Por Rodrigo Rojas | 08/06/2020 15:53

Firme em seu objetivo de entregar eventos esportivos durante a quarentena causada pelo coronavírus, o UFC 250 entregou um card de qualidade – se comparado aos outros que estamos recebendo -, capitaneado pela maior lutadora de todas os tempos. Além disso, vimos um show completo de pesos galos, incluindo ex-campeão voltando à forma com candidato a nocaute do ano. No evento, que foi bastante movimentado, ainda tivemos promessas se consolidando e promessas dando um passo atrás. Vamos destrinchar tudo isso?

A Leoa prova mais uma vez porque é a melhor da história

Amanda Nunes “surrou” Felicia Spencer na luta principal do UFC 250 (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

Amanda Nunes está simplesmente em outro nível. A baiana destroçou duas categorias inteiras do UFC, destruindo toda a concorrência que lhe foi apresentada. Nesse sábado, a valente Felicia Spencer teve um gostinho do talento e da qualidade da dupla campeã.

A surra foi tão grande e a discrepância de habilidade tão vertiginosa, que tem gente dizendo que Amanda não lutou com mais afinco por pena da adversária. Como havíamos previsto na prévia, Nunes abusou de combinações de golpes potentes, quedas e ground and pound para neutralizar a canadense em todas as áreas. Em pé, ela acertou os mesmos jabs, diretos e overhands que nocauateram Ronda Rousey e Cris Cyborg, por exemplo – mas Felicia não caiu. A campeã ainda efetuou quedas moralizadoras, cravando a adversária no chão inúmeras vezes. Por cima, ela acertou cotoveladas fortíssimas que cortaram o rosto de Spencer e ainda encaixou um mata-leão interrompido apenas pelo soar do gongo.

As duas principais lições dessa luta são: A) a diferença de Amanda para o resto das meninas e B) a resistência hercúlea de Felicia. Não há nenhuma peso galo ou peso pena no UFC hoje capaz de derrotar a Leoa. Para mim, resta uma trilogia contra a campeã peso mosca Valentina Shevchenko, que tem capacidade técnica até superior a da brasileira. O problema é que Amanda já venceu-a não uma, mas duas vezes. A canadense Spencer sobreviveu a golpes que deram cabo de algumas das melhores lutadoras das história – sem falar que sobreviveu a três rounds de porrada de Cris Cyborg. Podem incluí-la no rol de lutadores mais resistentes da história.

A maior dúvida é quanto ao futuro de Amanda. Agora, com bebê a caminho, é possível que ela fique de molho, deixando a categoria girar. Tirando Valentina, as possíveis adversárias são Aspen Ladd e Julianna Penã, mas as duas contam com apenas uma vitória em sequência.

Cody Garbrandt aplica candidato a nocaute do ano em brasileiro

Cody Garbrandt nocauteou brutalmente Raphael Assunção no UFC 250 (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

Conversando com meu parceiro de MMA Brasil Gustavo Lima antes do evento, conclui que Cody Garbrandt tem todas as qualidades técnicas para ser um dos melhores do mundo. O problema é a burrice: Cody gosta de entrar em brigas sem sentido, trocando sopapos na curta distância e ignorando toda sua habilidade no boxe, lançando pombos sem asa que o expõem a contragolpes. Assim, foi nocauteado por Pedro Munhoz e por TJ Dillashaw, duas vezes.

Raphael Assunção é um dos melhores pesos-galo do mundo, mas ele tem um estilo burocrático, pouco afeito à riscos. O background de Cody no wrestling garantia que essa luta permaneceria em pé, e, no boxe, ele é muito melhor que Raphael, que muito provavelmente não atrairia o americano para uma briga na curta distância. Restou uma batalha de kickboxing bastante técnica em pé. Garbrandt adotou uma postura de contragolpeador, abusando das fintas para criar armadilhas e atrair o brasileiro para seu jogo.

No final do segundo round, ele conseguiu. Cody fintou uma mudança de nível, fazendo com que Assunção tentasse tocá-lo. Ele voltou com um soco diretamente dos confins do inferno, como todo o peso de seu corpo por trás, que acertou o brasileiro em cheio no queixo. Raphael foi praticamente arremessado longe, de cara no chão – sua perna, torta e flexionada. Os médicos tentaram sentar o brasileiro em um banquinho, do qual ele caiu quase imediatamente.

