Por Alexandre Matos | 03/11/2019 05:23

Achou que não teria resenha hoje? Achou errado, otário.

Chegou o dia em que o UFC causaria danos ao boxe. A maior estrela da nobre arte teve que esperar quase uma hora para finalmente subir ao ringue, em Las Vegas, enquanto esperava o UFC 244 acabar em Nova York. E quem diria que isso aconteceria numa luta com baixo motivo esportivo, que apelou apenas para a popularidade, num evento com ar de telecatch? Dana White inventou o tal do cinturão BMF (Baddest MotherFucker), mas seus matchmakers foram precisos ao escalar diversas lutas com excelente potencial ao redor de Masvidal-Diaz.

A Resenha MMA Brasil: UFC 244 vai contar a história do último evento que cobri in loco.

Na disputa do BMF, venceu o que brigava na rua

Sim, foi ridículo criar esse cinturão que vale nada. O pior é que Jorge Masvidal e Nate Diaz devem ganhar tanto dinheiro neste UFC 244 que eu tenho medo que essa joça seja mais cobiçada do que a peça de ouro e couro que está guardada na casa de Kamaru Usman. Pior ainda: que inventem categorias de BMF. Socorro.

Jorge Masvidal venceu Nate Diaz no UFC 244

Vamos falar da luta, que foi bastante divertida, mas não equilibrada. Em todas as fases, em todos os minutos da disputa, Masvidal esteve à frente de Diaz. Mais técnico como striker, melhor como wrestler, mais rápido e mais móvel, Jorge não deixou que Nate pisasse no acelerador em boa parte do duelo. Fosse na troca na distância, no clinch ou impedindo que Diaz chegasse ao chão em condições de dar um bote, Masvidal dominou o combate.

Diaz sempre contou com o boxe de elevado volume de golpes, mas sem adotar uma movimentação apurada. Ele normalmente sai à caça como se fosse o Jason caminhando na floresta, esperando a gatinha tropeçar numa raiz de árvore e cair. Masvidal imprimiu uma movimentação que fez Nate perder muito tempo se reorganizando para atacar, mais ou menos como Conor McGregor fez no UFC 202. Porém, Jorge foi bem mais ofensivo e agressivo que o irlandês: acertou várias pancadas duras e quase entregou Diaz na mão do palhaço. Os chutes baixos, outro defeito defensivo de Nate, funcionaram muito bem para Masvidal.

No segundo assalto, Nate conseguiu imprimir uma pressão no boxe, mas acabou sofrendo um knockdown e viu Jorge recuperar o momento. Com nítida vantagem na velocidade dos punhos e potência, Masvidal fez o rival se levantar e, no terceiro round, deu pinta que não perderia mais a dianteira, minando a linha de cintura do bad boy de Stockton.

O ground and pound provavelmente foi o que definiu a parada. Masvidal encheu o oponente de socos e cotoveladas, abrindo o segundo rombo no olho direito de Diaz (o primeiro foi cortesia de uma cotovelada no clinch no round inicial). O encrenqueiro californiano, que é um sujeito duro, não se rendeu, mas o árbitro Dan Miragliotta decidiu encerrar o combate no retorno para o quarto round, alegando que os machucados já estavam muito intensos. Há quem diga que a interrupção foi precipitada, mas eu não reclamo.

Sabe o que deve acontecer com esse resultado? O UFC vai casar uma revanche por esse BMF tosco. E a Golden Boy Promotions vai ter mais cuidado quando marcar a próxima luta de Canelo Álvarez.

Darren Till peso médio faz parecer que o meio-médio não existia

Observando Darren Till em sua primeira luta como peso médio, não consegui parar de pensar em como esse sujeito batia o limite da categoria de baixo. O britânico estava muito maior que o também ex-meio-médio Kelvin Gastelum – e foi exatamente a diferença de força física que deu contornos ao confronto.

Darren Till venceu Kelvin Gastelum no UFC 244

Mesmo como peso médio, Gastelum algumas vezes conseguiu jogar no wrestling. Contra Till, esta praticamente não foi uma opção. Não teve santo que fizesse o americano deslocar o sólido centro de gravidade do europeu. Para piorar, Till distribuiu chutes baixos, que incharam a perna de Gastelum e acabaram com a base de atrito para iniciar as quedas.

O duelo não foi dos mais movimentados, o que acabou passando uma impressão de luta apertada. Porém, um olhar mais atento percebeu o “Gorilla” com o controle da situação. O clinch, situação em que os lutadores permaneceram por mais tempo, teve Till no domínio. Na troca de golpes, a enorme vantagem na envergadura fez com que o inglês mantivesse o filho de mexicanos longe. Diferentemente do que aconteceu contra Israel Adesanya, desta vez Gastelum teve muito mais trabalho para quebrar o controle de distância com os braços sempre esticados de Till. Foram poucas as vezes que Kelvin chegou na cara de Darren.

Apenas no terceiro round que Gastelum conseguiu chegar ao solo, mas já estava tão desgastado com o esforço isométrico que precisou fazer nos dez minutos anteriores que não conseguiu criar nenhuma situação real de perigo.

Stephen Thompson tem atuação brilhante contra Vicente Luque

Dois dias atrás, no Media Day do UFC 244, Vicente Luque me falou que até poderia botar para baixo, mas que a estratégia seria trocar com Stephen Thompson. O discurso até tinha uma linha de raciocínio: Luque havia estudado a linguagem corporal do americano, entendido quando ele finta e encontrado os momentos de lapso ofensivo de Thompson para poder atacar agressivamente, botar pressão.

