Por Alexandre Matos | 07/10/2018 05:18

Ainda bem que o UFC vai dar uma folga de três semanas, porque não vai faltar pano pra manga em relação ao UFC 229, que aconteceu neste sábado, em Las Vegas. Pela primeira vez na história da organização, um resultado de disputa de cinturão foi anunciado sem que houvesse um lutador no octógono. Khabib Nurmagomedov teria a noite de sua vida após finalizar Conor McGregor, mas causou um furdunço que pode ter consequências indesejáveis. Só a luta principal merecia uma Resenha MMA Brasil UFC 229 inteira.

O ótimo evento não ficou apenas por conta da luta principal. Tivemos um provável round do ano e uma virada do ano (depois de uma luta bizarra), Top 10 do Futuro brilhando, brasileiros se posicionando nas divisões dos moscas e meios-médios. Teve até nocaute que não foi nocaute.

Vamos em frente debater o que aconteceu no UFC 229.

Khabib Nurmagomedov quase teve a noite de sua vida, mas defecou na saída

Vamos focar primeiro no esporte. No âmbito geral, Khabib Nurmagomedov foi implacável como costuma ser. Salvo momentos no terceiro assalto, conduziu o combate sem susto. Do outro lado, um Conor McGregor muito bem preparado defensivamente pouco conseguiu produzir no ataque.

Para surpresa de ninguém, Nurmagomedov é um demônio na luta agarrada. Para surpresa de quase todo mundo, McGregor fez um trabalho muito digno contra um ataque que parece não ter defesa. O russo botou o irlandês para baixo em quase todos os rounds, mas o ex-campeão conseguiu em várias oportunidades impedir um trabalho mais ostensivo de Khabib.

A primeira queda mostrou um Nurmagomedov sem respeito por joelhadas ou chutes de McGregor: foi lá no subsolo catar o tornozelo do irlandês e jogá-lo ao chão. Apesar do domínio posicional, Khabib não contava com a guarda evoluída do adversário – embora com o uso de alguns artifícios irregulares como agarrar o short e a luva do adversário. Conor soube postar o joelho alto para evitar montada, conseguiu controlar as pernas de Nurmagomedov para não ter a guarda passada, impediu algumas vezes que Khabib tivesse espaço para socar ou cotovelar, usou bem a grade. Teria dado certo contra muitos wrestlers, mas Khabib não é um qualquer.

Como falamos na coluna Choque de Titãs, a capacidade que o russo tem de aproveitar o movimento e, na base da força no core, emendar um ataque no outro na luta agarrada. Por mais que o caboclo defenda a primeira investida, a segunda e a terceira, o russo não para. Neste cenário, cair por baixo é inevitável. E, mesmo com excelente trabalho de guarda, uma hora ou outra Nurmagomedov vai furar o bloqueio. No segundo round, o árbitro deu a impressão de ter cogitado parar a luta, tamanha a surra que o russo deu no ground and pound.

A luta agarrada defensiva de McGregor não foi a única surpresa da luta. Logo no começo do segundo assalto, o russo marcou as vezes que o irlandês baixava seu punho esquerdo visando defender uma eventual queda e largou um cruzado monstruoso ali por cima. Resultado: pela primeira vez, McGregor foi a knockdown. Com o massacre que se seguiu no round, parecia que Conor estava psicologicamente e fisicamente acabado para a luta. Mas ele não é um qualquer.

Nurmagomedov deu alguns sustos em McGregor mesmo na troca de golpes em pé (Foto: Josh Hedges/UFC)

Nurmagomedov deu alguns sustos em McGregor mesmo na troca de golpes em pé (Foto: Josh Hedges/UFC)

McGregor retornou para o terceiro menos cansado do que o previsto e contou com uma queda de rendimento de Nurmagomedov para manter o combate em pé. O russo voltou a acertar alguns golpes mais pesados, mas o irlandês levou vantagem no assalto. No quarto, porém, as coisas voltaram ao patamar de origem e dessa vez Khabib não bobeou, pegando as costas do astro e apertando até Conor desistir.

