Resenha MMA Brasil: UFC 224

Pela primeira vez na minha vida fui a um evento do UFC apenas para curtir a experiência, sem responsabilidade de trabalho. E que baita experiência foi o UFC 224. Quando cobri eventos pelo site, muitas vezes o trabalho era solitário, sentado ao lado de colegas que nem sempre eram conhecidos. Desta vez foi diferente. Assisti no meio do povo, nas arquibancadas, ao lado de vários amigos que o MMA Brasil me deu. Xinguei, vibrei, torci, fiquei nervoso, igual vocês fazem. Foi demais.

Colaborou o fato de o UFC 224 ter entregue diversos combates empolgantes. Tirando a luta principal, que foi o passeio esperado, rolou jiu-jiteira nocauteando, jiu-jiteiro com dificuldade de derrubar wrestler, nocautes e finalizações sensacionais. No meio de tudo, o privilégio de ver um gênio nocauteando uma lenda praticamente reproduzindo um dos nocautes mais espetaculares da história do UFC. Foi demais.

Confira os meus pensamentos sobre o UFC 224 e vamos ao debate.

Amanda Nunes defende cinturão em mais uma barbeiragem de córner

Houve um tempo em que cards principais de eventos numerados eram escalados de modo a haver uma “luta de respiro” no meio, uma que não tivesse tanta carga emocional ou equilíbrio de forças. No UFC 224, a luta de respiro foi a principal, dadas as diferenças entre a campeã Amanda Nunes e a inacreditável desafiante Raquel Pennington.

Não sei se foi pelos laços de amizade que unem as lutadoras, se foi uma mostra que consegue lutar 25 minutos sem problemas, mas a impressão que eu tive é que Amanda não pisou no acelerador. A campeã por um tempo disparou uma enorme quantidade de chutes baixos que foram deixando roxa a perna da frente de Raquel. Sem base para tentar uma queda ou uma combinação de socos, Pennington logo se tornou inoperante. Mas como tem força de vontade, resistiu a quatro assaltos.

Aí chegamos ao absurdo. Eu não ouvi lá de cima, mas a transmissão da TV pegou claramente o momento em que Raquel diz ao córner Jason Kutz que não consegue mais lutar. Ela quebrou o nariz no quarto assalto e achou que já tinha apanhado o suficiente, que não precisava de mais. Mas Kutz não viu desse jeito.

Jason Kutz:

“Não, não, não, menina. Não saia desse jeito. Vamos lá, menina. Eu sei que dói. Vamos acreditar. Mude sua mentalidade, vamos lançar tudo o que temos. Nós nos recuperaremos depois. Jogue tudo o que você tem.”

Que lixo de córner. A menina não conseguiu ser competitiva em momento algum e só fez apanhar a luta toda para um sujeito lá de boas continuar mandando-a para mais sofrimento desnecessário. Às vezes o córner e o árbitro precisam proteger os lutadores de suas próprias coragens. Neste caso, nem foi preciso tanta sagacidade na percepção, pois Pennington deu o sinal mais claro possível que não queria mais. Raquel voltou apenas para ser enterrada em sangue no ground and pound sob os olhares de Jason Kutz. Coitada.

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Kelvin Gastelum bate Ronaldo Jacaré para toda sorte de placares

Antes de mais nada: se você vier com papo de roubo, procure uma cama quente e vá chorar em outras bandas. O que aconteceu no duelo entre Kelvin Gastelum e Ronaldo Jacaré possibilitou diversas leituras e diversos placares sem que nenhum deles seja absurdo.

Jacaré venceu claramente o primeiro assalto. Embora tivesse encontrado enorme dificuldade de aplicar uma queda num wrestler competente como Gastelum, o brasileiro finalmente levou a luta para o solo ao emendar uma tentativa frustrada num ataque de chave de perna que arrastou o americano ao chão. Isso aconteceu mais ou menos na metade do round e o que se viu dali até a buzina foi um passeio do ás do jiu-jítsu. Jacaré montou, passou a guarda, bateu no ground and pound e tentou finalizar duas vezes no armlock, mas Kelvin defendeu bravamente.

