Resenha MMA Brasil: UFC 225

De candidata a luta do ano até um duelo que jamais deveria ter acontecido, muita coisa aconteceu no UFC 225.

Talvez mais da metade da graça da coluna Resenha MMA Brasil é escrevê-la ainda sob a adrenalina do evento. A edição do UFC 225 poderia ser escrita daqui a uma semana que provavelmente eu ainda estaria adrenalizado.

O evento, disputado neste sábado, em Chicago, poderia ter sido péssimo que só a tensão das duas disputas de cinturão já fariam esta noite difícil de esquecer. Tivemos ainda um punhado de veteranos derrotados por integrantes da nova geração, ex-desafiantes com vitórias recuperadoras e até algumas vergonhas alheias.

Vamos logo com isso porque os pensamentos sobre o UFC 225 não param de pulular na minha mente. Ah! Ontem foi dia de live. Pega uma reprise do canal Combate ou os vídeos do Combate Play e ouve os nossos comentários.

O cinturão do peso médio está em ótimas mãos, mas que venha a trilogia

Se um dia você quiser convencer um amigo a curtir MMA, mostre a ele a revanche entre Robert Whittaker e Yoel Romero. Não que seja caso de estarmos falando da melhor luta de todos os tempos, mas o combate principal do UFC 225 foi repleto de momentos que certamente aumentarão a base de fãs do esporte.

Whittaker é um sujeito gigante. Nós já sabíamos que o rapaz era talentoso, muito bem treinado e capaz de executar bons planos de luta. Neste sábado, descobrimos que ele tem um queixo dos infernos. Eu não sabia que um ser humano era capaz de sobreviver aos coices de Romero. Whittaker sobreviveu duas vezes numa mesma luta.

Por dois rounds, tivemos a impressão que “Bobby Knuckles” tinha a receita para o sucesso: controle de distância, velocidade nos golpes e evitar parar na alça de mira da besta-fera cubana. Por dois rounds, parecia que Romero poupava energia em busca de uma janela de oportunidade que dava a impressão que não se materializaria. Que nada! Com ele, sempre dá certo.

No momento em que o punho de Romero se choca contra a ossatura de outro ser vivo, duas situações podem ocorrer: ou a pessoa é enviada para a vala ou parece que a superfície terrestre vira gelatina e tudo balança. Seja como for, o resultado é que um ano deve ser removido da expectativa de vida do sujeito.

Romero sabe disso e, aos 41 anos, sem a vitalidade dos tempos em que tocava o terror nos tapetes de wrestling pelo mundo, faz-se necessário não desperdiçar energia. A primeira janela apareceu no começo do terceiro round. Whittaker foi a knockdown e passou o resto do assalto sobrevivendo, mas ainda foi capaz de largar a canela na cabeça do veterano antes de a buzina soar. A segunda janela aconteceu no quinto e sabe-se lá como Robert não foi a óbito. Disposto a fazer mais uma mágica de último round, Romero inverteu a base, caçou o campeão, aplicou um punhado de quedas, mas não restava muita energia para a interrupção.

Com dois rounds para cada lado, o fiel da balança foi a quarta parcial. Whittaker começou melhor, mas dava sinais de que tinha algum problema com sua mão direita, pois cotoveladas substituíram os diretos, que completariam o ótimo trabalho feito com os jabs de esquerda (houve um momento lindo de cinco ou seis jabs executados em sequência, coisa rara de se ver no MMA) e os controversos pisões no joelho. Romero teve o meio minuto final forte, balançou Whittaker, mas não foi suficiente para virar. Por conta disso, marquei 48-47 para o campeão, mas um empate em 47 também é viável com um 10-8 no último assalto.

Outro ponto de destaque no campeão é a leitura corporal. Contra um monstro que pode te destruir com um soco ou te enterrar no solo com uma queda explosiva, Bobby curvou a coluna e baixou a guarda. Quando curvou a coluna, diminuiu o espaço para entrar um porradão e, de quebra, permitiu que os braços mais baixos pudessem auxiliar uma eventual defesa de quedas. E os chutes altos, que são tirados de posturas que não indicam esse tipo de movimento e mesmo assim entram com potência suficiente para machucar um pedaço de tora como Romero? I <3 Whittaker.

