado em nossas memórias.

Deixemos de enrolação e vamos para as minhas enrolações sobre o que rolou neste sábado. É a Resenha MMA Brasil: UFC 252.

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Quando o peso pesado vale ouro

Provavelmente eu devo ser o maior crítico da categoria mais pesada do MMA (ignoro deliberadamente o peso superpesado, Zico me livre). Porém, quando eles são bons, podem ser dos melhores que o MMA produz. Não tenho dúvida que Stipe Miocic e Daniel Cormier pertencem a este panteão.

O confronto teve um pouco de tudo: ações ofensivas técnicas e contundentes, drama, momentos agudos, momentos travados, erros. Inclusive os mesmos erros que custaram as duas derrotas nos combates anteriores e que não foram totalmente consertados para esta trilogia.

Miocic continuou apresentando o problema de deixar a têmpora exposta ao sair do thai clinch. Cormier aproveitou essa situação em algumas oportunidades, inclusive balançando o campeão. Stipe só foi resolver esse problema nos rounds de campeonato, quando travou o desafiante no clinch contra a grade e usou o handfighting para anular o punho direito de DC. A efetividade ofensiva foi quase nula, mas serviu para mitigar os riscos que Daniel lhe impunha.

Por outro lado, Cormier segue sem conseguir proteger o cemitério de frango. Mais uma vez Miocic foi capaz de alvejar a linha de cintura do rival – não com a intensidade que lhe rendeu a virada na segunda luta, mas o suficiente para desgastar o atleta da AKA.

A utilização do espaço físico também foi um aspecto interessante do combate. O octógono menor daria vantagem para Cormier, favorito nos momentos de conflito de curta distância. Miocic tentou ser mais móvel, ficando menos como um alvo fixo, e também acelerou a produção ofensiva em algumas oportunidades. Esta ação foi preponderante para tirar proveito do péssimo hábito que Cormier tem de esquivar dos golpes envergando apenas o tronco para trás, mantendo os pés fixos, o que lhe tira muito do centro de equilíbrio. Num desses momentos, nos segundos finais da segunda parcial, Stipe conectou uma direita contra um Cormier fora de equilíbrio, abrindo caminho para mais duas pedradas que renderam um knockdown e a virada no round. Se Cormier não tivesse caído tão próximo da grade, talvez a luta acabasse por ali.

Stipe Miocic venceu Daniel Cormier no UFC 252

Cormier teve mais dificuldade de desenvolver ações ofensivas. Parte desse problema foi causado por Miocic ter sido um alvo mais móvel e, por isso, mais difícil de ser atingido. Outra parte aconteceu pelo clinch insistente do campeão, que manteve boa parte dos dois últimos assaltos sem ação efetiva. Também pesou um dedo no olho ostensivo que Stipe lançou no terceiro assalto, fazendo o olho de Daniel praticamente fechar. Dali em diante, o desafiante passou o combate entre tentar atacar e passar a mão no olho em incômodo.

Além de não ter visto o dedo no olho de Miocic, o árbitro Marc Goddard errou também na passividade em aceitar momentos de clinch que não tinham nenhum intuito ofensivo, apenas o de travar a luta. Goddard, que talvez seja o melhor árbitro em atividade no MMA, deveria ter mandado os lutadores retornarem ao centro, assim como se faz no malfadado lay and pray. Esse comportamento passivo de Goddard inclusive influenciou no andamento e resultado do combate – vamos falar disso no podcast desta semana.

Enfim, uma atuação bem melhor de Miocic do que nos dois combates anteriores sedimenta o americano de origem croata como provavelmente o maior peso pesado da história da organização – ele não só é o campeão que mais vezes defendeu o cinturão como o que mais vezes o fez de modo consecutivo. A distância técnica entre os protagonistas do UFC 252 e o resto da divisão deixa a impressão que o título só não estará na casa de um deles quando virarem o fio.

Cormier anunciou sua aposentadoria do MMA aos 41 anos. Sem o cinturão, uma superluta contra Brock Lesnar, que lhe renderia um merecido polpudo ordenado, ou mesmo um encontro com o nêmesis Jon Jones numa categoria que o beneficiaria, não faz sentido. Com a idade, ele também não quer mais encarar o esforço de cortar peso para ir atrás de seu maior rival. Um dos mais talentosos lutadores que o MMA já viu, Cormier deixa a carreira sob a “penitência do segundo”: ele ficou à sombra de Cael Sanderson no wrestling, de Jones no meio-pesado e de Miocic no pesado. Um fardo que ele não merecia ser lembrado, mas que certamente o acompanhará pelo resto de seus dias.

De qualquer forma, obrigado Miocic e Cormier. É sempre um prazer – e que felicidade ter visto in loco um dos capítulos da trilogia. Vocês moram no meu coração.

Hellbows!

Pela segunda vez, Sean O’Malley sofre uma lesão séria num combate. Porém, desta vez viu o rival tirar proveito. Marlon Vera, que vem se notabilizando pela capacidade de vencer lutas, deu cabo do prospecto e se firmou um pouco mais no peso galo.

