Por Alexandre Matos | 09/06/2019 04:24

É sensacional quando um evento muito aguardado entrega o que prometia. Este foi o caso do UFC 238, disputado neste sábado, em Chicago, que vai fazer muita gente passar a noite em claro, adrenalizado. A Resenha MMA Brasil: UFC 238 tem um monte de história para contar.

Já até perdi as contas do que aconteceu. Teve mais um champ-champ, teve candidata a número um peso por peso dando o nocaute do ano, o retorno de um atropelador, Rocky Balboa, mini-jamanta, próximo desafiante do champ champ… teve até peso pesado barangudo vencendo peso pesado barangudo (ah vá!).

Respira fundo que hoje tem assunto a respeito do UFC 238.

Campeão olímpico e champ-champ do UFC. Tá ruim, Henry Cejudo?

Ele já era o único campeão olímpico e campeão do UFC na história. Agora ele é o único campeão olímpico e campeão-campeão do UFC. Nem é preciso medir o tamanho dessa façanha. Fosse pouco e Henry Cejudo ainda conquistou o cinturão dos galos massacrando Marlon Moraes na especialidade do brasileiro.

Henry Cejudo demoliu Marlon Moraes no UFC 238

A gente sabia que Cejudo havia melhorado horrores no striking com os treinos com os irmãos Pitbull e as viagens à Tailândia. A gente sabia que ele teria armas para encontrar um caminho para chegar ao clinch e às quedas. Mas quem imaginaria que ele fosse encarar Marlon na troca de golpes? E não só isso, mas massacraria o artista do nocaute de Nova Friburgo?

Marlon saiu com a estratégia correta de encher as pernas de Cejudo de bicas. Era cada lapada que eu sentia de casa. Melhor coisa para desestabilizar a base de um wrestler e dificultar as entradas de queda. Foi assim que o brasileiro saiu na frente no primeiro round, também ajudado pela dificuldade de Cejudo em achar a distância.

O cenário mudou no segundo assalto quando um gancho de direita violento explodiu contra a cabeça de Moraes e o tirou do prumo. A pancada foi seguida de um maligno thai clinch em que pelo menos umas cinco joelhadas entraram limpas. O friburguense não mais voltou à luta.

Cejudo retornou para o terceiro transbordando confiança. Ele só foi ao clinch na grade quando o próprio Marlon fez o movimento para ver se a cabeça parava de girar. Moraes solicitou tempo por uma dedada no olho que não aconteceu – o golpe foi um soco limpo. Cejudo caçou Marlon, meteu pressão na curta distância, bateu nele de tudo que é jeito e o mandou à lona. Caiu por cima, bateu no ground and pound e quase fechou o caixão num triângulo de mão. O brasileiro resistiu, mas apenas para apanhar mais até a interrupção de Marc Goddard a nove segundos da buzina soar.

Até outro dia, o UFC não tinha nenhum campeão em duas categorias simultaneamente. Hoje, tem quatro, pois Henry Cejudo se juntou a Conor McGregor, Daniel Cormier e Amanda Nunes. A consagração de Cejudo é a consagração também de Eric Albarracin. O treinador de wrestling agora tem dois champ-champ no MMA, um no UFC e um no Bellator (Patricio Pitbull). Ele ainda era o técnico de Cejudo no ouro olímpico. E venceu Thanos. Que homem.

Ah! Demetrious Johnson meteu o pé em tempo hábil, hein?

Será que a maior lutadora é diferente da melhor?

Para mim, não há dúvida que Amanda Nunes é a maior lutadora do MMA, pelos resultados monstruosos que conquistou. Porém, quando falamos de talento, ou seja, da melhor, independentemente de resultado, será que a baiana também está no topo? Tendo a acreditar que esta posição é de Valentina Shevchenko, que obliterou Jessica Eye na primeira defesa do cinturão do peso mosca.

Valentina Shevchenko nocauteou Jessica Eye no UFC 238

Já era sabido que as chances de Eye eram remotas. Valentina tinha duas opções: cozinhar a luta, como alguns campeões andaram fazendo quando tinham larga vantagem, ou mostrar para todos quem ela é. Felizmente a quirguiz naturalizada peruana optou pela segunda.

A multicampeã de muay thai tem um jogo de luta agarrada cada vez melhor. Scheva aplica quedas plásticas e domina as adversárias no solo com tranquilidade. Foi assim que ela passou a carreta na desafiante no primeiro assalto. Um quedão foi seguido de um trabalho constante no solo, seja no ground and pound ou nas transições e bote para finalização. Eye não teve chance.

A desafiante também nada fez na segunda etapa, mas ela mal teve tempo. Pessoal tava se arrumando no sofá quando Valentina largou uma canelada alta monstruosa. O golpe, aplicado aos 26 segundos, pegou na testa de Jessica e a mandou como uma árvore abatida ao solo. A americana caiu em posição de crucifixo, com os braços abertos, imóvel. Foram momentos angustiantes até que ela se levantasse.

