Por Alexandre Matos | 30/12/2018 07:15

Para quem gosta de curtir a passagem de ano, espero que tenha sobrado alguma coisa de vocês aí depois desse UFC 232. Adrenalina e emoção em doses cavalares para testemunhar os dois maiores de todos os tempos em feitos memoráveis no não menos memorável Fórum de Inglewood, nos arredores de Los Angeles.

O maior de todos superou a ferrugem e o jogo contra mais encardido. A maior de todas aniquilou mais uma estrela. Alguns rankings foram chacoalhados e o sensacional rito de passagem de bastão segue a pleno no peso pena. Velhas lendas entristecendo seus fãs mais uma vez. Sangue novo pedindo passagem. Belas submissões e nocautes grandiosos. Que evento!

Deixemos de lero lero e vamos debater o UFC 232. Eu começo com meus pensamentos aí embaixo e nós seguimos na caixinha de comentários.

Melhor de todos, por favor, pare de fazer merda

Eu tenho andado até com certo receio de noticiar uma vitória de Jon Jones. Afinal, vai que o cidadão inventa outro doping. Torçamos para que desta vez, não. Depois de um ano e meio parado, ele superou seu oponente mais cascudo mais uma vez e é o campeão dos meios-pesados mais uma vez.

De um jeito ou de outro, Jon Jones faz as lutas andarem como ele quer

De um jeito ou de outro, Jon Jones faz as lutas andarem como ele quer

Como esperado, Alexander Gustafsson deu bastante trabalho usando a estratégia ideal. O sueco usou o boxe para deixar Jones desconfortável na distância e, enquanto o americano insistiu no erro de tentar a queda se jogando nas pernas do europeu, impediu que a luta fosse para o chão.

Sob este cenário, tivemos dez minutos de muito equilíbrio. Você pode apontar 19-19 ou 20-18 que não criaremos inimizade. Jones precisava de alguma maneira encurtar a distância para levar a luta ao solo com mais propriedade. Em pé, estava claro que poderia ficar ruim para ele.

Você pode ter raiva do Jones, pode achá-lo um traste. Não vou te criticar e de repente até digo que tu tens razão. Mas você tem que reconhecer que o sujeito é um gênio. Aqueles pisões safados no joelho estavam virando um convite para “Bones” engolir jab até amanhã. Gustafsson não iria parar à sua frente até o 25º minuto. Vamos de chutes baixos? Vamos. Foi assim que Jonny mudou o rumo da luta.

O sueco foi sentindo os golpes e diminuiu a movimentação. Então foi hora de entrar no clinch e levar a luta para o solo, finalmente caindo por cima em posição de controle. Jones foi ganhando terreno, passou a guarda e tentou abrir espaço para largar as navalhas que ele tem nos cotovelos. Não conseguiu, mas fez Gustafsson dar as costas e dali o couro comeu na cabeça amarela do sueco. Como o árbitro Mike Beltran não é adepto da carnificina, logo interrompeu o combate quando viu que Alex só fazia cobrir o rosto e não esboçava mais reação.

Ainda vou ficar uns dias cabreiro torcendo pra notícia ruim não aparecer desta vez. Jon Jones é a concepção mais próxima de invencível que o MMA já produziu. É uma mistura infernal de talento, composição física, preparo, QI de luta e confiança. Só suas próprias cagadas parecem detê-lo. E que venha Daniel Cormier, de preferência na divisão de cima, porque nenhum meio-pesado mais vai dar graça.

Alexander Gustafsson, é sempre um prazer.

Amanda Nunes: a primeira champ champ da história não poderia ser outra

Um pacote de pipoca leva uns cinco minutos pra estourar no micro-ondas. Esse foi o tempo que Amanda Nunes levou para abater as três lutadoras mais famosas. Miesha Tate foi executada em 3:16. Ronda Rousey foi implodida em 48 segundos. Cris Cyborg resistiu apenas três segundos a mais, abatida em 51 segundos na luta coprincipal do UFC 232.

