Por Alexandre Matos | 08/03/2020 05:50

Tem dia que é difícil ser feliz com o MMA. Hoje eu deveria ir dormir satisfeito. Primeiro por ter visto provavelmente a melhor luta feminina da história do UFC. Depois, por me empolgar para retornar à Resenha MMA Brasil. Porém, sempre tem essa raça de juízes pra jogar no lixo. Dessa vez foram ajudados pelos protagonistas da luta mais esperada do ano até agora, que liderou o card do UFC 248.

Se a disputa do cinturão do peso palha feminino foi épica, a do peso médio foi asquerosa do primeiro minuto até o pós-luta. Pelo menos deu pra gente se divertir com um punhado de combates movimentados.

Vamos esquecer que a última impressão é a que fica e focar na penúltima.

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Weili Zhang deforma Joanna Jedrzejczyk numa luta para a história

Havia, pelo menos de minha parte, uma expectativa alta para a primeira defesa do cinturão de Weili Zhang. A ex-campeã Joanna Jedrzejczyk mostrou que seu lugar é no peso palha mesmo e a chinesa voltou a lembrar que vão ter que largar um órgão no octógono para vencê-lá. O resultado foi bem melhor que o esperado.

Weili Zhang venceu Joanna Jedrzejczyk no UFC 248

A minha grande curiosidade para esta luta era como cada uma lidaria com os pontos fortes da adversária, que vinha a ser uma deficiência da outra. Zhang teria que lidar com uma dificuldade para se aproximar sem ser atingida contra uma exímia contragolpeadora de volume crescente. Já Joanna precisaria fechar o pocket para não ser jantada pela campeã.

O começo de luta deu a impressão que a polonesa tinha vantagem na escolha estratégica. Ela até deu brechas para a chinesa entrar no raio de ação, mas Zhang demorou a dar o passo à frente (de modo literal). Lutando na margem da distância, a campeã facilitou o serviço da desafiante por um tempo.

Aos poucos, o jogo foi se complicando para Joanna. Ela passou a aumentar o volume de golpes, como lhe é peculiar. Porém, isso representou ficar mais tempo mais próxima do que o necessário de uma adversária claramente mais forte. Mesmo sem invadir o pocket e forçar a luta na curta distância, Zhang passou a conectar mais golpes e sempre com uma potência maior que a europeia. Jedrzejczyk já não tinha tanto conforto para atacar. De quebra, aquela velha Avenida Rose Namajunas, o punho esquerdo de Joanna voltando baixo, estava lá, doidinha para ser percorrida pela direita de Weili.

A partir de então, a luta descambou para uma anarquia em alta velocidade. Punhos e canelas voavam para todos os lados, acertando bloqueios, cabeças, troncos e pernas. Os rostos de ambas mostravam por onde os golpes entravam: Zhang tinha o centro da face inchado, de tantos socos e chutes retos que Joanna acertou. Já a ex-campeã, que costuma esconder o queixo quando ataca, viu sua parte frontal superior do crânio triplicar de tamanho. Zhang não só acertava Jedrzejczyk com a direita vinda de trás, mas também a machucava com o punho da frente, que trabalhou muito mais em ganchos do que em jabs.

Joanna Jedrzejczyk no UFC 248

E assim fomos, num ritmo alucinado, até o 25º minuto, numa luta que vai provocar discussão de pontuação por um tempo. Alguns dizem que Jedrzejczyk merecia vencer pelo maior volume de golpes, que nem foi tão maior assim. Outros, como eu, defendem a manutenção do cinturão no Oriente pela nítida maior contundência dos golpes de Zhang, que é como diz a regra. Dá até para esquecer um sucker punch e uma cabeçada que não pareceu exatamente involuntária aplicados por Joanna.

A gente pode até discordar da pontuação desta luta, não brigaremos por isso. Só concordaremos até o fim dos dias que testemunhamos uma demonstração de técnica, coração e coragem como poucas vezes. E é isso que nos fez nos apaixonar por esse esporte, por mais que entidades malignas tentem nos avacalhar de vez em quando.