Gastelum venceu claramente o segundo assalto. A defesa de quedas continuou sólida, mas agora ele foi mais efetivo nas combinações de socos. Embora fosse atingido com alguns chutes de Jacaré, Gastelum conseguiu até um knockdown, que ele não aproveitou por temer ser pego por algum bote da guarda.

O terceiro assalto foi muito parelho. Apesar de aparentar mais cansaço, Jacaré encontrou forças para largar couro no pocket. Gastelum levou a melhor em mais oportunidades e ainda mostrou capacidade de encaixar os golpes emitidos pelo oponente, claramente mais forte fisicamente. Ronaldo seguiu errando entradas de queda até que conseguiu derrubar, mas não manteve o oponente no solo nem por dois segundos.

Na minha visão, Gastelum venceu o terceiro assalto por margem estreita e levou a luta por 29-28. Porém, não me incomoda se alguém viu o terceiro para Jacaré, pontuando 29-28 para ele. Eu também entendo quem considerou que o passeio de meio round na abertura da luta valesse um 10-8 para Jacaré, que terminaria com o combate empatado em 28-28. Neste caso, achei que a combinação domínio + tempo não me pareceu claro para um 10-8.

Cabe uma observação: um grupo de uns quatro abnegados que torceram fervorosamente para Gastelum puderam torcer em paz sem que ninguém os incomodasse. Ponto para o público presente, que também merece elogios por não ter vaiado nenhuma derrota brasileira ou se comportado de algum modo tosco que andamos vendo nos eventos recentes em nosso país.

Atualização: acabei de rever a luta e o público vaiou o resultado. Ainda assim, um sinal de discordância do resultado. Segue o jogo.

Atualização 2: Gastelum venceu mesmo.

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Mackenzie Dern implode Amanda Cooper, apesar dos problemas

A falha na pesagem foi vergonhosa – Mackenzie Dern ficou a duas libras de bater o limite da categoria de cima. O striking ainda precisa de refinamento. Porém, não precisa de muito mais potência. A lutadora largou a mão em Amanda Cooper antes de fechar a conta com seu jiu-jítsu refinado.

Cooper tentou a estratégia correta de controlar a distância. Quando Mackenzie percebeu que a aproximação seria um tanto complicada, disparou um overhand que mandou ABC em colapso no solo. Dern caiu por cima e aplicou um giro sensacional para pegar as costas e, com a rival provavelmente ainda grogue, apertar o mata-leão definitivo.

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Mão de Pedra em queixo de pedra tanto bate até que quebra

John Lineker bate forte, isso todo mundo já sabe. Brian Kelleher aguenta muita pancada. Isso a gente não sabia.

O americano pareceu maluco ao topar a pancadaria com o peso galo mais bruto do plantel do UFC. Lineker variou bem os ataques no corpo e na cabeça e acertou um número elevado de golpes bastante potentes. Porém, ele não contava com uma resistência tão grande do rival.

Kelleher até teve alguns bons momentos, inclusive quando aceitou a troca de golpes, mostrando que realmente evoluiu no quesito. O problema é que trocar com Lineker não é saudável se você não tiver um boxe preciso. Brian também conseguiu uma guilhotina no terceiro assalto, mas não prendeu o suficiente para fazer o paranaense desistir.

E o Lineker? Cada vez que ele luta, a gente fica impressionado com a potência de seus golpes. Dava pra ouvir lá de cima da arquibancada os estalos das luvas do brasileiro esmagando a carne do americano. E ele não desiste até ver o oponente estirado no chão, segue caçando de modo implacável. Dessa vez até pareceu que Kelleher sobreviveria até o fim, mas talvez Lineker tenha se irritado por ter metido tanto a mão na cara dele e o sujeito sequer caía. Pois quando caiu, foi de vez. “Boom” (perdão) e Kelleher caiu que nem uma árvore abatida.

Isso tudo só teve um problema: Lineker continua lançando seus petardos de modo totalmente aberto. No dia que ele pegar um sujeito que consiga aplicar socos em linha andando para trás, provavelmente será alvejado até o dia seguinte. Como ele vive na beira de enfrentar a elite da divisão, é bom começar a pensar neste tipo de coisa. Cody Garbrandt judiaria dele, por exemplo.

