Por Alexandre Matos | 11/02/2018

Espero que quem trocou o UFC 221 pela folia (como odeio essa palavra) tenha se divertido muito, porque quem decidiu ficar em casa certamente não tem do que reclamar pelo menos do card principal.

O evento, que aconteceu neste sábado, na cidade australiana de Perth, entregou uma animada pancadaria na melhor luta da noite, nocautes avassaladores, sujeitos carismáticos derrotados, Top 10 do Futuro vencendo com sobras e a estreia de uma potencial nova estrela.

Acompanhe minhas reflexões sobre o UFC 221 e vamos ao debate.

Quarentão Yoel Romero, o Sr. Terceiro Round

Sujeito danado, esse Yoel Romero. Deus me livre de me trancar com um cidadão desses num cage. O cubano mandou mais uma alma para as mãos do palhaço. A vítima da vez foi Luke Rockhold, que morreu, mas passa bem.

O combate foi muito interessante, como esperado. Rockhold, com seu camp híbrido de Javier Mendez/Henri Hooft também no córner, apresentou novos aspectos em seu jogo e uma velha deficiência que decidiu a parada de modo dramático.

O americano adotou em boa parte da luta uma movimentação inteligente. No começo, chutes baixos com intensidade para minar a base de equilíbrio de Romero e tirar dele a explosão necessária para mudar de nível com as quedas. Luke também teve um bom trabalho (no ponto de vista ofensivo) com os punhos em conjunto com o jogo de pernas, ora jogando jabs seguidos, ora mandando ganchos enquanto saía lateralmente. Tudo muito bom se ele conseguisse manter o fluxo. E se não cometesse seu mais característico erro defensivo.

Rockhold venceu o primeiro round, apesar do queixo alto (o volume ofensivo acabou o protegendo). No segundo, uma blitz nos momentos iniciais mostrou o caminho a ser explorado. Rockhold sobreviveu, mas ficou mais plantado e tornou a luta mais aberta.

O ex-campeão não consegue resolver o problema de socar e voltar com o punho muito baixo. Some isso ao queixo alto – Rockhold normalmente é mais alto que seus adversários – e temos a receita para o desastre. Deu errado contra Michael Bisping. Quase deu contra David Branch. O que um cavalo como Romero faria? Estrago. Dos grandes.

Romero ainda traz outro problema: como é um wrestler de nível mundial, os punhos dos adversários não podem ficar muito altos sob pena de um quedão arrastá-los cinco metros longe. Luke deveria socar, voltar com o punho alto para se proteger, recuperar a postura de equilíbrio e, aí sim, baixar as mãos para defender uma eventual queda. E o cubano percebeu a falha.

A pancada de esquerda de Romero entra por cima da direita baixa de Rockhold

A pancada de esquerda de Romero entra por cima da direita baixa de Rockhold

No terceiro round, Rockhold parecia ter acertado a movimentação de vez. Foi quando Yoel induziu Luke ao erro de modo brilhante. O caribenho lançou alguns jabs bem baixos para desviar a atenção do oponente. Um deles foi na coxa de Rockhold. Quando socou na cabeça novamente, Romero fez o rival responder e voltar com o punho baixo. Romero capitalizou de modo bárbaro: uma canhota batizada pelo sete-pele pegou na têmpora de Rockhold e o mandou a knockdown todo torto. Chamando urubu de meu louro, o americano tentou se levatar, mas levou um soco tão brutal que parecia um coice de um jegue xucro. Deu agonia ver a cabeça de Rockhold ricochetear no poste da grade.

A vitória de Romero, a sétima do equino cubano no terceiro assalto, embolou o cenário. Como ele não bateu o peso, ficou inelegível para o cinturão interino. Chris Weidman tem 1-3 no retrospecto recente; Kelvin Gastelum foi varrido por Weidman e não venceu um top 5 reconhecido; Jacaré perdeu para todos da elite e foi espancado por Robert Whittaker. Mesmo sem a coroa interina, capaz de Romero ganhar a revanche contra o campeão com o histórico de ter nocauteado Weidman e Rockhold e ter batido Jacaré.

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Curtis Blaydes vence Mark Hunt no modo easy, mas não antes de passar pelo hard

Quando Curtis Blaydes se aposentar, terá orgulho de um feito que raros conseguiram: tomar soco na cara de Francis Ngannou e de Mark Hunt e seguir vivo na luta.

Havia um caminho bem claro para o americano no combate, o das quedas, controle posicional e ground and pound. Só que ele tratou de dificultar as coisas quando tentou mostrar para o povo que melhorou no striking e poderia encarar um craque como Hunto. Pois o neozelandês largou uma bigorna na cabeça de Blaydes, que viu o chão virar gelatina. Quando o cérebro parou de chacoalhar e os sentidos foram recobrados, Curtis percebeu que não poderia brincar de roleta russa com os punhos do Super Samoano e tratou logo de botar pra baixo. Assim terminou a luta.

Hunt mostrou evolução na defesa de quedas em tempos recentes, mas o estado atual de seu corpo não permite maiores graças e ele acabou se tornando a encarnação de um dos ditados de Rocky Balboa: a última coisa que abandona um homem é seu soco. Mark basicamente se resume a isso atualmente e Blaydes só foi estúpido por alguns minutos. No resto da luta, quedas assim que possível, peso em cima do veterano para desgastá-lo e ground and pound. Vimos um 10-9 no segundo e um 10-8 no terceiro. Espero que Hunto coloque um ponto final em sua bela carreira.

