Resenha MMA Brasil: UFC 249

Por Rodrigo Rojas | 11/05/2020 17:23

A realização do UFC 249 foi cercada de polêmicas. Seja pela irresponsabilidade de realizar um evento esportivo em meio à uma pandemia mundial, o fato de um lutador testar positivo para o COVID-19 ou pela criação de um cinturão interino na categoria mais populosa do esporte.

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Apesar disso, Dana White e companhia montaram um show inesquecível para os fãs que assistiram de casa, como não poderia deixar de ser em um evento capitaneado pelos lunáticos Tony Ferguson e Justin Gaethje. Tivemos candidatas a luta do ano, a nocaute do ano, possível aposentadoria de um dos maiores da história, ex-campeão com atuação bizarra e muito mais.

Vamos destrinchar isso tudo?

Justin Gaethje exorciza o El Cucuy

Tony Ferguson e Justin Gaethje após a luta principal do UFC 249 (Foto: UFC/Divulgação)

A peleja Tony Ferguson vs Khabib Nurmagomedov simplesmente não está fadada a acontecer. Os dois lutadores, que carregavam sequências idênticas de 12 vitórias, foram escalados para um confronto cinco vezes, mas nunca chegaram às vias de fato. Dessa vez, quando Khabib não pôde viajar por conta da quarentena mundial, o lunático Ferguson resolveu aceitar o igualmente lunático Justin Gaethje, com pouco mais de três semanas de antecedência. O próprio Gaethje afirmou que, provavelmente, teria menos de 20 minutos para nocautear, antes que fosse engolido pelo volume de Tony.

O que vimos foi muito próximo do contrário: depois de um primeiro round competitivo, Justin entendeu o ritmo de Tony, e passou a contragolpeá-lo com belíssimas combinações sempre que o adversário tentava invadir a sua distância. Chutes baixos, ganchos no corpo e no rosto explodiam contra Tony, que se mostrava cada vez avariado.

As derrotas para Poirier e Alvarez ensinaram à Gaehtje que, caso quisesse ser campeão, precisaria abandonar o estilo brigador em prol de um jogo mais cerebral. Neste sábado, aprendemos que um Justin Gaethje comedido e inteligente é uma demonstração assustadora. Conforme os rounds iam passando, a situação de Ferguson se tornava cada vez pior, até que, no quinto assalto, Herb Dean misericordiosamente interrompeu o massacre quando Ferguson virou de costas para o adversário depois de um direto no nariz. Foi revelado, depois, que o osso orbital de Tony havia sido quebrado em um desses socos, o que justifica ainda mais a interrupção.

Há dois fatores que devem ser exaltados nesse desfecho: primeiro, o treinador Trevor Wittman, responsável por esse Gaethje mais técnico e cerebral. Wittman também merece os créditos pelas duas vitórias de Rose Namajunas sobre Joanna Champion, e tem o dom de polir tecnicamente lutadores talentosos e traçar estratégias perfeitas. Em segundo lugar, a absurda resistência de Ferguson, que levou dezenas de golpes que nocauteariam um ser humano normal – e ele nem chegou a ir a knockdown. Atuação magistral de ambos os lutadores, que entregaram um espetáculo de violência, como era esperado. Agora é esperar pela unificação dos cinturões entre Justin e Khabib e lamentar o não-acontecimento de Nurmagomedov vs Ferguson, pelo menos na próxima rodada.

Cejudo sacramenta seu posto entre os melhores do mundo e se aposenta (?)

Henry Cejudo nocauteou Dominick Cruz e se aposentou no UFC 249 (Foto: UFC/Divulgação)

Era óbvio que um Dominick Cruz de 35 anos, parado há quatro anos e vindo de derrota não seria o adversário ideal para o campeão dos galos, principalmente em um momento em que Aljamain Sterling e Petr Yan vêm de quatro e seis vitórias na categoria, respectivamente. Ainda assim, Cejudo x Cruz era um casamento interessantíssimo, principalmente por confrontar o maior peso galo da história contra o atual postulante ao posto.

A luta se desenrolou basicamente como esperávamos: Cruz circulando e procurando brechas enquanto Cejudo tentava encurralá-lo, buscando quedas e golpes fortes. O “Triplo C” obteve êxito no primeiro round, principalmente com os chutes baixos – mapa da mina desenhado por TJ DIllashaw lá em 2016. O segundo assalto parecia seguir a mesma tônica, com o desafiante mostrando um pouco de sua genialidade na movimentação e Henry acertando alguns golpes fortes.

Tal sequência sofreu uma breve uma interrupção por conta de um choque de cabeças que abriu a testa de Cejudo, mas o atual campeão voltou com fogo nos olhos para, no meio de uma troca de golpes na curta distância, acertar uma joelhada em cheio e deixar Cruz fora de órbita. O defensor do cinturão aproveitou a oportunidade e lançou a blitz para cima de Dominick, que recebeu cerca de onze golpes limpos enquanto tentava se recuperar, com direito a face no chão e aparentando apagar e voltar. Foi o suficiente para o árbitro central encerrar a peleja e decretar o nocaute técnico. O desafiante californiano protestou a interrupção do árbitro – chegou a acusá-lo de feder a álcool e cigarros -, dizendo que havia pedido ao árbitro antes da luta que somente interrompesse o embate quando ele apagasse.

