Por Alexandre Matos | 04/11/2018 03:53

Quem reclamou (com razão) do evento da semana passada, o UFC 230 compensou. Desde as preliminares, não faltou ação no Madison Square Garden. A Resenha MMA Brasil UFC 230 conta a história do evento que se tornou tradicional no calendário anual da maior organização do esporte.

A capital do mundo viu lutas sensacionais, nocautes brutais, o esperado passeio constrangedor, um momento inédito e talvez a cena de fair play mais bonita de 2018.

Vamos em frente com a Resenha MMA Brasil UFC 230.

Daniel Cormier é o lutador do ano de 2018

Nem dá para xingar quem cometeu o duelo principal do UFC 230 entre Daniel Cormier e Derrick Lewis. Com a elite do peso pesado combalida, coube à “Besta Negra” o posto de desafiante com seus méritos. Porém, qualquer um sabia que o espetáculo seria desigual. É isso que acontece quando você escala um integrante do top 5 dos piores desafiantes da história do peso pesado contra um top 10 dos melhores de todos os tempos de qualquer categoria de peso.

A luta foi o retrato fiel do que eu digo sobre “entrar a mão” ser a única opção de alguém que vai encarar um integrante da elite da elite. Lewis não tinha nada a oferecer senão acertar uma mãozada. Nem defensivamente. Cormier sabia disso. O campeão duplo não encontrou a menor dificuldade de colocar a jamanta em posição de tartaruga com casco invertido. E foi assim que Lewis se comportou, sem a menor noção do que fazer enquanto olhava o teto do Madison Square Garden.

Na verdade, a única dificuldade foi quando os braços de DC não conseguiram envolver a enorme circunferência abdominal de ambos para erguer o desafiante e cravá-lo no chão. Em compensação, single legs saíram à vontade. Cormier chegou a mergulhar no meio das pernas de Lewis tendo a certeza absoluta que não havia risco algum de triângulo, forma que Derrick só ouviu falar nas aulas de geometria plana. Chegou a dar pena de ver o campeão trabalhar cotoveladas no ground and pound e rolou aquela risada constrangida quando Daniel passou a buscar as costas. O 10-8 do primeiro round só não foi 10-7 porque DC foi econômico.

No intervalo, o momento mais “what tha fuck” dos últimos tempos. O técnico de Lewis pede mais mobilidade para seu pupilo no retorno para o segundo round.

Porra, tá de sacanagem. O maluco treina o Derrick há anos e vem pedir mobilidade pra um sujeito que se mexe como um edifício e tem gás de doente respiratório? Lewis deve ter ouvido a orientação e pensado: “Fodeu”.

Depois de acertar um total de zero golpes na primeira parcial, Lewis tentou produzir alguma coisa para pelo menos justificar o salário. Neste momento, Cormier decidiu dar um fim à parada. Queda, pegada de costas, mata-leão. Tudo tão fácil que a batucada foi bem de leve, totalmente constrangida.

Depois de garantir o faz-me-rir mais fácil que provador de colchão, Cormier se surpreendeu ao receber o segundo cinturão das mãos de Dana White – na teoria, Jon Jones e Alexander Gustafsson disputarão o cinturão linear dos meios-pesados no fim do ano. Seja como for, DC se tornou o único ser humano a defender título em duas categorias na história do UFC. E o mais sinistro, fez isso num mesmo ano. Em janeiro, nocauteou Volkan Oezdemir e defendeu o dos meios-pesados. Em julho, nocauteou Stipe Miocic e embolsou o dos pesados. Nesta noite, defendeu este último. Dos múltiplos campeões do passado, Randy Couture não defendeu o dos meios-pesados, BJ Penn não defendeu o dos meios-médios, Georges St. Pierre não defendeu o dos médios e Conor McGregor não defendeu nenhum. Couture deve estar se lamentando por ter enfrentado um Chuck Liddell no auge e não nossa baranga de fé Derrick Lewis.

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O coração de lutador venceu o anfitrião educado

Quando eu recebo visitas na minha casa, gosto de deixá-los o mais à vontade possível. Parece que Chris Weidman também tem essa mania. Neste sábado, Ronaldo Jacaré aproveitou a hospitalidade do novaiorquino, assim como fizeram Yoel Romero e Gegard Mousasi, outros visitantes que nocautearam o “All-American” na Grande Maçã.

Weidman já havia perdido o cinturão numa manobra pessimamente executada. Hoje, perdeu a chance de se aproximar da coroa ao tomar uma decisão estúpida. Por 12 minutos, o duelo se mostrou totalmente às claras para o ex-campeão. Na troca de golpes na longa distância, a envergadura e velocidade davam o controle das ações para o americano, que logo quebrou o nariz do brasileiro, fazendo-o respirar com dificuldade. Na curta, a maior potência de Jacaré poderia causar problemas para Weidman. Na curtíssima, o americano voltava ao controle ao reduzir o impacto dos golpes do rival, ao desgastá-lo no collar-tie e ao impedi-lo de levar a luta ao chão.

Quédizê, a única coisa que Weidman não poderia fazer era trocar pau pereira de perto. E, salvo em algumas situações, ele conseguiu o feito pela maior parte dos 10 minutos iniciais. Mas Weidman às vezes é vida loka. Foi aí que Ronaldo se mostrou um gigante.