Não foi possível saber quem pontuou a luta, pois a comissão atlética da Austrália Ocidental não divulga os nomes e os placares de cada um dos juízes oficiais. Muito sinistro. Se eu fosse lutador, não aceitaria lutar sob essa regra. Vai que a comissão inventa um placar ao bel-prazer?

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Tai Tuivasa vai fazendo seu nome às custas de oponentes de baixo nível

Se Hunto perdeu, seu parceiro de treinos Tai Tuivasa deu alegrias aos fãs. O bruto australiano acabu com a raça do limitado francês Cyril Asker.

Sequer chegou a ter disputa. Assim que o primeiro gancho de esquerda entrou, Tuivasa liberou o inferno em forma de socos e cotoveladas em pé brutais. Uma delas fez Asker desabar. Nem tem muito o que analisar.

Apesar das sete vitórias no primeiro round em sete lutas na carreira, não se empolgue muito com Tuivasa.

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Jake Matthews supera sujeira e disposição de Li Jingliang

O hype do chinês Li Jingliang estava elevado por causa de suas quatro vitórias seguidas, o carisma e a cara feia de sanguessuga. Até gente experiente caiu no conto no duelo contra Jake Matthews, sem se dar conta que o confronto de estilos era muito desfavorável ao asiático. Tinha que acreditar muito que Matthews teria outra atuação ruim – mas ele não é Top 10 do Futuro à toa.

Foto: Jeff Bottari/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images)

O australiano se mostrou finalmente adaptado ao peso meio-médio. Matthews estava grande e forte, mas sem parecer que carregava sobrepeso. E, fora alguns momentos em que se empolgou ao trocar pau com o agressivo chinês, não teve dificuldades para vencer.

Um knockdown no primeiro assalto abriu caminho para Matthews escalar a guarda, chegar à montada e misturar ground and pound com tentativas de finalização. No segundo, uma guilhotina pareceu bem encaixada, mas o “Garoto Celta” perdeu a pegada. No terceiro, mais um knockdown, duas quedas e um passeio tranquilo. Apesar de estar sempre um passo à frente, Jake não teve sossego por pelo menos uns 12 minutos, já que Jingliang encaixou muitos golpes e também acertou o australiano com algumas pancadas duras. O confronto foi merecidamente bonificado como o melhor da noite.

Cabe um parêntese sobre a atuação suja de Jingliang. Ele cometeu uma falta no primeiro assalto ao manipular pequenas juntas nos dedos de Matthews. No segundo, uma cabeçada que pareceu não intencional abriu um corte no rosto do australiano. Porém, Li exagerou na sequência. Desesperado para tentar sair da guilhotina, ele meteu uns quatro dedos nos dois olhos de Matthews. O ridículo árbitro Mark Simpson só fez chamar atenção, sequer tirou um ponto – na verdade, Jingliang poderia ter sido desclassificado, pois a falta foi muito proposital.

Agora, fica a torcida para que: Jingliang esqueça as sujeiras e volte a ser apenas o carismático melhor pior lutador do UFC; e para que Matthews tenha se encontrado na carreira, embora por várias vezes tenha adotado uma estratégia não muito inteligente neste combate.

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Tyson Pedro se recupera colocando o nome da planilha de melhores do ano

Outro indicado no Top 10 do Futuro no UFC 221, Tyson Pedro voltou a mostrar porque merece a aposta. Ele aplicou uma finalização sensacional em Saparbek Safarov.

Pedro cedeu uma queda no começo, mas se levantou logo e aplicou uma pressão intensa com socos, joelhadas e bicas. Quando Safarov tentou mais uma queda, o australiano se defendeu aplicando uma kimura. Quando o russo tentou se desvencilhar, acabou com o ombro ainda mais exposto. Não houve outra alternativa senão batucar em sinal de desistência.

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Preliminares do UFC 221

Ben Nguyen tem talento para ir mais longe entre os pesos moscas, mas não toma decisões muito inteligentes no octógono e isso acaba freando seu avanço. Ontem, ele tinha pela frente um dos melhores grapplers da divisão, o potiguar Jussier Formiga. Mais técnico na troca de golpes em pé, o que Ben 10 decidiu fazer? Travar o brasileiro no clinch. Óbvio que a bola pune.

Jussier passou a aplicar quedas e dominar o combate no solo. Porém, o desfecho foi sensacional. Quando Nguyen tentou um chute, Formiga respondeu com um soco rodado que pegou em cheio na têmpora do rival. Nguyen foi à lona e Formiga foi babando para as costas do oponente e encaixou o mata-leão que fez Ben dormir o sono dos justos.

Jeremy Kennedy era um teste duro para Alexander Volkanovski, eles disseram. Risos. Com um ground and pound aterrorizante, o australiano integrante do Top 10 do Futuro espancou o canadense impiedosamente, sob o olhar complacente do ótimo árbitro Marc Goddard. O confronto poderia ter sido parado mais cedo, evitando vários minutos de sofrimento de Kennedy.

Ah, um aviso aos grinders que enfrentarem Volkanovski: bolem outra estratégia, porque não é saudável cair por baixo dele. O sujeito é bruto. E é muito Top 10 do Futuro.

– A carreira no MMA de Israel Adesanya pode nem ser tão boa como a do kickboxing, mas o nigeriano naturalizado neozelandês é o pacote completo para se tornar uma estrela. Com um vistoso e agressivo jogo ofensivo, o striker aniquilou Rob Wilkinson, apesar de ter mostrado falhas (naturais neste ponto de evolução de Israel) no grappling defensivo. De resto, entrou no octógono fingindo que estava mijando, como se fosse um cachorro marcando território, e saiu dele dizendo que vai aterrorizar a categoria e que nem Conor McGregor chegou ao UFC com tanto hype quanto ele.