Por Alexandre Matos | 14/04/2019 04:38

Tem vezes que usamos figura de linguagem para dizer que determinada luta salvou um evento. No caso do UFC 236, as duas lutas principais provavelmente farão os fãs esquecerem que aquilo que as antecederam não foi tão animado. Esta é a história que eu conto na Resenha MMA Brasil: UFC 236.

Talvez eu esteja sob adrenalina, mas diria que o UFC 236 teve a melhor luta do ano até agora, seguida pela segunda melhor. Dá até para esquecer que o UFC inventou dois cinturões interinos desnecessários, pois nada mais justo do que premiar os vencedores com um cinturão. O evento ainda teve recorde de knockdowns em um round e mais… sei lá.

Vamos em frente, ao que interessa do UFC 236, que aconteceu neste sábado, em Atlanta, e que bonificou duas melhores lutas e nenhum desempenho. Nada mais justo.

O Diamante está finalmente lapidado

Quando Dustin Poirier enfrentou Max Holloway na primeira vez, eu já esperava que Poirier alcancasse o nível que atingiu no UFC 236. Porém, no caminho, cheguei a ficar desacreditado. Nada como uma providencial mudança de categoria e menos corte de peso.

Enfrentar Holloway é uma tarefa ingrata pelo volume gigantesco que o havaiano coloca, sempre em estado crescente. Grandes lutadores sucumbiram, inclusive o maior peso pena de todos os tempos – duas vezes. O modo com que Poirier venceu desta vez torna o feito maior ainda. Diferentemente da primeira luta, na qual havia um abismo de experiência e Dustin se impôs, agora a parada foi decidida com ferro afiando ferro. Poirier deu a Holloway o que o campeão dos penas oferece a seus rivais.

Ao igualar a intensidade de Max, Dustin adiou bastante a tomada de rédeas do rival. Além de ter aberto vantagem quando isso aconteceu, Holloway nunca esteve tão confortável quanto costuma ficar pela altura dos terceiros rounds da vida. Poirier aplicou uma sonora escovada no primeiro round e só não anotou um knockdown, ou até mesmo deu fim ao combate, porque a capacidade de encaixe do havaiano é coisa de outro planeta.

Holloway chegou a ter curta vantagem no segundo assalto, quando Poirier parecia poupar energia para a batalha vindoura. No entanto, o “Diamante” se recuperou a tempo de virar a parcial e abrir um importante 20-18, o que não acontecia contra Holloway desde a derrota para Conor McGregor, em 2013. No terceiro round, Max conseguiu se impor no volume, mas Poirier o castigava na potência. O rosto do “Abençoado” virou um purê de sangue.

O duelo tomou contornos dramáticos nos rounds de campeonato. Repetiu-se o cenário de volume contra potência e Poirier ainda perdeu algum tempo em tentativas frustradas de levar o combate ao solo (ele acertou apenas uma de quatro tentativas no assalto e nenhuma mais no resto da luta), mas que na verdade estavam funcionando como repositor de gás. Dustin ainda tentou um arranque no fim da parcial, mas não chegou a virar, pelo menos na minha contagem – os juízes discordaram de mim e anotaram a virada, haja vista os placares oficiais.

No quinto, Poirier novamente equilibrou o volume e levou vantagem na potência. Sempre que Holloway tentava uma combinação longa, levava outra de resposta. Sempre no boxe, ponto forte do jogo de Holloway, já que os chutes foram raros, ou nas providenciais travadas no clinch na grade. Uma vitória com coragem, força, senso tático e condicionamento físico.

O peso leve é tão maravilhoso que faz uma luta fantástica como essa e ainda se dá ao luxo de ter Khabib Nurmagomedov, Tony Ferguson, Justin Gaethje e Conor McGregor por aí. Aliás, com a provável revanche entre Nurmagomedov e McGregor, talvez tenhamos que nos contentar com Ferguson contra Poirier. Já rola até uma emoção.

O UFC tem dois campeões nascidos na Nigéria e apenas um no Brasil

Quem poderia imaginar um dia que a pátria do MMA, a segunda maior força do esporte, fosse superada por uma nação africana com pouca tradição de luta fora o boxe? Pois hoje o Brasil tem apenas um campeão nascido em seu território (Amanda Nunes), enquanto a Nigéria tem dois. Depois de Kamaru Usman sentar no trono dos meios-médios, hoje foi a vez do peso médio Israel Adesanya ter a peça de ouro e couro colocada em sua cintura, ainda que de modo interino.

O confronto com Kelvin Gastelum foi ainda mais espetacular que a luta principal. O treinador Rafael Cordeiro foi lembrado duas vezes, uma para o bem de seu pupilo, mas outra, nem tanto. O trabalho do brasileiro no muay thai de Gastelum foi tão bem feito que muitas vezes o filho de mexicanos esquece que é um wrestler de origem. Trocando contra o mais espetacular striker da divisão, Kelvin venceu o primeiro assalto na seara do oponente, coisa que ninguém conseguiu até hoje. O americano foi agressivo, porém sem entrar como uma vaca para não tomar dibre até a semana que vem. Com isso, acertou diversos golpes e chegou a anotar um flashdown, quando Israel bateu com a mão no chão e girou igual pião para longe dos botadões de Kelvin.

Sair com 10-9 era fundamental para Gastelum. Pensando numa luta longa, decidida pelas papeletas, imaginei que Gastelum tentaria desgastar Adesanya para levá-lo ao solo nos dois assaltos finais. Aqui entra a segunda menção a Rafael Cordeiro. Não é muito comum ver lutadores dele variando o jogo durante um combate. Normalmente eles estabelecem um plano e seguem até o fim, dando certo ou não.

