Por Diego Tintin | 18/08/2019 14:05

Na ausência de Alexandre Matos, que experimenta uma espécie de plano piloto das novas leis trabalhistas, coube a mim, o zero-dois, trazer meia-dúzia de pitacos, xoxadas e gongadas aos acontecimentos do recém-empacotado UFC 241, que rolou no Honda Center, em Anaheim, Califórnia.

A divisão dos pesados tem um novo velho campeão, que leva novamente a coroa para seu quartel, em Cleveland. A resenha também tem um veterano doido para aplicar mais furadas de fila no meio-médio, após uma apresentação vintage de muita técnica. Tem também um brasileiro ascendente, após uma visceral candidata a luta do ano, cheio de vontade de lutar pelo cinturão com uma vitória especial e controversa. Há outro brasileiro com a viola devidamente ensacada, depois de esbarrar em um adversário taticamente irrepreensível e tecnicamente capacitado. E tem mais, é só conferir, tá bem aqui embaixo.

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Pode ter Cormier-Miocic umas duas vezes por ano?

Daniel Cormier é ao mesmo tempo um mistério e uma força da natureza. Um sujeito de 40 anos, com essa quantidade de gordura no corpo, apresentar aquela capacidade atlética é ainda carente de maiores explicações. Isto posto, Stipe Miocic é outra vaca premiada. Gigantesco, ágil, resistente e dono de uma força mental assombrosa, o sujeito foi levado a águas profundas por Cormier. Resistiu, mudou a estratégia e conseguiu uma das grandes viradas dos últimos anos.

Stipe Miocic venceu Daniel Cormier no UFC 241

O primeiro assalto foi de trevas para o descendente de croatas. Com um clinch diabólico, movimentação inteligente e força física inexplicável, Cormier logo ergueu Stipe no quinto andar e o cravou no solo. Lá, trabalhou as transições e o ground and pound com autoridade, deixando o oponente sem nenhuma opção a não ser tentar travar a luta e resistir até a buzina soar.

No segundo, Miocic se abriu mais, arriscou tudo e conseguiu, ao menos, devolver parte do que recebia de DC. A luta ficou emocionante, com pancadas pesadas de lado a lado. Daniel seguiu na liderança, mas agora era ameaçado pelo enorme oponente, que tentava a qualquer custo balançar o sempre sólido queixo e a sempre gelatinosa barriga do campeão.

Um roteiro comum na luta foi Miocic buscando pressionar no início dos rounds, encurralando Cormier, acertando sua linha de cintura, mas arrefecendo depois que recebia os punhos pesados do campeão em seu rosto. Com o contra-ataque muito bem sincronizado, Daniel rechaçava quase todas as tentativas e ainda usava eventualmente o clinch para desgastar o desafiante.

Todavia, no quarto round, a insistência de Miocic lhe rendeu uma virada heroica e histórica. Mostrando muita resiliência e condicionamento, ele insistiu nos golpes na rica pancita de Daniel. Fazendo o campeão recuar, Stipe acertou dois diretos de direita seguidos. Encurralado na grade, grogue e cansado, Cormier não tinha como resistir e o desafiante terminou o trabalho, forçando Herb Dean a parar com a brincadeira, depois do protocolar “pouquinho a mais” que os campeões supostamente têm direito.

Diaz ignora o tempo de inatividade e não dá chance a Pettis

Nate Diaz é aquele sujeito que, de tempos em tempos, aparece no UFC só para nos lembrar o quanto ele é um ótimo lutador. Em duelo de alto nível técnico, embora com uma velocidade mais cadenciada, ele voltou a vencer depois de mais de quarenta meses. A vítima foi o ex-campeão do peso leve Anthony Pettis, que não conseguiu lidar com a superioridade técnica e física do veterano de Stockton.

Nate Diaz venceu Anthony Pettis no UFC 241

A luta começou com Pettis usando sua criatividade, aproveitando o início devagar de Nate para abrir vantagem. Porém, sua liderança no placar ficou em xeque com uma melhora do Bad Boy de Stockton na segunda metade da parcial. Diaz levou para o chão, escapou de uma tentativa de guilhotina e fez o diabo com seu jiu-jítsu refinado e bonito de se ver. Neste momento, Pettis já estava em uma situação complicada, logisticamente falando.

Na volta do primeiro intervalo, Diaz passou a subir o tom com seu famoso alto volume no boxe, que encurralou o “Showtime”, desgastado e soterrado pelos punhos de Nate. Este panorama se repetiu no assalto final, com direito a mais um pouco de luta de solo. Pettis tentou, não se entregou, teve um momento por cima no chão, mas não ameaçou a vitória do irmão de Nick. A entrevista final de Diaz, como de costume, foi um show à parte, com suas conhecidas bravatas, o desafio a Jorge Masvidal e algumas dúzias de palavrões e gírias.

Borrachinha tirou o passaporte da elite do peso médio

Não foi fácil. Não foi claro. Sequer foi muito justo. Mas foi uma baita de uma vitória e uma baita de uma atuação de Paulo Borrachinha, que atravessou a portaria e agora frequenta o clube dos melhores pesos médios do mundo. Numa batalha memorável, sangrenta e agoniante, o mineiro convenceu os jurados que levou dois rounds do interminável cubano Yoel Romero.

Paulo Borrachinha venceu Yoel Romero no UFC 241

O primeiro round foi insano. Aquela anarquia gostosa repleta de socos, chutes, joelhadas, catiripapos e cachações de lado a lado do primeiro segundo até o último. Borrachinha trabalhou muito bem a linha de cintura do cubano e até exagerou nesta busca, acertando uma joelhada forte na região genital a certa altura. Na loucura que foi a parcial, foi possível enxergar um 10-9 para Paulo.

