Por Alexandre Matos | 06/10/2019 03:46

UFC em Melbourne está parecendo o líder do Campeonato Brasileiro jogando em casa: é média de público pra lá de 50 mil. Um mar de gente encheu o Marvel Stadium, no sudeste australiano, com expectativa de novo recorde de público presente da organização, para o UFC 243, evento que coroou mais um gênio do MMA.

O card, que aconteceu entre a manhã e o começo da tarde de domingo na Austrália, contou com mais um campeão interino triunfando numa unificação, a sequência da ascensão de um porradeiro neozelandês, algumas barangadas de pesos pesados e outros duelos empolgantes nas preliminares.

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Israel Adesanya é o pedreiro do MMA

Há um ano e meio, Israel Adesanya começava sua caminhada no UFC deixando os fãs curiosos para saber onde ia dar aquele enorme talento no striking, mas que parecia deficiente nas demais vertentes do MMA. Luta após luta, os analistas apontavam problemas em seu jogo. Vitória após vitória, o lutador naturalizado neozelandês tacava cimento e fechava um buraco. O destino dessa caminhada foi conhecido neste final de semana: Israel Adesanya é o campeão dos médios do UFC.

Israel Adesanya nocauteou Robert Whittaker no UFC 243

A falha dessa vez estava no pocket. Foi ali que Kelvin Gastelum quase surpreendeu Adesanya na disputa do cinturão interino. Foi assim que Robert Whittaker apareceu neste sábado, apostando na velocidade para quebrar o controle de distância do desafiante e pegá-lo no pocket.

Em alguns momentos do primeiro round, Whittaker teve êxito na missão. Ele conseguia penetrar no raio de ação, deixar um ou mais golpes e sair rapidamente, complicando o contra-ataque do rival. Mas Adesanya é um gênio e, paulatinamente, foi mapeando essa movimentação. No começo, ele ficava sem espaço para golpear devido à proximidade de “Bobby Knuckles”. O que Israel fez para resolver? Passou a criar espaço com a cintura.

Quase deu ruim. Teve um momento que um cruzado de Whittaker quase pegou Adesanya com os pés paralelos. Mas foi só uma vez. No último segundo do primeiro assalto, uma movimentação dessas deu o espaço necessário para o nigeriano acertar um bolo punch no queixo do australiano, que foi a knockdown da imagem acima.

Tudo mudou no retorno para o segundo round. Adesanya estava mais adaptado e passou a impedir essas aproximações de Whittaker. O então campeão não se incomodava em levar na cara e pressionava assim mesmo. O segundo bolo punch que entrou seco deu contornos finais ao combate. Mais uma vez, Adesanya esquivou magistralmente com a cintura e largou um gancho de esquerda, que não pegou em cheio. Na volta do movimento, o bolo explodiu contra o queixo de Whittaker. O árbitro Marc Goddard, muito bem nos dois knockdowns, decretou o fim aos 3:33 da segunda etapa.

Israel Adesanya nocauteou Robert Whittaker no UFC 243

A foto acima mostra um dos momentos que Adesanya criou espaço com movimento de quadril para golpear. O que lhe causou problema na luta anterior virou solução para a conquista do título. Não duvide: há um gênio no topo da montanha dos médios.

Além de um estilo plástico e talento absurdo, Adesanya ainda é bom promotor. Vendo que Paulo Borrachinha estava na primeira fila, de olho no posto de desafiante número um, o agora campeão linear chamou o brasileiro, que estava vestido como se fosse um bicheiro, de Ricky Martin e de animal inflado. Borracha, que também sabe se promover, entrou na onda. Esses caras vão vender bem em Las Vegas.

Paciente e metódico Dan Hooker 🤭

Os fãs de MMA se acostumaram a ver Dan Hooker 🤭 muito agressivo, especialmente após subir ao peso leve. Contra o também agressivo Al Iaquinta, o neozelandês mostrou que também joga no contragolpe e ataca até recuando.

Dan Hooker venceu Al Iaquinta no UFC 243

Nem parecia que Hooker 🤭 um dia foi peso pena, tamanha a discrepância física exibida no octógono. Aliás, me pergunto como Iaquinta nunca tentou o peso pena. Ele é sempre o menor em ação.

