Por Diego Tintin | 15/12/2019 23:50

Mais uma vez a T-Mobile Arena, na região metropolitana de Las Vegas, assistiu de perto um eletrizante evento do UFC. As 16.811 pessoas presentes testemunharam a continuação do primeiro reinado africano da organização, uma rara passagem de coroa no peso-pena e a extensão do domínio da melhor lutadora a calçar luvas e entrar em uma jaula sob as regras unificadas desde o big-bang.

Também tivemos dois veteranos ex-rivais em momentos diferentes da carreira, contra dois potentes garotões, além de um card preliminar animado.

Como Alexandre Matos segue em seu nababesco e pantagruélico chinelón, assumimos daqui, para contar as nossas impressões do UFC 245, que desafiou nosso sono aqui no patropi, oferecendo altas doses de boa luta como recompensa aos sobreviventes.

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Usman sofre com a evolução de Covington, mas mantém o título

A minha maior impressão deste duelo principal é o quanto Colby Covington evoluiu como lutador de MMA e, principalmente, como um trocador de bom nível. Kamaru Usman era o favorito do duelo, mas teve que suar bastante para voltar com a coroa para sua Nigéria e seguir a trilha da idolatria nacional.

O primeiro round foi um dos mais insanos deste 2019 que já agoniza. A troca de pancadas foi pesada e a tônica foi a devolução de uma mãozada com outra, o mais forte que fosse possível. Com ambos seguindo essa cartilha, não faltaram golpes pesados e tensão, pois a qualquer momento um deles poderia pedir a conta. Nos dois minutos finais, Covington assumiu o controle e abriu vantagem, talvez ajudado por dois golpes ilegais sem intenção (um dedo no olho e um chute na intimidade).

Esta vantagem seguiu na segunda parcial, com Colby cada vez mais à vontade no duelo, subindo o ponteiro de volume e o cinturão, a esta altura, estava doidinho para voltar aos Estados Unidos.

Kamaru Usman nocauteou Colby Covington no UFC 245

Porém, no terceiro assalto, Usman voltou mais ousado, Colby reduziu o ritmo e um golpe mudou o rumo da conversa. Um direto de direita espetacular explodiu no queixo do republicano (foto acima) que, no intervalo, resmungou aos seus treinadores que tinha quebrado a mandíbula. Mantendo-se à frente, Usman apertou o ritmo na última parcial e, após dois knockdowns clássicos e um breve ground and pound, o árbitro decidiu que o castigo só aumentaria e o melhor a fazer era parar o combate por ali.

Fim de papo e o campeão ainda arrumou um tempo para ser solidário aos brasileiros que se ofenderam com o trash talk do seu oponente. Os dois atletas ainda faturaram o bônus de melhor luta desta edição. Cinquenta mil motivos verdes para sorrir.

Volkanovski, com autoridade, assume o trono do peso-pena

Em uma das ascensões mais meteóricas da era moderna do MMA, Alexander Volkanovski se tornou o primeiro lutador apontado no projeto Top 10 do Futuro, aqui do nosso MMA Brasil, a alcançar o cinturão mais importante do mundo.

E a valiosa peça veio em uma exibição de assustadora firmeza. O cenário deste duelo foi aquele caso clássico que torcedores do derrotado ficam questionando que seu preferido “estava, sei lá, meio estranho”. Isso porque a grande virtude do novo campeão foi justamente fazer com que Holloway tenha feito muito menos barulho que a alta média de sua bem-sucedida carreira.

Alexander Volkanovski destronou Max Holloway no UFC 245

A dieta servida pelo australiano consistiu de chutes baixos pontuais, punição com contragolpes potentes a cada aproximação do havaiano. Holloway chegava cheio de fogo para impor seu jogo de alto volume e era retaliado por Alex, que tem vantagem na envergadura, apesar de ser mais baixo.

Holloway tentou apertar o ritmo nos dois rounds finais, mas Volkanovski teve a frieza de manter a estratégia, mesmo nos momentos mais difíceis, além de dosar bem a energia, que poderia se dissipar, uma vez que, como parte da estratégia, sempre precisou aplicar mais potência em cada golpe.

No fim, os juízes determinaram que Alexander é o quarto campeão desta divisão pouco acessível, sucedendo José Aldo, Conor McGregor e a sua vítima deste sábado.

A rainha da selva, sem brilho e sem sustos, risca mais um nome da lista

Não foi a Amanda Nunes destruidora que liquidou Cyborg, Ronda, Miesha e Holm. Parecia mais a Amanda mais cautelosa, da segunda luta com Valentina Shevchenko e a mais contida que deu cabo de Raquel Pennington, mas fato é que a Leoa baiana aumentou o seu reinado com uma vitória incontestável contra a talentosa, porém pouco versátil Germaine de Randamie.

