Por Alexandre Matos | 31/12/2017

“Weeee are the chaaaampions, my frieeeend”. Se estivesse vivo, certamente o grande Freddie Mercury estaria cantando o bicampeonato da minha pessoa no Palpitão do MMA Brasil. Aliás, a reta final da nossa competição de palpites teve mais emoção do que o próprio UFC 219, que encerrou a temporada 2017 da maior organização do MMA mundial.

O evento, disputado neste sábado, coroou a melhor lutadora peso por peso do mundo e trouxe de volta uma força da natureza. De resto, nada muito empolgante para ficar marcado na história. Ainda assim, acompanhe aí embaixo as minhas reflexões sobre o UFC 219 e vamos ao debate.

Cris Cyborg sai mais humana e mais campeã em seu primeiro teste de verdade

Ninguém questiona a capacidade de Cris Cyborg. Porém, sempre sobraram críticas à qualidade lamentável da competição no peso pena feminino. Finalmente a melhor lutadora do mundo teve um desafio à altura, pela primeira vez na carreira. Holly Holm foi valente, inteligente, mas sucumbiu diante da número um.

O combate teve duas metades diferentes. Na primeira, a americana deu trabalho com uma movimentação incessante e um excelente uso da distância, variando da mais longa possível para o clinch, sem parar no meio do caminho. Com uma mentalidade ofensiva, Holm acertou alguns bons golpes e manteve-se longe de perigo. Foram dois assaltos equilibrados, nos quais foi possível marcar um para cada lado ou até mesmo dois para a desafiante.

O panorama mudou na segunda metade por mérito da campeã. Em momento algum Cyborg se enervou por ter dificuldade de controlar as ações e soube ser paciente para encontrar seu ritmo. Paulatinamente, a pujança física de Cris foi quebrando o ritmo de Holly e a campeã trocou o papel de contragolpeadora pela de atacante, situação em que fica muito mais confortável. Holm mostrou o queixo duro que marca sua carreira desde o boxe, foi corajosa, engoliu vários golpes potentes de Cyborg, mas não conseguiu reverter o quadro.

Cris saiu do octógono com a boca inchada e o nariz sangrando, provavelmente quebrado. Marcas da batalha. E isso foi ótimo. Era uma aparência humana de quem acabara de lutar. Ela saiu ainda mais campeã, provando que vence com técnica, com estratégia, sem deixar a impressão que a brutalidade era a sua única arma, mesmo contra uma oponente do valor de Holly Holm. A Cris humanizada é muito mais lutadora do que a Cyborg brutal.

Com a vitória confirmada pelos juízes (dois placares de 48-47 e um de 49-46), Cyborg agora não tem mais o que fazer numa categoria que sequer deveria ter sido inaugurada. Valeu pela justiça histórica de fazê-la se aposentar tendo conquistado o maior título de seu esporte, mas seguiremos na desagradável rotina de inventar lutas para uma divisão tão rasa que sequer consegue montar um top 5.

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Khabib Nurmagomedov oferece nova sessão de tortura

Os diretores de Black Mirror poderiam se inspirar em Khabib Nurmagomedov para a quinta temporada da série. O russo é tão assustador que até mesmo os telespectadores ficam com uma sensação de sufocamento assistindo às suas apresentações. Imagine o que passou Edson Barboza no octógono da T-Mobile Arena.

Como escapar de uma armadilha como essa? (Foto: MMAFigting.com)

Parece que é preciso incorporar o Aaron Rodgers para vencer Nurmagomedov: ou o cidadão arruma uma hail mary ou será maltratado. Barboza até deu ao público a esperança que a luta teria alguma graça ao conseguir trabalhar chutes baixos no começo. Porém, foi só enquanto Nurmagomedov mapeava o tempo dos golpes do oponente. Quando entendeu como Edson funcionava, o daguestani mandou o equilíbrio às favas.

O ritmo que Nurmagomedov imprime é implacável. Ele avança de um modo que deixa os oponentes sem um centímetro de brecha para respirar, que dirá montar alguma ação ofensiva. Para piorar, o demônio russo segue marchando para cima da presa mesmo quando vem fogo do outro lado. Nada parece impedi-lo de chegar ao clinch e derrubar o rival. E quando isso acontece, pode chamar a Defesa Civil, o exército ou o Batman. O ground and pound de Khabib é desesperador até para quem assiste, que dirá para quem sofre.

Cabe aqui dizer que Barboza foi um grande. Eu não imaginava que ele tinha capacidade de suportar tamanha pressão sem sucumbir. E por pressão entenda ground and pound violento, transições esmagadoras, montadas, passagens de guarda e botes para finalização. O cara se defende de um ataque e já vem outro. Cada round parece uma luta inteira de sofrimento. Para se ter uma ideia, Georges St. Pierre lidera a estatística de mais golpes contundentes aplicados no chão, com 461 em 22 lutas (quase 21 por combate). Nurmagomedov é o sétimo, com surreais 289 golpes em nove lutas, uma média superior a 32. À frente do russo, apenas GSP tem média acima de 20 por apresentação.