Stephen Thompson venceu Vicente Luque no UFC 244

A teoria era boa e se mostrou valiosa no primeiro assalto. Luque realmente parecia ter mapeado pelo menos parte dos movimentos de Thompson e conseguiu pressioná-lo, atuando numa distância média para curta, que lhe permitia atacar e ao mesmo tempo diminuir os espaços do carateca.

Acho que Vicente não contou com um detalhe: Thompson tem suas melhores atuações contra oponentes que lhe atacam agressivamente e não com os que se cagam de medo de levar uma bica do nada. Quando o americano mapeou a distância e processou os dados coletados de movimentação de Luque, o combate mudou completamente. Com trocas de base intensas e controle de distância no estado da arte, Stephen criou uma barreira invisível que Luque batia e não conseguia mais penetrar em seu raio de ação.

Com o passar dos minutos, a precisão dos golpes de Thompson aumentou vertiginosamente. As mudanças de base, que eram seguidas de algum golpe ou dois, basicamente acabaram com os chutes baixos de Luque. O ex-desafiante imprimiu um balé violento que estragou o rosto do oponente. O equilíbrio do primeiro round deu lugar a um vareio nos dois seguintes, com direito a um 10-8 na minha contagem. E se alguém quisesse dar dois 10-8, eu não acharia ruim.

A divisão dos meios-médios precisa muito do Stephen Thompson dos dois últimos assaltos. Lutando assim, com o controle das ações e mais agressivo do que vinha sendo, ele ainda tem lenha para queimar na elite.

Era uma vez uma invencibilidade

Muito se esperava de Gregor Gillespie no UFC. Ainda espero, sei lá. Mas neste sábado, no maior teste de sua carreira, as coisas acabaram de um modo brutal para ele no retorno de Kevin Lee ao peso leve.

Kevin Lee nocauteou Gregor Gillespie no UFC 244

O começo do combate até deu a impressão que Gillespie poderia se dar melhor na disputa de boxe, sem precisar do wrestling contra um oponente muito mais forte e de ótimo nível na modalidade. De repente, Lee encontrou seu momento. Ele lançou um bonito gancho de direita na têmpora de Gillespie e emendou com um chute alto de canhota que mandou o oponente para o colo do capeta.

Caso consiga manter um corte de peso saudável, sem perder capacidade atlética em lutas mais longas, Lee tem tudo para aumentar o problema do peso leve.

Trem do hype de Johnny Walker foi jogado longe

Foi legal ver que Johnny Walker se sente à vontade no UFC. Ele gasta o inglês nas entrevistas para os gringos, está sempre sorrindo, faz brincadeiras nas pesagens e encaradas. Parecia um produto sob medida para ser trabalhado midiaticamente. Corey Anderson não gostou muito e tratou de chutar o trem pra longe.

Corey Anderson nocauteou Johnny Walker no UFC 244

O problema do tipo de comportamento de Walker é a linha tênue entre ser provocador e passar dos limites. Ele chegou a dizer que bateria mais leve em Anderson para mostrar todo o seu jogo. O americano se sentiu desrespeitado e simplesmente atropelou o brasileiro. As estatísticas oficiais do UFC mostram que Walker acertou um mísero golpe.

Logo nos segundos iniciais, Corey já o pegou com uma pancada. A partir dali, o americano nem precisou do wrestling para atropelar. Socos, chutes, controle de distância, agressividade e potência, com talento de execução que ele já mostra há um tempo, agora somado a uma maior consciência, que lhe permite se defender melhor e errar menos. Walker já estava nocauteado em pé alguns momentos antes de o árbitro Kevin MacDonald decretasse o nocaute técnico.

Deste modo, Anderson será um legítimo desafiante numa categoria que sofre com renovação.

Resenha MMA Brasil: UFC 244 – Outros destaques

– Não consegui prestar atenção direito na vitória de Derrick Lewis sobre Blagoy Ivanov devido à baderna que instauraram na sala de imprensa do Madison Square Garden. Porém, deu para perceber que o búlgaro é imorrível – ele encaixou uma pancada seca de Lewis que teria derrubado até um búfalo. Pela empolgação do pessoal, parece que a luta foi mais divertida que o esperado, apesar dos lamentáveis momentos de falta de técnica e de condicionamento físico.

Shane Burgos tomou um belo susto no começo da luta contra Makwan Amirkhani. O americano foi facilmente derrubado e manipulado no solo pelo finlandês. Só a partir do segundo assalto que o boxe veloz de Burgos passou a funcionar. A dificuldade do começo virou passeio até que o nocaute técnico contra um exausto Amirkhani foi decretado a 28 segundos do fim.

– Parece mesmo que Edmen Shahbazyan é de verdade. O jovem de 21 anos precisou de meio round para espancar o veterano Brad Tavares. O havaiano foi a knockdown primeiro com um combo jab-direto na velocidade da luz. Ele se levantou, mas só o corpo. Shahbazyan sentou-lhe o cacete com uma série avassaladora, que terminou com uma canelada no pé do escutador de bolero.

Jairzinho Rosenstruik é um cavalo. Andrei Arlovski é um velho sofrido. O resultado não poderia ser outro: nocautaço com o bielorrusso de cara no chão em 29 segundos. Tá na hora do ex-campeão tratar de dar repouso à sua sanidade mental.

Jennifer Maia precisava ser agressiva para capitalizar em cima dos momentos apáticos de Katlyn Chookagian. Porém, a americana parecia ter um sensor que disparava um gatilho a cada movimento ofensivo da brasileira. Deste modo, Maia não conseguiu impor sua vontade e ficou apenas servindo de alvo para a adversária. Chookagian chegou a 4-1 no peso mosca e deve ser a próxima desafiante de Valentina Shevchenko. Já Jenni, que não bateu o peso pela segunda vez seguida, deverá ser forçada a subir ao peso galo.