Por Alexandre Matos | 04/03/2018 04:43

Tremenda noite de lutas neste sábado para quem curte MMA e boxe. O UFC 222, que aconteceu na T-Mobile Arena, em Las Vegas, Nevada, dividiu minhas atenções com o duelo entre Deontay Wilder e Luis Ortiz, que rolou no Barclays Center, no Brooklyn, Nova York.

No octógono mais famoso do mundo, mais uma vez a campeã mais dominante do MMA triturou uma vítima; outro ídolo envelhecido passou o bastão para a nova geração; um favorito dos fãs mostrou evolução; estreantes chegando com vitórias e muito mais.

Confira a seguir as minhas impressões sobre o UFC 222 e vamos ao debate.

Tudo na mesma no peso pena feminino

A categoria peso pena feminina não existe, todas as lutas são pelo cinturão e não há elenco ou ranking. O UFC tem que ir ao mercado trazer alimento para a campeã Cris Cyborg. A paranaense fez o que dela se esperava ao desmantelar Yana Kunitskaya em pouco mais de meio round.

Cris Cyborg desmantelou Yana Kunitskaya na luta principal do UFC 222 (Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC via Getty Images)

Cris Cyborg desmantelou Yana Kunitskaya na luta principal do UFC 222 (Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC via Getty Images)

A russa não tinha nada de boba e tratou logo de encurtar a distância, aplicar um single leg e grudar Cyborg na grade. Boa estratégia para tentar cansar os braços da campeã e tirar o espaço dos potentes golpes de Cris. Adiantou alguma coisa? Claro que não.

Quando conseguiu se desvencilhar da pressão, Cyborg largou um direto de direita em cheio. Ali, a alma de Kunitskaya se esvaiu e o medo tomou conta de sua fisionomia. Cris sentiu o cheiro do pavor e mandou couro na linha de cintura e na cabeça da russa. Yana tentou agarrar as pernas da campeã no desespero, mas o esforço só serviu para que o ground and pound descesse sem piedade. Herb Dean interrompeu o espancamento na marca de 3:25.

Esta foi a quinta vitória de Cyborg no UFC e a segunda defesa do cinturão. Talvez o UFC consiga marcar o duelo da brasileira com Megan Anderson, único confronto que ainda faz sentido, ou então casar a super luta contra a campeã do peso galo, Amanda Nunes. Ambos os casos seriam melhores do que a melancólica situação da categoria que não existe.

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Max Holloway, você tem um novo compromisso

Pela divisão dos penas masculinos, o campeão Max Holloway deveria fazer a luta principal do UFC 222 contra Frankie Edgar, mas se machucou e abriu espaço para o invicto Brian Ortega. Resultado: Edgar não vai mais disputar o cinturão. E foi da maneira mais brutal possível.

Brian Ortega foi o primeiro a nocautear Frankie Edgar

O pequenino ex-desafiante até começou bem. Com sua conhecida movimentação, Edgar usou o boxe para combinar socos na cabeça e no corpo de Ortega, fazendo o rival se posicionar de modo defensivo. Quando Brian entendeu o jogo de pernas de Frankie, conseguiu se aproximar. Sem deixar o veloz baixinho bater e sair, Ortega acertou uma sensacional cotovelada em pé, que tirou Edgar do ar. Quando tentou se recuperar, Edgar foi vitimado por um uppercut que tirou seus pés do chão. Ortega não perdeu tempo e liquidou a fatura com duas marteladas no chão.

Foi chocante ver Frankie Edgar nocauteado pela primeira vez na carreira. E foi lindo ver mais uma passagem de bastão de uma geração tão talentosa quanto essa que vem tomando o peso pena de assalto. Não resta dúvidas que o próximo compromisso de Ortega deve ser com Holloway. Eu já estou empolgado, torcendo para que o UFC marque-a como luta coprincipal de Stipe Miocic contra Daniel Cormier, no UFC 226. Podem me aguardar em Las Vegas.

Ah, acho que ainda cabe pelo menos uma tentativa de Edgar no peso galo. Contra caras menores e menos fortes, talvez os 36 anos pesem um pouco menos, ainda que a elite de baixo seja ainda mais selvagem que a dos penas.

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Sean O’Malley ganha créditos com uma atuação sólida

Super confiante e dono de um estilo empolgante, Sean O’Malley ganhou moral dos patrões, que lhe escalaram numa posicão privilegiada de um card principal de pay-per-view. E ele não decepcionou. Na melhor atuação de sua carreira, “Suga” atropelou Andre Soukhamthath enquanto teve pernas.

Tudo bem que Soukhamthath colaborou com a vitória do rival ao atuar de modo lento e burocrático por boa parte do combate. Mas não dá para esconder os méritos de O’Malley, que exibiu evolução na troca de golpes e na luta agarrada.

O primeiro round foi dominado no striking por “Suga”. Andre simplesmente parecia não saber onde estava diante das constantes trocas de base, dos golpes plásticos e da versatilidade do ataque de O’Malley. Na segunda etapa foi a vez de Sean mostrar seu repertório no chão, ao tentar chave de braço, triângulo, mata-leão e o escambau a quatro.

