Por Alexandre Matos | 08/04/2018 05:06

O cinturão do peso leve do UFC andou passeando por várias mãos nos últimos tempos. Neste sábado, porém, cumpriu-se o destino. A divisão mais cascuda do MMA mundial parece que agora será liderada a mão de ferro por um campeão que estava fadado à posição. Esta foi a principal história do confuso e excelente UFC 223, que aconteceu em Nova York.

Enquanto o peso leve tem um novo campeão, o palha viu sua rainha mostrar a todos que será preciso mais que um golpe para tirá-la do poder. O evento teve ainda um brasileiro fincando pé no ranking dos penas, outro russo apavorando a concorrência, um antigo favorito dos fãs chegando ao fim da linha e mais um monte de coisas legais.

Confira agora meus pensamentos a respeito do UFC 223 e vamos ao debate.

Enfim Khabib Nurmagomedov é campeão do UFC

Como eu comentei no Twitter durante a transmissão do evento, tem que ter muito culhão pra aceitar de última hora encarar um demônio igual o Khabib Nurmagomedov em cinco rounds depois de ter feito um camp de três rounds para enfrentar alguém com jogo diametralmente oposto ao do russo. Al Iaquinta merece nada menos que respeito.

Dito isso, que sapeca-iaiá o americano levou.

Nurmagomedov dividiu a luta em três atos. No primeiro, abriu vantagem de 20-16 usando seu conhecido jogo de pressão sufocante na luta agarrada, com direito a um ankle pick quase rasteiro, que provavelmente ninguém teria completado, mas que ele dá um jeito. Iaquinta entrou em modo de sobrevivência com o cavalo do cão em suas costas ou sobre seu tronco largando a mamona, fazendo peso e tentando uma finalização.

O segundo ato surpreendeu alguns que acham que o russo só sabe lutar wrestling e sambô. Khabib conduziu o terceiro e quarto rounds inteiramente na troca de golpes em pé e transformou o rosto do americano em purê de sangue com uma bateria de jabs que funcionavam parecido com uma britadeira. Iaquinta, que é um excelente boxeador, não conseguiu se defender das investidas do oponente. O russo baixou o ritmo e levou a luta na maciota, como se mandasse um recado para o resto da divisão (“Ei, não pensem que sou apenas um wrestler!”).

Já vencendo por 715 a 4, Nurmagomedov deixou Ragin’ Al crescer na quinta e última etapa. Por dois minutos, Iaquinta conseguiu acertar alguns bons golpes, mas errou outros por méritos defensivos do oponente, que mostrava boa noção de distância. Em seguida, Khabib voltou ao modo pressão, encurralou o americano na grade, acertou joelhadas e socos, completando o serviço com mais uma queda e um sufoco tremendo no solo, quase encaixando o mata-leão em duas oportunidades.

Ainda veio gente dizer que Nurmagomedov cansou (pessoal tem alguma tara com isso, não é possível). Teve até quem dissesse que Conor McGregor daria cabo dele em dois rounds. Cês só podem estar brincando. Conor não fica meio minuto em pé contra Nurmagomedov.

Na entrevista após receber o cinturão de campeão undisputed (sim, o UFC tirou o título de McGregor), Khabib pediu para enfrentar Georges St. Pierre no Madison Square Garden, no evento comemorativo dos 25 anos do UFC. POR FAVOR, NUNCA PEDI NADA. De quebra, disse que precisaria descansar 30 minutos, beber uma água e que voltaria ao octógono para enfrentar Tony Ferguson, McGregor ou até Daniel Cormier. Que homem!

Baita sujeito também é Iaquinta. Depois de se comportar com dignidade, ainda teve presença de espírito ao simular ansiedade na hora do anúncio do vencedor.

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Não será nada fácil tirar Rose Namajunas do trono

Você era um daqueles que achou que Rose Namajunas teve sorte na primeira vitória sobre Joanna Jedrzejczyk?

Rose teve mais uma atuação magnífica diante da maior lutadora da história da divisão. Ao contrário do que costuma fazer, Jedrzejczyk iniciou o combate em ritmo acelerado, sem deixar a campeã ficar à vontade no controle de distância. Foi exatamente esta disputa que fez a luta ficar tensa e de enorme qualidade técnica. Quando Namajunas entendeu a movimentação da ex-campeã, logo se ajustou para voltar a acertar a polonesa com o gancho de esquerda que definiu a parada na primeira luta.