No retorno para o terceiro e último assalto, o capixaba tinha duas opções: tirar o último gás sabe-se lá de onde – e contar com uma decisão estúpida de Weidman – ou sucumbir caçando o oponente. Dado o histórico, o segundo cenário era o mais provável. Pois Jacaré conseguiu a intensidade que lhe faltou contra Kelvin Gastelum, enquadrou o americano e testou o queixo do oponente até mandá-lo a knockdown.

Weidman caiu fedendo e só grudou nas pernas de Jacaré por reflexo instintivo – ele já estava na mão do palhaço e não sabia. Neste momento, o árbitro Dan Miragliotta tomou uma decisão péssima e recebeu uma lição de Ronaldo. Ao ver seu adversário com um olho apontado para a Ponte do Brooklyn e o outro para a Califórnia, Jacaré parou. Por ver que Weidman ainda tinha batimentos cardíacos, Miragliotta mandou seguir a luta. Então Jacaré deu um soquinho em Chris, claramente sem a intenção de machucar ainda mais alguém que acabaram de sofrer uma concussão e aplicou um sonoro esporro no homem de preto.

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Israel Adesanya brilha na festa do peso médio

O card principal do UFC 230 foi tomado de combates do peso médio, exceção feita ao duelo estelar da noite. Quem brilhou com mais intensidade até mesmo que Jacaré foi Israel Adesanya. O nigeriano teve um interessante duelo com Derek Brunson e passou com sobras.

O americano percebeu que o caminho passava pelo wrestling e lá foi ele. Porém, Brunson parecia borrado de medo de levar porrada e acabou telegrafando todas as entradas de queda. Ele esqueceu que estava diante de um sniper. De tanto se jogar às quedas sem preparar o terreno, Derek deu oportunidade para Adesanya mapear seus movimentos. Quando ele pegou o tempo, acertou um joelhaço de encontro que tirou Brunson de órbita. Dali para frente, Israel não errou um golpe sequer até o árbitro decretar o nocaute a nove segundos de a buzina soar.

Adesanya venceu facilmente o número seis do ranking, manteve a invencibilidade na carreira, com 13 nocautes em 15 confrontos. Perto dos 30 anos, no auge físico, esbanjando talento técnico e confiança, podem jogá-lo aos leões da divisão. Luke Rockhold, caso decida permanecer na divisão, é a minha preferência. Ou então Paulo Borrachinha, para delírio dos porradeiros.

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Jared Cannonier fez o que faltou a Karl Roberson

Karl Roberson também teve uma atuação sólida, mas faltou visão para conseguir o nocaute sobre o bravo Jack Marshman. O galês ofereceu uma avenida em seu lado direito, mas o americano aproveitou apenas até a página dois.

Esportes de combate em geral têm um quê de hipnose. A ideia é condicionar seu adversário a executar os movimentos que você quer que ele execute no intuito de abrir um caminho. O de Roberson era claro: lança um jab; lança um jab e um direto; lança dois jabs. A reação de Marshman a estes movimentos era sempre a de baixar a mão direita, um convite ao desastre contra um canhoto. Lança mais um jab e chuta baixo com a perna de trás do outro lado. Joga outro jab e – pimba! – mete a canelada esquerda alta, porque a têmpora estará desnuda. Roberson fez metade do serviço e venceu apenas por decisão.

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Estreando no peso médio, Jared Cannonier mostrou boa capacidade de adaptação contra David Branch. O ex-pesado e meio-pesado começou com alguma dificuldade para acompanhar a movimentação e o ritmo do ex-campeão do WSOF. Porém, ainda no final do primeiro assalto, Branch se perdeu e permitiu ao “Gorila Matador” encontrar sua distância. Cannonier voltou sabendo o que tinha que fazer e provocou um curto tiroteio. David chegou de três-oitão e Jared veio de fuzil. Lona.

 

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Resenha MMA Brasil UFC 230: Outros destaques

– Quem perdeu as preliminares do UFC 230 deve correr para assistir ao empate entre Matt Frevola e Lando Vannata. O duelo foi cheio de variações ofensivas, zero noção defensiva, demonstração de queixo duro e muito coração de ambos.

É muito curioso como Vannata tem uma caixa de ferramentas ofensivas extensa, mas mostra imensa dificuldade de ser eficaz com suas armas e tem tanta capacidade defensiva quanto Derrick Lewis mostra de costas para o chão. É triste ver um sujeito tão talentoso virar apenas um animador de palco em vez de escalar o ranking.

– A gente reclamou do que o UFC tinha feito com Sijara Eubanks quando a retirou da disputa do cinturão do peso mosca. Nesta noite, eu perdoei Sean Shelby. Nem imagino os danos que Valentina Shevchenko teria causado à ex-TUF. Num confronto pobre tecnicamente, Eubanks passou pela limitada Roxanne Modafferi.

– Dois brasileiros estiveram nas preliminares de Nova York e ambos saíram vitoriosos. De volta ao peso pesado, Marcos Rogério Pezão mostrou evolução no wrestling para superar o polonês Adam Wieczorek. No peso pena, Sheymon Moraes aplicou dois knockdowns em Julio Arce e conseguiu uma vitória apertada por decisão.

– A disputa entre Shane Burgos e Kurt Holobaugh durou pouco mais de dois minutos, mas levantou o MSG. Burgos mostrou uma deficiência defensiva que lhe custou um knockdown. Porém, foi matador no chão ao catar o braço do oponente.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.