O cenário parecia se repetir no terceiro round, quando um acidente mudou os rumos da luta. Ao tentar um chute alto, O’Malley foi bloqueado por Soukhamthath e pareceu ter quebrado a perna. Ele mal conseguia ficar de pé e acabou oferecendo uma avenida para Andre percorrer até uma vitória por nocaute. Pô, era só encher a perna do adversário de bica. Porém, acho que Soukhamthath se sentiu mal de se aproveitar de uma lesão e brilhantemente decidiu derrubar O’Malley e buscar uma finalização. Não só não deu certo como Soukhamthath garantiu uma vaguinha na planilha do Barangão 2018 pelo movimento estúpido do ano.

No fim do combate, talvez o negócio mais esquisito que eu já vi num anúncio de vencedor. O’Malley teve seu nome gritado por Bruce Buffer quando estava deitado, recebendo atendimento médico e chorando de dor. A esquisitice seguiu quando Joe Rogan foi até o solo entrevistar o cidadão deitado.

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Ouvi falar que Andrei Arlovski venceu Stefan Struve

Graças aos deuses das lutas, Wilder-Ortiz calhou de acontecer na hora de Andrei Arlovski contra Stefan Struve. Obviamente, como cidadão de bem que sou, assisti ao boxe. Mais tarde, vou ver a vitória do bielorrusso e voltarei aqui pra comentar.

Mentira. Vou rever Wilder-Ortiz duas vezes.

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Amanda Nunes definitivamente está na mira de Ketlen Vieira

Já são quatro lutas no UFC, quatro vitórias e duas ex-desafiantes deixadas para trás. Neste sábado, Ketlen Vieira não tomou conhecimento de Cat Zingano e penetrou ainda mais no top 5 do peso galo.

Zingano chegou a ter seus momentos, quando usou bem os chutes baixos e mostrou mais técnica na combinação de golpes. Porém, a americana não conseguiu se sustentar defensivamente em nenhum aspecto do jogo. Quando Vieira acertou o tempo tanto dos punhos quanto das quedas, a luta ficou desigual.

Mesmo com golpes mais simplórios, a brasileira vazou a guarda da oponente inúmeras vezes. Como Zingano se movimentava mal, Ketlen não encontrou dificuldades para se aproximar. A judoca aplicou quedas em todos os rounds e passeou no solo com passagens de guarda, ground and pound e uma tentativa de katagatame. Cat tentou uma ofensiva na última parcial, mas era tarde demais.

É triste ver como tantos infortúnios seguidos minaram a carreira de uma lutadora tão talentosa quanto Zingano, que já deu um sapeca-iaiá na atual campeã da categoria. Ketlen não tem nada com isso e deu mais um importante passo na direção de Amanda Nunes.

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Preliminares do UFC 222

– Na principal preliminar do UFC 222, a estreante Mackenzie Dern conseguiu uma importante vitória sobre Ashley Yoder, mas deixou alguns problemas visíveis. Ao invés de insistir na luta agarrada, a ex-campeã mundial de jiu-jítsu resolveu trocar socos, mesmo ainda estando num estágio inicial de desenvolvimento técnico. Resultado: cedeu um round para Yoder e quase entregou a luta, não fosse uma queda providencial no terceiro assalto. Ah, assim como várias outras estrelas da arte suave, Dern precisa diversificar o limitado jogo de quedas e treinar wrestling até o cu fazer bico.

– Muito rápido e excelente wrestler, John Dodson era um matchup muito ruim para Pedro Munhoz. Porém, o brasileiro é um atleta que tem evoluído a cada luta. Em certos momentos, principalmente no segundo round, o brasileiro da American Top Team conseguiu diminuir a velocidade postando-se na cara de Dodson. Mas quem consegue essa proeza por muito tempo? Apesar dos esforços, Dodson era um matchup muito ruim.

– Imagine a situação: você é um jovem prospecto de uma academia pequena e recebe um chamado do UFC para enfrentar o talentoso, experiente e ranqueado Beneil Dariush com 15 dias de antecedência. A maioria ficaria receosa e tentaria “perder de pouco”. Alexander Hernandez largou a mão na cara do iraniano e conseguiu um surpreendente nocaute em 40 e poucos segundos de luta.

– A maior polêmica da noite aconteceu no duelo entre CB Dolloway e Hector Lombard. No estouro do cronômetro encerrando o primeiro round, o cubano acertou o americano com um jab. O árbitro Mark Smith gritou “Time!” duas vezes, mas mesmo assim Lombard enfiou um violento direto de direita. CB caiu sem saber onde estava e não conseguiu se recuperar a tempo de voltar para a luta. Como Smith considerou que o segundo golpe poderia ter sido evitado, desclassificou Lombard. Com cinco derrotas seguidas e um no contest por doping, este certamente será o fim de linha no UFC para o cubano, que já tem 40 anos.

– Quem também vai meter o pé do UFC, mas por outro motivo, é Mike Pyle. O veterano deu mais uma mostra que seu queixo de pedra virou pó e sofreu o terceiro nocaute seguido, desta vez pelas mãos de Zak Ottow. Aos 42 anos, Pyle nos deixa tristes ao anunciar a aposentadoria e ao cortar o mullet. Vai em paz e obrigado pelos ótimos momentos.

Fundador e editor-chefe do MMA Brasil. Colunista do site oficial do UFC. Prestes a se aposentar e virar colunista especial do próprio site.