Por Alexandre Matos | 08/07/2018 06:20

Meus amigos e minhas amigas, QUE NOITE! Acho melhor esperar os batimentos voltarem ao normal antes de escrever a Resenha MMA Brasil UFC 226. Que bela ocasião para vir a Las Vegas pela primeira vez e cobrir um evento de MMA.

Quem esteve na T-Mobile Arena e quem assistiu pela TV testemunhou a história ser escrita mais uma vez. Numa noite de várias lutas sensacionais, atletas se afirmaram, outros se recuperaram, vários caíram. Não faltou emoção (exceto numa luta). E de pensar que ainda teria Max Holloway contra Brian Ortega…

Bom, cortemos o papo furado e vamos logo às minhas impressões do UFC 226.

A disputa pelo maior de todos os tempos do MMA tem novo candidato

Quando Georges St. Pierre conquistou o cinturão pela segunda categoria, muitos disseram (com razão) que ele não venceu o melhor lutador da categoria. O mesmo aconteceu com Conor McGregor. Com Daniel Cormier, terão que arrumar outra desculpa.

Neste sábado histórico, Cormier venceu o melhor peso pesado do mundo e o recordista de defesas consecutivas na história do UFC. Stipe Miocic era um adversário maior, mais forte e mais ágil do que a maioria dos lutadores de seu porte. O agora ex-campeão mostrou todos esses atributos nos poucos minutos que a luta durou, mas sentiu na pele que estava diante de alguém especial.

Logo no começo, Cormier lembrou a todos sobre como pode ser duro na curta distância. Miocic respondeu arrastando o desafiante ao solo e depois controlando a distância em seu melhor estilo. Socos fluíram dos punhos de Stipe e chegaram a balançar o pequeno adversário. Cormier inclusive foi enquadrado na grade pelos clássicos combos de Miocic. Porém, Daniel sobreviveu e voltou a equilibrar as ações chutando as pernas do rival.

O desfecho do combate foi sensacional. Miocic acertou alguns bons golpes, mas acabou dando um passo a mais e se aproximou muito de Cormier. DC então travou o pescoço do campeão lá em cima e largou um uppercut dos infernos. Miocic desabou em colapso e as marteladas no ground and pound já aconteceram sob urros das arquibancadas.

O sempre sorridente Daniel Cormier teve mais motivos do que nunca para mostrar os dentes para a lente de Esther Lin (MMAFighting.com)

O sempre sorridente Daniel Cormier teve mais motivos do que nunca para mostrar os dentes para a lente de Esther Lin (MMAFighting.com)

Quando fiz a análise técnica deste confronto na coluna Choque de Titãs, alguns leitores me cobraram não ter mencionado a diferença de tamanho a favor de Miocic. Ali não era espaço para isso. Ali era espaço para explorar a maior versatilidade de Cormier e o perigo que ele leva na curta distância. Exatamente como ele matou a luta.

Ainda presenciamos a atração circense da promoção de uma eventual defesa de Cormier contra Brock Lesnar. Sim, isso mesmo. O agora campeão desafiou o gigante albino, que entrou no octógono e protagonizou cenas típicas de Os Trapalhões que os fãs de telecatch tanto curtem. Seja como for, Cormier ganhou sua luta de ouro. A mesma que Jon Jones tanto quis, mas não teve capacidade de conseguir.

LEIA MAIS Daniel Cormier faz história, nocauteia Stipe Miocic e conquista segundo cinturão no UFC 226

A maior abominação que presenciei no UFC

Apenas um resumo do que foi essa ~luta: Derrick Lewis acertou 13 socos em 15 minutos, enquanto Francis Ngannou se limitou a cinco. Isso mesmo, um cidadão deu menos de um soco por minuto e o outro deu um a cada três.

O que falar desse dantesco concurso de encaradas? Lewis pelo menos tinha a velha desculpa que o problema em suas costas limita seus movimentos. Mas e Ngannou? Foi Miocic que lhe arrancou a confiança? Pelamordedeus.

LEIA MAIS Sério?

Mike Perry vence batalha sangrenta contra Paul Felder

É muito legal quando uma promessa de pancadaria se concretiza. Foi o que aconteceu no duelo entre Mike Perry e Paul Felder. Foram raros os momentos em que a chinela não estava cantando ardida no octógono.

Perry teve a melhor atuação de sua carreira. Menos psicopata, mas psicopata o suficiente, ele trabalhou bem as combinações, usou os jabs com maestria e transformou o rosto de Felder em purê de sangue com as cotoveladas. De quebra, mostrou versatilidade lançando quedas, incluindo uma no estilo Matt Hughes erguendo no ombro. Excelente desempenho.

E o que falar de Felder? Que homem. O peso leve levou vantagem no primeiro round, quando seu braço direito estava inteiro. Aliás, o sujeito lutou dez minutos com o braço quebrado e não deixou de mandar fogo em momento algum. Foram combinações de socos, cotoveladas, antebraçadas. O cara não parou. Vai voltar com moral ao peso leve.

LEIA MAIS Mike Perry se reabilita com vitória sobre Paul Felder em batalha no UFC 226

Será um sinal que o Showtime está de volta?

Anthony Pettis precisava de uma atuação redentora para afastar a má fase – ou provar que a boa fase não foi obra do acaso. O adversário nem era o mais indicado para a missão. Michael Chiesa é o tipo de grappler pressionador que já causou problemas para Pettis.

É necessário dizer que Pettis segue sem a velocidade que marcou seu auge e que, por conta disso, a explosão também ficou um pouco prejudicada. Porém, a visão de luta e especialmente a técnica estavam lá de volta nesta noite.

