Por Alexandre Matos | 21/01/2018

Noite de trabalho para o controle remoto neste sábado, variando entre o UFC 220 e o Bellator 192. Noite saudosa também para os fãs de basquete, que viu os icônicos ginásios Boston Garden e Forum de Inglewood serem palco dos dois eventos.

Três disputas de cinturão, com três resultados previsíveis, mas não com desenrolares previsíveis. Prospectos caindo, outros subindo e se firmando. Nocautes brutais, finalizações e muita demonstração de coração.

Acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC 220 e o Bellator 192 e vamos ao debate.

Stipe Miocic em: “Se a mão entrar”, lição número 274

MMA não é disputa de força bruta (ainda bem), mas pelo visto tem muita gente precisando se ligar nisso. Stipe Miocic deu mais uma demonstração que, no nível de elite, se sua única arma é “a mão entrar”, melhor nem sair de casa. Acho que vocês já leram isso aqui, né? Francis Ngannou, não.

Fora alguns momentos no primeiro assalto, Miocic levou a luta na maciota. Ele provou que o nocaute contra Stefan Struve foi um desvio de percurso ao encaixar algumas pancadas de Ngannou. Fora isso, o controle de distância magistral definiu a parada. O campeão variou entre a movimentação lateral na longa distância e as quedas para dizimar o parco reservatório de gás do desafiante.

Ngannou mostrou um ponto positivo no combate: sua defesa de quedas é melhor do que eu imaginei. Não que seja um, oh, ele é o Kyle Snyder, mas serviu para ficar em pé por mais tempo. O problema é que, como ele não chuta nem dá joelhada, praticamente deixa uma avenida para um wrestler do naipe de Miocic fazer o ataque de pernas lá embaixo sem ser vitimado por uma porrada. Executando a entrada rapidamente, Stipe parecia saber que Francis até defenderia alguns movimentos, mas que ficaria muito cansado no processo. Para piorar, o camaronês não tem a menor ideia do que fazer quando está com as costas no chão. Passou tempo demais com os ombros chapados no tablado e não fez menção de sair de quadril para escapar da pressão.

Round após round, Miocic repetiu a estratégia de derrubar e misturar ground and pound com praticamente se pendurar com todo o peso nas costas do africano para cansá-lo. Anotou um 10-8 contra os farrapos de Ngannou no quarto assalto, chegou a 181-29 nos golpes acertados e descansou no quinto, para não correr riscos (vai que). De quebra, mostrou que não basta ter o maior punch da história e ainda mandou um recado indireto: vamos com calma com esse papo de que Ngannou será campeão um dia. Ele tem muito o que melhorar nos campos técnico e tático para tal – isso sem falar no aspecto cardiorrespiratório, porque aí é bater em bêbado.

Repitam mentalmente: quando falamos do mais alto nível, de elite, “acertar a mão” não pode ser solução. No máximo será uma alternativa desesperada.

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Daniel Cormier é o monstro desvalorizado

Não tenho medo de afimar que Daniel Cormier é um dos melhores lutadores da história do MMA em todas as categorias. Volkan Oezdemir foi a vítima da 20ª vitória da carreira de DC em igual número de lutas contra quem não se chame Jon Jones. O problema é que, como Daniel perdeu as duas para Bones, muitos não dão ao campeão o devido valor.

Foto: Josh Hedges/ZUFFA/Getty

Foto: Josh Hedges/ZUFFA/Getty

Neste sábado, Cormier mostrou mais uma vez porque é um monstro. O suíço tentou esticar sua mística de nocautes a jato, mas o crânio de DC é composto de outro material. Depois de balançar com duas pauladas, Cormier tratou de botar o wrestling para jogo. Se em pé o duelo teve certo equilíbrio por uns três minutos, no chão foi um vareio.

Cormier é tão monstro que nem podemos dizer que o wrestling o salvou. Depois do susto inicial, ele mapeou as investidas de Oezdemir, que, convenhamos, não é um primor técnico, e acertou diversas pancadas no suíço, dando a impressão que poderia até mesmo vencer por nocaute. Mas se Volkan resistiu no primeiro assalto, sucumbiu no segundo. O single leg mais mortal do MMA funcionou mais uma vez e Cormier teve Oezdemir por baixo com um longo tempo pela frente. Aí não teve jeito: tome de couro na cara até o árbitro Kevin MacDonald interromper no terceiro minuto.

