Por Alexandre Matos | 12/05/2019 05:20

Estava com saudade de assistir a um evento in loco. Agora que eu deixei as coberturas por conta da equipe, minha parada é na arquibancada. Lá estava eu neste sábado, pela segunda vez na vida, no meio do povo na Jeunesse Arena, no Rio de Janeiro. Vou contar a história do que eu vi na Resenha MMA Brasil: UFC 237.

Digamos que foi um evento repleto de anticlímax. Não me recordo de um evento do UFC em território nacional com tantas derrotas de brasileiros para estrangeiros. Pelo menos a torcida saiu feliz com a vitória na luta principal, que reforçou o status de potência feminina do Brasil – todos os cinturões de lutadores do país são de mulheres.

Vamos em frente para o que eu tenho a dizer sobre o UFC 237. Depois quero saber o que vocês têm a dizer do evento e do que eu tenho a dizer.

Jéssica Bate-Estaca bate-estaca

Final tenso e surpreendente para a luta principal. Tenso pela situação da agora ex-campeã Rose Namajunas. Surpreendente pela virada que se desenhava improvável de Jéssica Andrade. Improvável como era o cenário com ela campeã quando estreou no UFC.

Jessica Andrade aplica bate-estaca em Rose Namajunas para conquistar o cinturão do UFC

Nào tenho dúvida em afirmar que Namajunas estava tendo a melhor atuação de sua carreira. Com uma movimentação perfeita e um trabalho de punhos no estado da arte, a americana praticou tiro ao alvo contra a cabeça da brasileira por quase toda a duração do combate. Rose soube atacar recuando, para se aproveitar da maior avenida defensiva que Jéssica deixa, ao atacar toda aberta – ela não consegue resolver este problema. Namajunas bateu recuando, bateu avançando, bateu saindo lateralmente. Bateu encontrando Bate-Estaca no pocket. A canhota da americana entrava como queria por cima da direita da desafiante, que parecia estar sempre engatilhada, mas nunca preocupada em proteger a cabeça. Namajunas aplicou um knockdown.

Os únicos momentos de vantagem de Jéssica foram com as quedas. É absurda a diferença de força bruta que ela tem em relação às oponentes. No primeiro assalto, Andrade colocou a rival no ombro duas vezes. Na primeira, Rose caiu de bunda, quicou espetacularmente e se levantou imediatamente. Na segunda, Namajunas caiu com o armlock preparado. Quando acabou o primeiro round, a impressão é que Bate-Estaca estava num mato sem cachorro.

O cenário só se agravou no segundo assalto. Jéssica levava soco adoidado e errava o alvo constantemente. O segundo balaio estava encaminhado quando a desafiante levantou a campeã no ombro novamente. Rose tentou de novo cair preparando o armlock. O que ela não contava era que, dessa vez, Jéssica a cravaria com a cabeça no chão. Bate-estaca genial da Bate-Estaca. De princípio, fiquei na dúvida sobre a validade do golpe, visto que a americana foi cravada de cabeça no chão. Porém, como não estava com os braços presos, o golpe era válido.

O impacto foi tão brutal que deu a impressão que Rose convulsionou. Felizmente ela estava sóbria logo depois. No entanto, o resultado, somado ao trauma que ela vive desde o ataque da gangue de Conor McGregor ao ônibus dos lutadores, no UFC 223, fez com que ela repensasse se ainda vale a pena seguir lutando.

Do outro lado, Jéssica completou seu conto de fadas, que começou mal, quando estreou no UFC levando vareio e deixando a dúvida se ela tinha nível para estar ali. Seis anos depois, ela agora é campeã do peso palha e a mulher que mais venceu lutas na história do UFC.

Dos quatro cinturões femininos, três estão de posse de brasileiras. Girl power, baby!

Anderson Sina

Há quem defenda que Anderson Silva deveria ter colocado fim em sua gloriosa carreira no MMA quando quebrou a perna contra Chris Weidman. O “Spider” seguiu em frente, colecionou derrotas e dopings. Neste sábado, Jared Cannonier lhe impôs nova lesão.

Anderson Silva sofreu mais uma lesão na perna

Nos quatro primeiros minutos de luta, parecia que Cannonier estava todo borrado de estar frente à frente com uma lenda. Travado, o americano não conseguia produzir nada. Enquanto isso, Anderson aproveitava para pontuar com alguns golpes. Nada muito potente, sem combinações, mas suficiente para lhe dar a dianteira.

No minuto final do primeiro round, Cannonier limpou o barro que escorria em suas pernas e passou a trabalhar. Disparou combinações, socou e chutou. A 13 segundos da buzina soar, o americano lascou um canelaço bem atrás do joelho de Anderson. O brasileiro desabou gritando de dor e o árbitro Herb Dean não teve outra alternativa senão decretar o nocaute.

