Por Alexandre Matos | 03/03/2019 06:42

As duas disputas de cinturão do UFC 235 foram lutas totalmente unilaterais, mas foram antecedidas por alguns momentos que já ficam marcados em 2019. O evento, que foi disputado na T-Mobile Arena, em Las Vegas, traz diversas histórias interessantes para o desenrolar dos acontecimentos na maior organização do MMA mundial.

Se o rei dos meios-pesados está cada vez mais fincado no trono, o cinturão dos meios-médios mudou de mãos adicionando mais um continente à lista de campeões do UFC. Nas categorias mais leves, a transição de prospecto para realidade no peso pena e mais um brasileiro embolando o topo do peso galo. Na divisão do rei, o trem do hype pegou mais embalo. Na do novo campeão, chega uma nova ameaça debaixo de polêmica.

Já viram que tem assunto pra dedéu nesse UFC 235, né? Tem mais ainda. Vamos aos meus pensamentos e depois sigamos no debate na caixa de comentários.

Já deu de meio-pesado para Jon Jones

Daniel Cormier parece que não vai cortar os muffins e se aposentará em breve. Alexander Gustafsson perdeu a aura. Anthony Johnson meteu o pé e encheu o bucho de porcaria. Na boa, não tem mais o que Jon Jones fazer no peso meio-pesado. A vitória sobre Anthony Smith, primeira defesa do novo reinado, beirou o insuportável.

Quando você é muito superior a seu oponente, o melhor modo de mostrar respeito a ele é dando tudo de si. Jones precisa aprender isso. Dono de um talento fora de série, ele se limita de acordo com o grau de dificuldade que a oposição lhe impõe. E como Smith não tinha nada a oferecer senão uma mão vadia, Jones o venceu com uma atuação burocrática, sem forçar mesmo quando teve a vitória na mão. E quase arrumou outra desclassificação.

O campeão dominou inteiramente a distância e acertou pernas e tronco de Smith com diversos chutes. De vez em quando, fintava um soco para entrar com cotovelada rodada. Deu uma ou outra pressão no clinch. Fez Smith olhar para baixo enquanto estavam em distância de kickboxing. A fisionomia de Smith primeiro era de desilusão, passou para medo e vontade de ir embora dali.

No quarto assalto, com o desafiante totalmente dominado, Jones botou a luta para baixo. Não acelerou no ground and pound. Passou para as costas com facilidade, mas nem tentou encaixar uma finalização. Para piorar, acertou uma joelhada na cabeça do oponente em quatro apoios e perdeu dois pontos. Sorte que o round se encaminhava para um 10-8, então acabou empatado em 8-8. Podia ter rendido uma desclassificação.

Talvez o próximo da fila seja Thiago Marreta. O fim do simpático carioca será parecido com o de Smith. Dominick Reyes ainda está mais longe e precisa amadurecer. Johnny Walker, mais ainda. Melhor coisa que Jones faz com seu próprio legado é subir de categoria em vez de ficar fazendo essas lutas burocráticas contra gente que não lhe trará problemas.

Kamaru Usman: o primeiro campeão africano do UFC <3

A galeria de campeões do UFC já tinha americano, europeu e oceânico. Agora tem um africano. O nigeriano Kamaru Usman teve uma exibição praticamente perfeita e tirou não só todas as possibilidades de Tyron Woodley como também arrancou-lhe o cinturão na marra. Ele justificou o apelido de “Pesadelo Nigeriano” e fez parecer que era fácil.

Woodley não conseguiu vantagem em nenhum momento dos 25 minutos do combate. Ele mal foi capaz de ser competitivo durante a luta. Usman se mostrou fisicamente, taticamente e mentalmente preparado para sair dali com o cinturão em sua posse. Desde o começo, o vencedor do TUF 21 sabia o que tinha que fazer: meter pressão para que Woodley não ficasse à vontade, no estilo que Rory MacDonald aplicou quando igualmente envergonhou o agora ex-campeão. Porém, diferentemente do canadense, o nigeriano usou o wrestling, a maior arma de Woodley, para aplicar seu vareio.

Usman dominou no clinch, nas quedas, no controle posicional. Montou, bateu no ground and pound. Acertou uppercut, cotovelada, joelhada. As costelas do lado esquerdo de T-Wood foram para o vinagre em thai clinches selvagens. O ritmo e o desnível foram tão intensos que Kamaru agora detém o recorde de diferença de golpes numa luta por cinturão: ele aplicou 336 contra 60 de Woodley, garantindo um diferencial de 276 golpes.

Embora tenha durado toda a extensão dos cinco assaltos, a parada estava definida lá pela metade do caminho. Usman arrancou a confiança do americano, que só conseguia escapar de baixo do desafiante quando a buzina decretava o fim do round ou quando o árbitro Marc Goddard mandou que ambos voltassem ao centro. Mas foi apenas para Usman grudar de novo e recomeçar a pressão. No quarto assalto, chegou a dar a impressão que Kamaru repetiria o nocaute que Nate Marquardt aplicou em Woodley na disputa final do cinturão do Strikeforce, mas o americano sobreviveu desta vez à bateria do africano.