Quando a última buzina soou, Chris Weidman deve ter coçado a cabeça do lado do octógono, Luke Rockhold deve ter cobrado de Mick Maynard sua estreia no meio-pesado, Kelvin Gastelum deve ter marcado hora com o nutricionista para reduzir a 77 quilos e Georges St. Pierre deve ter ficado aliviado de ter abdicado do cinturão. O topo do peso médio definitivamente não é mais um lugar saudável.

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Pode chorar: Colby Covington mereceu conquistar o cinturão

Parece que em todo evento surge alguma crendice difícil de explicar. O UFC 225 teve duas. Uma delas supunha que Rafael dos Anjos venceria Colby Covington com facilidade. Não sei de onde tiraram isso. Nem o Covington sabe.

O caminho para a vitória do americano era clara: usar o wrestling para sufocar o brasileiro e fechar todo e qualquer espaço que pudesse dar ao muay thai de Rafael a vantagem que ele precisava. A tarefa de Covington foi facilitada em parte por Dos Anjos ter ficado viciado em imprimir pressão. A cada vez que o ex-campeão dos leves desistia de se movimentar lateralmente e punir as pernas de “Chaos”, mais ele se posicionava dentro da área de ataque de quedas do rival.

Covington não deu sossego para Rafael durante quase toda a luta. O niteroiense teve seu bom momento no quarto assalto, quando conseguiu colocar o oponente no solo para trabalhar as posições em busca de uma finalização que nunca se materializou. No quinto round, faltou iniciativa para tentar decidir a parada ao invés de deixar que os juízes resolvessem o vencedor. Para piorar, Dos Anjos sequer conseguiu vencer o quinto.

Quando apostei no vencedor deste combate, me bateu a seguinte dúvida: Rafael é tecnicamente capaz de executar a estratégia necessária para vencer, mas fazia tempo que ele não atuava desse jeito. Por causa disso, demorei tanto a decidir o palpite – a publicação do Palpitão desta rodada atrasou porque eu demorei a decidir esta luta. Minha intuição inicial estava certa e eu a ignorei. Resultado: Bruno Costa abriu vantagem e até o Biel me passou na classificação.

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Outra crendice: Megan Anderson vai dar trabalho a Cris Cyborg

Eu duvido que quem achou que Megan Anderson daria trabalho a Cris Cyborg viu uma luta dela no Invicta FC. Houve até quem, veja só!, achasse que a australiana tinha mais ferramentas que Holly Holm. Pelo que se viu no combate, acho que isso ofendeu a americana.

Com a certeza de que a agressividade e potência, mas de técnica limitada, de Anderson não faria frente ao seu striking, Holm decidiu atuar como grappler para colocar as coisas em seus devidos lugares. E a ex-campeã do peso galo, que nunca foi conhecida pela destreza na luta agarrada, aplicou um vareio na adversária, com direito a controle no clinch na grade, várias quedas, montadas e ground and pound. Só faltou arriscar finalizações para o passeio virar constrangimento.

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A nova geração pede passagem também no peso pesado

Até a categoria mais difícil de se renovar vê surgir novos personagens desbancando sujeitos intermináveis. No UFC 225, Curtis Blaydes, no card preliminar, e Tai Tuivasa, no principal, despacharam os veteranos Alistair Overeem e Andrei Arlovski, respectivamente.

Blaydes, 27 anos, foi quem teve a melhor atuação. Ele apagou a impressão de se enrolar nas transições e botou para baixo o antes difícil de derrubar Overeem com enorme facilidade em todos os rounds. Quando o duelo parecia se encaminhar para um unilateral e pouco atrativo 30-27, Blaydes colocou seu cotovelo-lâmina (perdão) para jogo e afogou o holandês em seu próprio sangue, decretando o nocaute técnico. A atuação do americano foi tão sólida que deixou a impressão de que ele vingaria sem dificuldade sua única derrota, diante de Francis Ngannou.

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Tuivasa, 25 anos, não teve um domínio como Blaydes, mas exibiu duas qualidades importantes contra Arlovski. Mesmo sem ser o mais técnico, o australiano mostrou evolução técnica, passando a depender um pouco menos de grosseria. Ele ainda passou pela primeira vez do primeiro round, mostrando ser capaz de lutar por 15 minutos, obviamente dependendo de quem estiver do outro lado do octógono. O problema é que a evolução tem que ser maior a partir de agora, pois Tuivasa deve entrar no top 10 e não seria favorito contra ninguém à sua frente no ranking.

