Por Alexandre Matos | 09/12/2018 06:08

Talvez um dia eu consiga dormir novamente. Não vai ser nas próximas horas, certeza. Culpa dos maravilhosos Max Holloway e Brian Ortega, que fizeram meus batimentos cardíacos e pressão sanguínea subirem perigosamente neste sábado, depois do UFC 231.

Além da sensacional luta principal, tivemos uma campeã coroada com atuação de gala, interrupções vigorosas, belas pancadarias e algumas viradas na Scotiabank Arena, na fria Toronto, no Canadá.

Max Holloway segue aterrorizando o peso pena

Pense num campeão empolgante, técnico, versátil, confiante, corajoso, de queixo duro, showman. Um sujeito desse deveria ficar milionário vendendo pay-per-view enquanto entretém as massas. Infelizmente o mundo é um lugar feio e hostil. Dificilmente Max Holloway conseguirá vencer a barreira das categorias mais leves na popularidade. Mas ele merece muito.

Neste sábado, Holloway teve talvez a melhor atuação de sua carreira. Contra um Brian Ortega que parecia inquebrável, que se recusava a cair, o campeão dos penas não só quebrou o osso orbital do desafiante, como quebrou sua confiança e sua invencibilidade.

Max Holloway espancou Brian Ortega no UFC 231

Holloway chega a dar medo. Ele imprime um ritmo crescente que até agora tem se mostrado impossível de acompanhar. Seu boxe vai acelerando e os golpes lançados têm mais precisão do que em tempos passados. Dois ou três rounds depois, Max passa a disputar tiro ao alvo no rosto do oponente. O resultado ficou marcado abaixo do olho esquerdo de Ortega, que foi sentar no banquinho após o quarto round sem enxergar nada por aquele lado. O campeão quebrou o recorde de golpes significativos aplicados numa luta, com 290. É um golpe significativo a cada 4.14 segundos. Foram 134 só no quarto assalto (quase um a cada dois segundos, o que caracteriza um 10-8 com traços de 10-7).

Sabe o que isso significa? Holloway é uma máquina industrial de moer carne e osso.

O sistema defensivo do havaiano também está alcançando o estado da arte. Parte dos socos da concorrência param em seus ombros. Os que passam dali e atingem o rosto, parece que apenas cumprem tabela. E Ortega acertou alguns com potência considerável, mas que pouco serviram para desacelerar o campeão, muito menos para machucá-lo ou pará-lo. Holloway tem tanta noção de distância que consegue com o mesmo punho tirar um soco de Ortega e aproveitar o movimento para acertar o rosto do desafiante, que está desprotegido.

Se no striking é preciso tirar um coelho da cartola para lidar com o furacão, melhor botar Max para baixo. Pois aquele cenário de ser derrubado facilmente no começo da carreira faz parte do passado. Ortega até conseguiu atingir o solo, mas Holloway se levantou com tanta facilidade que deve ter colocado ainda mais minhoca na cabeça do oponente. Se não está dando em pé e não vai rolar no chão, o que fazer?

Sobra ter dignidade para levar soco na cara e na linha de cintura até o dia seguinte. Neste ponto, Ortega é um dos mais dignos do MMA mundial. O “T-City” ficou conhecido pelas viradas e pela capacidade de decisão, então ele deixou a luta num nível alto de tensão, pois a qualquer momento ele poderia arrumar uma finalização ou nocaute. Mas, na boa? Isso nem chegou perto de acontecer. Mesmo no terceiro assalto, o mais equilibrado dos quatro, Ortega não chegou a tirar Holloway do prumo. E, na minha contagem, o campeão venceu os quatro rounds até o árbitro Yves Lavigne decidir que deveria proteger Ortega de sua própria coragem.

A vitória deixou Holloway empatado com Georges St. Pierre, Jon Jones e Demetrious Johnson na segunda posição da lista de triunfos consecutivos na história do UFC. Tá mal acompanhado, o menino “Abençoado”? Todos eles têm 13, contra as 16 de Anderson Silva. Holloway completou 27 anos na última terça e está numa fase exuberante. Parece que o “Spider” tem mais um recorde em risco.