O anticlímax após uma guerra

Não sei se consigo expressar em palavras o meu sentimento em relação à vitória de Israel Adesanya em sua primeira defesa do cinturão dos médios do UFC. O nigeriano teve a atuação mais patética de sua carreira. O desafiante, Yoel Romero, não colaborou em nada. Para piorar, juízes mostrando porque são provavelmente a casta mais despreparada de todos os esportes da face da Terra.

Este é um belo retrato da "luta" principal do UFC 248 entre Israel Adesanya e Yoel Romero

Este é um belo retrato da “luta” principal do UFC 248 entre Israel Adesanya e Yoel Romero

Vamos falar primeiro da “luta”. Sério, o que foi aquilo? Ficamos acordados até o meio da madrugada pra ver dois sujeitos desonrando o esporte. Romero começou plantado no meio do octógono, com os braços cobrindo o rosto. Literalmente isso. Adesanya entendeu porra nenhuma, como todos nós. Mais de meio round se passou sem acontecer absoluta-fucking-mente nada. Até que Romero acerta um pedradão que deixa Adesanya ainda mais ressabiado de chegar perto e ver o cubano promover seu encontro com o capeta. Até a buzina decretar o fim do suplício, aconteceu mais porra nenhuma. Isso mesmo, o primeiro assalto acabou com 1 a 0 Romero. O mais puro e vagabundo carillebol importado ao MMA: se fecha todo, acerta uma no deus-me-livre e se fecha de novo. Que nojo.

O segundo assalto foi um pouco menos patético que o primeiro, mas não muito. Em vez de 1 a 0 Corinthians, ops, Romero, foi 2 a 1. Só que 2 a 1 no MMA é escroto demais. DOIS GOLPES A UM em cinco minutos. Não é possível um negócio desse. O único ponto positivo desse martírio é que estava fácil de pontuar. Bem, fácil pra quem não é juiz de MMA. Não é que eu seja preconceituoso, tenho até amigos(as) juízes de MMA, mas pelamordedeus…

Finalmente Adesanya resolve dar as caras na luta no terceiro assalto. Não pense você que a luta ficou divertida, porque não ficou. Pelo menos aumentou a quantidade de golpes – também, se diminuísse, era papo de decretar fim de luta e no contest só de raiva, com um ano de suspensão pra cada um.

O campeão passou a encontrar a coxa dianteira do desafiante com alguns bons chutes (alguns < 5). Lembrei do velho Cecil Peoples dizendo “leg kicks don’t win fights”, para desespero de Maurício Shogun. Quando você lembra de Cecil Peoples numa luta, maior indicativo de merda não há.

Israel Adesanya venceu Yoel Romero no UFC 248

Pois bem, os dois assaltos seguintes mostraram ambos fazendo pouco, mas Adesanya um pouquinho mais ativo. O quinto, provavelmente o mais fácil de pontuar, foi o que Romero mais acertou golpes. Sendo ele o que claramente disparou os mais contundentes, não tinha como pontuar para Adesanya, visto que o cubano teve vantagem na potência E no volume. Se os juízes não sabiam se estavam usando as regras antigas ou as novas, Yoel venceu o round 5 em ambas as visões.

Porém, sempre tem juiz para atrapalhar. Neste caso foram os três. Quando Bruce Buffer leu os placares, Adesanya ficou até meio triste, sabendo que ouviria um “and new” em poucos segundos. Pô, teve um 49-46. Ou Buffer leu errado, ou tabularam errado os placares ou o Mr. Magoo estava dentre os juízes. Pois bem, Buffer gritou “aaaaaand stiiiiiiil”. Sério, não é possível. Se 48-47 para Adesanya já estava ruim, imagine 49-46. Os três patetas, ops, juízes marcaram o round 5 para Adesanya. Só pra deixar registrado: Sal D’Amato, Chris Lee e Ron McCarthy são os nomes das feras. Lee foi o que cometeu o 49-46.