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Lyoto Machida dá a pior despedida possível a Vitor Belfort

UFC 126, 6 de fevereiro de 2011. Anderson Silva chuta a boca de Vitor Belfort num dos nocautes mais plásticos da história do UFC.

UFC 224, 12 de maio de 2018. Lyoto Machida chuta a boca de Vitor Belfort reproduzindo um dos nocautes mais plásticos da história do MMA.

Desde que Anderson acertou aquele chute na luta que mudou os rumos do MMA no Brasil, eu fico pensando em como gostaria de ter visto ao vivo. Não posso mais reclamar, porque eu vi neste sábado uma versão ainda melhor daquele lance. O chute de Machida pegou no mesmo ponto, mas dessa vez não foram precisos os dois “conferes” aplicados por Anderson. Ao contrário: quando sentiu que a bica entrou em cheio, o “Dragão” colocou as mãos na cintura e, ao ver que o oponente estava babando na vala, fez o tradicional cumprimento das artes marciais. Que sujeito da porra é esse tal de Machida.

 

Ver sua última luta pelo UFC terminar do mesmo modo que sua derrota mais dura provavelmente vai assombrar Belfort por um tempo. Mas ele poderia ter evitado. Não foram poucas as vezes que Lyoto ensaiou o chute no combate. Lento, sem explosão, Vitor foi incapaz de incomodar o adversário, que passou seis minutos controlando a distância até o golpe derradeiro. Foi como se o carateca avisasse que a qualquer momento mandaria o pé na cara do carioca.

Com duas vitórias seguidas pela primeira vez desde 2014, Machida pediu uma luta contra Michael Bisping. Depois de aposentar Randy Couture e Vitor Belfort com chutes na boca, o “Conde” será o próximo? Seja como for, o pedido faz sentido, uma vez que, apesar dos resultados recentes, Lyoto ainda não convenceu que pode almejar uma nova disputa pelo título à beira dos 40 anos.

Já Belfort reafirmou que vai se aposentar. Não sei se ele ainda se empolga em assinar um novo contrato com o RIZIN, por exemplo, para enfrentar Fedor Emelianenko longe dos controles rigorosos do MMA ocidental. Seja como for, obrigado pela carreira repleta de momentos espetaculares de um dos mais empolgantes lutadores de todos os tempos – para o bem e para o mal (dele).

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Preliminares do UFC 224

– Não vi a luta do Cezar Mutante pois liguei o SporTV Play no celular para assistir ao Lomachenko na mesma hora (Alexandre sempre correto). Porém, dei umas olhadas nos intervalos de rounds do boxe e percebi que Mutante fez o jogo certinho: protegeu o queixo duvidoso e jogou o ex-kickboxer profissional Karl Roberson no chão antes de colocá-lo para dormir o sono dos justos.

– A Roberson, o mesmo conselho dado a Israel Adesanya outro dia: melhore sua luta agarrada para ontem.

– O Top 10 do Futuro acertou com muita gente. Talvez seja cedo para cravar o primeiro erro, até porque trata-se de um cara novo, que pode eventualmente ser cortado e voltar depois mais experiente. Junior Albini tinha uma missão clara e não tão espinhosa: evitar o chão contra Alexey Oleinik e aproveitar as diversas brechas que o russo dá na troca de golpes em pé para nocauteá-lo. E o que Baby fez? Resolveu abraçar o adversário no meio do octógono. O clinch virou um ezequiel ainda em pé e Baby tomou outra decisão errada: calçou Oleinik e caiu por cima. Caiu por cima com o ezequiel encaixado. O brasileiro teve que batucar.

– Oleinik é um fenômeno. O estrangulamento ezequiel é bem raro de se ver no MMA. Esse sujeito finalizou 11 lutas assim. Baby foi o segundo no UFC. Muito sinistro.

Elizeu Capoeira segue sua sina de entregar lutas legais. Contra Sean Strickland, um chute alto rodado sensacional tirou o americano de órbita e abriu caminho para o nocaute técnico. Vida longa ao paranaense de Francisco Beltrão.

– Eu sei que Davi Ramos é um craque do jiu-jítsu, mas mesmo assim é bonito demais vê-lo aplicando transições e emendando com uma finalização. Faz parecer ser fácil.