Neste sábado, Edson perdeu até mesmo em sua especialidade. Exausto, sufocado, espancado, ele tentou dois chutes rodados, a tal da hail mary. O primeiro foi bloqueado com facilidade. O segundo foi esquivado sem susto. Os ganchos do russo entravam por cima dos punhos do brasileiro. Khabib passou a chutar. Chegou a um momento em que o cavalo do cão quase conseguiu o nocaute na troca de golpes em pé. Não bastasse tomar sufoco no chão, tem que tomar em pé também. O resultado ficou exposto no placar: dois 30-25 e um 30-24.

Nurmagomedov luta com pouca frequência. Toda vez que ele volta, muita gente duvida de sua condição atlética. Aí o sujeito vai lá e passa o carro impiedosamente em qualquer um. Se tem alguém capaz de acertar uma hail mary, é Conor McGregor. Mas a janela de oportunidade é estreita. Eu não apostaria nisso. E você?

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Dan Hooker finaliza superestimado Marc Diakiese

O australiano Dan Hooker é daqueles caras que você sabe que vai chegar a lugar algum, mas que pode servir como um porteiro da ultra competitiva divisão dos leves. O superestimado Marc Diakiese não passou no cara-crachá.

A luta era bem aguardada, pelo menos no aspecto do entretenimento. O problema é que, além de superestimado, Diakiese mostrou ontem que não é dos mais inteligentes. Mais uma vez, o congolês gastou mais energia tentando um movimento circense do que produzindo algo de teor ofensivo decente. A falta de ação era tudo o que o australiano queria, a fim de minimizar a capacidade de nocaute do rival.

No segundo assalto, Hooker derrubou com facilidade, explorando as inúmeras falhas defensivas de Diakiese. O australiano chegou a pegar as costas, mas também fez nada além de controlar o adversário. No comecinho do terceiro, Marc tomou uma decisão estúpida com uma execução ainda pior. Como ele era (pelo menos na teoria) o melhor striker, resolveu entrar nas pernas de Hooker para levá-lo ao chão; afinal, por que não? De quebra, o congolês entrou com o pescoção à mostra. O faixa-azul olhou o presente, lembrou do Natal passado com fome e matou a luta na guilhotina. Parabéns aos envolvidos.

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Carla Esparza ganha vitória de presente

No combate escalado para servir como passagem de guarda, a juizada da Comissão Atlética de Nevada bagunçou tudo. Superior em todos os aspectos, Cynthia Calvillo viu Carla Esparza sair com uma vitória um tanto difícil de entender.

O árbitro Chris Tognoni olha incrédulo para Cynthia Calvillo, que também parece não acreditar no resultado oficial

Até mesmo no wrestling, carro-chefe de Esparza, Calvillo teve seus momentos. A representante do Team Alpha Male derrubou a ex-campeã com facilidade e trabalhou o ground and pound sobre a guarda ativa de Esparza. Na segunda etapa, além de nova queda, Cynthia teve nítida, porém curta, vantagem no volume de golpes e na contundência, embora nenhuma das valências tenha sido larga. Carla voltou mais agressiva no terceiro assalto, acertou um gancho de esquerda que foi o melhor golpe da luta e tirou proveito da baixa produtividade da adversária.

Calvillo poderia ter sido mais agressiva no segundo assalto e ter aumentado o volume de golpes no terceiro para ter confirmada uma vitória clara. Não fez nenhum dos dois e deu brecha para o azar. Que a derrota sirva de lição. Já Esparza, com três triunfos nos últimos quatro compromissos, deve ficar bem próxima da disputa do cinturão, ainda mais porque ela já venceu a atual campeã, Rose Namajunas.

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Neil Magny explora velha deficiência de Carlos Condit

Para quem se acostumou com o hiper agressivo Carlos Condit, a noite do UFC 219 não foi das mais agradáveis. Parecendo um tanto desinteressado, o ex-campeão interino dos meios-médios não deteve o jogo de quedas (!) de Neil Magny (!!!).

Condit demorou muito para entrar na luta e deu espaço para que Magny furasse sua fortaleza de areia defensiva. Não lembro de ter visto Carlos conseguir impedir uma abordagem completa do adversário rumo ao chão. Mesmo com a velha conhecida guarda ativa, Condit se enrolou para evitar que o oponente abrisse vantagem.

A partir do segundo assalto, Condit melhorou na questão do striking defensivo, fazendo com que Magny errasse muitos golpes enquanto ele próprio acertava os contragolpes dentro de uma movimentação correta para quebrar a longa envergadura do oponente. Porém, o ritmo de Condit voltou a cair no terceiro, o “Assassino por Natureza” nunca deu as caras no octógono e Magny voltou à luta agarrada para garantir uma vitória sem sustos.

Talvez agora os fãs não escapem do triste fim. Parado havia um ano e meio, Condit deixou toda a pinta que vai anunciar sua aposentadoria definitiva, mesmo com ainda 33 anos, mas 15 de carreira no MMA profissional.

Se você resolver parar mesmo, obrigado por tudo, Carlos Joseph Condit.

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Foto de destaque: Gary A. Vasquez/USA TODAY Sports