Por Alexandre Matos | 05/08/2018 05:29

Há quem diga que o MMA não vive um bom momento. Num esporte ainda tão jovem, somos testemunhas da evolução e da história sendo escrita a cada semana. A Resenha MMA Brasil UFC 227 fala da histórica noite em Los Angeles em que caiu o maior reinado que o UFC já viu.

O UFC 227, disputado neste sábado, em Los Angeles, foi liderado por duas disputas de cinturão sensacionais por motivos diferentes. O evento ainda teve outras animadas disputas e mais uma passagem de bastão no peso pena.

TJ Dillashaw e Cody Garbrandt poderiam lutar uma vez por ano

Quando TJ Dillashaw e Cody Garbrandt se encontram no octógono, é garantia de chinela cantando alto. A revanche do UFC 227 durou metade do primeiro combate, mas ainda assim deixou os fãs enlouquecidos.

Por se conhecerem muito, é natural que eles se respeitem e sejam cuidadosos no começo. E por terem uma história de rivalidade de ex-companheiros de time, também é natural que a porrada estanque vigorosamente. Com o orgulho ferido da primeira luta, Garbrandt não quis saber de tocar luvas no começo e assumiu o papel de agressor, enquanto Dillashaw ficou no contragolpe, procurando não dar brechas.

A teoria ensina que Garbrandt, por ser melhor e mais rápido no boxe, teria vantagem no tiroteio da curta distância e que Dillashaw, por chutar melhor, deveria manter a distância longa, encurtando apenas para entrar em queda. Inverte tudo isso aí.

Cody usou mais os chutes no começo, talvez tentando confundir o campeão. Quando se chocaram no infighting, o desafiante conseguiu um flashdown. Parecia uma estratégia correta, mas faltou o controle psicológico que sobra em TJ. Garbrandt se empolgou ao largar soco na curta com o bloqueio mal posicionado, totalmente aberto à mão direita de Dillashaw. O campeão disparou um petardo. Knockdown. Garbrandt repetiu o erro da curta distância com a guarda aberta. Levou duas braçadas. Knockdown de novo. Dessa vez, Dillashaw foi implacável. Disparou uma centena de socos na cara, arrastou o rival para a grade, meteu a patela no queixo de Garbrandt. Herb Dean poderia ter parado antes, inclusive.

Nocauteado duas vezes seguidas antes da metade da luta, Garbrandt vai voltar bastante na ladeira rumo a uma nova chance pelo título. Vai ver Marlon Moraes, Dominick Cruz e Raphael Assunção passarem sua frente.

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Henry Cejudo destrona o maior campeão do UFC

Talvez eu esteja sob os efeitos maravilhosos da adrenalina, mas acho que vimos a luta mais técnica do ano até agora, a melhor disputa de cinturão da história do peso mosca no UFC e quiçá a melhor luta que a divisão já viu. Os responsáveis só poderiam ser o número um do mundo peso por peso, Demetrious Johnson, e o único que poderia sonhar em vencê-lo na atualidade, Henry Cejudo. No Staples Center, o sonho virou realidade.

O primeiro round fez menção a um destino bem diferente. Com sua tradicional velocidade, Johnson causou um problema na perna de Cejudo, que pisou em falso três vezes seguidas. Parecia que Henry veria seu fim em pouco tempo, assim como na primeira vez. Porém, o desafiante mudou a base e protegeu a perna machucada enquanto o corpo esquentava. Mesmo assim, conseguiu alguns bons momentos, embora o primeiro round tenha ido para Johnson.

Orientado a usar mais o boxe e levar a luta para o chão algumas vezes, Cejudo mudou o panorama do combate e transformou o duelo. Diferentemente da outra vez, em que Henry foi nocauteado no clinch, hoje ele basicamente venceu todos os duelos que tinham o wrestling como fundamento: defendeu-se quando Demetrious tentou derrubá-lo e botou pra baixo no segundo, quarto e quinto assaltos, exatamente aqueles que ele ganhou. O campeão olímpico finalmente fez jus à reputação contra o maior desafio de sua carreira no MMA.