A questão que fica é: com Jones à beira de levar um gancho pesado pela reincidência no doping e com a divisão já varrida, o que fazer com Cormier, que parece ter dificuldade de bater o limite do peso meio-pesado a cada luta? Talvez o UFC tente promover uma rixa com Stipe Miocic no que seria o combate de aposentadoria do astro da AKA. Para isso, seria preciso descobrir o que Cain Velasquez, amigo pessoal e parceiro de treinos de Cormier, vai fazer da vida.

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Chael Sonnen vence Rampage Jackson

Nemvy & Nemverey.

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Rory MacDonald finalmente é campeão, mas não foi fácil

Quando o Bellator tirou Rory MacDonald do UFC, muita gente acreditou, inclusive eu, que o canandense não teria dificuldade de enfileirar cinturões na nova casa. Bom, ele ainda pode cumprir a “profecia”, mas o primeiro, conquistado neste sábado, já foi às custas de sofrimento. Douglas Lima não teve a maior atuação da sua vida, mas deu trabalho.

Como esperado, MacDonald lançou mão do wrestling como ferramenta principal para confrontar o striking do campeão. Deu certo nos dois primeiros rounds por conta da passividade ofensiva de Lima, mas não deu tãããão certo porque o brasileiro melhorou sua condição de se defender dessas investidas.

Quando o nível de chutes baixos de Douglas começou a subir, Rory passou a ter problemas, chegando a ir à lona depois de uma bica que deve ter levado ligamento cruzado anterior e o colateral. Lima maltratou tanto a perna esquerda do desafiante que parecia que tinha uma canela nascendo na canela de MacDonald. Só que, além de ser um lutador excelente e muito inteligente, Rory tem um coração de lutador imenso – UFC 189 <3

Depois de reverter uma queda e passar quase um assalto batendo por cima, Lima pareceu mudar o panorama do combate. Porém, quando o campeão preparou a bica na canela definitiva, Rory se antecipou e mergulhou numa queda sensacional. O ground and pound não foi volumoso, mas intenso o suficiente para fazer um juiz virar o placar da parcial. No último round, MacDonald voltou com a base invertida, a perna machucada protegida e não perdeu tempo para levar o campeão para o solo.

No fim das contas, 48-47 (rounds 1, 2 e 5) e 49-46 (rounds 1, 2, 4 e 5) foram resultados aceitáveis a favor de MacDonald. Foi o que dois dos juízes marcaram – o terceiro apontou um estapafúrdio 49-45, sinalizando um 10-8 inexistente. De qualquer maneira, o cinturão passou merecidamente para a casa de Rory MacDonald.

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Michael Chandler em: “Não faça guarda no MMA contra um wrestler de elite”, lição 736

Dentre as várias falácias do MMA, “só o jiu-jítsu salva” é uma das que eu mais acho graça. O bagulho dá errado 735 vezes e, quando dá certo, vem uma pá de pachecos enchendo a boca. Goiti Yamauchi foi mais um a tentar, mas Michael Chandler lembrou que vale soco e cotovelada no MMA.

Nos três rounds da disputa, quando o ex-campeão acertou uma queda e caiu por cima, terminou a competitividade da parcial. Com um controle posicional sufocante e um ground and pound incansável, Chandler maltratou o rosto do jovem talento brasileiro.

Goiti, menino repleto de recursos, teve um excelente momento no segundo assalto. Usando sua base de caratê, ele acertou alguns diretos em cheio no oponente e só não encerrou a luta num belo chute alto rodado porque não atingiu o queixo do americano com o calcanhar – Chandler catou cavaca pra trás, bateu na grade, mas não caiu. Para piorar, ainda acertou uma queda.

Esta realmente era uma luta complicada para Yamauchi, dada a diferença nos estágios das carreiras. Se eu puder dar uma sugestão que não vale nada, diria que ele e o técnico e tio Ossamu deveriam se juntar a uma equipe de ponta nos Estados Unidos. Com o talento de Goiti, a visão de Ossamu e o material humano, tecnológico e alimentar encontrado na América do Norte, ainda há tempo de transformar o pequeno samurai em campeão do Bellator.