No fim da transmissão original, o comentarista Joe Rogan pediu desculpas para José Aldo e disse que Holloway agora é o melhor peso pena de todos os tempos. Ainda estou sob adrenalina do evento, mas o que vocês acham disso? Sem pachequismo, por favor.

É hoje o dia da Valentina (ler no ritmo do samba da União da Ilha de 1982)

Faz algum tempo que eu digo por aqui que, no dia que o UFC inaugurasse o peso mosca feminino, Valentina Shevchenko sentiria o peso do cinturão do UFC em torno de sua cintura. Isso só não aconteceu neste sábado porque Dana White deixou a peça de ouro e couro no ombro da quirguiz-peruana.

Valentina Shevchenko dominou Joanna Jedrzejczyk no UFC 231

Valentina foi soberba diante de Joanna Jedrzejczyk. Parecia que ela tinha mapeado todas as possibilidades da antiga rival do muay thai. Parecia, não. Ela realmente fez isso. A postura de contragolpeadora foi um pesadelo para as investidas em linha reta da polonesa. Joanna avançava, mas mais ciscava do que produzia algo efetivo. Como retorno, sempre recebia uma(s) pancada(s) pesada(s). Tanto os socos em linha reta como os chutes mostravam que, além da vantagem tática, a força física também estava ao lado de Shevchenko.

Joanna havia perdido os três duelos para a rival no muay thai. Ela disse que seria diferente no MMA, mas Valentina estava disposta a mostrar que o espaço era ainda maior. A agora campeã foi quase imparável nas quedas e mostrou bom trabalho no controle posicional, no ground and pound e até na troca de gentilezas no clinch, provando ser uma lutadora com mais ferramentas do que sua adversária.

O cenário atual é cruel para a polonesa. Tanto a campeão do peso mosca (Valentina) quanto a do palha (Rose Namajunas) venceram-na categoricamente. Joanna precisa de duas coisas: torcer para Jessica Andrade desbancar Namajunas e se reinventar na American Top Team (ou trocar de equipe). Este último passa por variar os ataques, ser mais efetiva, mudar as rotas ofensivas, aprender a derrubar e lutar no chão.

Por outro lado, parece que teve início a mais um reinado no UFC. Pode colocar Jessica Eye, Sijara Eubanks e Nicco Montaño para enfrentar Valentina no mesmo dia que é capaz de a “Bullet” vencer as três.

Gunnar Nelson afoga Alex Cowboy no próprio sangue

Eu vi alguém falar (foi mais de uma pessoa, em mais de um local) que o melhor caminho para Alex Cowboy vencer Gunnar Nelson seria com o jiu-jítsu. Eles devem estar embaraçados agora.

Curiosamente, o brasileiro até teve um bom momento no solo, quando conseguiu escapar mais na base do entusiasmo do triângulo de corpo que o islandês tinha aplicado. Por cima, Cowboy disparou alguns petardos que viraram o primeiro round depois que Gunni havia aberto vantagem nas quedas e tentativas de finalização.

Este bom momento acabou rendendo indiretamente a derrota para Alex. Apesar de o combate ser um duelo entre um kickboxer e um medalhista do ADCC, o entrerriense achou de boa buscar a luta agarrada no clinch na grade. Resultado: levou uma queda e foi montado com enorme facilidade. Quando os mais apressados já estavam reclamando que o europeu pouco produzia no chão, Nelson despejou uma cotovelada tão dura que abriu um rombo no rosto de Alex e o afogou em seu próprio sangue. Engasgado, sem enxergar direito e provavelmente respirando com dificuldade, o brasileiro nem viu Gunnar pegar suas costas. Quando percebeu, Cowboy sentiu a pressão do estrangulamento sair pelo corte e batucou rapidamente para não ter que parar na mesa de transfusão.

Thiago Marreta aniquila Jimi Manuwa

Quando apostei em Thiago Marreta contra Jimi Manuwa, o que me motivou foi a idade avançada e um estado de desgaste mais elevado do britânico. Deste modo, achei que o brasileiro, mais novo e mais ágil, pudesse se movimentar com intensidade, evitar a curta distância, desgastar o veterano e vencer na decisão. Mas quem disse que Thiago curte os bagulhos simples?