O primeiro round foi muito equilibrado e pode ter dado a impressão que Joanna venceu por ter acertado duas bombas nos segundos finais, quando Rose errou ao aceitar a pancadaria franca. Porém, na minha visão, prevaleceu a maior precisão da campeã em toda a parcial. Embora com muito ímpeto, Joanna errava mais golpes que o normal por causa da movimentação de Namajunas, que ora ficava muito longe, saindo da alça de mira da rival, ora voltava rapidamente para deixar um soco enquanto o braço da europeia voltava. Assim, Thug Rose abriu 20-18 na minha contagem.

No terceiro assalto, entramos naquela situação clássica das lutas de Jedrzejczyk, que costuma crescer de produção na segunda metade dos combates. Mas ela precisaria de algo diferente, porque apenas impor pressão não adiantaria. O que fazer para quebrar a movimentação de Namajunas? Chutes baixos era a pedida. E foi o que Joanna fez.

A polonesa mudou o andamento da luta. Com as pernas alvejadas, a movimentação de Rose caiu e, com ela, a eficácia dos ganchos de esquerda. Sem conseguir ter o controle da distância, Namajunas passou a ficar exposta até ao thai clinch. Quando a luta entrou no quinto assalto, o momento parecia ser da desafiante, mas a campeã mostrou que nunca foi um acidente de percurso. Com muito coração, Rose voltou ao ataque e ainda arrefeceu uma tentativa de Joanna com uma queda providencial. Mesmo sem se beneficiar na pontuação, pois a queda não foi seguida de nenhum movimento ofensivo, Namajunas parou o crescimento da adversária e fez valer o maior volume de golpes acertado durante o assalto.

Numa luta tão parelha, eu marquei 48-47 a favor de Namajunas, mas não me incomodaria se a vitória fosse marcada para Jedrzejczyk pelo mesmo placar. O que incomodou mesmo foram os três juízes da sempre trapalhona Comissão Atlética de Nova York, que deram um exagerado 49-46 para a campeã.

Não tardou para começarem a conjecturar a possível próxima defesa de Rose contra Jessica Andrade, dizendo que a americana é uma luta mais fácil para a brasileira do que a polonesa. Olha, não quero ser o mensageiro do apocalipse, mas acho que isso é uma avaliação meio precipitada. Junte a tendência que Jéssica tem de avançar aberta e a capacidade que Rose tem construído de golpear em movimento – lembre até o que Tecia Torres fez no primeiro round contra Andrade – e provavelmente teremos um cenário da simpática Bate-Estaca levando soco na cara da Thug até o sol raiar. Pelo menos ela tem um tempo para trabalhar esse problema com o técnico Gilliard Paraná.

Já Jedrzejczyk poderia subir de categoria para revitalizar a rivalidade que tinha com Valentina Shevchenko no muay thai. Porém, isso não deve acontecer, pelo menos no curto prazo, pois a polonesa disse que sentiu o corte de peso muito tranquilo e que achou que venceu o combate, então vai continuar no peso palha. Que pena.

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Renato Moicano tem ótima atuação e volta a olhar para a frente

Perder para Brian Ortega foi um prejuízo enorme para Renato Moicano. Além de ver o oponente envolvido numa eliminatória (que ele venceu), ainda teve que dar um passo muito para trás enfrentando um prospecto. Contra Calvin Kattar, o brasiliense teve um ótimo desempenho que o solidificou como um integrante fixo no ranking do peso pena.

Moicano entrou meio desligado e acabou vitimado por alguns potentes golpes do americano por se movimentar erradamente, saindo para o lado forte de Kattar sem usar nenhum deslocamento em diagonal. O primeiro round estava indo para o vinagre, como realmente foi, quando Renato conseguiu se adaptar com o avião em pleno voo. Ele acertou a movimentação lateral, o que fez com que os chutes baixos e os jabs passassem a entrar com frequência.