Foi o segundo nocaute sofrido por Raphael em 35 lutas na carreira, e aconteceu exatamente enquanto a buzina soava para marcar o fim do round. Candidatíssimo a nocaute do ano, dadas as circunstâncias, a qualidade do adversário e a brutalidade da cena. Com a vitória, Garbrandt reinsere-se no topo da disputadíssima categoria até 61kg. Isso não poderia acontecer em melhor momento, já que o cinturão da divisão acabou de ficar vago.

Sterling confirma seu posto de desafiante

Aljamain Sterling finalizou rapidamente Cory Sandhagen no UFC 250 (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

Logo antes da vitória de Garbrandt, a luta entre dois dos principais postulantes ao cinturão dos galos acabou com uma finalização rápida e decisiva. Aljamain Sterling e Cory Sandhagen vinham de quatro e cinco vitórias na concorrida categorias dos galos, respectivamente. Os dois são lutadores jovens e empolgantes e ambos tinham argumentos sólidos para se tornarem o número um da divisão. Nada melhor que um confronto entre os dois para consolidar um desafiante, né?

Sterling aproveitou a oportunidade da melhor maneira possível: finalizou sem deixar dúvidas – e não deu nem pro cheiro. O descendente de jamaicanos, apesar de ter se tornado bastante completo, tem origem no grappling. E ele não quis arriscar: tratou de grudar no oponente logo que a luta começou. Pegou as costas ainda em pé, fechou o cadeado de maneira perfeita e trabalhou o mata-leão, conquistando os três tapinhas em 90 segundos de luta. Não dá mais pra negar o title shot a Aljo, e ele deve pegar o vencedor de Petr Yan vs José Aldo.

Mais um episódio do Sugar Show

Sean O’Malley nocauteou Eddie Wineland (Foto: Josh Hedges/Getty Images)

Sean O’Malley é o pacote completo: excelente lutador, com estilo empolgante, carismático, engraçado e excêntrico. Ele vem se autopromovendo como poucos, conquistando uma legião de fãs e muito hype para suas lutas. A suspensão de dois anos por doping parece ter surtido efeitos positivos, já que O’Malley teve a performance mais impressionante da carreira no último sábado.

Voltando de dois anos parado, Sean enfrentou o veterano ex-campeão do WEC Eddie Wineland, um boxeador duro e completo. O Sugar deu show. Fintou um uppercut e jogou um direto perfeito que conectou com o queixo de Wineland, nocauteando brutalmente o veterano. O golpe nem pareceu ter tanta força por trás, mas Eddie foi parar no mundo da lua, inclusive tendo uma espécie de espasmo no chão. Walk-Off KO clássico. O’Malley é mais um lutador de elite se desenvolvendo entre os galos, e deve se inserir no top 10 em breve. Sigo ansioso para acompanhar o futuro do Sugar.

Outros destaques:

– Se o cabeludo Sean O’Malley deu show, o mesmo não pode ser dito do também cabeludo Chase Hooper. O lutador mais jovem do plantel do UFC, de apenas 20 anos, contava com muito hype por trás, sendo logo alçado a uma luta contra o veterano Alex Caceres. Apesar de o estilo ser favorável ao garoto, Caceres mostrou que a experiência faz diferença, dominando Hooper em pé e evitando os ataques de Chase na curta distância. Um passo atrás para o menino de 20 anos, que nem deveria estar no UFC ainda. Tomara que ele seja trabalhado com mais calma pela empresa, refazendo sua caminhada aos poucos no maior evento do mundo.

Ian Heinisch recuperou-se do par de derrotas com um belo nocaute sobre Gerald Meerschert. Ele deve ser um bom nome para ocupar o meio de tabela entre os médios.

Cody Stamman subiu para o penas e impressionou ao dominar o embalado Brian Kelleher. Stammam, que estava de luto pela morte recente do irmão, dominou Kelleher em pé e no chão, usando um boxe técnico e mudanças de nível pontuais. Olho nele, que deve ser um bom valor tanto para os galos quanto para os penas.

Jussier Formiga, que conta com vitória sobre o provável campeão os moscas, vive a pior fase de sua carreira. Formiga completou uma trinca de derrotas ao sucumbir aos chutes baixos de Alex Perez, sofrendo um nocaute técnico ainda no primeiro round. Perez é um bom nome para a rasa categoria, já que só perdeu para Joseph Benavidez;

– Embalado pela excelente vitória do irmão no último evento, Herbert Burns abriu o evento desse sábado com uma vitória fácil sobre o decrépito Evan Dunham. Burns fez o que tinha que fazer, botando pra baixo e finalizando o veterano em 1:20 de luta.

E você, caro leitor? O que achou desse evento? Comente aqui embaixo e siga o debate!