O ex-paraquedista tirou o capeta para dançar e flertou com a morte. Sem nenhum juízo, Marreta resolveu sair na mão vigorosamente contra um dos sujeitos mais brutos de uma categoria que o carioca só havia lutado uma vez. Ainda bem que Thiago não tem juízo, pois protagonizou uma luta muito divertida e um dos nocautes mais brutais do ano.

Marreta e Manuwa trocaram porrada com tanta vontade que mal dá para analisar o que aconteceu além de alguns problemas defensivos que me deixaram nervoso. Era óbvio que alguém iria para a vala e, em momentos distintos, quase deu ruim pros dois. Mas pior mesmo foi para o “Poster Boy”, que levou dois cachações no queixo e caiu de cara no solo.

Eu já nem mais quero que Marreta volte para o peso médio. O meio-pesado está cheio de camaradas de talento duvidoso no ranking. Ele acabou de nocautear o oitavo da classificação e, em fevereiro, nocauteou Anthony Smith, que hoje é o número três até 93 quilos. E eu não duvido que Marreta consiga vencer Jan Blachowicz, Ilir Latifi ou Volkan Oezdemir, todos na frente de Manuwa no ranking.

Outros destaques do UFC 231

– Antes de Shevchenko exibir uma atuação de gala, Hakeem Dawodu aqueceu a torcida local com uma versão menor de um plano parecido. O canadense usou o kickboxing no contra-ataque, com alta precisão de golpes, para abafar a pressão de Kyle Bochniak, além de ter negado as tentativas de o americano levá-lo ao chão. Ótima vitória para recuperar a moral que a única derrota da carreira causou. Dawodu agora tem dois triunfos seguidos.

– Se desenharmos um gráfico de desempenho de Claudia Gadelha, o resultado pode ser uma montanha-russa na parte física. A brasileira tem tido constantes quedas bruscas de rendimento. Contra Nina Ansaroff, Claudinha parou numa estratégia simples de controle de distância com jabs e chutes baixos. Nem mesmo a diferença de talento a favor de Gadelha compensou a capacidade física e o trabalho constante de Ansaroff.

Gilbert Durinho se reencontrou com as vitórias chamando para sua zona de conforto. O ás do jiu-jítsu executou uma estratégia perfeita de tirar Olivier Aubin-Mercier do balanço com golpes potentes em pé para abrir caminho para quedas e um passeio no chão. Foi um resultado importante para relembrar que Durinho, que vinha de duas vitórias por nocaute e uma derrota pela mesma via, tem um porto seguro dos mais confiáveis.

Eryk Anders tinha a chance de anotar uma importante vitória contra Elias Theodorou, mas a técnica pouco apurada impediu que ele voltasse do Canadá vencedor. Theodorou exibiu o mesmo repertório de muita movimentação e poucos golpes, dando um espaço enorme para uma explosão encerrar a contenda. Anders tentou algumas vezes explodir, mas errou muito nesses momentos e não conseguiu tirar proveito de ter conseguido deixar Elias abalado. Aliás, baita sujeito, o Theodorou, com a capacidade de encaixar golpes e não cair.

Dhiego Lima precisava de uma vitória, que seria a sua segunda oficial no UFC, para não ser demitido. Conseguiu de maneira enfática. Contra o local Chad Laprise, o brasileiro precisou de um minuto e meio para encontrar o queixo do vencedor do TUF Nations com um cruzado poderoso.

Aleksandar Rakic estava na mão do palhaço, mas aguentou a pressão de Devin Clark sabe-se lá como para anotar uma virada impressionante ainda no primeiro assalto do combate que abriu a noite em Toronto. O austríaco pegou Clark com um soco rodado que parecia ter sido mal executado, mas acertou em cheio a têmpora do americano e encerrou a disputa no ground and pound.

Carlos Diego Ferreira também se mostrou abalado no começo contra Kyle Nelson – embora nem perto do que aconteceu com Rakic, mas, assim que se recuperou, passou o carro no estreante com um sólido jogo de quedas e pressão no solo.