Essa diferença de tamanho deixou Hooker 🤭 em posição de contragolpeador, apostando muito nos chutes baixos e nos jabs, praticando tiro ao alvo em Iaquinta. Quando tentou mudar de nível, o americano viu o adversário cair por cima e pegar as costas para encaixar um mata-leão. Quase que este cenário se repetiu na segunda parcial.

Assim se passou o duelo, com muito menos equilíbrio que o esperado. Iaquinta mostrou a disposição de sempre, mesmo quando respirava pela boca após ter o nariz quebrado. Porém, faltou uma adaptação à diferença de alcance para tentar as quedas com mais precisão – por exemplo, apostando nas entradas em diagonal.

O companheiro de equipe de Adesanya chegou a seis vitórias nos últimos sete combates e provavelmente vai tirar Anthony Pettis da décima posição do ranking dos leves (ou até tomar a sexta posição de Iaquinta, como os atuais votantes do ranking gostam de fazer).

Judô dá a primeira vitória de Serghei Spivac no UFC

Tai Tuivasa não sabe defender quedas. Serghei Spivac aplicou seis em oito minutos de luta. Como resultado, a primeira vitória do representante do projeto De Olho No Futuro do MMA Brasil.

Serghei Spivac bateu Tai Tuivasa no UFC 243

O moldavo parecia estar num combate de judô. Fora um double-leg, praticamente todas as quedas foram oriundas da arte japonesa. Por um tempo, Spivac se enrolou um pouco ao perder posições estabelecidas. De qualquer maneira, negou o poder dos punhos do australiano e conseguiu desgastar o rival que, apesar da protuberância abdominal, era quem tinha mais capacidade atlética na luta.

No segundo assalto, Spivac foi mais incisivo. Ele encheu Tuivasa de cotoveladas no chão, transformando o rosto do oponente em purê. Assim ficou fácil para prender o braço do australiano no katagatame. Nem precisou de muito afastamento de quadril para colocar o adversário para dormir o sono dos justos.

Resenha MMA Brasil: UFC 243 – outros destaques

Dhiego Lima conseguiu a terceira vitória seguida na sua ressureição no UFC. Os chutes baixos foram a ferramenta predileta do brasileiro, que assou a perna esquerda de Luke Jumeau. O “Jedi” mostrou que não merece o apelido, com um QI de luta dantesco. Sem conseguir evitar os chutes baixos e sem aproveitar o retorno dos socos de Dhiego, quase sempre com o punho baixo, o australiano não conseguiu aproveitar seu poder de nocaute e perdeu uma luta clara. Bom, não para o bisonho juiz Garth Harriman, que enxergou dois rounds para seu compatriota.

– No duelo de estreantes roliços num card principal de pay-per-view, Yorgan de Castro anotou um nocaute brutal em Justin Tafa. O lutador do Cabo Verde mostrou consciência ao fixar o olho na aproximação do australiano e acertar um míssil no queixo do desinfeliz.

Jake Matthews venceu o cosplay de Tony Ramos, Rostem Akman. O australiano ficou de longe, tentando evitar o combate corpo a corpo com aquele monte de pelos ambulante. O combate não teve muita ação, apenas quando Matthews caiu por cima e se levantou rapidamente no terceiro round, provavelmente com nojo de deitar em cima daquele matagal nojento.

– A academia City Kickboxing expandiu suas vitórias no UFC 243 com Brad Riddell, que venceu uma animada pancadaria contra Jamie Mullarkey. O parceiro de Adesanya e Hooker teve um terceiro round forte para garantir a vitória.

Zarah Fairn dos Santos mostrou que o peso pena feminino tem mesmo que acabar. A francesa teve a manha de ser finalizada por Megan Anderson, que, por sua vez, teve a manha de perder no wrestling para a boxeadora Holly Holm.

Nadia Kassem sai como uma das favoritas para o Barangão 2019, categoria Gabi Garcia Striker do Ano. Ji Yeon Kim nem é nada demais, mas parecia uma Katie Taylor diante do boxe esquisito da australiana.

Bruno Bulldoguinho estreou no UFC levando um couro do alemão de raízes libanesas Khalid Taha. O ex-TUF Brasil perdeu claramente em pé e acabou finalizado aos três minutos do último assalto.