Um mês depois de assaltarem Dominick Reyes contra Jon Jones, temos mais uma luta de cinturão no UFC deturpada por péssimos trabalhos de julgadores. Porém, ao contrário de Reyes, Romero nem pode reclamar depois dessa atuação tão risível quanto a de Adesanya.

Infelizmente o circo dos horrores não acabou na leitura das papeletas. Adesanya, em vez de assumir a atuação pífia patética à brasileira, veio vociferar, cheio de razão, que ele que quis lutar, que ele mereceu vencer. Porra, que nojo. Nesta altura eu já estava tão puto que nem ouvi o que Romero disse, mas posso apostar que não foi nada de útil, como sempre quando ele pega um microfone.

Beneil Dariush joga Drakkar Klose para longe da elite

Faz um tempo que Beneil Dariush não frequenta o ranking do peso leve do UFC. Neste sábado, ele teve uma bela atuação para impedir a aproximação de Drakkar Klose.

Beneil Dariush nocauteou Drakkar Klose no UFC 248

Quando imaginei o desenrolar dessa luta, supus que Klose teria força para evitar ir ao chão e, em pé, faria Dariush disputar uma pancadaria suja e franca, equiparando a desigualdade técnica entre ambos. Errei duplamente.

No primeiro assalto, Dariush encurtou, derrubou, pegou as costas, mochilou, tentou um mata-leão em pé e fez o que quis usando a luta agarrada contra um oponente que só fazia se defender.

Quando veio o segundo round, Klose conseguiu sua esperada pancadaria. Punhos voaram para todos os lados, mas dessa vez o queixo do iraniano se mostrou valente. Benny engoliu algumas pancadas com uma dignidade não antes exibida e, mesmo depois de balançar duas vezes, conseguiu disparar um gancho de canhota tão violento que fez Klose babar o protetor bucal ainda antes de cair.

Resenha MMA Brasil: UFC 248 – Outros destaques

Neil Magny voltou bem depois de quase um ano e meio de ausência. Ele teve uma sólida atuação no controle de distância contra Li Jingliang. O melhor pior lutador do mundo mais uma vez mostrou que sua capacidade de tomar decisões não é das melhores, insistindo em buscar quedas mesmo quando estava óbvio que aquilo não chegaria a lugar algum. Boas joelhadas e um clinch sufocante completaram a vitória tranquila de Magny.

Alex Cowboy e Max Griffin fizeram a esperada pancadaria solta sem responsabilidade. Griffin começou melhor, mas Alex tomou a dianteira quando lascou um belo uppercut no segundo assalto e aplicou pressão até a buzina. No terceiro, cada um passou um tempo por cima, no chão, mas Max nada fez de útil por ali e acabou derrotado na decisão dividida.

Rodolfo Vieira segue invicto no MMA, mas levou um susto contra Saparbek Safarov. O russo acertou um chute alto violento que fechou o olho esquerdo de Vieira. Sem ver nada daquele lado, o brasileiro chamou o jogo para sua zona de conforto. Rodolfo aplicou uma boa queda de grande amplitude para passear no solo até fazer o rival batucar no katagatame.

– Vice-campeão olímpico em 2016, o wrestler dinamarquês Mark Madsen levou Austin Hubbard para passear na montanha-russa do terror, lançando quedas de toda sorte no americano por dez minutos, incluindo um suplê de manual. No assalto final, Hubbard tentou pressionar, mas não conseguiu a interrupção que lhe salvaria.

Sean O’Malley é uma mala do cacete, mas é bom lutador. E ainda é protegido do UFC, que só lhe entrega carne assada. Teco Quiñonez é um bom ativo para as castas mais baixas do peso galo, mas O’Malley já deveria estar enfrentando gente mais qualificada. Com uma atuação sólida em pé, Sean conseguiu o nocaute em dois minutos.