Sentindo que poderia correr riscos desnecessários, a brasileira tratou de levar a holandesa para o solo sempre que teve oportunidade. E elas foram muitas, aproveitando a nada funcional defesa de quedas da europeia. E como também não é especialista em luta de solo, Germaine virou presa fácil para a rainha da selva do peso-galo, mesmo Amanda não tendo a mais atraente de suas exibições. Uma tentativa de guilhotina aqui, uma ameaça de ground and pound mais enérgico ali, mas não chegou a existir uma ameaça real de a luta ser encerrada antecipadamente.

Amanda Nunes dominou Germaine de Randamie no UFC 245

De qualquer forma, tudo terminou naquela fofa corridinha que Amanda criou, com os dois cinturões no ombro, mostrando quem manda nessas terras, sejam elas alcançadas pelo sol ou não.

Aldo demonstra saúde (ufa) e talento, mas é Marlon quem comemora

Depois do corte de peso mais preocupante e acompanhado mais de perto que eu me lembre, José Aldo carregava muito peso (apenas figurativamente) em seus ombros, nesta estreia em 61 quilos. Felizmente, o que vimos foi um lutador competitivo, com flashes do temido campeão do passado e com uma resistência comovente, tanto a pancadas, como no sentido de fôlego e ritmo.

Marlon Moraes, um teste cruel para qualquer estreante nesta divisão, deixou o campeão no centro do octógono e circulou com desenvoltura, acertando golpes contundentes e quase mandando o campeão à lona com um lindo chute alto. Em recuperação, Aldo voltou ao segundo assalto com a movimentação de Marlon bem mapeada e, em diversos momentos, antecipou a movimentação e pegou o friburguense no caminho. Os golpes na cintura fizeram o restante do trabalho e a luta foi para a decisão no round final.

Marlon Moraes venceu José Aldo no UFC 245

A ação deu uma diminuída significativa, foi até difícil definir quem levou a parcial e, em consequência, a luta. Por uma margem pequena, concordamos com dois jurados que deram a vitória a Moraes, embora o que tenha marcado para o manauara tenha seus motivos também. Caso seja possível se manter saudável na divisão a médio prazo, Aldo pode ter encontrado um bom caminho a seguir com sua incrível carreira.

O prospecto russo ignora a antiga estrela e o péssimo matchmaker

Em um casamento de luta esdrúxulo, o prospecto e candidato a astro Petr Yan, para surpresa de absolutamente ninguém, liquidou com requintes de crueldade o ex-ex-lutador Urijah Faber, astro do passado, que teve a infeliz ideia de aceitar este combate.

Um chute alto espetacular no fim do segundo assalto levou o veterano para a lona totalmente desnorteado. Como o tempo era curto, Petr não conseguiu a interrupção. Entretanto, a carne já estava bem amaciada para a fatura ser liquidada no início da parcial seguinte.

Petr Yan nocauteou Urijah Faber no UFC 245

Que a organização volte com Yan de onde ele estava antes deste desvio sem nenhum sentido na sua trajetória para lutar com um ídolo aposentado. O europeu ainda saiu um pouco mais rico, ao levar para casa um dos bônus de desempenho.

Resenha MMA Brasil: UFC 245 – Outros destaques

  • Favorita destacada, Ketlen Vieira não teve sucesso em sua volta ao octógono após 20 meses, em decorrência de uma cirurgia no joelho. Após bom início, a brasileira, que estava próxima de uma disputa pelo cinturão, viu esta chance evaporar diante de um mata-cobra infernal da mexicana Irene Aldana. Apenas um confere bastou, a cinco segundos do fim de um primeiro round dominado pela brasileira, para Ketlen sair do ar. Ossos do ofício, Irene ainda levou o outro bônus de desempenho para casa.

 

  • Mais um duelo da série “Antes nunca do que tarde”. Matt Brown, após sofrer um pouco dentro de um triângulo, mais uma vez fez uso de seus cansados, desgastados, mas ainda perigosos cotovelos para mandar Ben Sauders para uma vala mais próxima. Foi legal, pipipipópópó… mas que tal deixarem este osso ser roído apenas por gente mais jovem e fresca?

 

  • Às vezes, tenho a impressão que todo evento do UFC tem uma ótima luta de peso-mosca masculino só para nos mostrar o quanto seria triste uma já ventilada extinção da categoria na organização. Desta vez, foram Kai Kara-France e Brandon Moreno que trocaram sopapos, catiripapos e cachações de toda ordem por três rounds alucinados. No fim, o mexicano Moreno levou a melhor e o duelo perdeu o bônus por pouco para a luta principal do evento.