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Gian Villante vence Francimar Bodão

Socorro.

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Thomas Almeida melhora, mas não a ponto de evitar mais um nocaute

Quando o nível dos oponentes de Thomas Almeida subiu, suas dificuldades defensivas ficaram cada vez mais expostas. Mesmo apresentando alguma evolução, o paulista voltou a ser nocauteado, desta vez por Rob Font.

Thominhas teve bons momentos no fim do primeiro assalto pela estratégia de Font em buscar a luta agarrada. Nas diversas aproximações para tentar o clinch ou a queda, o americano começava com um bom uso dos jabs, mas acabava parando no raio de ação e recebia alguns golpes pesados do brasileiro. Porém, o cenário mudou na parcial seguinte.

Font passou a obter sucesso quando resolveu pressionar Almeida com um volume de golpes mais acentuado. Deste modo, ele expôs as dificuldades defensivas de Thominhas e acertou diversos socos violentos. O brasileiro mostrou coração, tentou suportar o quanto pode, mas a pressão era demais e um brutal chute alto seguido de socos deu contornos finais à peleja na marca de 2:24 da segunda etapa.

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Aaron Pico aniquila mais um

Pegue um moleque de 21 anos que disputava o circuito internacional de wrestling batendo de frente com os melhores do mundo e que é apaixonado por boxe e jogue-o para treinar com Miguel Cotto sob a supervisão de Freddie Roach. Em paralelo, faça-o buscar treinos em outros lugares, mas sem abandonar sua base muito forte numa das melhores academias de MMA do mundo, a AKA. Aaron Pico está no caminho do estrelato.

Além das várias credenciais, Pico tem um estilo de luta empolgante, típico para angariar fãs. Com uma mentalidade agressiva desde o primeiro segundo, ele tratou de caçar Shane Kruchten pelo cage até encurralá-lo contra a grade. Deixando os punhos fluírem com habilidade, Pico variou entre corpo e cabeça para chegar ao nocaute com um monstruoso uppercut na linha de cintura, que fez o oponente dobrar e pedir penico em um minuto.

Do jeito que esse menino é, capaz de pedir um lutador entre os cinco melhores do peso pena do Bellator, que é repleto de talento, já para seu próximo compromisso. Mas tomara que os empresários deixem o prospecto se desenvolver com calma.

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Rápidas sobre as preliminares do UFC

Alexandre Pantoja é muito talentoso ofensivamente, mas precisa rever alguns pontos em seu jogo, especialmente as tomadas de decisão. Ele muitas vezes arrisca um bote que poderia ser evitado e, com isso, ora fica em posição de domínio e ora fica vulnerável. Apesar da incrível capacidade que Dustin Ortiz tem de ceder as costas, o lutador de Arraial do Cabo não aproveitou as oportunidades. Ainda acho que meu xará é material para alcançar o top 5 do peso mosca, mas é preciso ter mais cuidado.

– Atuação avassaladora de Islam Makhachev na abertura do evento. O russo dizimou Gleison Tibau com um tiro de bazuca em menos de um minuto. É a quarta vitória do parceiro de Khabib Nurmagomedov em cinco lutas no UFC, a primeira por nocaute, reforçando a aposta do Top 10 do Futuro.

No UFC 218, a interrupção de Herb Dean decretando a vitória de Abdul Razak Alhassan sobre Sabah Homasi foi muito controversa. Neste sábado, o ganês não deixou dúvidas. Com uma bomba em forma de uppercut, o “Trovão do Judô” mandou o rival para as profundezas da vala.

Octagon jitters à parte, boa estreia de Julio Arce, que conseguiu refazer a carreira após as derrotas para Brian Kelleher no Ring of Combat. Jabs, ganchos e uppercut foram as ferramentas para somar à importante defesa de quedas na vitória sobre o também estreante Dan Ige. Olho no Arce.

Enrique Barzola está passando por baixo do radar, mas é um lutador competente em todas as áreas do jogo e com um estilo empolgante. O peruano é uma boa arma para os eventos na Argentina e no Chile que o UFC pretende realizar neste ano. Ele venceu o também divertido Matt Bessette por decisão unânime.