A partir dali, Moicano foi de uma obediência tática incrível. Sem ser o alvo estático do começo do combate, os contragolpes, sua principal arma, passaram a funcionar. Aqui entra um problema de Kattar, que não conseguiu fazer o que Moicano fez: ao perceber que a luta virou para o brasileiro, o americano não foi capaz de mudar os rumos do combate. Ele poderia ter encurtado, levado para o clinch na grade, tentado derrubar, mas pareceu faltar capacidade técnica para tal. Como não é nenhum menino, Calvin precisa voltar para a sala de aula com urgência para expandir seus horizontes.

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Zabit Magomedsharipov vai ficar constrangendo a concorrência enquanto não derem um ranqueado para ele

Eu não vou ficar repetindo a cada luta de Zabit Magomedsharipov que estamos diante de material especial. Vou deixar suas próprias atuações reforçarem. Neste sábado, ele deu mais um show, agora contra Kyle Bochniak.

A soma da base no wushu com o boxe de Mark Henry deram uma noção de distância especial a Magomedsharipov. Mesmo contra um sujeito que se mostrou agressivo durante todos os 15 minutos, parecia que Zabit sabia sempre onde deveria estar. A base falsa, que deixa o pé dianteiro bem mais à frente que o queixo, confundia o americano, que jogava socos que paravam um centímetro do rosto do russo. Na movimentação rápida, dava a impressão que o duelo estava parelho, quando na verdade ele era unilateral numa visão mais atenta.

Zabit voltou a abrir sua vasta caixa de ferramentas, com socos, chutes, joelhadas e até uma queda genial – não basta ser difícil encará-lo na troca de golpes, mas o sujeito é bom também na luta agarrada e tem tempo preciso para as quedas. A agressividade de Kyle era retaliada pela capacidade de golpear recuando ou se movimentando para os lados. Como andava sempre para a frente e soltava golpes em alta quantidade, Bochniak enganou uma pá de gente com um equilíbrio que não aconteceu em momento algum.

No terceiro assalto, um sinal de alerta para o russo, que mostrou uma queda de rendimento mais acentuada. Bochniak então deu uma de doido e fez a luta descambar para uma animada troca de socos. Mesmo aparentando cansaço, Magomedsharipov conseguiu fazer o adversário errar muitos golpes enquanto o acertava com alguns socos potentes.

 

É legal a ideia do UFC em trabalhar a carreira de Magomedsharipov com calma, fazendo ele dar um passo de cada vez, mas ele já tem condições de enfrentar alguém por um lugar no ranking. Com três lutas no UFC, Zabit ganhou dois bônus de desempenho e o de melhor luta neste UFC 223. Se não acontecer um acidente de percurso, esse sujeito em breve estará disputando com a elite da divisão.

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Triste fim o de Joe Lauzon…

É bem mais normal do que se pensa um lutador muito melhor perder para um oponente muito inferior por estar em condições decrépitas. Aconteceu com Rashad Evans contra Dan Kelly e Sam Alvey, com Gray Maynard contra Ryan Hall, com Thiago Pitbull contra Curtis Millender, com Takanori Gomi contra Dong Hyun Kim fake e contra Joe Tuck, com Josh Koscheck contra Mauricio Alonso. Isso só para ficar na memória recente. Neste sábado, aconteceu com Joe Lauzon contra Chris Gruetzemacher. Natural. MMA é um esporte tão intenso que a técnica não compensa certo nível de apodrecimento físico.

Lauzon tentou usar o pouco que lhe resta no começo do combate, quando acertou Gritz com bons golpes. Porém, o pouco que lhe resta é realmente pouco. A partir dali, J-Lau virou uma espécie de figurante da série The Walking Dead, avançando para cima dos socos de Chris, com o rosto todo inchado e sangrando, como se fosse um zumbi. A luta foi ficando unilateral e agoniante. Lauzon, um rascunho de si próprio, era lento e nada móvel, incapaz de escapar das investidas do limitado oponente.

Quando já estava bom de parar a luta, uma surpresa agradável. O córner de Lauzon percebeu que seu pupilo não só já tinha engolido castigo demais como não tinha a menor condição de reverter o quadro e decidiu jogar a toalha, numa atitude rara no MMA. Que mais córneres tenham essa atitude responsável com seus atletas.

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Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.