Depois de um começo forte de Chiesa, que colocou Pettis para baixo rapidamente, o ex-campeão foi pegando confiança conforme mapeava os movimentos do oponente. Neste ponto, contou a favor do “Showtime” a máxima maquiavélica do “Maverick”: o fim (as quedas) justificam os meios (aproximação com combinações de socos retos sem muito cuidado ou preparação, apenas para chegar ao clinch e à queda). Contra um striker técnico como Pettis, a chance de dar errado é maior. E deu.

Pettis rapidamente entendeu o que Chiesa queria e se preparou para isso. Manteve a distância e começou a variar os golpes, deixando Mike confuso. O desfecho da luta mostrou um Pettis mais lento, mas muito técnico. Quando o chute rodado não entrou, ele rapidamente emendou com um direto de direita e uma joelhada voadora que mandaram Chiesa a knockdown. Pettis caiu por cima e foi raspado. Parecia que ele sofreria no ground and pound, mas tirou da cartola mais uma finalização por baixo, a sétima da carreira (recorde no UFC).

Não sei se foi um lampejo da genialidade exibida um dia ou se Pettis realmente está recuperado. O MMA agradece se for a segunda opção.

LEIA MAIS Anthony Pettis tem lampejo de “Showtime” e finaliza Michael Chiesa no UFC 226

Khalil Rountree nocauteia um rascunho de Gokhan Saki

Quando essa luta foi marcada, tive duas reações: “Legal!” e “Coitado do Rountree…”. A primeira foi decorrente de confrontar dois sujeitos brutos como Gokhan Saki e Khalil Rountree. A segunda nasceu da ideia que o americano era muito mais cru do que o super experiente kickboxer turco. Como a luta certamente seria disputada na pancadaria, quebrei a cara.

Saki parecia uma múmia se movimentando. Pouco ágil, muito duro, acabou parando na frente de Rountree. Com um combo simples de jab-direto, o ex-TUF mandou o ex-K-1 para as profundezas da vala em pouco mais de um minuto.

O resultado derruba as minhas esperanças de Saki se tornar um novo player na divisão dos meios-pesados. E Rountree segue rendendo dúvida sobre sua capacidade de se defender da luta agarrada. Ou seja, esta luta serviu pra nada.

LEIA MAIS Khalil Rountree atropela Gokhan Saki com nocaute surpreendente no UFC 226

Resenha MMA Brasil UFC 226: Preliminares

Paulo Borrachinha pode ser cru, pode ter problemas defensivos e de velocidade, pode ser unidimensional. Tudo isso é verdade. Mas o sujeito é perigoso, especialmente quando consegue atrair o adversário para o olho do furacão e transformar as lutas em pancadaria. Por alguns minutos, Uriah Hall conseguiu evitar o plano do brasileiro e deixou Paulo um tanto preocupado. Ainda assim, algumas bombas de Borrachinha alcançaram o alvo e foram paulatinamente baixando a confiança do americano. Quando Hall deu uma zoada por um chute rodado de Costa que passou no vazio, o rival se irritou e avançou. Couro largado de ambos os lados e obviamente Uriah caiu babando.

Ao fim do combate, o empresário Wallid Ismail estava orientando seu cliente a pedir por Chris Weidman. Seria um belo de um atalho ao cinturão para Borrachinha se Weidman não fosse um jogo péssimo – e não testado. Melhor seria ir atrás de alguém como Derek Brunson. Israel Adesanya, a outra opção ventilada no fim de semana, seria igualmente ruim para Borracha, este por explorar as inúmeras brechas defensivas do brasileiro.

LEIA MAIS Paulo Borrachinha brilha e nocauteia Uriah Hall no UFC 226

Raphael Assunção teve mais uma atuação no estilo “passeio no parque”. Em momento algum do combate, Rob Font fez frente ao sólido jogo de contragolpes que foram completados com queda e ground and pound vigoroso. Assunção finalmente usou o microfone após a luta para pedir uma disputa de cinturão. Raphael até merece, mas não sei se o UFC vai entender que ele disputou uma eliminatória neste sábado.

LEIA MAIS Raphael Assunção bate tranquilamente Rob Font no UFC 226 e pede por luta pelo cinturão

– No media day na quinta-feira, Lando Vannata me disse que tinha aprendido algumas lições, dentre elas a de melhorar o sistema defensivo, e que ele iria mostrar no octógono neste sábado. Pois ele continua o mesmo lutador altamente empolgante no ataque e muito esburacado na defesa. Contra um pressionador como Drakkar Klose, o “Groovy” não conseguiu impor um ritmo que ocultasse suas falhas. Klose teve ótima atuação tanto no clinch quanto na troca de golpes e venceu três rounds apertados.

LEIA MAIS Drakkar Klose vence Lando Vannata em luta movimentada no UFC 226

– Oficialmente temos um novo vândalo no peso leve. Ele se chama Dan Hooker. O neozelandês completou a festa de sua equipe, junto com a vitória do parceiro Adesanya na véspera, com um brutal nocaute sobre Gilbert Durinho. O brasileiro se perdeu na estratégia de levar o adversário ao solo e acabou aceitando a troca de golpes em pé. Hooker não perdoou e anotou a quarta vitória por interrupção (três nocautes e uma submissão) em quatro lutas como peso leve.

LEIA MAIS Dan Hooker aumenta sequência de interrupções com nocaute sobre Gilbert Durinho no UFC 226

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.