Johnson cometeu um erro que se mostrou capital durante o combate. Sempre que ele tentava encurtar a distância, ou era punido por algum golpe potente de Cejudo ou acabava ameaçado por uma tentativa de queda. Este foi o caminho que levou o desafiante à vitória. Exatamente o que seu treinador havia lhe pedido no primeiro intervalo. Faltou a Demetrious a percepção de que deveria se manter na longa distância e maltratar a perna esquerda do oponente.

Cabe dizer que o triunfo de Cejudo não aconteceu diante de uma má atuação de Johnson. Pelo contrário, o “Mighty Mouse” lutou muito bem, com direito a momentos de genialidade, como as trocas de base fluidas – ele faz isso tão bem que parece ser ambidestro – uma defesa de montada de craque e uma raspagem igualmente monstra. Porém, diante de um campeão olímpico com excelente controle posicional, não conseguiu reverter o prejuízo nas vezes em que foi colocado com as costas no chão.

O lutador que parecia imbatível perdeu – e mostrou espírito esportivo. O que prometia muito finalmente desenvolveu talento de campeão de UFC. O peso mosca agora tem dois integrantes da elite. Por total merecimento ao recordista de defesas consecutivas, os fãs merecem nova revanche.

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Nova geração do peso pena supera mais um veterano

O futuro está se tornando presente no peso pena, talvez a categoria que mais tenha acentuada a passagem de bastão entre gerações. Neste sábado, Renato Moicano finalizou o veterano Cub Swanson sem se importar com o maciço apoio dos torcedores californianos ao conterrâneo.

Para vencer, Moicano lançou mão de suas três principais qualidades: calma, potência e poder de decisão. Foi paciente para baixar o ritmo do americano e se sustentar quando Swanson acertou alguns golpes fortes lá para os idos de dois minutos de ação. Foi potente para derrubar o rival com um jab e abalá-lo no ground and pound. Conseguiu duas montadas, acompanhou a movimentação de Swanson no chão e foi perspicaz quando o rival lhe cedeu as costas para encaixar o mata-leão definitivo.

Paulatinamente os veteranos vão deixando a parte de cima do peso pena. A vitória sobre Swanson pode fazer Moicano passar também Jeremy Stephens, que já foi batido pelo brasileiro. A divisão ainda vê a aproximação de Mirsad Bektic, Alexander Volkanovski e Zabit Magomedsharipov para tomar os lugares de Stephens, Swanson e até de Frankie Edgar e Chad Mendes. O futuro está se tornando presente.

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Resenha MMA Brasil UFC 227: Demais lutas

– Diferentemente do padrão, as lutas mais chatas do UFC 227 foram as femininas. A sonolenta Danielle Taylor foi superada pela chinesa Weili Zhang e JJ Aldrich conseguiu evitar os perigos do jiu-jítsu de Polyana Viana.

Thiago Marreta venceu Kevin Holland num combate pobre de técnica e rico em diversão. O brasileiro até tomou alguns sustos no chão, mas dominou o oponente na troca de golpes em pé e também no ground and pound no open bar de 10-8.

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– Em um ano no UFC, Alex Perez conseguiu a quarta vitória em igual número de combates, algo difícil de acontecer. Ele aplicou um verdadeiro espancamento no favorito Jose Torres, que fazia sua segunda luta na organização. Olho no californiano.

– Os brasileiros fizeram bom papel nas preliminares do UFC 227. Pedro Munhoz dominou o jovem e promissor Brett Johns. Pela mesma categoria dos galos, Ricardo Carcacinha passou pelo sul-coreano Kyung Ho Kang. No peso pena, Sheymon Moraes venceu a primeira no UFC, diante de Matt Sayles.

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