Na minha contagem, Usman venceu o segundo e o quarto assaltos por 10-8. Porém, os juízes oficiais Dave Hagen e Michael Bell só viram o quarto com dois pontos de vantagem. Pior fez Derek Cleary, que anotou cinco 10-9. Ridículo.

Informações dão conta que o UFC vai escalar Colby Covington, que estava em Las Vegas enchendo o saco de todos, como o primeiro desafiante de Usman. Depois de hoje, melhor o mala rever seu jogo para não ser jantado como Woodley foi. Kamaru se tornou o quarto a vencer as dez primeiras lutas no UFC. Antes dele, apenas Royce Gracie, Anderson Silva e Khabib Nurmagomedov.

Ben Askren sofre, mas sai com vitória polêmica na estreia

A gente sempre fala que UFC é outro nível. Neste sábado, Ben Askren sentiu na pele. Ele quase ressuscitou o demônio em Robbie Lawler, mas sobreviveu (?) ao espancamento e ressurgiu das cinzas para finalizar (?) o ex-campeão.

Para surpresa de ninguém, Askren iniciou para dar o bote na queda. Porém, Lawler não é mais aquele trouxa que era derrubado por qualquer um. Ele não só vendeu caro a queda como ainda conseguiu reverter uma tentativa e cravar Askren no chão. A ocasião despertou a fúria na encarnação do Belzebu e Lawler desceu o sarrafo no ground and pound.

Aqui entra a primeira polêmica da luta. Askren pareceu estar se defendendo, tentando tirar os espaços para Lawler parar de golpear. Neste meio, é possível que ele tenha apagado e voltado na pancada seguinte. Eu fiquei com a impressão que Herb Dean iria interromper a luta. O árbitro não o fez e o ex-campeão do ONE e Bellator ressurgiu dos mortos.

Mostrando incrível coragem, Askren escapou da surra e conseguiu voltar para a luta agarrada. Sem precisar derrubar, ele pegou as costas de Lawler, mas não tão bem posicionado. Porém, como se trata de um grappler de elite, Ben dali mesmo tirou uma gravata de porteiro e apertou o pescoço de Robbie. Veio então a segunda polêmica do combate.

Lawler estava de lado, apoiado em cima do braço esquerdo, com o direito em cima da cabeça de Askren. Conforme o estrangulamento foi apertando, o braço direito de Lawler escorreu da cabeça do rival e desabou mole no chão. Herb Dean se aproximou, pegou na mão do ex-campeão e chegou à conclusão que ele estava apagado. Tive a mesma impressão. No momento seguinte, Robbie reagiu e balançou o braço. No mesmo instante, Dean decretou a submissão. Lawler se levantou como se não tivesse apagado e começou a reclamar ostensivamente.

Do jeito que Lawler se levantou, parece mesmo que ele estava vivo na luta. Quando ele mexeu o braço, também. No entanto, não dá para crucificar o árbitro por ter achado que ele apagou antes. Eu também achei. Valeria até uma revanche imediata para tirar as dúvidas, até mesmo porque as duas polêmicas ficaram contra Lawler. Porém, eu nem acho que isso vai acontecer.

Neste caso, Mick Maynard poderia escalar Askren contra um striker de volume e defesa de quedas sólida, que vem a ser… bem, não há. Rafael dos Anjos e Santiago Ponzinibbio atendem ao primeiro critério, mas não ao segundo. Stephen Thompson não atende a nenhum dos dois. Woodley e Askren são amigos de longa data e não vão se enfrentar. Darren Till, caso vença Jorge Masvidal, pode acertar um petardo na aproximação de Askren? Até pode. É, acho que vamos acabar vendo Askren disputar o cinturão do UFC, como ele sempre afirmou ser capaz.

A China tem uma candidata a estrela

A presença do UFC na China fez um bem enorme ao cenário local. Antes, só aparecia lutador horroroso no país mais populoso do mundo. Agora, há candidatos a top 5. Uma delas é Weili Zhang, que passou sem problemas por Tecia Torres, sétima colocada do ranking do peso palha.

Como de costume, a chinesa aplicou forte pressão e foi a agressora por praticamente todo o combate. Ela esteve bem nos contragolpes, acertou alguns chutes providenciais nas pernas e tronco da americana, movimentando-se constantemente para evitar a aproximação de Torres. Quando a americana cruzava a fronteira do raio de ação, recebia de volta pancadas potentes.