Valentina Shevchenko com o cinturão do UFC

Acostume-se com a imagem acima. Não há previsão de que este cenário vá mudar. Não há ninguém no peso mosca, ou no galo capaz de baixar, que possa dar trabalho a Shevchenko. Ela vai limpar a divisão e vai optar entre dar uma segunda volta ou subir para desafiar Amanda, seu grande calo no MMA. Eu queria muito ver essa terceira luta, para colocar a limpo o resultado controverso da segunda.

Tony Ferguson qualquer dia desse vai sair do octógono para uma delegacia

O sujeito fica um tempão parado. Se machuca, opera joelho, entra em depressão. Volta com o retrospecto de duas lutas em dois anos. E o que ele faz? O de sempre. Tony Ferguson é um maníaco. Neste sábado, foi a vez de deformar o rosto do bravo Donald Cerrone.

Tony Ferguson venceu Donald Cerrone no UFC 238

É incrível como as lutas de Ferguson seguem um script parecido. No primeiro assalto, ele começa devagar. O adversário se empolga e acerta umas pancadas. Desce o melado na cara de Tony. Ele se alimenta daquela porra. Aí o oponente vai pro intervalo crente que está abafando e Ferguson volta para o segundo com o contrato assinado com o capiroto.

Vocês sabem o que é “El Cucuy”? É o Bicho-Papão dos contos de terror infantil. Alguém tem dúvida que não há apelido melhor para Ferguson? Quando ele pega ritmo, simplesmente atropela os ataques dos oponentes. Ele leva na cara, mas é como se fosse nada. Na verdade, boa parte dos golpes passam a ser evitados pelo ex-campeão interino. Só que ele acerta numa precisão absurda. E parece que seus golpes nem machucam. Ele larga socos em linha, cotoveladas de frente, rodadas, chutes na barriga com uma calma de quem está trafegando nos corredores do supermercado. Vendo de longe, parece que o combate está equilibrado, quando na verdade Ferguson acerta e não é acertado, num balé violento de punhos voando para todo lado. Então a câmera aponta para o rosto do adversário e o maluco está desfigurado. E Ferguson segue lá, com aquela cara de maníaco.

Donald Cerrone desfigurado no UFC 238

Quando acabou o segundo assalto, eu achei que o “Cowboy” voltaria para o córner e meteria um “Cut me, Mick. Cut me” para seu treinador. Ainda bem que a vida real não é filme e a comissão atlética de Illinois não permitiu que Cerrone tivesse mais coragem do que juízo e pediu para que o árbitro Dan Miragliotta encerrasse o combate. Foi a segunda vez seguida que um oponente de Ferguson não conseguiu voltar para o terceiro assalto.

As vítimas de Tony Ferguson

É assim que voltam para casa os incautos que decidem se trancar numa jaula com Tony Ferguson. Metade dessa foto resolveu se aventurar no peso meio-médio depois do encontro com o Bicho-Papão. Depois da luta de hoje, Dana White veio com papo de revanche imediata. Tá de sacanagem. Isso só pode ser sinal que Conor McGregor vai aplicar o balão para enfrentar o vencedor de Khabib Nurmagomedov-Dustin Poirier. Enquanto isso, Ferguson vai se aproximando da maior série de vitórias da história. Ele está a quatro do recorde de Anderson Silva (16).

Petr Yan levou um ano entre estrear no UFC e chegar ao top 5

Já tem um tempo que o MMA Brasil fala que Petr Yan chegaria de bicho no UFC. No entanto, nem nós imaginávamos uma ascensão meteórica como essa. Com o triunfo neste sábado sobre Jimmie Rivera, provavelmente o russo de 26 anos aparecerá no top 5 do peso galo. Ele estreou no UFC em 26 de junho do ano passado e desde então venceu cinco combates.

Petr Yan venceu Jimmie Rivera no UFC 238

Esta quinta vitória não foi nada fácil. Rivera estava muito bem preparado e adotou uma estratégia inteligente de usar a agressividade de Yan contra ele. O americano foi bem no contra-ataque, usou com autoridade os chutes na perna e lançou mão do arm-drag para pegar as costas de Yan sempre que ele alongava muito seus golpes.

O problema de Jimmie é que Yan sempre tinha uma carta na manga. O russo ia levando os assaltos com prejuízo baixo e explodia no final. Deste modo, ele mandou Rivera a knockdown nos dois primeiros rounds – com um gancho de esquerda no primeiro e um direto de direita no segundo – e virou as duas parciais. Na segunda, faltou pouco para não acabar o combate.

Nos cinco minutos finais, Yan desacelerou para não correr risco. Ainda assim, largou um uppercut que fez o protetor bucal de Rivera voar longe. O assalto foi equilibrado e há quem tenha pontuado para os dois. Não adiantou muito, pois Petr havia aberto 20-18 nos rounds iniciais e venceu por decisão unânime.

O peso palha tem duas forças da natureza que se encontrarão em breve

A campeã Jéssica Andrade se tornou uma força da natureza quando baixou para o peso palha. Porém, ela não é a única. Passo a passo, Tatiana Suarez vai deixando um rastro de destruição por onde passa. Neste sábado, enquanto teve condições médicas, ela atropelou Nina Ansaroff.

