Por Alexandre Matos | 10/02/2019 05:08

Dessa vez nem o ar australiano deu jeito. O UFC montou um card fraco para um evento em pay-per-view e ainda teve o azar de perder a luta principal com a lesão de última hora de Robert Whittaker. Ainda assim, o UFC 234 terminou com demonstrações de técnica, momentos de tensão e muita movimentação numa luta sem perdedores.

Fora o duelo principal cheio de ensinamentos, pouco se tirou de proveitoso da noite na Rod Laver Arena. Vimos um showman resolver ser estratégico para voltar a vencer, mais uma atuação desastrosa de um jiu-jiteiro contra um wrestler e mais… bem, teve um Coreia x Japão animado lá no começo.

Fica comigo pra debatermos o UFC 234?

Israel Adesanya segue em frente na luta que ninguém perdeu

As odds apontavam para uma vitória drástica de Israel Adesanya. A diferença de idade e de ritmo de luta também. Anderson Silva não tem mais a velocidade ou os reflexos de outrora, os pilares de sua carreira, mas ele ainda é Anderson Silva. Nem que seja na base da intimidação, para fazer o adversário lutar na manha para evitar aquele golpe sem vergonha.

Israel Adesanya tentou mostrar que não se intimidaria com Anderson Silva (Foto: UFC.com via Getty Images)

Israel Adesanya tentou mostrar que não se intimidaria com Anderson Silva (Foto: UFC.com via Getty Images)

O encontro entre o striker de elite de hoje contra o de ontem tornou o duelo um jogo de xadrez dos socos e chutes. A tensão pairou na Rod Laver Arena, que continuou cheia mesmo depois de todos os percalços. Ainda que não tivesse velocidade nem reflexos, ou que a potência não incomodaria, Anderson conseguiu tornar Adesanya mais contido e, assim, minimizar os riscos.

Pelos 15 minutos, ficou a impressão que Israel poderia nocautear se acelerasse as ações, se entrasse com combinações, se utilizasse o fluxo de golpes que costuma imprimir. Porém, quando ele deveria se preparar para isso, ali pelo segundo assalto, Silva conseguiu equilibrar as ações e até ser superior quando trouxe o combate para o infighting. Na curta distância, sem espaço para Adesanya ser veloz, o macaco-velho brasileiro acertou um bom thai clinch que fez muita gente lhe conceder o round devido à baixa produtividade do neozelandês.

Visivelmente mais pesado, Anderson também acertou em economizar os movimentos em busca de momentos de decisão. E ele é especialista em encontrá-los. Porém, nesta altura do campeonato fica difícil, ainda mais contra um sujeito 15 anos mais jovem, no auge físico e técnico. Cada vez que Silva partiu como um touro enfurecido, Adesanya lhe driblava com facilidade, escapando lateralmente – é impressionante como Israel sabe para onde dar o próximo passo, como se lutasse na sala de casa, sem bater nos móveis. Uma dessas escapadas chegou a constranger, quando Anderson voou numa joelhada na grade, com o “Stylebender” já longe naquele momento, antecipando o movimento como se estivesse vendo em câmera lenta. Faltou ao jovem contragolpear o veterano nestes momentos, o que seria fundamental para quebrar a confiança do rival e abrir caminho para o nocaute.

Adesanya soube mesclar os socos com os chutes baixos, controlando a distância. Ele também foi capaz de esperar os momentos para golpear enquanto Anderson balançava os braços visando confundi-lo. Ainda conseguiu conectar alguns socos fortes quando Silva resolveu lembrar o auge e baixar a guarda. Este inclusive foi um dos momentos que faltou o “algo mais” para Adesanya. Talvez receoso em levar um contragolpe vadio, o peso médio nascido na Nigéria não se arriscou.

Nós já sabíamos que o “Spider” não tem mais condições de ser competitivo contra a elite dos dias de hoje. O UFC 234 deixou isso claro. Mas o evento também mostrou que, se Anderson resolver lutar contra a velharia que faz vergonha no Bellator, passaria o carro em todos, de Chael Sonnen a Fedor Emelianenko, de Wanderlei Silva a Frank Mir. E é bom reforçar: a maioria é mais jovem que o brasileiro.

Do outro lado, Adesanya volta para casa pensando na vida. Se realmente receber o posto de desafiante número um após Whittaker-Gastelum, não pode sequer sonhar em lutar travado assim, sob pena de ser abalroado pelo campeão. Porém, Bobby Knuckles nem Kelvin têm a aura ameaçadora de Anderson, então provavelmente nunca mais Israel lutará travado desse jeito. De qualquer maneira, vale uma luta a mais, dentro do top 5, para voltar a se soltar.

Achou que teria Lando Vannata showman? Achou errado, otário

Eu acho que Lando Vannata não corria risco de demissão, visto que, ganhando ou perdendo, ele sempre é garantia de grandes momentos. Neste sábado modorrento, estávamos precisando de uma de suas atuações desmioladas e empolgantes. Porém, ele resolveu ser cerebral.

Em 2015, acompanhei de perto o começo da carreira de Marcos Dhalsim, quando ele venceu o ás do jiu-jítsu Ary Farias, em São Paulo. Desde então, Dhalsim pouco evoluiu sua caixa de ferramentas, apenas se tornou um striker um pouco mais preciso, mas igualmente limitado em outras vertentes. Ainda assim, chegou no UFC. Nada como ser amigo do chefe. Marcos é o Artem Lobov de Anderson Silva.

Vannata lembrou que é um wrestler de origem e logo tratou de colocar o brasileiro, que defende quedas muito mal, para o solo. No chão, trabalhou um bonito ground and pound e dobrou as articulações do braço do brasileiro numa kimura para encerrar a disputa no finalzinho do primeiro assalto. Bom resultado para recuperar a confiança do “Groovy”.

Resenha MMA Brasil: UFC 234 – Outros destaques

– Apesar de Ricky Simón ter uma defesa tão esburacada quanto uma peneira, Rani Yahya não soube aproveitar, marcando mais um capítulo da triste saga de jiu-jiteiros contra wrestlers no MMA de grade – e olha que Simón não foi 10% como wrestler que Yahya foi na arte suave. Ricky cansou de atacar todo aberto, implorando por um double leg que o brasiliense não conseguiu acertar. Rani se limitou a tentativas de longe, facilitando o trabalho do americano se manter de pé.

Sam Alvey esteve pela primeira vez na vida num evento em pay-per-view, ainda num card principal. E mostrou porque nunca mereceu este posto. Sem condições de montar ofensivas minimamente decentes, ele fez Jim Crute parecer melhor do que realmente é. Pelo menos “O Bruto” conseguiu a terceira interrupção em três lutas no UFC. E Alvey reclamou de barriga cheia, pois já tinha abraçado o capeta duas vezes quando o árbitro Marc Goddard interrompeu o duelo.

Kyung Ho Kang e Teruto Ishihara reviveram os tempos da ocupação japonesa na Coreia com uma guerra animada e totalmente desprovida de senso defensivo. O pau cantou fixe, aquela pancadaria honesta e sadia, em que os dois depois se abraçam e vai cada um pro seu canto. Poderiam ter levado o bônus de luta da noite, mas ficou melhor nas mãos de Adesanya e Anderson.

– Você ainda está por aí? Tem mais nada aqui não. Pode ir ali pra caixinha de comentários, que vai render mais.

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