Depois, o quiprocó lamentável. Pra começar, Nurmagomedov demorou a soltar o estrangulamento e parecia querer ficar montado nas costas de McGregor. Depois, saiu para comemorar e apontou o dedo para a direção de Dillon Danis, treinador de jiu-jítsu do irlandês que andou falando um monte. Danis deve ter retrucado e Khabib pulou a grade atrás dele. A porrada estancou na área VIP e dentro do octógono. Teve nego covarde atacando por trás, empurra-empurra, troca de socos. Nada que um esporte como o MMA, que está sempre tentando separar luta de briga, precisa.

A gente sempre fala que promoção de luta tem que ter um limite. O UFC nunca deu para McGregor. O irlandês atacou o ônibus que levava Nurmagomedov, avacalhou família e religião do russo. Obviamente um sujeito ortodoxo como o campeão dos leves não levaria esse negócio de boa. Entenda, não estou justificando as atitudes lamentáveis de Khabib e seus companheiros, mas não dá pra gente dizer que nunca imaginava que o que rolou hoje na T-Mobile Arena nunca aconteceria. Menos mal que não deu muita merda e ninguém se feriu com gravidade. Imagina se fosse nesse Brasilsão cheio de ódio.

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Que sujeito maravilhoso é Tony Ferguson

Venho por meio desta implorar encarecidamente a Tony Ferguson: pare de pisar em cabos, de subir em bolas ou chutar postes. Por favor, não nos deixe por tanto tempo. Desde já, muito agradecido. “À” Gerência.

Voltando de lesão, Ferguson tinha como missão não deixar que Anthony Pettis confirmasse sua recuperação. Foi uma atuação como de costume de El Cucuy.

Ferguson parece um Maverick V8 1975 a álcool (isso existiu?). Carro velho e tal, demora pra pegar embalo, mas quando embala…

O confronto foi insano. Anthony tentou aproveitar o conhecido começo lento de Tony, mas não conectou nada de muito valor. Paulatinamente, Ferguson foi aumentando o ritmo, passou a atacar também o corpo e o duelo ficou aberto. Ferguson tinha o domínio, mas Pettis era perigoso o suficiente para terminar a qualquer descuido do adversário.

Isso quase aconteceu no começo do segundo assalto, quando Pettis mandou Ferguson à lona duas vezes e caiu por cima. Porém, uma cotovelada tinha entrado e aberto uma fenda na cabeça do ex-campeão linear. Começou a jorrar sangue de Pettis na cara de Ferguson. E o que acontece quando Ferguson tem sangue na cara, mesmo que dos outros? Ele vira o catirso.

Tony Ferguson e Anthony Pettis protagonizaram momentos épicos na luta coprincipal do UFC 229

Tony Ferguson e Anthony Pettis protagonizaram momentos épicos na luta coprincipal do UFC 229

Então, meus amigos, Ferguson pisou fundo no acelerador e não olhou mais para trás. Era soco na cara, na barriga (meio saliente) de Pettis. O “Showtime” foi bravo, aguentou o castigo com dignidade e ainda devolveu fogo quando parecia entregue na mão do palhaço. Até inventou um chute de capoeira, que, para infelicidade dele, não engana mais ninguém. No caminho, Pettis quebrou a mão, talvez as duas. No intervalo, o técnico Duke Roufus teve a muito decente postura de solicitar o fim do combate, poupando seu pupilo mais importante de agravar ainda mais a lesão e sofrer ainda mais danos. Se voltasse para o terceiro, Pettis seria liquidado de modo brutal.

Por mais Duke Roufus no MMA e menos irresponsáveis que deixam seus “lutadores serem guerreiros”.

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Dominick Reyes venceu Ovince St. Preux, para o bem do MMA

No terceiro duelo do card principal, tínhamos um prospecto do projeto Top 10 do Futuro contra um Top 10 que insistem em ficar preso no passado. Ainda bem que a passagem de bastão no UFC segue forte.

Dominick Reyes é mais ágil, mais técnico, mais veloz que Ovince St. Preux. Mas o filho de haitianos é bruto, atlético e tem parte com o diabo. Qualquer descuido do rapaz de 28 anos poderia indicar o rumo da vala.

