Por Alexandre Matos | 07/09/2019 21:19

Alguém achou por bem levar um evento do UFC para o deserto dos Emirados Árabes no fim do verão. Pelo menos a qualidade conseguiu sobreviver ao caldeirão da mal refrigerada arena em Yas Island, em Abu Dhabi. Jornalistas in loco disseram que a temperatura chegou nos 50º durante o evento. Muito salutar para a prática do MMA. Mas fiquem de boas porque a Resenha MMA Brasil: UFC 242 vai falar de trocar soco.

Quem não se incomoda com calor é o campeão dos leves, que só faz dar calor na concorrência (perdão). Já outros sofreram com o desgaste, com atleta reclamando da dificuldade de respirar em alguns momentos. Uma bela pancadaria antecedeu a unificação dos cinturões dos leves; um parça do campeão deu mais um passo rumo a se tornar seu guardião; dois brasileiros com atuações antagônicas no card principal e um peso pesado que não consegue sair do lugar foram as principais atrações da terceira viagem do UFC a Abu Dhabi.

Quem consegue deter Khabib Nurmagomedov?

Enquanto não aparecer um enviado para vencer o atual campeão dos leves, manterei o subtítulo acima nas resenhas das lutas de Khabib Nurmagomedov. O russo deu mais um passo na direção de se tornar o lutador mais dominante da história do esporte com mais um vareio. A vítima da vez foi Dustin Poirier, que cedeu o cinturão interino na unificação.

Khabib Nurmagomedov finalizou Dustin Poirier no UFC 242

Bruce Buffer vai apresentar os lutadores (aliás, ele hoje estava com um terno que deve ter cortado de algum tapete comprado numa feira árabe), o árbitro vai tirar as pessoas de dentro do octógono, as portas serão fechadas. Nurmagomedov vai olhar na cara do capiau que se aventurou a dividir a jaula com ele e vai meter um high crotch cruzado até cair por cima do infausto. É sempre assim.

Se é sempre assim, por que diabos esse filho do capiroto logra êxito sempre? Já estava na hora de alguém perceber que ele faz esse single leg cruzado e preparar um jeito de se defender. E tenho certeza que se eu, um pobre coitado, já percebi, certamente os técnicos de alto desempenho também perceberam. E também tentaram montar alguma estratégia para lidar com essa parada. Mike Brown entrou para a lista dos que falharam.

A questão é que Khabib está cada vez mais à vontade em pé. Note que não falei que ele está mais vistoso ou exalando técnica. Ele tá nem aí pra isso. A única preocupação do russo é ser funcional. Ele tem corrido cada vez menos riscos de ser pego por uma mão vadia e, por outro lado, tem largado o couro na cara da concorrência com mais vontade. Assim, sua noção de distância fica cada vez mais acurada e suas entradas de queda tendem a ser indefensáveis. De quebra, passa um recado pro oponente que ele não é só queda. Quando o aziago pensa nisso, vai lá e toma uma queda. É triste.

Com Nurmagomedov por cima, não tem lero-lero nem vem-cá-que-eu-também-quero. Ele vai esmurrar, cotovelar, passar guarda, pegar as costas, apertar pescoço, tudo isso num ritmo que o desafiante só vai tentar se preocupar em procurar um jeito de respirar. O “Diamante” retornou para o córner com um 10-8 nas costas e com cara de perdido.

Khabib Nurmagomedov passou por cima de Dustin Poirier no UFC 242

Alguém me perguntou o que eu diria a Poirier se estivesse no córner dele quando voltou do primeiro round. A única coisa que me passou pela cabeça foi: “Força, broder”. E passaria os demais 55 segundos de intervalo abraçado com ele.

Aqui entra o lado mais atroz de enfrentar Khabib: a pressão mental. Poirier voltou em busca do hail mary. No segundo round, o cabra já estava tentando um hail mary, porque já sabia que o troço tinha ido pro vinagre. Quando um cruzado de direita balançou o campeão, o desafiante meteu um AGORA EU SE CONSAGRO e saiu como um louco atrás do nocaute. Acertou mais nenhum. Khabib recuou, saiu da linha de tiro, esperou o cérebro parar de chacoalhar e pimba!, plantou Poirier com as costas no chão de novo.

Tem ideia da pressão que é se ver tentando um hail mary antes da metade da luta? A probabilidade de cometer um erro cresce exponencialmente. No terceiro round, Poirier foi derrubado mais uma vez. Vislumbrou o cenário de ser surrado novamente e tentou a guilhotina. Ele não tinha mais o que fazer. Gastou o resto de energia que ainda lhe sobrava, mas não conseguiu trazer Nurmagomedov para dentro da guarda. Mais inteiro, o russo manteve a calma, saiu para o lado da perna defendida e escapou da pressão. Então o caminho ficou aberto para pegar as costas e largar o mata-leão decisivo.

Alguém pode dizer que a guilhotina ali era suicida. Ou que Poirier errou ao manter o queixo alto quando Khabib escapou e girou. É verdade, mas eu não vou crucificar o desafiante. Ele fez o que era possível. Pena que o possível é pouco para deter um demônio.

Paul Felder mostra a Edson Barboza que é preciso evoluir

Edson Barboza está no UFC há quase uma década. Nas 22 lutas disputadas, se firmou como um dos strikers mais plásticos, conseguiu belas marcas, aplicou nocautes históricos. Mas evoluiu pouco. Essa mistura o mantém no top 10 mais disputado de todos, mas o impede de ir além.