Na entrevista pós-luta, Henry Cejudo, que pode se gabar de ser campeão olímpico, campeão dos moscas e dos galos do UFC, além de ter vencido nomes históricos do MMA como Demetrious Johnson, TJ Dillashaw, Marlon Moraes e, agora, Dominick Cruz, anunciou que não teríamos mais que ouvir suas tiradas sem graça, pois estava cansado de competir em alto nível desde os 11 anos de idade e pretendia se aposentar. Sabemos que aposentadorias no MMA não costumam durar, principalmente quando falamos de um competidor nato ainda no seu auge físico, mas resta esperar para ver se Cejudo será fiel à suas palavras ou apenas quer forçar um aumento de salário, uma vez que seu contrato expirou. Sobre Cruz, tomara que ainda tenha gás para pegar algumas lutas e refazer sua caminhada, pois ele mostrou que ainda dá caldo com a elite e temos vários casamentos muito interessantes na renovada divisão dos galos.

Não desafiem Francis Ngannou. Essa é a lição de hoje.

Francis Ngannou precisou de 20 segundos para nocautear brutalmente Jairzinho no UFC 249 (Foto: UFC/Divulgação)

Depois de sua última luta, Jairzinho Rosenstruik, em franca ascensão na fraca categoria dos pesados, desafiou Francis Ngannou para um duelo. Não deu nem pro cheiro. Logo que a luta começou, o camaronês lançou-se para cima do adversário de peito aberto e queixo pra cima, lançando bombas que derrubariam um elefante. Uma delas pegou no queixo do surinamês e apagou-o contra a grade, como se tivessem apertado um botão de “liga/desliga”. Francis ainda acertou alguns conferes desnecessários, que certamente mataram alguns neurônios de Jairzinho.

Agora, Ngannou concretiza seu posto como o desafiante número 1 dos pesados, mas deve ter que esperar o desfecho da trilogia entre Daniel Cormier e Stipe Miocic. A situação é realmente complicada, uma vez que ele já trucidou o único homem perto dele no ranking – Curtis Blaydes – duas vezes, e a única outra opção decente é a revanche da pior luta da história contra Derrick Lewis.

Kattar pune Stephens por não bater o peso e entrega candidato a nocaute do ano

Calvin Kattar nocauteou brutalmente Jeremy Stephens no UFC 249 (Foto: UFC/Divulgação)

Calvin Kattar e Jeremy Stephens entregaram a troca de tiros animada que era esperada deles. Os dois fizeram uma baita luta e ambos acertaram bons golpes, como antecipamos na prévia. O lutador mais jovem e mais apurado tecnicamente se sobressaiu, mostrando frieza para interceptar um golpe de Stephens com uma linda cotovelada no meio do rosto, levando o “Esquentadinho” ao chão. O confere consistiu de mais uma cotovelada forte no chão e alguns socos, até que o juiz salvou Stephens, que mostrava um enorme corte na testa. Foi apenas o terceiro nocaute sofrido por Stephens, que não havia batido o peso por muito, em 44 lutas.

Kattar é talentoso e prendado tecnicamente, e tem boas chances na dura categoria do penas, além de ser muito bom de se ver lutar. O veterano Stephens acumula a quarta derrota em sequência mas, por conta do estilo agressivo e divertido para os fãs, não deve perder o emprego tão cedo.

Outros destaques:

Mais uma atuação chatíssima do espancador de mulher que o UFC insiste em promover. Greg Hardy é um espécime físico, mas um boçal tecnicamente. É evidente que ainda lhe falta tempo de treino e armas para vencer os adversários. Por enquanto, quando não consegue nocautear no primeiro round, acaba em lutas chatíssimas e tecnicamente horripilantes.

Anthony Pettis e Donald Cerrone fizeram uma revanche bastante movimentada, mas ainda aquém do entretenimento que muitos fãs (incluindo eu) esperavam. Pettis levou a melhor em uma decisão que poderia ter ido para qualquer um dos lados, mas não importa muito, já que nenhum dos dois deve ir muito longe do lugar onde estão hoje.

Fabrício Werdum voltou da suspensão por doping com uma atuação ridícula. O ex-campeão não mostrou nem sombra do homem que venceu Fedor, Velasquez e Minotauro, e foi dominado pelo freak Alexey Oleinik em pé (!).

Vicente Luque entregou mais uma candidata a luta do ano. Luque e Niko Price trocaram golpes como se não houvesse amanhã, com ambos chegando perto do nocaute. No fim, o rosto de Price estava tão avariado que o médico interrompeu a luta para seu próprio bem. Excelente decisão, já que Niko já estava irreconhecível até para sua própria família.

Bryce Mitchell teve a melhor atuação da carreira ao dominar o grappler Charles Rosa em seu próprio jogo. A surra foi tamanha que dois jurados marcaram 10-8 em todos os rounds. Foram quedas, transições e tentativas de finalização a rodo – um deleite para os fãs do jiu-jitsu. Mitchell é talentoso e ainda é jovem, por isso, tem potencial para ir longe na carreira, caso conserte a burrice que o assola.