Gastelum perdeu várias oportunidades de tentar derrubar quando conseguia a tarefa hercúlea de quebrar a vantagem de distância de Adesanya. Depois do susto no primeiro assalto, o atleta naturalizado neozelandês tomou o controle das trocas de golpes, mandou Kelvin a knockdown e acertou um bela cotovelada rodada. Àquela altura, o combate parecia nas mãos de Adesanya e nada poderia mudar os rumos. Mas Gastelum não estava ali a passeio.

No quarto assalto, um chute alto violento de Gastelum tirou Adesanya do ar. O nigeriano bambeou, catou ficha pro lado. Agora, sim, era hora de virar o Demônio da Tasmânia e ruma la disgraça pra cima de Adesanya. E o que Gastelum fez? Tentou derrubar na grade, facilitando a tarefa do rival não só se defender, como fazer o cérebro parar de girar. O mexicaninho, que começou a carreira chamado de Mini Velasquez, tentou derrubar na única hora que não devia. Ganhou o round, empatou a luta, mas perdeu uma chance de ouro.

No quinto, foi a vez de Adesanya agir com pouca inteligência, para delírio dos fãs, que testemunharam momentos sensacionais. Em vez de controlar a distância, Israel resolveu trocar pau na curta. Mais técnico e menos desgastado, ele até levou vantagem, chegando a aplicar três knockdowns. Porém, tomou umas pancadas desnecessárias e poderia ter deitado numa delas. No minuto final, o árbitro Marc Goddard deveria até ter interrompido antes mesmo do terceiro knockdown, mas foi traído pela raça sobre-humana de Gastelum.

Já são dois lutadores nascidos na Nigéria ostentando cinturões do UFC (Foto: UFC.com/Getty Images)

Já são dois lutadores nascidos na Nigéria ostentando cinturões do UFC (Foto: UFC.com/Getty Images)

O MMA vai se internacionalizando cada vez mais e o peso médio do UFC terá um papel preponderante. A categoria tem um neozelandês radicado na Austrália como campeão (Robert Whittaker) e um nigeriano radicado na Nova Zelândia como interino (Adesanya). Se o UFC quiser fazer outro evento em estádio na Oceania, sem precisar vender ingresso a preço de banana, provavelmente esta unificação é a pedida certa.

Khalil Rountree estabelece recorde brutal

Com os quatro knockdowns aplicados em Eryk Anders apenas no segundo assalto, Khalil Rountree superou Anderson Silva (contra Forrest Griffin), Lyoto Machida (contra Rashad Evans) e Luiz Banha (contra Jason Lambert) na quantidade de knockdowns numa luta do peso meio-pesado. Ele igualou Josh Emmett (contra Felipe Sertanejo) em número de knockdowns aplicados num único assalto na história do UFC.

Apesar do feito, a luta não foi das melhores. Rountree usou chutes violentos e socos bem encaixados para dominar o combate. Porém, não foi preciso usá-los em grande quantidade, já que Anders, com a coxa lambada desde o começo, não conseguia sustentação para tentar uma queda ou golpes mais potentes.

Anders foi caba-macho ao atingir o solo sempre de olhos abertos, mirando Rountree. Isso fez com que o árbitro Jason Herzog desistisse de chamar o nocaute técnico. Antes tivesse chamado. Khalil não foi competente para dar fim ao combate e Eryk aguentou castigo como poucos.

Nikita Krylov consegue vingança contra Ovince St. Preux

O primeiro assalto chegou a dar a impressão que Nikita Krylov cairia no conto do vigário novamente. Ovince St. Preux tinha o firme propósito de testar o deficiente grappling defensivo do ucraniano. Tentativas sucessivas de queda, com direito a montada e uma ameaça de outro estrangulamento von flue, o mesmo que deu fim ao primeiro encontro entre ambos, garantiu o assalto inicial para o filho de haitianos. Porém, levou embora seu reservatório de gás também.

Mais inteiro, Krylov melhorou no segundo assalto e, veja você, reverteu uma queda de OSP, caindo montado e de lá saindo para as costas. Foi então que, veja você, Krylov finalizou St. Pru com um mata-leão numa luta que ninguém se importava.

Resenha MMA Brasil: UFC 236 – outros destaques

Alexandre Pantoja conseguiu uma vitória dominante sobre o ex-desafiante Wilson Reis. Depois de voltar rapidamente em pé após ser derrubado, o lutador de Arraial do Cabo mandou um míssil na cabeça do oponente, mandando-o ao solo. O ground and pound deu fim ao duelo. Pantoja agora fica bem colocado no top 5 do peso mosca, caso a categoria realmente tenha sequência.

– Quase dois anos depois de conseguir um contrato via Contender Series, Boston Salmon era o favorito contra o limitado teuto-libanês Khalid Taha. Na especialidade de Salmon, que foi um dos melhores pugilistas dos Estados Unidos, Taha largou um gancho de esquerda que fez o rival cair de cara no chão em menos de meio minuto.

Belal Muhammad conseguiu mudar os rumos do combate com Curtis Millender. Depois de perder o primeiro assalto na troca de golpes, Muhammad chamou as quedas e o ground and pound para reverter a situação e dominar os dois rounds seguintes.

Poliana Botelho mostrou que o corte de peso estava atrapalhando. Agora como peso mosca, a brasileira exibiu bom muay thai com combinações potentes e thai clinch para superar Lauren Mueller na decisão dos juízes.