A pequena vantagem inicial do brasileiro não teve continuidade no segundo assalto. Romero se saiu melhor na distância, passou a trabalhar com mais jabs, diminuindo um pouco os momentos de troca de porrada desenfreada do início da luta. À medida que os dois se cansavam, a maior experiência do cubano ganhava importância, com a melhor escolha dos golpes fazendo uma pequena, mas clara, diferença em seu favor.

Ao fim de três rounds espetaculares (e até certo ponto assustadores), a melhor luta da noite nem tinha concorrentes nesta disputa. Nascia uma candidata ao posto de luta do ano. Os dois atletas saem com muita força e respeito desta guerra. A vitória de Borrachinha foi um tanto injusta, assim como as vaias da torcida – que, afinal, tinha visto um grande espetáculo –, mas o brasileiro pode se orgulhar de ter provado que faz parte do topo da cadeia alimentar do peso médio.

A Nigéria de Usman e Adesanya apresenta a sua nova promessa: Sodiq Yusuff

O nigeriano Sodiq Yusuff mostrou mais uma vez que merece atenção e que traz uma brutalidade incomum para o peso pena. Ele liquidou o duro mexicano Gabriel Benitez pouco antes do final do primeiro assalto.

Parecia que acabaria rápido. E acabou. Mesa posta, o nigeriano serviu a potência, enquanto o mexicano trouxe a coragem. Era uma combinação ruim para Benitez, mas logo ele se recompôs, equilibrou o duelo e chegou a aplicar um knockdown ainda no round inicial, mas sem maiores consequências. A resposta do africano veio definitiva: ao combinar  jab-direto, Gabriel abriu uma avenida convidativa para Yusuff largar um gancho de direita no queixo, que mandou o latino para a lona, onde recebeu um confere que o tirou do ar e definiu a parada. Herb Dean, ao contrário do desastre de duas semanas atrás, foi esperto e não deixou Benitez sofrer mais que o necessário.

A escalada de Heinisch no peso médio esbarra no veterano Brunson

Depois de chamar a atenção com boas atuações, Ian Heinisch enfrentou o sempre bem colocado, porém acessível, Derek Brunson. E se deu mal. O veterano mostrou que ainda tem lenha para queimar e freou o crescimento do pouco experiente compatriota americano.

Sem muita cerimônia, Heinisch acertou um chute alto infernal com menos de cinco segundos de luta, que Brunson suportou com dignidade. A luta transcorria com Ian assumindo o papel de agressor, enquanto Derek passava o tempo evitando maiores prejuízos e aguardando uma oportunidade para levar a luta para o chão.

O cenário mudou na volta para o segundo assalto. Brunson acertou com frequência, acelerou o ritmo e deixou Heinisch com dificuldades de responder, porque este estava mais cansado e incomodado com o quanto recebeu de pancada. A luta terminou com os dois atletas mostrando raça, pouca técnica e preparo físico insuficiente. Derek complementou a virada, aproveitando o fato de estar com mais gás e uma técnica ligeiramente melhor na troca de golpes. Passou a encurtar os espaços e atingir Heinisch enquanto o oponente insistia em mata-cobras isolados, que só serviam para deixá-lo ainda mais cansado.

Eficiente, Sandhagen tira Raphael da trilha da elite do peso galo

O pernambucano Raphael Assunção deixou o posto de eterno candidato a desafiante do peso galo. O responsável foi o talentoso e inteligente Cory Sandhagen que, assim como fizera contra John Lineker, elaborou uma estratégia eficiente para neutralizar as principais habilidades de seu oponente e sair vitorioso de um duelo cascudo.

Sandhagen começou incomodando o brasileiro com variações de chutes nos três níveis, atrapalhando as tentativas de Raphael contragolpear. Com desvantagem considerável no alcance, Assunção tentou circular com mais velocidade, mas volta e meia foi alcançado pelo perigoso overhand de Cory.

No segundo assalto, Raphael conseguiu logo transformar a peleja em um duelo de luta agarrada com muita troca de posições e ameaças de botes nos braços, pernas e pescoços. O brasileiro levou pequena vantagem, mas em nenhum momento o americano o deixou em situação confortável, ora tomando iniciativa, ora reagindo bem às decisões de Assunção. Com a vantagem de Cory nos poucos momentos de luta em pé, tivemos um round de difícil pontuação.

Eles voltaram para a última parcial dispostos a repetir o que cada um fez com sucesso nos rounds anteriores. Em pé, mais uma vez a vantagem foi de Sandhagen, com seus braços e pernas compridos e habilidosos. O brasileiro até aplicou três quedas, mas em nenhuma delas conseguiu manter o americano no solo e chegou à segunda derrota seguida, que pode tirar o veterano de 37 anos definitivamente da corrida ao cinturão.

Resenha MMA Brasil: UFC 241 – Outros destaques

Drakkar Klose e Christos Giagos protagonizaram um animado quebra-pau. O competente Klose abriu vantagem no segundo round, para no terceiro consolidar a vitória sobre o duro Giagos. Ainda teve direito a uma queda “daquelas”, em que o pobre coitado do Giagos passeou ali pelo terceiro ou quarto andar.

– O evento foi inaugurado com um senhor sacode imposto pela “Rainha Colombiana” Sabina Mazo à americana Shana Dobson. A promissora sul-americana não deixou Dobson ver a cor da bola e um dos jurados chegou a marcar triplo 10-8 em seu favor, tamanha a superioridade.