Amanda Nunes imprimiu pressão que deixou Cris Cyborg indefesa

Amanda Nunes imprimiu pressão que deixou Cris Cyborg indefesa

A verdade é que a agora ex-campeã nem fez frente. Não sei se ela menosprezou a rainha da divisão de baixo, achando que era mais uma lata que Cris enfrentou durante praticamente toda a sua carreira. Amanda não é nada disso. A baiana encaixou bem a primeira pancada de Cyborg. Em seguida, um chute baixo violento abriu caminho para o massacre. Possuída, a “Leoa” largou a chinela para cima da curitibana. O último overhand de direita explodiu de um modo tão brutal que Cyborg desabou sem sequer ter ideia de onde veio aquela avalanche.

Pela primeira vez, uma mulher conquista dois cinturões no UFC. E de modo simultâneo. Nocauteando várias estrelas no caminho. Amanda Nunes é a maior de todos os tempos. GOAT!

Para completar, a vitória de Amanda pode desfazer um engodo para o UFC. O peso pena, categoria que não tem ranking, que não tem sequer dez lutadoras, que viu a vencedora do TUF 28, Macy Chiasson, anunciar o retorno ao peso galo, pode acabar. Cumpriu o papel de fazer Cyborg campeã do UFC. E cumpriu o papel de fazer Amanda champ champ. Como esta pode ter sido a última luta do contrato de Cris e a “Leoa” disse que tem mais interesse no peso galo, é bem provável que o UFC não conceda uma revanche e encerre a divisão. Não fará falta alguma para mim.

E o que será de Cyborg? Se o UFC realmente fechar a divisão, talvez seja hora de mudar de ares. O boxe feminino está ganhando popularidade nos Estados Unidos e tem muito mais meninas do tamanho de Cris para ela enfrentar – a norueguesa Cecilia Braekus, a maior de todos os tempos, acabou de defender seus cinturões mundiais há três semanas.

O tempo é implacável até mesmo com os ídolos

Dois dos favoritos dos fãs passaram vergonha no UFC 232. No card principal, Carlos Condit deu mais uma mostra de seu avançado estado de putrefação. Ele não conseguiu usar uma pretensa vantagem física contra o ex-peso leve Michael Chiesa, foi incapaz de defender as tentativas de queda do “Maverick” e não conseguiu dar conta dos botes do rival. O vencedor do TUF 15 fez o que quis no chão e conseguiu uma finalização com 56 segundos da segunda etapa.

Esta foi a quinta derrota seguida do ex-“Assassino Por Natureza”, três delas por submissão. Os últimos resquícios do lutador empolgante de outrora foram sugados por Robbie Lawler, há três anos. Duvido que o UFC demita Condit, mas também duvido que ele seja capaz de vencer alguém minimamente bom nesta categoria insana. Não que eu vá ficar triste em vê-lo enfrentar algum subalterno, mas talvez seja melhor cuidar da saúde e brincar com os filhos.

Quem eu não tenho a menor sombra de dúvida que passou e muito da hora de parar é BJ Penn. É uma tristeza sem fim vê-lo perambular como uma alma penada pelo octógono. Desta vez, o UFC tentou facilitar a vida do “Prodigy”: deu a ele um adversário que dificilmente o machucaria. Ryan Hall é um grappler unidimensional, com um jogo fundamentado praticamente apenas no jiu-jítsu.

“Este dá pro BJ ganhar!”, berraram vários fãs fora de suas faculdades mentais. “BJ foi campeão mundial de jiu-jítsu!”, rosnavam os fãs para justificar a sandice. Pessoal, o BJ foi campeão em 2000. Tem quase 20 anos saporra. Ele ganhou junto com Vitor Shaolin, Fabio Gurgel, Saulo Ribeiro e Fernando Tererê, tudo aposentado ou lutando como master. Sem contar que a arte suave não ajuda o havaiano no MMA faz bem uma década. Hall lutou jiu-jítsu de alto nível há bem menos tempo. Inclusive seria favorito contra BJ hoje em dia numa luta de pano.