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Dos risos ao constrangimento na luta que jamais deveria ter acontecido no UFC

Acho que nem em seus primórdios, quando lutadores iniciavam no vale-tudo, o UFC escalou um 0-1 contra um 0-1. Foi isso que aconteceu no lamentável retorno de CM Punk ao octógono contra o pouco menos triste Mike Jackson.

Os fãs de telecatch vão ficar chateados comigo (problema deles, inclusive), mas já é possível dar o veredito: CM Punk é inapto para o MMA. Na verdade eu ia dizer que ele é inapto para a prática esportiva competitiva, mas vou pegar leve. Pelo menos deve ter ficado claro na mente de alguns lunáticos que telecatch não é luta de verdade (nunca pensei que seria necessário dizer isso).

Punk já está há três anos treinando na Roufusport, uma respeitável academia que formou campeões do UFC, WEC, Bellator e ONE, liderada por um ex-campeão mundial de kickboxing. Pois o cidadão, depois desse tempo todo, não consegue coordenar uma combinação simples de golpes e não faz a menor ideia de como agir quando chega ao solo, tampouco de como proceder para chegar lá em posição de domínio. Treinar com gente habilidosa como Ben Askren, Tyron Woodley e Anthony Pettis surtiu efeito nenhum no sujeito. Incrível.

A luta pelo menos começou engraçada, tamanhos os momentos toscos que os empolgados “lutadores” protagonizavam. O problema é que a graça foi dando lugar à vergonha alheia conforme o tempo passou. Rolou até mochilada pela frente, típica de frequentadores educados do metrô, que não incomodam outros passageiros com mochilas nas costas.

Jackson pareceu levar jeito pelo menos no boxe, mas essa foi apenas uma falsa impressão pelo referencial nulo do adversário. Apesar de pelo menos acertar combinações de socos, não foram poucas as vezes que ele cruzou os pés erradamente. O que agrava a situação de Punk é que um sujeito desse o venceu sem a menor dificuldade se dando ao luxo de atuar com o freio de mão puxado.

Punk-Jackson não teria lugar nem num Jungle Fight da vida, mas aconteceu na maior organização do MMA mundial. Azar o nosso.

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Impressões das preliminares do UFC 225

– Foi uma vitória importante, sobre uma ex-campeã, mas Claudia Gadelha não deveria ter passado tanto aperto para vencer Carla Esparza. Até knockdown a brasileira recebeu de uma lutadora cujo striking não serve para muita coisa além de ferramenta para aproximação para quedas. Pelo menos serviu para tirar a zica do atropelamento sofrido contra Jéssica Andrade.

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Mirsad Bektic conquistou a maior vitória da carreira ao superar Ricardo Lamas. O bósnio foi melhor na troca de golpes em pé e na luta agarrada, defendeu todas as tentativas de queda do ótimo derrubador rival e resistiu a duas tentativas de finalização. Não foi a atuação larga que eu esperava, mas suficiente para finalmente aproximar Bektic do top 5.

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– Nunca pensei que Chris de la Rocha fosse vencer uma luta no UFC. Rashad Coulter, que também nunca venceu ninguém no octógono, foi quem conseguiu a proeza. Que o RH chame os dois na segunda-feira.

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– O momento mais triste do UFC 225 foi ver que o buraco de Rashad Evans não tem fundo. De volta ao peso meio-pesado, perdido no meio de um card preliminar, o ex-campeão sofreu um duro nocaute contra o esforçado Anthony Smith. Com cinco derrotas seguidas, é hora de Rashad meter o pé.

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– Um ano e meio parado, aos 33 anos de idade, foi demais para Joseph Benavidez. O peso mosca não conseguiu equilibrar as ações contra Sergio Pettis, sofreu até knockdown e terá que mostrar poder de recuperação para provar que ainda merece um lugar na elite da categoria.

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– Quando fui dar o palpite em Charles do Bronx contra Clay Guida, pensei: “O Carpinteiro não vai repetir o mole ridículo que deu contra Thiago Tavares”. Pois ele repetiu. Que vá pro Bellator ou pra PFL.

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