Paul Felder passou por Edson Barboza no UFC 242

Um dos adversários desses 22 encontros foi Paul Felder. Eles se enfrentaram há quatro anos, quando o americano deu algum trabalho, mas o friburguense venceu com autoridade por decisão. De lá para cá, Barboza adicionou quase nada ao seu repertório. Felder, que é aguerrido, mas não exatamente alguém que fosse vencer um top 5 perene, entendeu o que era preciso fazer para triunfar na revanche.

Barboza sempre mostrou dificuldade com o boxe defensivo, especialmente os socos em linha reta. Felder, que normalmente se apresenta como um kickboxer chutador, apareceu em Abu Dhabi como um boxeador para explorar essa deficiência das mais documentadas do UFC.

O brasileiro apostou na velocidade dos ganchos de esquerda e das chicotadas em forma de chute nas pernas e no corpo. O de sempre, né? Felder levou muita bica no tronco e deve mijar sangue por uns dias, mas aproveitou muitas brechas para encontrar o centro da face de Edson. Quando tentou ser diferente, Barboza aplicou uma queda e caiu por cima. Como não tem muita experiência na posição, acabou mais castigado do que castigou.

No terceiro assalto, apareceu outro problema que Edson tem dificuldade de tratar. Seu condicionamento físico foi se esvaindo. Quando isso acontece, ele vai ficando mais “mole”, menos móvel, mais lento. Sob medida para Felder pressionar e sugá-lo para a pancadaria. Claro que daria ruim, como deu.

No fim das contas, placares para todos os lados e visitas à categoria Placar do Ano do Barangão. O primeiro assalto foi claro para Edson, como o terceiro foi para Felder. O segundo foi acirrado, o que deu margem para um 29-28 para qualquer lado. Porém, um juiz cometeu o despautério de marcar 30-27 Barboza e outro mandou o desconchavo de anotar 30-27 Felder. Esses caras são pagos pra isso.

Wrestling 2753 x 34 Jiu-Jítsu

O wrestling nem foi a modalidade que Islam Makhachev mais se dedicou. Ele é oriundo do judô e foi campeão mundial de sambô de combate, que é uma espécie de jiu-jítsu dos russos em relação à concentração de medalhas. Porém, como todo grappler russo que se preze, principalmente os nascidos no Daguestão e amigos de infância de Khabib, precisa saber wrestling. Makhachev se adaptou muito bem ao MMA.

Islam Makhachev venceu Davi Ramos no UFC 242

Davi Ramos também adaptou muito bem o jiu-jítsu ao MMA. Campeão do ADCC em 2015, ele executa transições no solo com enorme categoria e é mortal nos botes para finalização. Porém, para chegar lá, precisa derrubar. Só que a missão era derrubar alguém que só sofreu uma queda – e para outro ex-soviético – em oito lutas no UFC.

Restou ao brasileiro encarar o desafio em pé. Com um jogo de pernas travado e noção de distância totalmente descalibrada, Davi socou mais o vento do que o adversário, com direito até a cascudo no ar. Enquanto esteve em pé, Makhachev fez o suficiente para pontuar e abrir vantagem confortável.

Quando Davi engoliu uma joelhada e foi ao chão, provou que o jiu-jítsu atualmente tem pouca valia contra esses sujeitos que são peritos no controle posicional. Makhachev ficou quatro minutos por cima e não sofreu absolutamente nenhum momento mínimo de perigo. Ramos não tinha espaço para escapar de quadril, para tentar escalar a guarda, para sair numa finalização qualquer. Só restou a ele se proteger da chuva de pancadas que rendeu um 10-8 ao daguestani.

Resenha MMA Brasil: UFC 242 – Outros destaques

Curtis Blaydes chegou onde podia. Ele só vai vencer Stipe Miocic, Daniel Cormier ou Francis Ngannou na próxima encarnação. Porém, enquanto enfrentar a rafameia que se posiciona atrás dele no ranking dos pesados, vai bater em geral. Ver Shamil Abdurakhimov na nona posição dá a impressão que todo mundo dos pesados está no ranking. O russo não teve a menor condição de entregar resistência mínima e só fez tomar queda e cacete até a metade da luta, quando se virou em posição fetal, indicando para o árbitro que não queria mais apanhar.

Carlos Diego Ferreira superou as desconfianças e, com uma bela atuação ofensiva, conquistou uma importante vitória sobre o favorito Mairbek Taisumov. O checheno começou melhor, mas pareceu sucumbir ao calor insuportável da arena. O brasileiro, mais acostumado com o calor por viver no Texas, não baixou o ritmo e chegou tão inteiro ao terceiro assalto que deu margem para 10-8.

Ottman Azaitar nocauteou brutalmente Teemu Packalen no UFC 242

– Dois nocautes brutais sacodiram a arena no card preliminar. Muslim Salikhov largou um overhand no queixo de Nordine Taleb, que fez o francês desabar como uma árvore abatida. O nocaute foi muito parecido com o que Roy Nelson aplicou em Rodrigo Minotauro na mesma Abu Dhabi. Já Ottman Azaitar foi ainda mais assustador. Seu cruzado de direita chegou a bater no bloqueio de Teemu Packalen, mas a pancada foi tão violenta que fez um barulho seco e mandou o finlandês de cara no chão, congelado, com as pernas tremendo.

Andrea Lee parecia estar a uma vitória de se tornar desafiante no peso mosca, mas Joanne Calderwood a impediu de fazer 4-0 na categoria. O combate foi parelho – eu cheguei a pontuar para Lee – e agora deixou ambas com retrospecto de 3-1 na divisão, mas JoJo venceu o confronto direto.