Tatiana Suarez venceu Nina Ansaroff no UFC 238

Ansaroff vinha da maior atuação de sua carreira, na vitória contra Claudinha Gadelha. Neste sábado, ela não conseguiu imprimir o ritmo na troca de golpes em pé que lhe rendeu o triunfo passado. Suarez se movimentou muito bem e soube manter a oponente em sua alça de mira sem se expor, mas também sem evitar atacar. Até aí, tudo bem. O bagulho ficou ruim para a esposa de Amanda Nunes quando Tatiana resolveu botar o wrestling para jogo.

Eu tenho a impressão que não dá para evitar que Tatiana chegue ao solo em posição de vantagem. Ela lembra muito o modo de Khabib operar, usaando o high crotch e emendando um ataque no outro sem precisar recobrar a postura e reiniciar o ataque. Ainda que a concorrência defenda o primeiro bote, ou o segundo, uma hora ele(as) acabam cedendo. E quando cai por cima, Suarez só sai dali quando o árbitro decreta o fim, quando a adversária batuca ou quando a buzina soa.

No terceiro, Suarez reduziu bastante o ritmo. Curiosamente, ela não parecia cansada, pois quicou o round inteiro. Na entrevista após o combate, descobrimos que ela havia machucado o pescoço no primeiro assalto, uma lesão que pode ter contornos dramáticos se o jogo de quedas e controle posicional for insistido. Suarez então tentou controlar na longa distância e viu Ansaroff, que precisava de uma interrupção, crescer. No fim das contas, não adiantou muito.

Informo que estou bastante empolgado com o possível duelo entre Jéssica Andrade e Tatiana Suarez. Pura força bruta na categoria mais leve do UFC.

Aljamain Sterling desabrochou de vez no peso galo

Desde que o joelho de Marlon Moraes promoveu o encontro entre Aljamain Sterling e a vala, o americano finalmente liberou todo o talento que nos fez apontá-lo lá atrás, em 2013, mais de um ano antes de sua estreia no UFC. Neste sábado, o “Funk Master” teve sua melhor atuação e parou a subida de Pedro Munhoz.

Aljamain Sterling venceu Pedro Munhoz no UFC 238

O combate foi tenso porque Pedro tem uma enorme capacidade de dar fim aos combates e absorve castigo como poucos. Dito isso, o duelo foi um passeio do americano. Sterling esteve o tempo todo um ou dois passos à frente do brasileiro.

O volume de golpes e a variedade de ataques de Sterling foram magníficos. Como a diferença de velocidade era notável, ele conseguia golpear o brasileiro de toda sorte de ângulos e posições, saindo de onde estava quando vinha a resposta de Munhoz.

Em mais de uma oportunidade, parecia que Pedrinho seria nocauteado, mas o sujeito tem um queixo dos infernos e suportou o castigo com muita dignidade. Num duelo disputado inteiramente em pé, Sterling alcançou números enormes. Ele quebrou o recorde de golpes contundentes conectados do peso galo no UFC e WEC, com 174 acertos em 350 tentativas. Isso dá uma absurda média de pouco mais de 23 golpes tentados por minuto e quase 12 acertados. A cada três segundos vinha um golpe de Sterling na direção de Pedrinho. A cada cinco, o brasileiro era acertado de modo contundente.

Cejudo disse, ao vencer Moraes, que tinha uma lista de alvos. Nenhum deles era Sterling, que tem quatro vitórias seguidas. Porém, é provável que eles se encontrem na primeira defesa do “Mensageiro” como campeão dos galos.

Resenha MMA Brasil: UFC 238 – outros destaques

– O card principal abriu com Blagoy Ivanov vencendo Tai Tuivasa. O combate foi ruim conforme esperado.

Alexa Grasso foi outra que sai de Chicago com a maior atuação da carreira. A mexicana não tomou conhecimento da experiente Karolina Kowalkiewicz e anotou uma vitória maiúscula, com traços da lendária escola de boxe de seu país. Grasso foi soberba nos contragolpes, fez ótimo uso dos jabs, anulou a pressão da polonesa e arrebentou-lhe o nariz. Alexa dominou tanto na distância quanto no clinch, de onde maltratou a adversária com joelhadas duras.

Calvin Kattar impôs a Ricardo Lamas mais um duro nocaute. O ex-desafiante já estava com as pernas ardendo de levar chutes quando Kattar emendou um combo de gancho de esquerda com direto de direita que mandou Ricardo para o colo do palhaço a um minuto do fim do primeiro round.

Joanne Calderwood tinha duas vitórias nas duas lutas feitas no peso mosca. Uma vitória sobre Katlyn Chookagian provavelmente faria dela a próxima desafiante. No entanto, JoJo lutou mal, se movimentou mal e não conseguiu escapar dos golpes da americana. Como a derrota de Chookagian para Jessica Eye foi injusta, provavelmente ela será a próxima na fila de Valentina Shevchenko. Mas não há de ser nada, pois provavelmente a campeã daria cabo de Chookagian e Calderwood numa mesma noite.