Quando o homem de preto autorizou o começo da luta, a tristeza veio a galope. Penn não consegue combinar golpes, não tem mais velocidade nem potência para trabalhar como striker, tampouco pujança física para atuar como grappler. Hall foi sentido a situação e não demorou para perceber que o BJ atual não faz mal a ninguém. Como vergonha pouca é bobagem, Penn foi finalizado com uma chave de calcanhar ridícula. Foi a primeira vez que ele batucou no MMA.

A última vitória de Penn data de 2010, quando ele nocauteou um decrépito Matt Hughes. O último não-moribundo que ele venceu foi Diego Sanchez, em 2009. Como vocês ainda esperam que BJ vença alguém no UFC? Só se lhe derem CM Punk. E olha que teria que trabalhar um pouco pra vencer.

Alexander Volkanovski arranca Chad Mendes a fórceps da elite do peso pena

Uma das histórias mais legais do MMA atual é ver os novos valores derrubando os veteranos no peso pena. Neste sábado foi a vez de Alexander Volkanovski. O australiano engoliu o que Chad Mendes tinha de melhor a oferecer e o nocauteou de modo brutal.

Ainda que fosse azarão, eu vi um caminho bem claro para Volkanovski. Por ser uma versão menos desgastada do próprio Mendes, ele usaria pressão e potência para dar cabo do ex-desafiante. Pois o australiano pressionou o americano a ponto de tirar a vantagem de velocidade que Mendes teria. Quando o americano conseguiu parar de recuar e tentar algumas combinações, acertou pancadas que teriam derrubado 90% da divisão (IPJ™). Alex até deu umas balançadas, mas manteve-se firme. As quedas de Chad pararam na maior pujança física de Volkanovski, que devolveu fogo com fogo, largou algumas bombas na cabeça de Mendes e o mandou para o fundo da vala aos 4:14 do segundo assalto.

Volkanovski mostrou alguns problemas defensivos, mas também deu um recado para a divisão: será preciso um certo nível de condição atlética para vencê-lo que não é qualquer um que terá. Mesmo os caras mais habilidosos com ele terão que lidar com uma pressão muito desagradável. Alexander O Grande tem uma potência de Jeremy Stephens com muito mais volume e capacidade de encaixe. Da velha guarda, eu acho que Volkanovski exterminaria Stephens, Ricardo Lamas ou Cub Swanson e daria conta inclusive de Frankie Edgar.

Resenha MMA Brasil: UFC 232 – Outros destaques

Andrei Arlovski perdeu por 30-27 para Walt Harris. Dê uma mão a BJ Penn e outra a Carlos Condit e vá pela sombra.

Corey Anderson é melhor que Ilir Latifi em todos os ramos do jogo, mas as possibilidades de vitória eram quase todas do sueco. O americano dificilmente derrubaria, como não derrubou, e provavelmente sucumbiria a uma pedrada do garboso europeu se resolvesse trocar mamonas. A saída para Anderson seria Latifi cansar. Como isso aconteceu na metade da luta, Corey conseguiu virar e levar na decisão. Menção honrosa para o queixo de Anderson, que eu achei que não suportaria o que suportou.

Cat Zingano é o ser humano mais azarado da história do UFC. A única pessoa a vencer Amanda Nunes no octógono foi derrotada pela tecnicamente limitada Megan Anderson porque o dedo do pé da australiana pegou no olho da americana num chute alto pessimamente defendido. Pena que essa luta pode não valer de nada, porque foi disputada no peso pena.

– Se quiser comprovar que vai chegar longe, onde seu talento promete levá-lo, Petr Yan tinha que dar cabo de Douglas D’Silva sem se enrolar muito. O russo cumpriu sua parte com louvor e passou o carro no brasileiro com um gambá morto na cabeça. Palmas para o córner de Douglas, que não deixou seu pupilo voltar para o terceiro assalto para ser surrado ainda mais. E vaias para o árbitro, que poderia ter encerrado o combate no segundo round.