Zhang também mostrou valor na luta agarrada. No primeiro assalto, Zhang pegou as costas com maestria ao fintar uma queda. No segundo, conseguiu derrubar e se livrar dos botes de Tecia. No terceiro, a chinesa trabalhou um intenso ground and pound de cotoveladas para garantir a maior vitória de sua carreira. Ela agora tem 19 triunfos consecutivos, três no UFC. Zhang só foi derrotada na primeira luta profissional.

Pedro Munhoz se coloca no bolo do peso galo

Durante a semana que antecedeu o UFC 235, eu conversava com João Gabriel Gelli, que afirmava que Cody Garbrandt era burro o suficiente para cometer o erro de trocar pau fixe na curta distância com Pedro Munhoz e acabar nocauteado frente ao queixo duro e oportunismo do brasileiro. Retruquei que o erro cometido contra TJ Dillashaw era pouco para afirmar que o “No Love” repetiria a estratégia pouco inteligente. Não era.

Um choque de cabeças mudou o rumo das ações. Diz Garbrandt que ele entrou em modo automático depois disso. Pode ser. Na prática, ele avançou para nocautear o brasileiro, que devolveu fogo na mesma moeda. Os dois descambaram para uma pancadaria selvagem e Garbrandt parecia que chegaria ao nocaute. Porém, ele não foi capaz de sair do tiroteio para agir com mais calma. Resultado: levou um matacobra no queixo e foi a knockdown. Pedrinho não perdeu tempo e encerrou a contenda no ground and pound faltando nove segundos para a buzina encerrar o primeiro round.

Esta foi a terceira vitória seguida de Munhoz, a mais importante de sua carreira. Como venceu um top 3, o resultado coloca o brasileiro no bolo dos compatriotas Marlon Moraes e Raphael Assunção, além de Aljamain Sterling e Dominick Cruz, na caça a Dillashaw. Já Garbrandt amarga o terceiro revés consecutivo por nocaute e liga um sinal de alerta sobre seus planos táticos. E a pergunta parece que tem uma resposta: será que a atuação magistral de Cody contra Cruz foi um ponto fora da curva? Agora acho possível dizer que foi.

Zabit Magomedsharipov ruma ao top 5 sem dificuldade

No combate que fechou o card preliminar do UFC 235, Zabit Magomedsharipov avançou mais um passo rumo à elite do peso pena ao dar conta de Jeremy Stephens sem tomar muitos sustos.

O russo aplicou intensa movimentação lateral para forçar o americano a errar golpes em demasia. Além de se cansar, Stephens foi ficando irritado, alimentando o apelido de “Esquentadinho”. Zabit pontuava com contragolpes bem executados e alguns chutes fortes na perna de Jeremy.

No segundo assalto, a vantagem do russo cresceu quando ele adicionou o wrestling na mesa, botou Stephens para baixo e pegou as costas na tentativa de encaixar um mata-leão. Não conseguiu, mas ampliou a vantagem com um intenso ground and pound. Parecia que a luta estava no papo.

O último assalto mostrou mais uma vez uma queda de rendimento de Magomedsharipov. Stephens aproveitou para tentar equilibrar as ações, pressionando o russo com combinações, fazendo o rival se movimentar defensivamente. Embora a situação não tenha parecido sair do controle de Zabit, ficou novamente a impressão que ele reduz o ritmo no terceiro assalto, o que pode se tornar um problema quando ele começar a disputar os duelos de 25 minutos.

O trem do hype de Johnny Walker não para de acelerar

Três lutas no UFC, três nocautes e menos de três minutos somados de ação no octógono. Johnny Walker fez mais uma vítima e garantiu o protagonismo em mais alguns highlights da organização ao mandar Misha Cirkunov para a vala.

Com a confiança na estratosfera, Walker se movimentou em direção ao letão-canadense em busca de uma brecha. Ele aproveitou logo a primeira. Quando Cirkunov jogou um jab preguiçoso para fintar uma entrada de double leg, o brasileiro voou numa joelhada que encontrou o queixo do rival, que desabou em colapso aos 36 segundos de combate.

Resenha MMA Brasil: UFC 235 – Outros destaques

Diego Sanchez pode ter um final de carreira digno com os adversários corretos. Mickey Gall era um deles. Dez anos mais jovem, Gall poderia ter usado a vitalidade contra a putrefação de Sanchez para nocauteá-lo. No entanto, ele não é tão bom assim. Seu ponto forte é a luta agarrada, na qual Diego é superior mesmo nas atuais condições. Quando conseguiu levar a luta para o solo, o vencedor do TUF 1 passou o carro e conseguiu o nocaute técnico no segundo round.

Edmen Shahbazyan treina com Travis Browne. Provavelmente deve ter aprendido a aplicar cotoveladas na lateral da cabeça de um adversário entrando em queda. Charles Byrd caiu na armadilha e foi nocauteado em 38 segundos.

– Outro nocaute brutal foi aplicado por Macy Chiasson. A vencedora do TUF 28 no peso pena baixou para 61 quilos e tratorizou Gina Mazany em menos de dois minutos.