Você pode até achar que O’Malley é um mala do cacete – e você estará: correto. Mas o rapaz é bom lutador. Enquanto conseguiu lutar, o ex-Contender Series deixou o ex-TUF Latino numa distância segura trabalhando bons chutes baixos e no corpo. Porém, o equatoriano encontrou um belo remédio para a movimentação do americano ao passar ele próprio a lascar umas lambadas na panturrilha e na parte posterior do joelho de O’Malley, fazendo o “Suga” reduzir a movimentação e ficar mais à mercê de algum golpe derradeiro.

Nem precisou. Numa das mudanças de base, O’Malley pisou em falso e se machucou. Da outra vez que isso aconteceu, O’Malley contou com a baixa inteligência de Andre Soukhmanthath, que resolveu derrubar em vez de forçar Sean a lutar. Vera nem precisou derrubar: quando O’Malley tentou caçá-lo, não aguentou apoiar o corpo nos pés e caiu sozinho. “Chito” aproveitou a oportunidade para cair por cima da guarda e dali largou três cotoveladas violentas. Desta vez, o árbitro Herb Dean não esperou os batimentos cardíacos cessarem para interromper.

Tragédia anunciada

Como vimos falando há um tempo, a fragilidade física de Junior Cigano é latente desde que ele dividiu o octógono com um sadio Cain Velasquez por dez rounds. Lutando no peso pesado, essa situação é ladeira abaixo.

Jairzinho Rozenstruik nocauteou Junior Cigano no UFC 252

Não sei quem pede essas lutas, se é o próprio Cigano ou é obra da cabeça de Mick Maynard. Escalar o brasileiro em seu atual estado físico, contra um nocauteador do naipe de Jairzinho Rozenstruik no octógono pequeno é receita para o desastre.

O catarinense tinha a missão óbvia de se movimentar muito e controlar a distância beirando a perfeição. E Junior até conseguiu fazer isso por um round e meio. Ele lançava os golpes lá do vestiário e se aproveitava de um respeito enorme que Jairzinho mostrava pela capacidade de nocaute do ex-campeão (e talvez trauma do toque da morte de Francis Ngannou do último duelo). Rozenstruik paradão, Cigano golpeando de longe e se movimentando para não parar diante do oponente.

Isso teria que dar certo por 15 minutos, pois o brasileiro não fazia menção de arriscar algo que pudesse levá-lo ao triunfo por nocaute. Certo ele. Mas 15 minutos é muito tempo para alguém que mostra a cada luta que não tem mais capacidade de encaixe.

As últimas cinco derrotas de Cigano aconteceram pela via rápida dolorosa. Em todos os casos, o vitorioso não precisou construir o nocaute debaixo de massacre, como fizera Velasquez. Tanto Overeem quanto Ngannou, Blaydes e Jair basicamente resolveram as paradas quando aceleraram e foram para o confronto direto. Isso deixa claro que Cigano não consegue mais.

Aos 36 anos e com uma quantidade ciclópica de danos acumulada, era hora de Cigano cuidar da família e da saúde. Mas quem sou eu para dizer que um profissional tem que se aposentar. Então, se eu puder dar algum conselho, seria para Junior procurar oponentes que tenham reduzidas as possibilidades de lhe infligir danos. Eles existem aos montes no UFC. E, de preferência, não lute mais no octógono pequeno.

Resenha MMA Brasil: UFC 252 – outros destaques

– Seis anos sem dar as caras no UFC, com um caso de doping recente. Daniel Piñeda não ligou para nada disso e aplicou um vareio em Herbert Burns. O irmão de Gilbert Durinho até teve algumas oportunidades, mas perdeu posições que um faixa-preta de seu nível não deveria, além de ter insistido muito no péssimo hábito de fazer guarda no MMA. Resultado: apanhou que nem mala velha e viu sua ascensão ser freada bruscamente para um oponente de peso nenhum.

Merab Dvalishvili deu uma de John Dodson para cima de John Dodson. O georgiano parece que meteu o dedo na tomada antes de entrar no octógono. Dvalishvili usou um ritmo frenético, um clinch muito mais ativo do que o visto na luta principal e não deixou Dodson, que normalmente é o dínamo em suas lutas, sem saber o que fazer. Sem mais Henry Cejudo e Demetrious Johnson no caminho, talvez fosse hora de Dodson voltar a encarar o corte de peso.

– Era sabido que a diferença técnica na luta de solo era gritante a favor de Virna Jandiroba contra Felice Herrig. Mas eu pensei que a americana pudesse oferecer resistência mantendo o combate em pé com um boxe de alto volume. Acontece que eu esqueci de um “detalhe”: a “Pequena Buldogue” estava dois anos parada. A “Carcará” conseguiu uma queda com dez segundos de combate e acabou com qualquer pretensão de competitividade. A baiana aplicou um passeio constrangedor e se tornou a primeira a conquistar uma interrupção contra Herrig, levando 94 segundos a mais para esticar o braço da adversária.

Vinc Pichel pediu, mas conseguiu não perder para Jim Miller. Ele transou em filme de terror deixando o combate por tempo demais no solo, onde o veterano é tecnicamente superior. Apesar de alguns sustos, a vitalidade de Pichel sobressaiu. Curiosamente, Pichel é um ano mais velho que Miller, o que mostra que a idade cronológica pesa bem menos que o desgaste na carcaça ao longo de batalhas e camps árduos durante a carreira de um lutador.