Não aconteceu. Reyes dosou bem as energias, negou as tentativas de OSP levar a luta para o chão e trabalhou bem as combinações de socos e chutes. Mesmo quando St. Preux tentou ser mais agressivo, o “Devastador” controlou a distância e manteve o risco longe.

No fim, polêmica (desnecessária). Reyes já tinha a vitória por decisão confortável garantida a dez segundos do fim. Ele acertou um forte chute baixo que provocou uma ação ofensiva de St. Preux. O contragolpe foi tão bonito quanto poderoso: depois de bloquear um chute do veterano, Dom deu um passo para trás e largou um foguete em forma de direto de direita. No melhor estilo Mark Hunt, Reyes meteu e saiu andando com os braços levantados. Dois passos depois, a buzina soou encerrando a luta. Sabe-se lá por qual motivo, Dan Miragliotta não decretou o nocaute mais do que claro.

 

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Derrick Lewis consegue virada improvável

Se o MMA sorriu na vitória de Reyes, ele sofreu com Derrick Lewis. O gigante teve mais uma atuação bisonha, mas o QI de luta de Alexander Volkov foi ainda mais ridículo.

Praticamente todas as vantagens estavam ao lado do russo. Para conseguir perder essa luta, ele teria que cometer um erro de aproximação ou ser derrubado e ficar muito tempo sob o ground and pound. Como estupidez pouca é bobagem, ele fez as duas coisas.

Lewis tinha desvantagem na envergadura e menos talento na troca de golpes do que o especialista em caratê kyokushin. Como se quebra desvantagem no alcance? Com velocidade. Mas Lewis é lento como uma porca prenha. Qual a solução? Torcer pelo imponderável.

Obviamente o americano cansou logo e passou a se arrastar pelo octógono. Como estamos falando de pesos pesados, raramente esses sujeitos cansam sozinhos. Volkov também cansou e a “luta” ficou lamentável, porém, sob o controle do europeu. Faltavam uns dez segundos para Alex garantir a quinta vitória em cinco lutas no UFC e provavelmente o posto de desafiante (no mínimo, uma eliminatória). Era só cozinhar o galo em fogo baixo. Mas não. Volkov resolveu parar no mata-burro. Levou um cacete no queixo que quase separou a cabeça do pescoço.

Pobre divisão que tem como número dois um sujeito da catiguria de Derrick Lewis.

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Resenha MMA Brasil UFC 229: Outros destaques

– Finalmente Michelle Waterson teve uma vitória tranquila. Ela soube lidar muito bem com a pressão no corpo a corpo de Felice Herrig, mostrou mais habilidade na luta agarrada e conseguiu vantagem até no chão. O peso palha ganha com uma recuperação da ex-campeã do Invicta.

– Quando perdeu o cinturão, Anthony Pettis disse que não queria mais lutar no mesmo card do irmão mais novo. Não se se por pressão ou por deixar pra lá, mas novamente estavam escalados o “Showtime” e o caçula, Sergio Pettis. Pois o Pettizinho teve uma atuação apagada e não conseguiu resistir ao jiu-jítsu de Jussier Formiga. Formiga precisava da vitória a qualquer custo para seguir rondando o posto de desafiante. Ele não teve a menor vergonha de se pendurar nas costas de Sergio e não fazer nada. A vitória já estava garantida, quem tinha que fazer alguma coisa era o americano. Ele que chore na cama.

– Outro brasileiro que venceu nem nasceu no Brasil risos. Vicente Luque deu impressão que poderia se complicar contra o estreante Jalin Turner, mas quando conseguiu encurtar a distância, aumentou sua coleção de nocautes devastadores. Agora são três vitórias seguidas e seis nas últimas sete lutas para o “Assassino Silencioso”.

– A derrota brasileira ficou por conta de Allan Nuguete, que teve a manha de ser nocauteado pelo mediano Scott Holtzman.

– Por que alguém permite que Gray Maynard continue lutando?

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.