Anderson vai aos poucos revertendo seu cartel inicial no UFC. Depois de 16 vitórias seguidas, ele agora tem seis derrotas em oito lutas, com uma vitória contestada e um combate sem resultado por causa de doping. O ex-maior campeão da história do UFC segue esticando sua agrura.

Nova geração do peso pena apronta mais uma

A passagem de bastão no peso pena do UFC segue à toda. No UFC 237, José Aldo não foi páreo para Alexander Volkanovski, que provavelmente assumirá o posto de número um da categoria e virtual desafiante de Max Holloway.

Alexander Volkanovski teve sua melhor atuação contra José Aldo

Eu poderia dizer que a diferença de força física resolveu a parada a favor do australiano. Não seria mentira, mas não faria jus à atuação de Volkanovski. Ele guardou Aldo num armário trancado quando cravou o brasileiro na grade, no clinch. O enorme tronco de Alex dificultou muito a tarefa de Junior escapar daquela pressão. Porém, Volkanovski foi muito mais que clinch.

O feito mais emblemático da vitória de Volkanovski aconteceu na troca de golpes em pé. O australiano imprimiu uma movimentação fluida, variando bastante as direções. Deste modo, ele conseguiu anular a principal arma do brasileiro, a sua capacidade de retaliação. Seja saindo rapidamente ou movimentando a cabeça, Volkanovski raramente deixava um alvo fixo para Aldo acertar. Chutes baixos, jabs e ganchos foram executados com muita categoria pelo lutador da Oceania, que, a cada luta, vai deixando para trás o jogo de ground and pound para se tornar um sujeito mais versátil.

Não sei se essa versatilidade dará conta do volume de Holloway. Porém, tendo em vista a última luta do campeão, com a dificuldade de lidar com a força física de Dustin Poirier, é melhor o havaiano botar as barbas de molho.

Ah, se o UFC quiser voltar a um estádio de futebol, olhe para a Austrália e marque um evento com Robert Whittaker-Israel Adesanya de luta principal e Max Holloway-Alexander Volkanovski de coprincipal. Vai bater o recorde de público sem precisar apelar no preço do ingresso.

Resenha MMA Brasil: UFC 237 – outros destaques

– No continente americano, o UFC tem Yair Rodríguez acima da linha do Equador e Laureano Staropoli abaixo. Não que o argentino chegará ao ponto do mexicano, mas os lutadores guardam semelhanças interessantes no estilo plástico de trocar golpes. Chutes altos, rodados, cotoveladas tiradas da cartola, combinações de socos. O repertório de Staropoli é vasto e ele tem a deliciosa irresponsabilidade dos talentosos. Contra Thiago Pitbull, o portenho não infligiu maiores danos, mas controlou a agressividade do cearense e o manteve distante por boa parte do combate. No terceiro round, Pitbull mostrou que o talento ainda resiste em meio a inúmeras lesões, aplicou uma joelhada sensacional, mas não fez o suficiente para evitar a derrota.

Bethe Correia teve um fim de semana para esquecer. Não bateu o peso por muito e apareceu para lutar com coxas e quadris enormes. O resultado não poderia ser outro senão virar saco de pancada de Irene Aldana. A mexicana acertou umas 450 canhotas no rosto da brasileira. Vendo que não arrumaria nada ali, Bethe tentou levar a luta para o chão, mas a tentativa de queda foi tão ruim que Aldana, mesmo sem ser especialista na luta agarrada, pegou suas costas e encaixou um armlock, que fez Correia batucar.

Ryan Spann aplicou um nocaute espetacular em Rogério Minotouro. O brasileiro ignorou os 14 anos de desvantagem e foi trocar boxe com Spann. Resultado: levou um direto de direita e, na volta do movimento, Ryan se curvou para o lado e saiu com um uppercut demolidor de esquerda. Rogério caiu que nem árvore derrubada.

BJ Penn está quase conseguindo zerar seu cartel. Ele hoje já tem o mesmo número de vitórias e de lutas as quais não venceu (16-14-2). Pior, o havaiano anotou um novo recorde no UFC, o de sete derrotas seguidas. Clay Guida nem precisou de muito mais do que ficar quicando que nem maluco para vencer sem sustos. Foi tão tranquilo que o “Carpinteiro” seguiu quicando enquanto dava entrevista. Ele vive na linha tênue entre ser legal e ser bizarro.

Priscila Pedrita não tem a menor condição de lutar no UFC. A menor. Sei nem se ela venceria no Shooto Brasil. Qualquer menina que vencer uma luta no Contender Series deve superar a banguense. Priscila não sabe se movimentar, cruza as pernas direto, não sabe se anda ou se corre como se fosse do atletismo e tem mecânica de soco horrorosa.